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A repressão sexual nos limites da loucura: uma introdução à história da Inquisição (parte II) | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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A repressão sexual nos limites da loucura: uma introdução à história da Inquisição (parte II)


por Géssica Hellmann

Outra questão abordada é a de se as bruxas são capazes de impedir o ato venéreo. Pedro de Palude, segundo os autores do Malleus, afirmaria que o demônio, por seu espírito, seria capaz de impedir que os corpos se aproximassem um do outro, direta ou indiretamente, interpondo-se sob alguma forma corpórea. Ele relata o caso de um jovem que, embora tivesse casado com uma jovem donzela, já havia se comprometido com um falso deus e, conseqüentemente, não conseguiu, depois de casado, copular com a donzela. Este mesmo autor afirma que o demônio é capaz de ora excitar, ora esfriar os homens, no seu desejo, através de elementos secretos. Afirma ainda que o demônio é até capaz de impedir a ereção do membro viril do homem.

Witches Sabbath, Xilogravura, 379 x 260mm - Germanisches Nationalmuseum, Nuremberg (1510)

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Da impotência masculina, os autores do Malleus admitem que existe impotência por “falha natural”, mas que existe um modo de diferenciar a impotência natural da atribuída à bruxaria: “Quando o membro não fica ereto de forma alguma, e nunca é capaz de realizar o coito, tem-se então o sinal de impotência natural; todavia, quando se excita e fica ereto, mas mesmo assim não consegue realizá-lo, tem-se então o sinal de impotência por bruxaria”. (Kramer e Sprenger, 1991, p.137)

Pode-se dizer que os processos inquisitoriais sobre acusações de bruxaria enfocavam, principalmente, os corpos das bruxas: “Enquanto os oficiais se preparam para o interrogatório, que a acusada seja despida; se for mulher que primeiro seja levada a uma das células penais e que seja lá despida por mulher honesta de boa reputação. Eis o motivo: cumpre vasculhar-lhe as roupas em busca de instrumentos de bruxaria a elas costurados; pois muitas vezes portam tais instrumentos, por instrução dos demônios…”. (Kramer e Sprenger, 1991:431-432).

As acusadas eram posteriormente amarradas e torturadas. Os métodos de interrogatório eram de uma crueldade física e psicológica ímpar: “Durante o intervalo, antes da sessão de tortura seguinte, o próprio juiz ou outros homens honestos deverão tentar persuadi-la, por todos os meios que estiverem a seu alcance, para que confesse a verdade da forma que dissemos, dando-lhe, se lhes parecer conveniente a promessa de que sua vida será poupada”. (Kramer e Sprenger, 1991, p.435).

Prometiam a diminuição da pena para que confessassem, mas raramente a cumpriam, e mesmo a quem era concedido o benefício da prisão perpétua, alguns meses após o julgamento a sentença era comutada para a pena de morte na fogueira.

Caso as ameaças nem as promessas resultassem em confissões, “então os oficiais devem prosseguir com a sentença, e a bruxa deverá ser examinada, não de alguma forma nova ou estranha, mas da maneira habitual, com pouca ou muita violência, de acordo com a natureza dos crimes cometidos”. (Kramer e Sprenger, 1991:433).

Inúmeros outros métodos são descritos no “Malleus Maleficarum”. Todos de extrema violência. Mas é importante entender que os Inquisidores da época realmente acreditavam no que pregavam, embora também seja fato que muitos foram levados pela ganância e pela corrupção, pois se sabe que os bens dos acusados de heresia eram confiscados.

Seligmann (1948) descreve vários episódios atribuídos à possessão demoníaca. Um dos relatos refere-se ao Convento de Loudun, na segunda década do século XVII. Logo após Joana dos Anjos assumir a direção do convento, apareceu em Loudun um padre chamado Urbano Grandier. Segundo o autor, “brilhantemente dotado”, Grandier logo se tornou o pároco da região, acabando por atrair sobre si o interesse das senhoras. Tornou-se famoso por sua arte de consolar viúvas e confortar moças solteiras com métodos não inteiramente de acordo com a ortodoxia do sacerdócio.

Seduziu a filha do procurador régio e, mais tarde, conheceu Madeleine de Brou, filha do conselheiro do rei, que compôs em honra de Grandier um espirituoso tratado contra o celibato dos padres. Tais escândalos chegaram ao ouvido de Joana dos Anjos, que começou a ter “sonhos pecaminosos”. Sua perturbação psíquica agravou-se a um ponto em que começou a ter ataques histéricos noturnos no convento. Pediu ajuda às freiras para que a flagelassem. Pouco depois, várias outras feiras começaram a sofrer alucinações parecidas com as de Joana. Vários exorcistas foram enviados para o convento a fim de trazer a paz. Grandier foi acusado de enfeitiçar as freiras. Os exorcistas obrigaram os “demônios” a assinar documentos comprovando a culpa de Grandier. A 30 de junho de 1634, Urbano Grandier foi condenado e queimado vivo.

Outro episódio descrito pelo mesmo autor é os das internas do claustro de Antoinette Bourignon. As internas eram mantidas sob rígida disciplina, tratadas com muito rigor, conforme os hábitos e perspectivas da época. Antoinette relata que, todas as sextas-feiras, as internas deveriam se humilhar, confessando as suas faltas na grande sala pública, ritual seguido de flagelação ou reclusão num aposento denominado “prisão”. Uma das moças, com menos de quinze anos, certo dia abriu a porta da prisão e regressou à sala de aulas. Por esse motivo, foi acusada de bruxaria. A moça declarou, então, ter sido ajudada por um homem negro. Foram chamados três padres, os quais concluíram que ela estava possuída por um demônio. Antoinette declarou que, ao “levá-la para sua câmara, ela revelou tratar-se do demônio um belo jovem, um pouco mais alto que ela”. Esses demônios devem ter agradado tanto as jovens internas que, pouco tempo depois, trinta e duas delas falavam de seus jovens demônios-homens, os quais se mostravam amáveis para com elas, acariciando-as dia e noite.

Sobre esses dois episódios, cabe uma indagação: qual o limite entre a atividade “demoníaca” e da fantasia, do erotismo, ou até – quem sabe? – de abuso sexual por parte de aproveitadores?

Na visão do psiquiatra Byington (1991), a Inquisição se julgava megalomaniacamente purificadora e projetava de forma paranóide sua própria sombra, ou seja, seus complexos culturais inconscientes. Não só não repudiavam o humanismo cristão, como se fundamentavam nele para perpetuar seus crimes.

Por fim, o “Malleus” interpreta como bruxaria qualquer comportamento que seus autores clericais não pudessem explicar, muitas vezes, comportamentos associados aos efeitos de drogas como o esporão de centeio ou cogumelos “mágicos”, um simples banho de sol ou até a masturbação feminina. Na prática, qualquer coisa arbitrariamente considerada hostil à Igreja poderia ser rotulada como demoníaca.

Nesses períodos, o diabo era, de fato, descendente do Pã, o “senhor da natureza irredimida”. Foi nos ritos irracionais, e muitas vezes sexuais, da religião pagã, sobretudo os Sabás, que a Inquisição buscou identificar o “adversário” do cristianismo.

Para Baigent e Leigh (2001), a igreja sempre fora mais que um pouco inclinada à misoginia. A caça às bruxas forneceu-lhe um mandado para uma cruzada em larga escala contra as mulheres, contra tudo o que era feminino, impondo um controle autoritário sobre as mulheres que as tornou subordinadas, mantendo-as no lugar que se julgava apropriado.

Em resumo, as idéias fundamentais da Inquisição eram a de que o demônio, procurando fazer o mal aos homens, o faria através do corpo, através do controle da sexualidade. Pois foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a sexualidade é o ponto mais vulnerável de todos os homens. Como as mulheres seriam mais suscetíveis ao erotismo e à sexualidade, tornar-se-iam alvos fáceis para a corrupção e a bruxaria.

Com o final da caça as bruxas, processa-se uma grande transformação no universo feminino: a sexualidade é normatizada, tornando-se frígidas as mulheres. A sociedade do final do século XVIII é composta de trabalhadoras dóceis que não questionam o sistema.

Como ponto final, gostaria de deixar em aberto, uma reflexão: em todo o estudo “militante” sobre a sexualidade, tende-se a deixar de lado a realidade das doenças sexualmente transmissíveis. Até meados do século, a maioria dessas doenças permanecia sem tratamento ou perspectiva de cura. Não me atrevo a me posicionar quanto os valores e aos procedimentos da Inquisição, nem quanto à repressão sexual indiscriminada que descrevemos nesses estudos, mas de certa forma, julgo não ser possível ignorar que esses atos poderiam incluir em seus objetivos, de uma forma ou de outra, uma tentativa de controle sobre a disseminação dessas doenças.

Referências Bibliográficas

BAIGENT, Michael. LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

BATAILLE, Georges. O erotismo. Lisboa: Moraes,1980, 2ª ed.

BYINGTON, Carlos Amadeu. O Martelo das Feiticeiras – Malleus Maleficarum à luz de uma teoria simbólica da história.In: SPRENGER, James. KRAMER, Heinrich.O Martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991, 2a. ed.

SELIGMANN, Kurt. História da Magia. Lisboa: Edições 70, 1948.

SPRENGER, James. KRAMER, Heinrich.O Martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991, 2a. ed.

Dica de Leitura – A Inquisição

A Inquisição foi utilizada pela Igreja como um braço repressor a fim de amealhar bens e matar impunemente quem atravessasse o caminho. Essa é a teoria de Baigent e Leigh, que mostram o nível de corrupção dentro da estrutura episcopal da época inquisitorial.

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