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A mulher, o Outro e a piada suja | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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A mulher, o Outro e a piada suja



Em artigo publicado na seção “Foro Íntimo” de outra edição, lemos o depoimento de uma mulher, cuja indignação, embora oscilante entre o riso de ridículo e a fúria quase desenfreada, não deixa, sempre, de constituir uma indignação diante algo que ela identifica como uma agressão, tão ou mais dolorida quanto uma agressão física, uma agressão que até efeitos físicos provoca: uma agressão da palavra, que não é exatamente aquilo que chamamos de uma “agressão verbal”.

Woman's face - pintura por Ana Maria Baralt

Woman's face - por Ana Maria Baralt

Não, o homem que usa a palavra como um alfinete para espetá-la, não a agride por algo que ela tenha feito que o indigne, não se trata de um verdadeiro ataque contra um inimigo hostil, como fica claro quando o homem foge, se encolhe, se envergonha diante da reação irada da mulher. Porque há, nas palavras que lhe dirige, um humor sutil, que ela compreende no seu ridículo, e às vezes ri. Também há, nessas palavras, uma espécie elogio implícito, um elogio grosseiro, sem dúvida, o qual ela não compreende: “como pode um homem elogiar-me, elogiar minha beleza e meus encantos, se me encontro no momento próprio da agressão, despida dos meus aparatos de sedução – cabelos, roupas, maquiagem” – ela se indaga, sem encontrar resposta.

Estamos falando, é claro, da “piadinha suja” que um homem dirige a uma mulher estranha na rua – no texto de Miller, chamado de “piropo”.

Neste breve artigo, seguiremos os passos de Jacques Alain-Miller em uma conferência sobre psicanálise e linguagem (1) para explicar à mulher o que subjaz à “piadinha suja”, não para absolvê-la, não para justificar o seu perpetrador, mas para compreender a amplitude e os limites do ato em si.

A indagação inicial, perturbadora para a mulher, é saber qual é o gozo que um homem encontra em dirigir uma mensagem erótica a uma mulher desconhecida, com quem sequer pretende ou aspira a conquistar? O erotismo da mensagem contrasta com a intenção real, um “corte entre o dizer e o fazer”, expressa ao mesmo tempo um desinteresse profundo pela sua destinatária que, no limite, o transformaria em uma atividade estética.

Para Miller, essa incongruência, o gozo, se dá no nível da infração ao código da decência. A mensagem vale por sua diferença com o código, mas a infração do código não é suficiente. É necessária a “sanção do Outro”, no caso, a raiva ou o riso da mulher desconhecida. A mulher – no caso, qualquer mulher – encarna para o autor da “piada suja”, o Outro sexo, incompreensível, inalcançável. É a esperança o motor da piada, a esperança de que essa mulher, ou qualquer outra mulher, possa ser dele. “É sempre por abuso que se imagina que uma mulher é sua. Os homens inventaram o casamento para poder imaginá-lo”, pontua Miller.

O aspecto principal da falta de sentido do ato é que ele atrai significações, cria sentidos para além dos sentidos normais. Ele se dirige, segundo Miller, ao grande Outro da Lei, da decência entendida como conjunto de inibições e proibições. O autor da piada, “esse homem infeliz que sempre vê passar diante dele a mulher desconhecida”, deseja apenas atrair a atenção da mulher o suficiente para que ela admita sua existência. Portanto, ele se torna homem na medida em que persiste em se fazer ouvir “pelo Outro encarnado na mulher”.

O aspecto trágico da piada é que ele pode, em seu limite, reduzir-se a uma interpelação do Outro, a essa mulher qualquer, representante de todas as mulheres, da Mulher em sentido absoluto; uma tentativa desesperada de estabelecer contato com o próprio objeto do desejo.

O autor conclui que a mulher a quem se dirige a mensagem é, portanto, uma ficção, pois representa todas as mulheres em uma só. “Todos os homens em um só, isso pode existir… Mas, todas as mulheres, é esse sonho fundamental, só existe como ficção”. Por carregar o emblema da própria castração, a piada que se dirige à mulher-fictícia encarnada na mulher real, aquela que passa, é também uma agressão. Daí a piada situar-se em uma “zona indecisa” entre o elogio e a ofensa, especialmente quando se fixa na desintegração do corpo feminino, no elogio fetichista a partes da anatomia.

(1) MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 1988, 2ª ed.

Dica de Leitura – Percurso de Lacan: uma Introdução JACQUES-ALAIN MILLER

Reuniao de Nove Conferencias do Autor. as Cinco Primeiras, Conhecidas Internacionalmente Como “conferencias Caraquenhas”, Realizadas em 1979, e as Quatro Ultimas, Unidas Pelo Titulo “duas Dimensoes Clinicas: Sintoma e Fantasia”, Realizadas em 1983.

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