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A mulher, o Outro e a piada suja

Woman's face - por Ana Maria Baralt
Não, o homem que usa a palavra como um alfinete para espetá-la, não a agride por algo que ela tenha feito que o indigne, não se trata de um verdadeiro ataque contra um inimigo hostil, como fica claro quando o homem foge, se encolhe, se envergonha diante da reação irada da mulher. Porque há, nas palavras que lhe dirige, um humor sutil, que ela compreende no seu ridículo, e às vezes ri. Também há, nessas palavras, uma espécie elogio implícito, um elogio grosseiro, sem dúvida, o qual ela não compreende: “como pode um homem elogiar-me, elogiar minha beleza e meus encantos, se me encontro no momento próprio da agressão, despida dos meus aparatos de sedução – cabelos, roupas, maquiagem” – ela se indaga, sem encontrar resposta.
Estamos falando, é claro, da “piadinha suja” que um homem dirige a uma mulher estranha na rua – no texto de Miller, chamado de “piropo”.
Neste breve artigo, seguiremos os passos de Jacques Alain-Miller em uma conferência sobre psicanálise e linguagem (1) para explicar à mulher o que subjaz à “piadinha suja”, não para absolvê-la, não para justificar o seu perpetrador, mas para compreender a amplitude e os limites do ato em si.
A indagação inicial, perturbadora para a mulher, é saber qual é o gozo que um homem encontra em dirigir uma mensagem erótica a uma mulher desconhecida, com quem sequer pretende ou aspira a conquistar? O erotismo da mensagem contrasta com a intenção real, um “corte entre o dizer e o fazer”, expressa ao mesmo tempo um desinteresse profundo pela sua destinatária que, no limite, o transformaria em uma atividade estética.
Para Miller, essa incongruência, o gozo, se dá no nível da infração ao código da decência. A mensagem vale por sua diferença com o código, mas a infração do código não é suficiente. É necessária a “sanção do Outro”, no caso, a raiva ou o riso da mulher desconhecida. A mulher – no caso, qualquer mulher – encarna para o autor da “piada suja”, o Outro sexo, incompreensível, inalcançável. É a esperança o motor da piada, a esperança de que essa mulher, ou qualquer outra mulher, possa ser dele. “É sempre por abuso que se imagina que uma mulher é sua. Os homens inventaram o casamento para poder imaginá-lo”, pontua Miller.
O aspecto principal da falta de sentido do ato é que ele atrai significações, cria sentidos para além dos sentidos normais. Ele se dirige, segundo Miller, ao grande Outro da Lei, da decência entendida como conjunto de inibições e proibições. O autor da piada, “esse homem infeliz que sempre vê passar diante dele a mulher desconhecida”, deseja apenas atrair a atenção da mulher o suficiente para que ela admita sua existência. Portanto, ele se torna homem na medida em que persiste em se fazer ouvir “pelo Outro encarnado na mulher”.
O aspecto trágico da piada é que ele pode, em seu limite, reduzir-se a uma interpelação do Outro, a essa mulher qualquer, representante de todas as mulheres, da Mulher em sentido absoluto; uma tentativa desesperada de estabelecer contato com o próprio objeto do desejo.
O autor conclui que a mulher a quem se dirige a mensagem é, portanto, uma ficção, pois representa todas as mulheres em uma só. “Todos os homens em um só, isso pode existir… Mas, todas as mulheres, é esse sonho fundamental, só existe como ficção”. Por carregar o emblema da própria castração, a piada que se dirige à mulher-fictícia encarnada na mulher real, aquela que passa, é também uma agressão. Daí a piada situar-se em uma “zona indecisa” entre o elogio e a ofensa, especialmente quando se fixa na desintegração do corpo feminino, no elogio fetichista a partes da anatomia.
(1) MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 1988, 2ª ed.
Dica de Leitura – Percurso de Lacan: uma Introdução JACQUES-ALAIN MILLER
Reuniao de Nove Conferencias do Autor. as Cinco Primeiras, Conhecidas Internacionalmente Como “conferencias Caraquenhas”, Realizadas em 1979, e as Quatro Ultimas, Unidas Pelo Titulo “duas Dimensoes Clinicas: Sintoma e Fantasia”, Realizadas em 1983.








