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Géssica Hellmann
E-mail: geh@gehspace.com
http://redegehspace.gehspace.com
Arte em prol da solidariedade
Começo este artigo com uma frase dita hoje por um cliente: “O que os pais vão pensar se entrarem no seu site e virem o anúncio lá?” – gerente de uma oficina musical.
Não! Este artigo não falará de gestão de marketing e planejamento de vendas. Este artigo busca refletir sobre a projeção do preconceito.

Anger (1991) por Polina Nechaeva
Uma revista virtual que aborda arte, sexualidade, corporalidade em prol da solidariedade humana e da inclusão, contra todos os tipos de preconceitos, é vítima também do preconceito. Infelizmente é uma realidade, mesmo no terceiro milênio, estando em um grande centro urbano, como o Rio de Janeiro, o preconceito ainda persiste. E isto é uma realidade não só desta cidade, mas uma realidade mundial. Casos como o citado acima, revelam pessoas preconceituosas que têm medo de serem vítimas de preconceito de outrem. Ironia? Não. É a realidade da sociedade em que vivemos.
O trabalho realizado pela revista há mais de 50 edições tem tido como principal objetivo sensibilizar os leitores através de artigos, da literatura, da música e principalmente das artes visuais que expressam o corpo humano. Como podem observar, realizamos um trabalho com muito carinho, dedicação e pesquisa. A revista em si é um grande estímulo visual, trata-se de um casamento de texto e imagem, com a grande diferença de proporcionar um enriquecimento visual com obras de artistas poucos conhecidos pelo grande público brasileiro. É verdade também que, às vezes, publicamos obras clássicas para ilustrar algumas edições temáticas, mas o grande objetivo na verdade é proporcionar visualmente algo novo ao nosso público.
Da mesma forma procuramos proporcionar espaço na revista a autores, poetas e escritores desconhecidos da “grande mídia”, mas extremamente talentosos.

Unir artes visuais, literatura, música e corporalidade a favor de uma sociedade mais solidária e menos preconceituosa tem sido nossa missão.
Segundo Puccetti (2006), a arte pode ser considerada como expressão da subjetividade. Expressão que possibilita múltiplas leituras; que em seu processo de produção transita entre a sensibilidade e a razão. E é justamente nessa mobilidade entre o sensível e o racional que reside o seu potencial transformador e inclusivo, em que não há diferenças entre os sujeitos, mas apenas singularidades.
A autora afirma ainda que “A subjetividade, por seu turno, se constitui socialmente por meio da linguagem. A linguagem é, então, meio de constituição do sujeito, modo de refletir sobre a realidade, sobre o mundo e sobre si mesmo. Porém, mais que meio de expressão, a linguagem representa a organização dos processos mentais… Se entendermos o conhecimento como a ação do sujeito sobre a realidade, numa interação mediada, na relação com os outros, então a arte propicia a construção de conhecimento e da própria consciência”.
Artes visuais, literatura, música e corporalidade são as principais manifestações artísticas abordadas pelo “géh”. É importante compreender os fundamentos de cada modalidade. Em conformidade com o projeto “Estratégias e orientações sobre artes – Respondendo com Arte às necessidades especiais” do Ministério da Educação:
Artes Visuais: A linguagem visual envolve um universo amplo de modos de expressão. O conhecimento e a leitura dos elementos visuais, dentre os quais ressalta-se a forma, a cor, o espaço bidimensional e tridimensional, o equilíbrio, o plano, as relações entre luz e sombra, a superfície, dentre outros elementos que compõem as manifestações visuais. O artista articula o sentir e o pensar, por meio da construção visual. Nesse processo, estão presentes o conhecimento e a leitura dos elementos visuais, a organização e a ordenação do pensamento, a significação, a construção da imagem, a história pessoal e social de vida.
Literatura: A Literatura é uma linguagem que se realiza por meio de palavras carregadas de significados. Ela representa uma das mais altas experiências da existência do ser humano, uma vez que nasce do mais profundo da alma humana, interagindo com a alma do leitor. Nessa condição, a Literatura representa o maior repositório da cultura, do pensamento e da história da sensibilidade humana. Ninguém pode, portanto, ficar excluído de seu espaço de usufruto e informação, pois significaria perder uma das formas vitais da arte e da cultura. Como uma das formas expressivas do sentimento e do pensamento, a literatura representa importante meio de aperfeiçoamento do ser humano, contribuindo para a educação da sensibilidade. Ela atribui emoção à dimensão ética, aprofunda uma visão de mundo plural e propicia a plena realização do cidadão, seja no exercício da cidadania, seja da dignidade de sua condição humana.
Música: A Música como linguagem sonora verbal e não-verbal utiliza os códigos lingüísticos do ritmo, do som, da letra e da melodia – estruturada ou não, harmônica ou dissonante – respeitando as singularidades e diferenças de cada um. A Música ajuda a pessoa a manter contato com a realidade e o sentido da totalidade, não somente com aspectos abstratos do pensamento, mas em múltiplas formas que demonstram uma transformação e entendimento de novas criações musicais, podendo chegar à palavra e à verbalização. A música está presente em todas as pessoas e em todos os grupos sociais e é parte ativa da cultura de todos os povos – está incorporada ao “inconsciente coletivo”.
Corporalidade (Teatro e Dança): A Dança se constitui de movimentos rítmicos que envolvem todas as partes do corpo, em sintonia com diversos estilos de música. Ela é vivenciada em todas as culturas, sendo uma das poucas atividades na qual o ser humano se encontra mais íntegro – corpo, mente e espírito. O trabalho de Dança, na perspectiva da educação, visa à consciência corporal, promovendo o respeito e a valorização das possibilidades de descobertas de cada pessoa sobre si mesma, no contato com o outro e com o grupo.
O Teatro, no âmbito da educação escolar é, sobretudo, linguagem, que possui uma gramática própria. Essa gramática se constitui de signos. São eles: os signos verbais – as palavras pronunciadas e sua entonação – o texto. Os signos corporais que articulados formam a expressão corporal – o gesto, o movimento, a mímica, a expressão facial. E mais os signos que estão fora do ator que são utilizados para dar ênfase, enaltecendo ou obscurecendo aspectos do texto: a maquiagem, o vestuário, o penteado e os acessórios. Complementando, surge o grupo de signos que delineiam e definem o espaço cênico – onde a trama acontece, são eles: o cenário e os objetos de cena. Temos ainda os signos auditivos que são a música e os ruídos. E, finalmente, a iluminação. Todos esses elementos se juntam e cuidadosamente se articulam para tornar vivo aquilo que chamamos de Teatro.
A corporalidade mais sentida nessas duas representações (teatro e dança), aqui na revista é representada através de pinturas do corpo humano.
Acredito que a arte e suas manifestações podem contribuir na construção de um mundo mais solidário, mais fraterno, menos preconceituoso. Acredito também na possibilidade de uma reeducação social através da arte.
Para Prosdócimo (2006) “Desde os primórdios da humanidade até os dias atuais, a história mostra que o ser humano, embora lentamente, vem crescendo interiormente e desenvolvendo a sua consciência moral. A arte acompanhou a humanidade nessa trajetória, servindo de apoio e inspiração para o afloramento de nobres sentimentos. Nos dias atuais, ela continua sendo a musa inspiradora do ser humano.”
O autor reforça também que “a arte é importante e necessária para essa tomada de consciência, pois reflete a plena capacidade humana para a associação de idéias, para a transformação de experiências, para conhecimento de si mesmo e reconhecimento do ser”. Onde, “as atividades artísticas como o teatro, as artes plásticas, a música, a dança e a literatura, agem como propulsoras do desenvolvimento moral (sentimento) e intelectual (razão e raciocínio). Atuam também sobre a vontade, auxiliando no processo educativo”.
Almeida (2006) afirma que “A educação pela arte vem se transformando significativamente nos últimos anos em uma alternativa de Educação para Jovens e Adultos. A expansão do ensino através do campo artístico está sendo utilizada freqüentemente tendo em vista a necessidade de valorização social de si e do outro”.
A arte como forma de inclusão social, como vimos no artigo “Arte x reeducação social” é uma possibilidade. É preciso continuar incansavelmente esse esforço, para que juntos possamos criar uma nova realidade, onde o preconceito não tenha vez em nossos corações, para aprendermos a aceitar a diferença, a aceitar o outro.
Nas palavras de Karla Hansen (2006), “E se cada um de nós nos entendermos como diferentes, em alguma medida, não existe “o diferente”. Não tem mais sentido. Existe, sim, o outro, que não é igual a mim, não é um clone, um reflexo no espelho”.
O meio pelo qual a arte promove essa mudança é esclarecido por Puccetti (2006): “A produção artística desloca o olhar. Rompe com o limite do racional e o estigma da diferença, pois ordena o pensamento; revela a expressão; convida à criação; comunga com a idéia da inseparabilidade; constrói a forma, tornando-a visível (imagem) e, enquanto construção se revela como linguagem e representação simbólica”.
A arte desperta sentimentos, sensações, afeta profundamente com nosso eu interior e estimula uma consciência cultural. Como afirma Serra (2006), “A arte é um meio de conhecimento através dos sentidos”. Outro autor afirma ainda que “A arte tem um papel de destaque importante na construção de uma vida mais livre. A experiência em arte é capaz de engrandecer toda e qualquer prática da vida humana”. (Almeida 2006)
Cito ainda Fayga Osttrrowerr (2006): “Assim, todas as formas de arte incorporam conteúdos existenciais. Estes se referem à experiência do viver, a visões de mundo, a estados de ser, a desejos, aspirações e sentimentos, e aos valores espirituais da vida. Enfim, são conteúdos gerais da própria consciência humana. Atravessando séculos, sociedades e culturas, tais conteúdos continuam válidos e atuais para cada um de nós. Por isso, a arte tem esse estranho poder de nos comover tão profundamente. Ela fala a nós, sobre nós, sobre o nosso mais íntimo ser.”
É esta nossa intenção: sensibilizar e tocar o íntimo de cada um em prol da solidariedade.
Freqüentemente, é preciso explicar o óbvio: a nossa missão. Missão que está no combate ao preconceito e, justamente por isso, é vítima de preconceitos por mostrar a beleza e a sensualidade do corpo humano. Como afirma Osttrrowerr (2006) “É justamente a sensualidade das linguagens artísticas – pintura, música, dança, arquitetura, ou também poesia – que as distingue de linguagens conceituais, como, por exemplo, a filosofia ou a matemática. Encanta-nos ver cores, ouvir sons, perceber movimentos e ritmos. Ainda que física, a sensualidade torna-se uma qualidade espiritual”.
Há tantos medos enraizados, tantos tabus e preconceitos a serem vencidos. Quando começaremos a evoluir? Quando vamos parar de ter medo do diferente?
Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Heleuza Carrilho Tuka de. Inclusão através da arte: experiência com jovens e adultos na universidade de cruz alta. Disponível em: (http://www.funarte.gov.br/vsa/publicacao.htm) . Acessado em 05/07/06.
HANSEN, Karla. Arte, diversidade e inclusão. Diferença não é defeito. Disponível em: (http://www.educacaopublica.rj.gov.br/jornal/materia.asp?seq=234) . Acessado em 07/07/06.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO – SECRETARIA DE EDUCAÇÃO ESPECIAL. Estratégias e orientações sobre artes. Respondendo com Arte às necessidades especiais. Brasília, Dezembro – 2002.
OSTTRROWERR, Fayga. Arte e artistas no século XX. In FARIA, Hamilton; GARCIA, Pedro, (Org.). O reencantamento do mundo: arte e identidade cultural na construção de um mundo solidário. São Paulo: Pólis, 2002. 152p. (Publicações Pólis, 41)
PROSDÓCIMO, Sérgio da Silva. A arte como meio auxiliar na reeducação de pessoas dependentes de drogas. Disponível em: (http://www.funarte.gov.br/vsa/publicacao.htm) . Acessado em 05/07/06.
PUCCETTI, Roberta. Arte: imagem e produção artística na diversidade. Disponível em: (http://www.funarte.gov.br/vsa/publicacao.htm) . Acessado em 05/07/06.
SERRA, Otoniel. Estética e o valor da produção e do produto artístico em suas diferentes linguagens. Disponível em: (http://www.funarte.gov.br/vsa/publicacao.htm) . Acessado em 05/07/06.







