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Géssica Hellmann
E-mail: geh@gehspace.com
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Arte x reeducação social

A Deusa - acrílico e colagem sobre tela - Géssica Hellmann
Começo este artigo indagando: “É possível a reeducação social através da arte”? Atrevo-me ainda mais: “É possível utilizar a arte como ferramenta de inclusão e de combate ao preconceito”? “Qual a função cultural que a arte pode ter em uma sociedade”?
Vivemos numa sociedade com grandes diferenças sociais, culturais, uma sociedade que, apesar de se dizer contra injustiças, muitas vezes é a primeira a apontar o outro por ser diferente de si.
Em entrevista com a atriz e produtora de teatro Rocca Stockler ela afirmou que, “A arte em si é o melhor meio de cura que existe para um humano. Brinco que o artista usa os dotes para evitar futuro câncer. Digo isso por, antes de qualquer coisa, escrever. A escrita entrou na minha vida como forma de exorcizar meus próprios demônios, conflitos, situações sem resolução imediata. Não sei a importância disso no contexto íntegro de uma reabilitação social, no entanto sei ser fundamental o uso da arte como forma de extravasar os sentimentos sem compreensão até atingirmos um equilíbrio saudável para nossa mente e corpo. Estando neste equilíbrio… preconceitos ficam automaticamente fora de foco. Pessoas em harmonia não nutrem essas pequenezas.”
É possível utilizar a arte no combate ao preconceito. Alguns grupos de teatro utilizam a arte para formar um pensamento crítico sobre o combate ao preconceito. Um exemplo é o grupo teatral “Os Inclusos e os Sisos”, que une teatro e comédia para sensibilizar públicos diversos sobre a importância de pensar uma sociedade inclusiva.
Loureiro (2002), em um de seus artigos, afirma que “É indiscutível a relação entre a emoção estética e a solidariedade”. O autor cita Maffesoli: “nossas faculdades simpáticas e ativas são estreitamente ligadas e que é esta relação mesma que especifica a vitalidade de uma época dada, e serve de fundamento a toda forma da sociedade”. O estético terá, portanto, a capacidade de fazer emergir “formas de simpatia” acentuando seu papel de ligação e religação social. É como se ocorresse a formulação de um sistema de conhecimento humano a partir da sensibilidade.
Sempre acreditei ser possível sensibilizar os corações humanos através da arte e suas manifestações. Como artista plástica procuro através da pintura expressar a beleza do corpo humano. Como editora de uma revista de arte e sexualidade, tenho como missão fazer com que a arte provoque repercussões na maneira como o visitante encara a sua própria sexualidade e aprenda a aceitar as diferenças do outro como algo natural, quebrando tabus e idéias preconceituosas.
A arte pode ser uma forma de inclusão social, como prova o projeto de Educação Sexualizada e Jovens com Deficiência Mental, projeto que tinha o objetivo de verificar se a expressão corporal promove o conhecimento do corpo. Maria da Conceição Melo da Cunha (2002) conclui em sua pesquisa que a expressão corporal é um meio que promove o conhecimento do corpo, capacitando os indivíduos com deficiência mental para um melhor conhecimento de si, possibilitando uma vivência mais eficaz da sua sexualidade.
Maria afirma ainda que “Educar a sexualidade não é dar uma aula, ou uma boa explicação. Não chega informar, nem sequer promover uma dinâmica de grupo. É proporcionar experiências, onde as pessoas possam desenvolver facetas da personalidade que lhe permitam vivenciar a sua sexualidade de uma forma adequada. Estas passam por uma série de estratégias, como a psicomotricidade, a dança, o teatro, a pintura, os ateliers de imagem, tudo isto são peças importantes que proporcionam experiência e conseqüentemente aprendizagem de uma forma lúdica e envolvente. A sexualidade constitui uma força viva no indivíduo, é um meio de expressão dos afetos, é a forma de cada pessoa se descobrir e descobrir os outros.”
Como afirmei inicialmente, nos dizemos cidadãos contra as injustiças sociais. Mas será que realmente agimos dessa forma? Fomos educados desde sempre a esconder nossos sentimentos, a sermos racionais, a controlarmos nossas expressões corporais.
“A função principal de nossa educação é restringir movimentos”, diria José Angelo Gaiarsa, o “pai” da psicoterapia corporal no Brasil. A cada cem movimentos que uma criança poderia estar fazendo, faz somente cinco. E, de repente, estamos adultos (isto é, atingimos a idade cronológica adulta), e alguém nos pergunta: “o que você está sentindo?” – e não é de estranhar que fiquemos perdidos, assustados até, com a pergunta, que, provavelmente, passará pelo crivo do “deixe-me pensar” para responder. Então, bem treinados, continuamos a pensar que pensamos, e respondemos – quando respondemos – um tímido e/ou enorme “não sei”, ou mentimos: “Tô legal. Tá tudo bem!” Além de pensar que pensamos, pensamos que sentimos. A anestesia fará efeito, caso não haja uma guinada comportamental, até o último suspiro. (Martins, 2002)
O autor afirma ainda que “Este é o mundo normal, inclusivo e exclusivo de gente. E é nesse mundo que não sabemos – não sabemos mesmo! – lidar com a palavra “inclusão”, porque, mesmo incluídos, nos sentimos como não. Tudo porque estamos excluídos de nós mesmos!”
Como artista e apreciadora da arte penso que tanto o artista quanto o público aprendem com a arte. No processo de criação, o próprio artista é um pesquisador de sua própria sensibilidade, organiza conceitos, sentimentos, ou seja, educa-se. A arte como forma de educação e incentivo à corporalidade pode contribuir e muito para uma reformulação social, para aprendermos a sermos honestos com nós mesmos, como uma forma de aceitação do “outro” e do próprio “eu”.
Referências Bibliográficas:
CUNHA,Maria da Conceição Melo da. A importância dentro de mim – Educação sexualizada e jovens com deficiência mental. In Caderno de Textos : Educação, Arte, Inclusão / organização André Andries. Vol. 1, n. 1 (1. quandrim. 2002) – Rio de Janeiro : Funarte, 2002.
LOUREIRO, João de Jesus Paes. A estética de uma ética sem barreiras. In Caderno de Textos : Educação, Arte, Inclusão / organização André Andries. Vol. 1, n. 1 (1. quandrim. 2002) – Rio de Janeiro : Funarte, 2002.
MARTINS, Ademir. Expressão corporal é pleonasmo. In Caderno de Textos : Educação, Arte, Inclusão / organização André Andries. Vol. 1, n. 1 (1. quandrim. 2002) – Rio de Janeiro : Funarte, 2002







