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Dimensões clínicas da moralidade sexual | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Dimensões clínicas da moralidade sexual


Entrevista com Dr. Sérgio Frajblat, especialista em Neurologia pela PUC-Rio e em Psiquiatria pela UERJ.
por Alexis Kauffmann

Dr. Sérgio Frajblat

Dr. Sérgio Frajblat

Alexis: Gostaria de começar por uma introdução ao tema “Moralidade Sexual”, tal como se apresenta clinicamente. Por exemplo, vemos uma contradição entre práticas e idéias libertárias em relação ao sexo e valores culturais arraigados sobre a sexualidade que não desaparecem.

Dr. Sérgio Frajblat: A gente pode considerar todo um histórico da evolução da sexualidade do ser humano, desde os homens das cavernas até tempos mais recentes. Por exemplo, até o século passado, havia restrições quanto à sexualidade, principalmente direcionadas à mulher.

Mas, na década de 1960, com suas revoluções culturais e comportamentais, houve uma liberação muito mais ampla, com transformações em um ritmo muito acelerado até uns vinte anos atrás, quando houve uma freada com o advento do HIV, da AIDS. Essa mudança de ritmo afetou mais as populações mais esclarecidas. As menos esclarecidas deram continuidade da liberação sem segurança. Um reflexo disso é um número cada vez maior de adolescentes grávidas, o que demonstra um descuido crescente não só em relação à gravidez, como também em relação ao risco de doenças.

Alexis: Então, vamos por partes: como você vê a relação entre DST’s e liberação/repressão sexual?

Dr. Sérgio Frajblat: Não se pode separar uma da outra. Porque a própria prevenção das DST’s envolve algumas precauções comportamentais. Mas, a liberação sexual também envolve a adoção de certos cuidados, porque a prevenção se relaciona com o esclarecimento da população. Uma população mais esclarecida toma medidas preventivas, já a parte menos esclarecida não. Existe toda uma questão cultural com relação ao respeito à mulher. Se considerarmos por exemplo, a civilização do Egito Antigo, existia todo um código de respeito à posição da mulher, ela tinha direitos, possuía seu espaço social próprio, não era uma serviçal, como em outras culturas. É sempre com relação a esse conflito em relação à condição da mulher que a gente pode situar a sexualidade. Porque os homens, durante todo o seu curso de vida, sempre tiveram essa liberdade. Mais recentemente, a sociedade começa a oferecer condições para que a própria mulher possa se proteger. A pílula anticoncepcional foi um fator de liberdade da mulher e de liberdade sexual. Os preservativos femininos também propiciam uma maior liberdade não só em relação à gravidez indesejada como em relação a DST’s. Então, ao conseguir reverter sua posição subalterna ao homem, não só na sexualidade, mas no campo profissional e em outros, as mulheres conquistam espaços que revolucionam não só as relações sexuais, mas os relacionamentos entre os sexos. Isso, em muitos momentos, gera conflitos no relacionamento dos casais.

Alexis: Você relacionou a ocorrência de gravidez indesejada e DST’s ao nível de esclarecimento da população. Você também mencionou um crescimento desses problemas entre a população adolescente. Você acha que a população adolescente carece de maior informação?

Dr. Sérgio Frajblat: Existem vários fatores que influenciam, como a cultura de determinadas regiões e países, mas a desinformação é o principal.

Alexis: Então eu pergunto tanto ao psiquiatra quanto ao neurologista: a informação dirige-se, digamos, ao lado “racional” do ser humano. Por outro lado, no calor da excitação sexual, a “racionalidade” pode voar pela janela, especialmente se estiver associada a alguns chopinhos… Especialmente no caso do adolescente, como lidar com essa situação?

Dr. Sérgio Frajblat: Aí entra muito a questão da impulsividade… Mas vale a máxima: “quando a mente não pensa, o corpo padece”. Quando não se consegue ter algum equilíbrio, especialmente quando influenciado por álcool e drogas, não vamos nos esquecer delas… É importante entender que sexo não é algo que se comece a praticar de uma hora para outra, há toda uma preparação prévia. Se você tiver informações adequadas, uma formação adequada, no sentido de educação, dentro da família, da escola, com acesso a leitura adequada, você se prepara com informações para vivenciar a situação prática. Pode haver circunstâncias em que o instinto fale mais alto mas, tendo um preparo educacional, o indivíduo é capaz de equacionar a situação.

Alexis: Você fez uma distinção entre “informação” e “formação”. Que fatores de “formação” do indivíduo podem ser relacionados ao risco nos comportamentos sexuais?

Dr. Sérgio Frajblat: Quando falei em formação, me referi ao ambiente familiar, à convivência, aos exemplos que se recebe do comportamento dos pais, à forma de se relacionar com a família. O ambiente também é um fator de formação, independente de se ter informação sobre o que se deve ou não fazer, os cuidados que se deve ter. O meio em que se é criado influencia muito. E aí incluímos o meio familiar, social, cultural e religioso.

Alexis: Sobre as restrições religiosas, alega-se que elas se destinam a “proteger” os fiéis…

Dr. Sérgio Frajblat: “Protegem” ao mesmo tempo que “desprotegem”. “Protegem” no sentido de evitar a liberação desinformada do sexo. Mas, quando se sai do ambiente da religião de origem, a pessoa vai se sentir excluída, despreparada para enfrentar situações diferentes do seu ambiente original.

Alexis: Falando, então, sobre fatores de “deformação” do comportamento sexual, se é que posso me expressar assim… Por exemplo, você mencionou a “impulsividade”. A impulsividade é uma característica de personalidade?

Dr. Sérgio Frajblat: Não, não é exclusivamente de personalidade. É também uma característica de momento do ser humano, uma situação em que o corpo fala mais alto do que a mente. Sobre deformação, poderíamos citar não a desinformação, mas todo um processo de estimulação na mídia, na propaganda, em filmes, em telenovelas… Podemos lembrar do exemplo do cigarro, que era cultuado como ideal de consumo até algumas décadas atrás e hoje em dia é o oposto. A velocidade da circulação da informação não-direcionada, excessivamente aberta, atingindo a todas as faixas etárias, sem adequação de linguagem é um fator de deformação. Quando se fala em restrição de idade para se assistir a determinados programas de TV, estamos, na verdade, falando em adequação de linguagem para determinadas faixas de idade. Essa liberação excessiva do acesso à informação possibilita que crianças tomem contato com informações numa forma para a qual não estão preparadas e isso é um fator de “deformidade” na formação, no sentido de que, se não estiverem preparadas, a absorção dessa informação será deformada.

Alexis: Podemos relacionar esse tema a uma questão recorrente em nossa revista: a moralidade sexual e as fronteiras entre Arte e Pornografia. Embora o retrato do corpo nu seja uma constante na Arte, às vezes é difícil desfazer a confusão entre uma revista pornô e uma publicação que aborda o tema da sexualidade na Arte, mostra pinturas e desenhos de corpos humanos nus. Gostaria de ouvir sua opinião sobre esse tema.

Dr. Sérgio Frajblat: Olha, além da questão cultural, há que se considerar a adequação das imagens ao veículo que você está usando, à informação que você quer transmitir, ao estímulo de consumo que você deseja provocar… É preciso saber adequar-se a essas diferentes situações. Porque estamos, já há muito tempo, numa sociedade em que predomina o uso das imagens. E o que se vai considerar, ao avaliar um veículo, é a conveniência de associar a própria imagem às imagens que você veicula. Isso se relaciona ao que falei antes sobre as restrições de horários em função de faixas etárias para veiculação de filmes, exibição de capas de revistas em bancas de jornais, porque pode haver um choque de interesses e finalidades da imagem veiculada em relação ao local onde é exibida.

Alexis: Especificamente na Internet, notamos que a definição do que é “pornográfico” é extremamente confusa. Alguns sistemas de busca, por exemplo, nos classificam sem problemas na categoria “Arte”, enquanto outros recusam nossa inscrição por termos “conteúdo adulto”. Ou seja, empregam uma expressão ambígua e subjetiva para designar uma ambigüidade existente no próprio meio social e a subjetividade de quem é encarregado de analisar o conteúdo.

Dr. Sérgio Frajblat: A Internet é só uma face mais recente desse conflito, que é bem mais visível nas bancas de jornais, que passaram por diversas fases de evolução, não só na forma de apresentação, como na forma de divulgação, nas restrições e permissões que a sociedade impõe. Veja, antes, revistas de sexo nem eram expostas à venda, ficavam escondidas, para acesso somente do indivíduo adulto. Mas se o garoto conhecesse o jornaleiro, às vezes também conseguia o acesso… Depois, foram ganhando exposição crescente, mas com as revistas empacotadas, fechadas e imagens censuradas com tarjas na capa, depois passaram a ser embaladas em plástico preto… É preciso considerar que as imagens das revistas ditas pornográficas também passaram por um processo de evolução, tornando-se cada vez mais intensas. Por outro lado, há um processo de transformação que vem da própria divulgação mais ampla de livros, artigos, enfim, de informação qualificada sobre a sexualidade, que leva a uma maior liberalidade. Enfim, há uma transformação em processo, não só em relação à sexualidade como a diversos outros temas.

Alexis: O que nós notamos, estudando a História da Sexualidade na Arte, é que há uma alternância cíclica, momentos de maior tolerância seguidos de momentos de maior restrição. Esses momentos não são comparáveis entre si, cada um tem sua especificidade, mas o ciclo é nitidamente observável. Então, algo gaiatamente, argumentei com o gerente de um site que nos classificou como “pornográfico” que, se nós fôssemos pornográficos, então deveríamos pintar de preto o teto da Capela Sistina… Afinal, representações de nus podem ser vistas pelo Vaticano inteiro!

Dr. Sérgio Frajblat: Bem, no caso, não acho que a gente deva julgar, pressionar, forçar as pessoas a aceitar idéias que não são as delas… Mas, de uma forma geral, essas contradições existem e são conseqüência desses ciclos que você mencionou, de maior liberação e maior restrição, não só na sexualidade, mas em diversas áreas, como na política e nas religiões por exemplo.

Alexis: No nível do indivíduo, como se manifestam essas contradições sociais? De um lado, excesso de informação e estímulo, de outro, moralidade e restrições. Você já observou esse conflito no contexto clínico, do indivíduo?

Dr. Sérgio Frajblat: Sem dúvida, existem conflitos. Pessoas que, dentro de sua formação, aparecem com dúvidas e questionamentos em relação à própria sexualidade, pedindo que modifiquem suas idéias em relação à sexualidade… Inclusive, tanto homens quanto mulheres homossexuais pedindo para serem “curados” de sua homossexualidade, com receios e dificuldades de se aceitar. A origem está nesses conflitos que dificultam a formação do indivíduo.

Alexis: Sobre preconceito. Tem-se usado os termos como “homofobia”, “androfobia”, “ginofobia”… Esses termos são clinicamente corretos? Podem ser usados para designar essas formas de preconceito?

Dr. Sérgio Frajblat: Não concordo em classificar preconceitos como “fobias”, senão teríamos que cunhar muitos outros termos ligados à fobias. Não se deve misturar fobias – receios que se originam na formação do indivíduo – com o preconceito, idéias preconcebidas, distorcidas, que se originam da desinformação. As fobias são medos que surgem em relação a situações não só relacionadas com a sexualidade, mas no dia-a-dia. Há diversos transtornos fóbicos, claustrofobia, aracnofobia, e nem por isso são relacionados a preconceitos.

Alexis: E sobre os preconceitos que desembocam em ódios… O que você pode comentar sobre o ódio e a violência?

Dr. Sérgio Frajblat: Os ódios são sentimentos profundos, intensos, que se criam dentro de indivíduos em conseqüência de traumas, situações vivenciadas, muitas vezes já durante sua formação, desde pequenos já recebendo uma carga de ódio contra outro grupo social, religioso…

Alexis: E o comportamento violento? Porque me parece que há um abismo entre odiar um grupo social – por exemplo, a mulher, o homossexual – e assassinar, espancar…

Dr. Sérgio Frajblat: Aí você já está entrando no contexto de outros transtornos, no caso, de formação da personalidade. Existem diversos transtornos de personalidade agressivos que, associados a outros fatores, podem gerar comportamentos de agressividade extremada. Somam-se os defeitos de formação aos preconceitos e mistura-se tudo dentro de uma panela de pressão, altamente explosiva. Mas o comportamento violento é uma situação-limite, que pode ser circunstancial, como a violência no trânsito, as brigas na ruas, nos estádios de futebol, nas boates, às vezes por motivo fútil, como um simples esbarrão. É preciso não simplificar demais, ater-se a conceitos que venham unicamente de sua área de formação acadêmica, seja a Psicologia, Sexologia, Antropologia, ou qualquer outra, para não cairmos numa visão maniqueísta de “bem” e “mal” e sejamos capazes de compreender a intervenção de outros fatores sobre o comportamento humano.

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