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Géssica Hellmann
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Entrevista com o artista plástico e psicólogo Paulo França
por Géssica Hellmann e Alexis Kauffmann

Psicólogo e artista plástico Paulo França
1 – Para começar, Paulo França por Paulo França. Pode falar um pouco sobre sua formação profissional e sua trajetória como artista plástico?
Paulo: Objetivamente, minha formação é na área da psicologia e, por conta disso, ao longo dos anos desenvolvi minha atividade profissional no campo da sexualidade humana. Nesses casos, especificamente, lanço mão da abordagem corporal, que, na prática clínica, oferece aos pacientes resultados mais avançados, atuando sobre padrões físicos, aprimorando e ampliando a consciência corporal/emocional, através de técnicas específicas.
Quanto à pintura, não tenho formação acadêmica como artista plástico. Sou autodidata desde os 15 anos de idade. Tive a oportunidade de realizar algumas exposições. Apenas em uma ocasião decidi entrar numa escola a fim de aprimorar a pintura da figura humana, sem abandonar, contudo, meu traço e o abstracionismo, além da técnica do óleo sobre tela. Independente disto, a pintura é um talento onde a técnica acaba se desenvolvendo e se aprimorando na prática, já que o exercício da pintura favorece a isto, naturalmente.
2 – Segundo tenho pesquisado, os problemas de ordem sexual têm, freqüentemente, relação direta com a cultura familiar, com os valores e conceitos morais transmitidos pela família, ou seja, no tipo de “educação sexual” que se recebe em casa. Você concorda com esse ponto de vista? Em caso positivo, poderia esclarecer melhor esse ponto, talvez citando um ou dois casos típicos? Em caso negativo, qual a real importância ou o verdadeiro sentido da educação sexual?
Paulo: Vou começar a responder esta pergunta pelo fim.
Penso que toda forma de educação é importante, seja qual for a área. Podemos tomar como exemplo, a questão alimentar, tão importante para a manutenção da saúde. Podemos comer de tudo, porém qualquer exagero provoca desequilíbrio orgânico. O importante é alimentar-se com qualidade evitando abusar na quantidade, além de uma ordenação levando-se em conta as necessidades nutricionais diárias.
Com a sexualidade; penso que seja a mesma coisa.
Impossível fechar o olho para esta realidade. O ser humano tem sexualidade, bem como a energia sexual circulando em seu corpo, desde que nasce. Em tenra idade, esta sexualidade é pouco elaborada e com o passar dos anos e dependendo de vários fatores, (familiares, sociais e culturais) seus valores serão moldados neste contexto. Logicamente que a tendência de cada ser humano é evoluir e determinados valores se transformam ao longo de seu desenvolvimento e de acordo com suas novas necessidades. Entretanto, os modelos iniciais bem como toda forma de educação sexual será determinante para que a expressão e a vivência sexual sejam mais saudáveis. Pode ser que valores muito arraigados provoquem algumas tensões e dificuldades na expressão sexual, contudo este não é o único motivo que desencadeia uma desordem sexual. Não resolve nada simplesmente responsabilizar a cultura familiar como forma de justificar um problema sexual. Mesmo porque, cabe ao ser humano, em seu processo de evolução/individuação, encontrar a melhor forma para sanar suas dificuldades, buscando, por exemplo, ajuda especializada. E, antes de tudo, admitir que é o único responsável por isso, já que a ‘cultura’ não é ele próprio. A ‘cultura’ não está nele, mas sim ele está nela. E é no aqui e agora que ele pode buscar estratégias, encontrar e desenvolver seus recursos internos para isto.
Observo ao longo de minha experiência profissional que existe um panorama novo se abrindo, já que tanto homens quanto mulheres, estão buscando em si a expressão de um ser humano muito mais sensual do que sexual. Por conseguinte, penso que a nova expressão da sexualidade vem ganhando em qualidade e não mais em quantidade.
3 – Vivemos um momento cultural algo contraditório, em que a banalização do sexo; transformado em mercadoria midiática, convive com grandes tabus. Ao que parece; todas as grandes transformações ideológicas e comportamentais, relativas à sexualidade que ocorreram no século XX; passaram ao largo das mentes de grandes segmentos sociais que, entretanto, são consumidoras do sexo embalado para consumo. Por exemplo, o sentimento que emergiu ao saber que uma recepcionista de uma clínica de depilação se referiu ao meu trabalho como “depravado” foi mais ou menos equivalente ao de encontrar a tumba de um faraó em plena Avenida Paulista. Como entender esse fenômeno?
Paulo: Se for tão importante entender este fato, é provável que a resposta anterior possa ajudá-la.
Assim como foi uma recepcionista, poderia ser um alto executivo com MBA (acredite, é possível), mas que permanecem distantes de sua evolução/individuação. Não é um mero ‘pré-conceito’, mas a dificuldade até de compreender o sentido da própria palavra ‘pré-conceito’. Um conceito antecipado sobre determinado assunto, motivado por alguns valores. Ao iniciar a ‘própria evolução’, a tendência é criar o ‘próprio conceito’ a respeito de determinado assunto, que pode se coadunar a alguns outros e a algumas pessoas. Este novo conceito pode provocar em outro indivíduo o mesmo sentimento que aquela pessoa experimentou antes quando estava aprisionada nos seus ‘pré-conceitos’. Daí a importância da educação ao longo da existência. E é assim que a humanidade se transforma, cada um contribuindo com a sua evolução.
4 – Sobre a fronteira entre arte e pornografia. Há uma frase célebre de um político americano sobre não ser necessário saber a definição de indecência para reconhecê-la quando se vê uma. A imagem, a representação do corpo nu, é “indecente” por natureza? Por que se adota correntemente a expressão pleonástica “nu artístico”, implicando que haveria formas de “não-artísticas” de nu? Em que momento a arte deixa de ser “arte” para se tornar “suja”, “pornográfica”? Aliás, o que é “pornografia”? Ou é algo que não se precisa definir para reconhecer?
Paulo: Antes de tudo é importante contextualizar o momento em que a frase foi proferida pelo célebre político americano, para não correr o risco de dar um peso maior do que o necessário àquele pensamento. O que ele disse ou pensa está vinculado aos próprios conceitos, valores e à própria imagem corporal. Não seria a visão de si próprio indecente? Em que medida ele evoluiu até aquele momento?
Teoricamente, o termo pornografia, pode ser definido como um gênero literário que descreve atos eróticos com o fim de excitar o desejo sexual do leitor (do grego porne, ‘prostituta vulgar’, e graphos, ‘escrito’). Por extensão, consideram-se pornográficas todas as obras cênicas, desenhos e artefatos explicitamente destinados a causar excitação ou assistir a prática de atos sexuais (segundo o Dicionário da Vida Sexual, volume 2, 2ª edição, 1982, Editora Abril Cultural, pág.419).
Deste modo, particularmente, creio que seja um pouco inadequado colocar especificamente a pintura artística ou o nu artístico, como queria, nesta mesma linha. A não ser que esta seja a proposta de trabalho do artista, considerando aquele conceito de pornografia ‘…explicitamente destinado a causar excitação…’.
Ainda assim, a obra não perderá seu caráter. A proposta é pessoal e a obra passa a ser conceitual, mas não deixa de ser expressão artística, principalmente se ele utilizar as técnicas próprias na execução. Se ele alcança o seu objetivo e ‘toca’ através do seu trabalho, o observador, não difere em nada do artista que se propõe atingir os admiradores de naturezas mortas. Sinceramente, isto é uma simples questão de gosto.
Cada um tem a sensação de sujo, limpo, prazeroso ou desconfortável, a partir da própria experiência interna sobre tais sentimentos.
5 – O preconceito sexual, a intolerância contra a diversidade sexual, é uma forma de ódio que pode, inclusive, chegar ao crime, segundo pudemos averiguar em estatísticas sobre assassinatos de homossexuais, definidos como “crimes de ódio” pelo antropólogo Dr. Luiz Mott, professor da UFBA e presidente do Grupo Gay da Bahia. Nossa pergunta aos homofóbicos, na edição em que abordamos esse assunto, foi “Você tem medo do quê?” O que temem os chamados “homofóbicos?” A expressão é clinicamente correta, pode-se caracterizá-la como uma “fobia?” E as outras formas de ódio sexual, por exemplo, o preconceito de gênero (ódio à mulher)? Qual a origem desse sentimento? É passível de tratamento, de superação?
Paulo: Sim, é um termo correntemente usado atualmente. Um neologismo que originalmente foi empregado por sexólogos ingleses para designar reações de medo em relação à homossexualidade, própria ou de outras pessoas. Teoricamente a homofobia seria o medo neurótico de negar em si mesmo inclinações ou traços homossexuais e bissexuais. Neste sentido, poderíamos até pensar que na impossibilidade da auto-agressão explícita, melhor agredir o que está fora. Talvez para eles seja mais cômodo agredir a outrem do que se confrontar com os próprios medos e fantasias. A origem de tais sentimentos está vinculada igualmente ao distanciamento do indivíduo com a própria essência.
É importante ressaltar outra forma de distúrbio definida como heterofobia, que seria a dificuldade do relacionamento com pessoas do sexo oposto. Curiosamente, algumas dessas pessoas, acabam acreditando serem homossexuais, contudo, apenas não sabem lidar naturalmente com as pessoas do sexo oposto. Disto pode resultar tantas outras dificuldades e enganos nesta área.
Todo distúrbio pode ser tratado e alguns, mesmo sem cura, têm controle, através de tratamento especializado.
6 – Finalmente, perguntamos sobre a relação entre Arte e Tolerância. Temos visto muitos programas e projetos nesse sentido, este site é apenas um entre muitos. Você acredita na eficácia das manifestações artísticas como forma de estímulo à fraternidade, à tolerância, á solidariedade? Por quê?
Paulo: Toda forma de arte é estimulante já que propõe tocar o espectador naquilo que é mais sutil no ser humano, a emoção. A manifestação artística é o manifesto do próprio ser humano. Admirar uma obra é admirar as sutilezas, a sensibilidade, os segredos do próprio artista, mesmo que em algumas vezes sejam colocados estrategicamente de forma obscura. A natureza humana tem nuances que às vezes os próprios humanos desconhecem. Sensibilizar-se com estes aspectos, nos dá a possibilidade de experimentarmos muito mais intensamente tudo aquilo que estiver ao alcance de nossos órgãos do sentido. Daí surge o desejo de compartilhar a própria experiência com outras pessoas gerando seres humanos mais fraternos, tolerantes e solidários.
E, para finalizar, é bom lembrar que somos ‘seres sexuais’ por natureza e, na minha experiência, observo que a dificuldade de uma grande maioria de pessoas é se descobrirem como ‘seres sensuais’. Isto sim é difícil, talvez pelo fato de terem também uma grande dificuldade de descobrir suas nuances através das próprias emoções. Entretanto, observo que isto está mudando. Homens e mulheres se buscam, paralela ou conjuntamente para, no fim, encontrarem a manifestação de si próprios numa arte sexual que prima pela beleza do encontro, pela conquista do prazer sentida em todos os sentidos.










