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Pedofilia e Homossexualismo: o retrato da linha-de-corte no filme “Os Mistérios da Carne”
por Alexis Kauffmann
Nas últimas edições, esta seção abordou os temas da pedofilia e do homossexualismo. Ambas, variantes sexuais: a primeira, criminosa; a segunda, objeto de opiniões e reações extremadas.
O texto da Tate Fish demonstra um tipo de reação psicológica muito comum: se você defende os direitos dos homossexuais, “logo” você ou alguém na sua família é homossexual.
Não é uma reação muito diferente – pessoalmente, não enxergo diferença alguma – das manifestações de ódio racial, religioso ou político. Só o fato de não condenar, de não odiar, já é suficiente para torná-lo “suspeito”.
O filme “Mistérios da Carne” (Mysterious Skin – EUA / Holanda, 2004), de Gregg Araki, combina esses dois temas de forma impactante e explosiva. Repleto de seqüências quase explícitas de sexo homossexual e sexo pedófilo, não é um filme fácil de assistir sem ter sua sensibilidade afetada de alguma forma.
A história narra um episódio de sedução de dois meninos de 8 anos, Neil McCormick (Joseph Gordon-Levitt) e Brian Lackey (Brady Corbet) pelo treinador do time de beisebol de sua escola, interpretado por Bill Sage.
O “treinador” não tem nome, pois o que ele perpetra é inominável. Enquanto nas lembranças de Neil ele aparece como o homem que realmente o amava, que o considerava “especial”, Brian sequer consegue lembrar-se do que ocorreu. Confronta-se com um lapso de cinco horas em sua memória, seu nariz sangra, urina na cama e torna-se obcecado pela idéia de ter sido abduzido por alienígenas.
Neil e Brian seguem adiante suas vidas e é neste ponto que o filme revela a linha-de-corte entre o episódio traumático e a orientação sexual. Neil assume-se gay e prostitui-se, sem relacionar sua orientação sexual ao episódio traumático. Ele demonstra já sentir atração sexual por homens antes de ser seduzido pelo treinador, ao assistir sua mãe (Elisabeth Shue) tendo relações sexuais com um homem no jardim de sua casa. Ele não se excita com o corpo da mãe, mas com a expressão de submissão no rosto do homem.
Enquanto isso, Brian cresce “assexuado”, infantilizado, inseguro. Não é gay, mas não tem namorada. Interessa-se por uma garota, mas repele seus avanços sexuais. Torna-se amigo de um rapaz gay conhecido de Neil, mas seu contato físico e afetivo não vai além do abraço e das confissões sobre sua idéia fixa de abdução por alienígenas.
O diretor e roteirista Gregg Araki, porém, deixa bem claro que a sedução por parte do “treinador” não provoca seqüelas apenas em Brian. Neil exerce sua homossexualidade de forma cínica, fria, distante, impedindo qualquer tentativa de aproximação ou vínculo afetivo. Como alerta Wendy (Michelle Trachtenberg), confidente e amiga íntima de Neil, “ele tem um buraco-negro no lugar onde deveria ter um coração; se você se aproximar demais, pode ser sugado e desaparecer para sempre”.
Mas Neil só se conscientiza do dano psicológico provocado pelo treinador-sedutor quando finalmente se encontra com Brian, no final do filme, e percebe ter sido usado por um canalha para praticar um ato de conseqüências danosas irreparáveis.
O que se percebe no filme é a ausência de uma relação forçada de causa-e-efeito e a negação de qualquer analogia entre a pedofilia e orientação sexual. As inúmeras cenas de relações sexuais de Neil com homens mais velhos e desconhecidos, embora possam chocar aqueles que consideram chocante a homossexualidade, retratam adultos conscientes em busca de prazer consentido. O trauma da sedução pedófila surge nessas cenas apenas no distanciamento afetivo de Neil, que se prostitui com o objetivo implícito de evitar qualquer possibilidade de envolvimento.
Já as cenas de pedofilia demarcam a manipulação psicológica da fragilidade da criança por parte de um adulto consciente do que está fazendo. O treinador exerce seu poder de forma sutil sobre as crianças, obtendo o consentimento forçado para exercício de seu próprio prazer, deliciando-se com os danos psíquicos que provoca nos pequenos Neil e Brian.
Dica de Leitura – Mysterious Skin : A Novel – SCOTT HEIM
O livro que inspirou o roteiro do filme de Gregg Araki, “Mistérios da Carne”.











