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Géssica Hellmann
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Quem é seu próximo?
por Géssica Hellmann
Ao ler um artigo do Dr. Luiz Mott, antropólogo, me deparei com a seguinte afirmação: “Quando se fala em discriminação, via de regra, cada minoria procura puxar o quanto pode a brasa para mais perto de sua sardinha”.

Amar o próximo - Acrilico sobre papel - Géssica Hellmann
Um choque, uma realidade. Me fez parar e refletir sobre o assunto. Sou mulher e sei que mulheres sofrem preconceitos em uma sociedade machista. Mas acima de tudo sou ativista em nome do amor, da solidariedade, da aceitação da diferença, seja ela qual for: nacionalidade, religião, raça, gênero ou opção sexual. Sou a favor do amor, da tolerância, da compaixão e da solidariedade.
Não puxarei a brasa para a minha sardinha! Aqui já falamos da violência contra a mulher, dos crimes homofóbicos, de solidariedade. Hoje falaremos sobre etnia: preconceito racial.
Segundo a definição de “Heler (1988) o preconceito está pautado em um forte componente emocional que faz com que os sujeitos se distanciem da razão. O afeto que se liga ao preconceito é uma fé irracional, algo vivido como crença, com poucas possibilidades de modificação. O preconceito difere do juízo provisório, já que este último é passível de reformulação quando os fatos objetivos demonstram sua incoerência, enquanto os preconceitos permanecem inalterados, mesmo após comprovações contrárias” (MENEZES, 2006).
A sociedade brasileira caracteriza-se por uma pluralidade étnica, sendo esta produto de um processo histórico que inseriu num mesmo cenário três grupos distintos: brancos (europeus), índios e negros de origem africana.
Simon Schwartzman, sociólogo, membro da Academia Brasileira de Ciências e presidente do IBGE entre 1994 a 1999, em um artigo para a Folha de São Paulo, afirma que houve um estágio na ideologia nacioanal em que autores como Nina Rodrigues e Oliveira Vianna propagavam que os males do país eram causados pela mistura do “sangue ruim” (negros e indígenas) e que era necessária uma “purificação da raça”. Posteriormente, Gilberto Freire tentou difundir o conceito de uma “civilização luso-tropical”, em que negros e brancos conviviam harmoniosamente. Mais tarde, foi a vez dos sociólogos marxistas argumentarem que a questão racial era uma questão de luta de classes. Finalmente, duas décadas atrás, o IBGE demonstrou que a “cor” dos brasileiros associa-se a uma série de importantes características sociais: “Os ‘pretos’ e ‘pardos’ recebem remuneração inferior pela mesma função e têm menos educação que os ‘brancos’ na mesma faixa de renda” (SCHWARTZMAN, 2006).
Sim o preconceito racial no Brasil existe e é fato. Basta observar a população carcerária, cuja maioria é composta por homens negros.
“Para reduzir os impactos negativos das desigualdades raciais é importante priorizar as regiões metropolitanas, diminuir a violência urbana, equacionar a segurança pública, gerar expectativa de educação, trabalho e renda para a juventude negra e melhorar a qualidade de vida das mulheres negras” (CARDOSO, 2006).
Entretanto, o que é um “negro”? Esta questão aparentemente simples é objeto de controvérsias e acusações de manipulação de dados estatísticos:
“A racialização do Brasil procede manipulação estatística ao propor que quase 50% da população nacional seja negra. O Brasil possui estados com forte população afro-descendente e outros dominados por descendentes de nativos e europeus. Em todos eles, existe forte população formada por intercruzamentos étnicos. Essa quase maioria é obtida somando-se como negros todos os brasileiros com alguma ascendência africana.” Ou seja, “um brasileiro com três avós europeus e um afro-descendente é contado estatisticamente como negro. O que enseja a fusão de nacionais com forte afro-descendência, objetos da violência racista, e outros que, conforme a região e, sobretudo, a situação social, se têm e são em geral tidos socialmente como brancos” (MAESTRI, 2006).
Então eu pergunto: Qual a sua cor? Como você se define? Qual a cor do povo brasileiro?
Mas são os negros os únicos que sofrerem preconceito raciais no Brasil? Vale lembrar a comemoração dos 500 anos de descobrimento do Brasil, em que testemunhamos violência contra outra minoria – e o termo “minoria”, neste caso, não aplicável somente no sentido sociológico, mas também no quantitativo:
Rememorando os fatos: índios Xavantes e Mehinakus entregaram uma carta de protesto ao Presidente Fernando Henrique Cardoso, em ocasião da comemoração dos 500 anos do Brasil. A mensagem dizia: “esta não é a nossa comemoração”, “não estamos comemorando nada”. A carta afirmava que “o povo brasileiro não conhece o povo indígena” e concluía que os índios estavam ali com o objetivo de realizar “um ritual de passagem para transformar este lugar num país onde nosso povo possa viver”.
O conflito foi inevitável: em plena comemoração dos 500 anos do Descobrimento (Invasão?) ocorreu um violento confronto entre policiais e manifestantes indígenas na BR-367: a PM avançou sobre os índios, que fugiram na direção de Santa Cruz Cabrália. Alguns reagiram, disparando flechadas e jogando pedras. A polícia perseguiu os manifestantes por cerca de um quilômetro, soltando bombas, até dispersar totalmente o protesto. No momento do conflito, Gildo Terena, 18, da tribo terena de Campo Novo (MT), postou-se em frente à barreira policial pedindo para que parassem de jogar bombas e foi agredido pelos policiais. O índio teve traumatismo no maxilar direito, segundo o médico José Caires, do Sindicato dos Médicos da Bahia (FOLHA, 2006).
Que “cordialidade racial” é essa? Os “brancos” tão ciosos de sua superioridade, há 500 anos invadiram, tomaram posse, e exterminaram as populações indígenas. Uma cultura de que muito se perdeu e continua sendo destruída, para nosso grande pesar.
É importante valorizar a cultura, um povo precisa conhecer sua história, sua origem. Mas acima de tudo é preciso saber aceitar as diferenças.
É preciso exercer a solidariedade, a fraternidade e o amor. E é aqui que esclareço o título deste artigo: “quem é o seu próximo? “Amar o próximo como a ti mesmo” (Mt 22:39).É preciso aprender a conviver com as diferenças, amar a si mesmo e ao próximo com a mesma proporção. Por que tanto preconceito se, aos olhos de Deus, somos todos iguais, independente de rótulos?
Acredito nesta possibilidade: amar o amor e com esta intenção promover a solidariedade e fortalecer a luta contra os preconceitos – todos eles! – contra os crimes de ódio, a favor da esperança na evolução do ser humano. E termino com um convite: Vamos nos dar as mãos para atingir esse objetivo?
Bibliografia:
CARDOSO, Marcos Antonio. Igualdade racial – Desenvolvimento com promoção da igualdade racial. Disponível em: . Acessado em: 11/08/2006.
FOLHA de São Paulo. Índios entregam carta de protesto a Fernando Henrique. Disponível em: . Acessado em: 11/08/2006.
MAESTRI, Mário. A racialização do Brasil. Disponível em: . Acessado em: 11/08/2006.
MENEZES,Valéria. Preconceito racial: o desencontro da alteridade. Disponível em: . Acessado em 11/08/2006.
MOTT, Luiz. Direitos humanos e cidadania homossexual no Brasil: porque os homossexuais são os mais odiados dentre todas as minorias?
SCHWARTZMAN, Simon. Das estatísticas de cor ao Estatuto da Raça. Disponível em: . Acessado em: 11/08/2006.










