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Géssica Hellmann
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Virgens Juradas

Virgo por Mitzura Salgian
Neste resumo, exponho alguns interessantes apontamentos no artigo de Grémaux (1995) sobre indivíduos que adotam permanentemente o vestuário e o comportamento normalmente associados ao sexo oposto.
“As informações antropológicas disponíveis sobre o assunto referem-se principalmente aos homens que se vestem e se comportam como mulheres – os xamãs e berdaches siberianos e norte-americanos são exemplos mais flagrantes; no entanto, observa-se uma falta de informação sobre a inversão do feminino para o masculino” (p.199)
É sobre esta última inversão que o autor reflete em seu artigo: um curioso costume encontrado entre os albaneses do norte, os montenegrinos e alguns outros grupos étnicos dos Bálcãs ocidentais.
Desde metade do século XIX, tem-se conhecimento sobre mulheres solteiras, virgens, que vivem, se vestem, trabalham e são reconhecidas como homens. O autor afirma que, ao efetuar sua pesquisa, se deparou com pelo menos 70 casos de mulheres que levavam sua vida como homens, desfrutando, até certa medida, do reconhecimento público da sociedade tanto quanto fossem homens.
Caso 1: Mikas
Mikas era filha de um herói famoso que havia sido morto em combate quando Milica era ainda muito pequena e ela era sua única filha. Após a morte do pai, sua mãe lhe vestiu como homem e lhe deu o nome de Mika. Ela se acostumou com a idéia, cresceu como menino e mais tarde se alistou no exército. Em 1885, o médico sérvio Jovanovic-Batut, ao examinar os soldados, foi informado que Mika era, na verdade, uma mulher. Indagada pelo médico sobre como lidava com sua menstruação na presença dos homens, negou que a tivesse: “Eu não tenho isto. Com a idade de 13 anos, tive por alguns meses, mas depois, nunca mais”. “Ouvir isso” – escreve o médico – foi suficiente para mim. Percebi que toda sua natureza havia se transformado.
Nos anos 1920, a etnógrafa croata Marijana Gusic, acompanhou a vida de Mikas. Gusic descreve o Mikas idoso como uma pessoa infeliz, perturbada, com sinais de misoginia e misantropia. Gusic relacionava isto ao celibato e ao papel masculino compulsório.
Mikas sempre se referiu a si mesmo no gênero masculino. As mulheres costumavam beijar sua mão, como se esperava que o fizessem sempre que encontrassem um venerável ancião. Dizem que passou sua vida em total celibato.
Caso 2: Tonë
Tonë nasceu na tribo Kelmënd, de maioria católica, na região montanhosa da Albânia setentrional. O nascimento de Tonë foi seguido pelo nascimento de dois filhos e duas filhas. Ambos os filhos – orgulho e alegria de toda a família patriarcal – morreram de malaria endêmica. Com a morte dos irmãos, Tonë decidiu, com cerca de nove anos, tornar-se o filho e o irmão mais velhos de que seus pais e irmãs precisavam. Prometeu jamais casar-se e trocou suas roupas por roupas masculinas. A idéia agradou muito a seus pais.
Quando ele completou 20 anos, sua mãe, com 49, deu a luz a um menino chamado Gjelosh. Tonë desempenhou o papel de irmão mais velho e o protegia nas horas difíceis. Quando suas irmãs chegavam à idade de se casar, era ele que as cedia para seus noivos, exatamente como todo irmão mais velho. Na Segunda Guerra Mundial, ele e seu irmão se aliaram à guerrilha nacionalista. Foram presos ao final da Guerra. Depois de soltos, em 1951, ele e o irmão cruzaram ilegalmente a fronteira da Albânia, estabelecendo-se em Montenegro. Lá, fundaram domicílio, chefiado por Tonë. Ele sempre fez trabalhos típicos masculinos. Conquistou uma considerável popularidade como cantor e musico.
Gusic afirma que neste caso, ao contrario de Mikas, Tonë era uma pessoa agradável e satisfeita, que desfrutava inteiramente de alta estima a ela dedicada tanto pela família como pela comunidade mais ampla. Morreu em 1971 e foi enterrado como homem.
Nestes dois casos, em sua juventude, as meninas “passaram para o lado” do gênero masculino com o consentimento da família a fim de substituir um herdeiro do sexo masculino. As mulheres masculinizadas estavam fadadas, em principio, à perpétua virgindade, normalmente por juramento. O corpo intacto simbolizava a integridade moral da pessoa em questão. Existe muita duvida e discórdia quanto ao significado da palavra “virgindade” quando aplicada a essas pessoas: terão elas de sempre se eximir de contatos sexuais com homens, ou desfrutarão de algum tipo de liberdade no reino da (hetero)sexualidade? Ou utilizando uma distinção na Antiguidade clássica, deveria tal pessoa ser rotulada como virgo intacta, ou simplesmente virgo, denotando este ultimo termo “mulher descomprometida, não casada”? Caso uma delas ficasse grávida após juramento, era condenada por apedrejamento em Montenegro, e morte na fogueira, na Albânia setentrional.
O autor afirma ainda que, dentre os pouquíssimos casos de virgens juradas que, após terem vivido anos como homens, retornaram ao gênero feminino e se casaram, um chamou sua atenção.
Fátima nasceu em 1926, em Nisor, uma aldeia em Kosovo, e era a quarta filha de uma família camponesa mulçumana e albanesa. Uma vez que os pais precisavam de um filho, deixeram que a menina recém-nascida se passasse por menino. O pai proibiu a menina de ser chamada de Fátima e deu-lhe o nome masculino de Fetah. A mãe, viúva bem jovem, assumiu a tarefa de orientar Fetah para que não fosse desmascarada. Um filho era muito importante, porque uma viúva sem filho homem era obrigada a deixar a casa do marido e a ir morar com os pais para se casar novamente.
Em 1944, Fetah foi recrutada pelos guerrilheiros iugoslavos vencedores. Somente depois de dois anos, em um exame médico, descobriram seu verdadeiro sexo e a dispensaram. Fetah voltou à sua terra natal e continuou a viver como homem. Nos anos seguintes, a comunidade local foi cada vez mais se tornando ciente que Fetah era uma mulher. Para tristeza da sua mãe, em 1951 ela resolve se casar com Aslan Asllani, de quem ainda hoje é esposa. Ela voltou a viver como Fátima. Sua mãe jamais se conformou com a perda de seu único “filho” e morreu sem conceder o perdão a ela.
Basicamente, as virgens juradas travestidas geralmente participam de aberto desdém para com o segundo sexo. No tocante à misoginia, às vezes competiam com os homens verdadeiros.
Como essas mulheres se relacionam sexualmente com os homens e as mulheres e em que medida se identificam, de fato, com o gênero masculino? É a pergunta levantada pelo autor. Em alguns dos casos pesquisados, houve renúncia total à sua feminilidade e desenvolveram hipersensibilidade a qualquer alusão à mesma, como no caso de Mikas. Outros, como no caso de uma viúva albanesa mulçumana, tornou-se uma virgem jurada após a morte do seu marido, passando a viver como homem.
O autor deixa sua conclusão em aberto, mas limita-se a fazer algumas considerações: as diferenças na extensão que o gênero masculino parece ser internalizado pelas virgens juradas, em sua opinião, depende de algumas variáveis: idade de início, duração e uniformidade do processo socializante; posição e estima da família e na comunidade local e a predisposição pessoal aptidão e preferência.
Bibliografia
GRÉMAUX, René. Mulheres masculinizadas dos Bálcãs. In BREMER, Jan. De Safo a Sade – Momentos da história da sexualidade. Campinas, SP: Papirus, 1995. Pg. 199 a 235.







