Portal de Arte e Cultura | Rede Géh Editores Web | Blog Corporativo e Mídias Sociais | SEO - Otimização de sites

Aspectos políticos da sexualidade: curar a sociedade ou remendar o doente? | Sexualidade by géh

Quer mais visitas para seu site? Contrate um blog corporativo para sua empresa! Entre em contato!

Géssica Hellmann
E-mail: geh@gehspace.com
MSN: gessicah1@hotmail.com
http://redegehspace.gehspace.com

Aspectos políticos da sexualidade: curar a sociedade ou remendar o doente?



Por Géssica Hellmann

Aos que já me conhecem e acompanham as atualizações da revista, sabem que desde 2005 edito e publico neste espaço temas referente à sexualidade humana. Sou brasileira, nasci no sul do país, morei algum tempo no Rio de Janeiro e hoje estou em Santa Catarina.

Circe por Cassandra Tiffin-Lavers

Circe por Cassandra Tiffin-Lavers

Nasci em uma cidade onde as mulheres são criadas para namorar, casar, ter filhos e ser dona de casa. Algumas para estudar… mas nunca se espera que elas sustentem a família. O homem é educado para o papel de provedor. Muitos homens casados acham que sentir prazer e fazer sexo – com todas as fantasias possíveis – é algo que só deve fazer no prostíbulo na esquina. Com a mulher, em casa, o “correto” limita-se ao “papai-mamãe”. Se a mulher pede algo a mais, ou tenta inovar, o homem já acha que está sendo traído: onde ela aprendeu tudo isso se não foi com ele?

Há muitas mulheres que ultrapassam os “limites impostos pela sociedade”. Estudam, ampliam os horizontes, querem ser independentes. Algumas conseguem um espaço. A maioria acaba saindo da cidade, em busca de “ar” ou de pessoas com outro tipo de pensamento. As mulheres, em sua maioria, são mais evoluídas do que os homens, mas muitas param ou se acomodam no cumprimento do papel que se espera delas.

A isso chamo de “educação tradicionalista”.

Mas essas definições rígidas dos papéis sexuais acontece somente em cidades tradicionalistas? Não. Esse é um fenômeno universal, que afeta a toda a humanidade, principalmente nas sociedades ocidentais. A diferença está no modo como essas neuroses são “revestidas”.

Em uma cidade metropolitana como o Rio de Janeiro, por exemplo, parte dessa moralidade funciona às avessas, mas de forma igualmente terrível. Se uma mulher quer se casar virgem, a moralidade vigente grita: “Mas você ainda é virgem”? O policiamento sobre o comportamento do outro e a exclusão quando se quebra as “sagradas regras sociais” são constantes, mas assumem forma de “bom humor”, através de piadinhas tão depreciativas quanto uma acusação direta. O carioca “tem” que gostar de pagode, de carnaval e de torrar na praia. Porque é isso que se espera dele. Ele precisa ignorar solenemente o que está debaixo de seu nariz: as praias poluídas, as calçadas imundas, a violência verbal e física a cada esquina, a falta de educação, gentileza e cordialidade… Mas o Rio é lindo!

“Em política cada um culpa os demais, nunca a si mesmo. É hora de parar de culpar o bode expiatório. Já é mais do que na hora de ver o que divide a humanidade. É a peste emocional, chamada “pecado” na Cristandade, que fragmenta a humanidade. É a couraça que torna o homem desamparado e prostrado. É novamente a couraça que é o terror da Vida viva, fluente, que cria os portadores da peste, que se tornam os sargentos dos exércitos de nações cruéis” (Reich, 1995 p.206).

Demos o exemplo da mulher, mas a culpa é somente dos homens? Não. A culpa é da sociedade e de suas “regras morais”. Qualquer pessoa que infringir as regras é crucificado. Quem faz a sociedade? O Zé Ninguém e a Maria Ninguém, ou seja, nós. Vivemos em uma sociedade que produz neurose, uma sociedade em que desde que se nasce, já se é doente. Será que a solução se encontra em “remendar” o problema em consultórios de psicoterapias? Ou será que Reich estava certo ao defender que era preciso “produzir” saúde? Por que, mesmo nas comunidades auto-intituladas “reichianas”, pouco se fala sobre seu importantíssimo trabalho político?

Além de editora, sou artista plástica, e abordo na arte a corporalidade e a sexualidade humana. Daqui a duas semanas, farei uma exposição cujo o tema é uma homenagem aos 50 anos de morte de Wilhelm Reich, chamada “Função do Orgasmo”.

Imaginem agora, nesse momento estou enviando convites para o coquetel da exposição. Muitos me perguntam qual é a reação das pessoas ao verem que o tema é relacionado com sexualidade. Não espero ser recebida com flores, aplausos e confetes. Procuro tratar o tema com a maior naturalidade, já que é assim que sempre deveria ser tratado.

Fui muito bem recebida pela mídia até o momento e tenho certeza de ter despertado pelo menos a curiosidade de alguns: “quem é esta artista que fala sobre sexo”? Essa estranheza vem de que muitos limitam sua idéia de sexualidade ao ato sexual, sem perceber que o termo se refere a toda nossa existência.

As obras que preparei para essa esposição retratam a mulher desde o matriarcado, quando ainda podemos dizer que havia uma “sexualidade natural”, até a mulher contemporânea. Com a passagem do matriarcado para o patriarcado, surge o “pecado original” e também a “peste emocional”, quando a sociedade começa a reprimir e anular no corpo tudo o que é o belo e natural.

É isso que a psicologia corporal nos mostra, ao ensinar-nos a ler a corporalidade, as expressões corporais. Reich foi o fundador da psicologia corporal. Ele e seus contemporâneos mapearam o corpo humano e nos mostraram que há possibilidade de libertar essa energia represada no que chamou de couraça muscular. Mas Reich foi mais além, nos instigando a não somente remendar os estragos sociais através da terapia, incitando-nos.a mudar todo o pensamento político e ideológico que nos mantém nessa prisão sem muros que é a sexualidade amordaçada.

Voltando ao nosso inimigo contemporâneo, a AIDS, sinto que devo lutar contra esse monstro aqui em Santa Catarina. A idéia que se transmite na mídia sobre o “Coquetel anti-AIDS” como solução para o problema, sem abordar os graves efeitos colaterais da medicação antiretroviral, ou as dificuldades do dia a dia de um HIV positivo. Uma pessoa que desenvolveu a doença precisa de apoio diário: psicológico, atividade física, massoterapia, terapias de grupo e outras atividades em que os pacientes possam dar e receber apoio mútuo.

A AIDS, assim como as outras DSTs, são conseqüências diretas da “Peste Emocial”, do desconhecimento e intolerância com relação à própria sexualidade. Na década de 1960, explode a “liberação sexual”, o lema “sexo, drogas e rock and roll”. Nos anos 1980 surge a AIDS, e a tal “liberação” sem liberdade de fato cobra o seu preço. Onde está a liberdade real?

Não vou mudar o mundo. Mas se eu puder alertar e fazer alguma diferença no pensamento e atitude de quem estiver próximo, eu o farei, e a arte estará a meu lado.

Bibliografia:

Reich, Wilhelm. O assassinato de Cristo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

3 Responses “Aspectos políticos da sexualidade: curar a sociedade ou remendar o doente?”

  1. André Nunes says:

    Oi Géh.
    Acabo de descobrir seu site, por um acaso.
    Sou estudante de Psicologia, e reichiano de carne, osso, e espírito.
    Também acho um absurdo as próprias comunidades ditas reichianas omitirem o aspecto político de seu trabalho, sem o qual não haveria absolutamente nada de psicologia corporal – a estrutura psíquica/muscular é o micro-espelho da macro estrutura político-social! -; ignorando o aspecto político, ignoram 80% da teoria/prática reichiana. Lamentável. Mas meus colegas estão mais preocupados em botar band-aid em fratura exposta do que em produzir saúde e qualidade de vida – educar para não remediar.
    Winnicott também já dizia que se houvesse uma boa pediatria não precisaríamos da psiquiatria…a pura verdade.
    É isso, por ora.
    Um abraço.

  2. Marcelo says:

    Oi Géssica, eu te recebo com aplausos e confetes por tratar de qualquer assunto com a naturalidade que ele merece. É realmente triste se esperar um comportamento segundo as condições do local, de um paulista a seriedade, de um baiano a preguiça, de uma catarinense o comportamento de freira reclusa, de um carioca a malandragem. Somos indivíduos, nenhum maior ou menor que o outro somente diferentes entre si. O matriarcado cometeu erros tão grandes quantos o do patriarcado e só perdeu sua dominação por medo de perder a segurança. O ideal é um poder perfeitamente dividido entre homens e mulheres onde a superioridade não exista como idéia. Excelente tema, excelente texto. Beijão.

  3. Suzana Cristina Gimenez says:

    Olá Géssica, adorei a matéria e fiquei muito entusiasmada com o fato de você ser artista plástica. Sou graduanda do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, no curso de Design de Interiores, e estou buscando parcerias para me auxiliar numa iniciação científica.Trata-se do imaginário erótico representado no ambiente, quero me aprofundar nos estudos sobre as fantasias eróticas contemporâneas, e qual o papel da cenografia na realização desses desejos. Na verdade não sei bem por onde devo começar, minha intenção é ser uma especialista em ambientes eróticos (quartos de casais residenciais, motéis, sex shop’s, boates, e afins)
    Digo que fiquei entusiasmada com sua formação em artes plásticas pois somente um artista é capaz de perceber a proximidade das artes e do erotismo.
    Espero que possa me auxiliar. Ficarei no aguardo de sua resposta e desde já agradeço.
    Atenciosamente. Suzana

Let us talk about
Name and Mail are required
Join the discuss