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Cem edições de “Sexualidade” – escolhas, riscos e vitórias no contínuo processo de libertação | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Cem edições de “Sexualidade” – escolhas, riscos e vitórias no contínuo processo de libertação



Por Géssica Hellmann

Trajetória Pessoal:

Cresci em uma família católica, com numerosos tios, tias e primos, tanto pelo lado materno quanto paterno. Minha mãe um pouco mais expansiva por ter sido criada no seio de uma família com descendência italiana; meu pai um pouco mais fechado por pertencer a uma família de origem alemã. Ambos tiveram papéis fundamentais para minha criação: positivos e negativos, como em toda família.

Nus em movimento por Géssica Hellmann

Nus em movimento por Géssica Hellmann

Fui condicionada desde cedo a tirar “boas notas” na escola, estudar bastante para conseguir um “bom emprego”…. Assim como a ser responsável, educada, não aceitar coisas de estranhos, ir à missa aos domingos…

Pelo menos até minha crisma, a missa dominical rotineira. “Crisma”, para os que não conhecem o ritual católico, é a “Confirmação”, um sacramento da Igreja Católica em que o fiel recebe através do bispo uma unção com óleo, reafirmando a submissão à fé à qual se afiliou no sacramento do batismo.

Como era esperado, cedo comecei a trabalhar em “escritório”, como se dizia então. Na verdade, meu cargo era “auxiliar de caixa” em uma indústria, em regime de oito horas por dia, em troca de um mísero salário mínimo. Lá, aprendi várias coisas positivas, que se refletem no meu caráter. Mas também foi lá que comecei a ver o mundo de uma forma “quadrada”. Ao sair dessa indústria, logo fui trabalhar para outra empresa, também na área financeira. Tive de trabalhar 13 anos com finanças para descobrir que eu tinha medo da felicidade. Mantinha-me nesses empregos porque era seguro, mas não era feliz.

Já na faculdade, observava a “fauna” ao meu redor. Foi lá que comecei a transgredir alguns conceitos – ou melhor, a mostrar minha vida interior, o que as pessoas aparentemente ignoravam. Lembro-me do furor quando apresentei um projetos de fotografia com um ensaio fotográfico extremamente sensual.

Que surpresa! Aquela garota que só tirava notas boas e parecia viver enfiada em livros era, na verdade, uma mulher, e corria em suas veias uma energia sexual, como em todo mundo.

Enquanto isso, avós e tios cobravam daquela mesma menina-mulher o “namorado oficial”. Eu tinha “ficantes”, é obvio, mas nenhum que me interessasse apresentar à família. Irritava-me a cobrança, como se fosse uma obrigação social: TER UM NAMORADO.

Admito, isso machucava muito. Algo haveria de errado comigo? Por que tantas cobranças?

Foi nessa mesma época que mergulhei no mundo virtual. Conheci pessoas e, muitas delas, trouxe para a minha vida real. Foi lá que todas aquelas idéias, que aparentemente não deveriam ser ditas no meio social em que eu vivia, foram florescendo, despertando paixões. Comecei a questionar tudo o que era dado como certo “porque sempre foi assim”. Toda a hipocrisia da social em relação à sexualidade, eu a trazia à tona em discussões acaloradas.

Sair do ninho e enfrentar a incredulidade dos normopatas.

Eu buscava a liberdade, buscava a verdadeira felicidade.

Como Freire e Brito (1987) afirmaram: “Risco é sinônimo de liberdade. O máximo de segurança é escravidão”. É preciso, segundo os autores, viver o presente através das coisas que nos dão prazer.

Nesse momento, fiz uma lista: as coisas que gostaria de fazer e as que eu não queria mais na minha vida. Surgiram duas decisções importantes: queria sair de casa para abrir meus horizontes e fazer mestrado em uma área que me libertasse da necessidade de trabalhar em um curral, digo, “escritório”. Durante essa busca, surgiram duas propostas interessantes e, ao mesmo tempo, dois caminhos diferentes: Florianópolis e Rio de Janeiro.

Escolher Florianópolis apresentava várias vantagens: eu já conhecia a cidade, amigos meus moravam lá, fica a apenas duas horas de Joinville, mas faltava alguma coisa…. Foi quando recebi a proposta para fazer um projeto editorial inesperado: falar sobre a sexualidade humana. Isso sim, envolveria risco: mexer com a libido humana. Foi a busca dessa realização, desse sonho maluco, que me fez seguir o caminho do Rio de Janeiro.

Lembro do olhar assustado das pessoas quando souberam que larguei o meu tão “seguro emprego” para viver um sonho. Gaiarsa (2006) explica essa reação: “Os normopatas vêem bem pouco do que os cerca, vêem bem pouco de si mesmos. E esse pouco é sempre o mesmo… O normopata mantém-se boa parte do tempo formulando para si mesmo não-razões (desculpas) para não-ações, pensando em tudo que não fez e em tudo que devia ter feito. Vive buscando de quem é a culpa – ou quem deveria responder por ela”.

Somente uma das minhas irmãs estava sabendo dos meus projetos e, recebi total apoio dela. Só avisei minha mãe de minha decisão uma semana antes da viagem. Comprei passagem aérea, malas prontas, encaixotei o essencial e enviei pelo correio. Havia chegado a hora.

Projetar o sonho em realidade:

Inicialmente com um formato editorial simples, com muita fé e persistência, dei inicio, assessorada pelo Alexei, a essa revista semanal: o GÉH. Erros e acertos, aprendizagem constante, muita pesquisa e muita dedicação transformou aquele projeto inicial em uma realidade.

Nesses dois anos que se passaram, construímos uma família e conquistamos muitas vitórias. Cresci como mulher, me libertei de várias amarras, ampliei meus horizontes e agora me sinto madura para finalmente ingressar no mestrado tão desejado. Preferi vivenciar o que eu pesquisava e estava aprendendo: é preciso vivenciar para fazer sentido.

Essa pesquisa sobre o comportamento humano, a sexualidade, a corporalidade, tudo isso alterou minha forma de ser. Principalmente, foi extremamente importante na minha vida ter acesso aos escritos de Reich. Foi com ele que aprendi a olhar o mundo, as pessoas e a mim mesma de uma forma mais completa. Comecei a entender meus bloqueios, e acima de tudo, me libertar deles. Aprendi a perdoar mágoas antigas, que delas nem me lembrava, mas compuseram toda a minha trajetória, influenciando diretamente a minha personalidade.

Como afirmam Freire e Brito (1987), “conhecer, sem dúvida, é descobrir por nós mesmos, no ato de viver e de se relacionar como próprio corpo, a nossa identidade. Mas é também, ao mesmo tempo, ir além dos limites pessoais, conviver com a natureza social do homem: ser os outros, através da necessidade de comunicação, de relação, de integração e de associação, além da de reprodução. Quando amamos alguém, apesar de tudo o que essa pessoa representa para nós, ainda estamos presos à nossa identidade. A sensação mais pura e perfeita da existência do outro (além da evidência física) é quando alguém nos ama de verdade e nos certificamos, disso, pasmos, gratos e deslumbrados”.

Com o melhoramento da minha percepção corporal pude exorcizar bloqueios antigos. E foi através da arte que desenvolvi o exercício da percepção, é através da arte que expresso as conclusões de meus estudos. Minhas pinturas são uma maneira não-verbal de expressar o que penso e sinto. O teatro e a dança também foram fundamentais para o desenvolvimento da liberdade corporal, para melhor “administrar minhas energias”, como diria Reich.

Ética: o que não aceitei fazer nesse percurso e por quê.

Nesses dois anos surgiram várias sugestões para a linha editorial do GÉH, assim também como propostas de trabalho, algumas aceitei outras não. Mas o que isso tem a ver com o assunto em questão?

No inicio, recebi várias críticas, olhares estranhos: “Uma mulher abordando a sexualidade? Quem é ela? No mínimo, é “fácil” e só pensa em sexo; talvez seja garota de programa, prostituta ou vai ver que só quer dar”!

Sim, eu podia ler esses pensamentos nas mentes e nos olhares das pessoas a quem tentávamos explicar o conceito da revista, pensamentos e olhares que se confirmava, hipocritamente, com piadinhas e “ótimas” sugestões: “Site de garota de programa dá dinheiro sabia? Por que vocês não procuram sex-shops e motéis para patrocinar o seu site?”.

Tentar abrir mentes tão encarceradas parecia um trabalho impossível. A solução foi ignorar e seguir em frente.

Recebi propostas para fazer websites, em boa hora admito, pois a nossa situação econômica naquele período estava no vermelho. Aceitei e fiz com prazer esses trabalhos. Mas surgiram outras propostas também, em que o conflito ético falou mais alto do que a necessidade de dinheiro, por mais desesperadora que fosse. E eu: disse NÃO.

Uma das propostas foi uma oferta para trabalhar como representante em uma área que poderia me abrir vários portas no mercado gráfico. Aceitei pela manhã e recusei logo ao anoitecer. A mesma pessoa que havia me convidado publicou um texto extremamente machista, com agressões verbais violentas a “mulheres loiras”, como se a cor dos cabelos nos transformasse imediatamente em prostitutas. Por mais que precisasse do dinheiro, eu não suportaria trabalhar com uma pessoa que me tratasse como um ser inferior.

No inicio deste ano de 2007, recebi duas propostas quase simultâneas. Uma a de trabalhar em uma instituição não-governamental de apoio a soropositivos. Outra, a de fazer um website, que envolveria um bom retorno financeiro, mas que, na verdade, era um site de agenciamento de garotas de programa. Há quem faça o trabalho, existem muitos profissionais que não se importariam em fazer esse projeto.

Trabalhar voluntariamente contribuindo para fazer o bem, um ato de solidariedade ou ganhar dinheiro fazendo um projeto que apoiaria um trabalho ilegal? Não foi moralismo que me fez declinar a segunda proposta, e sim o fato da “ilegalidade”. Não sou contra nem a favor da prostituição. Sou contra a exploração sexual. Impedir que exista uma “profissão” tão antiga quanto essa, é hipocrisia, pois sabemos que existe desde o inicio do patriarcado e do casamento monogâmico. E se ela existe há uma razão para isso.

Mas acima de tudo sei da importância de cada ato, escolha ou caminho que percorri e continuo percorrendo. Abordar a sexualidade sem cair na promiscuidade, identificar cada “Zé ninguém”, fazê-lo olhar-se no espelho e se reconhecer é uma tarefa enriquecedora. Libertar-se e ajudar outros a se libertar é uma missão de vida.

Centésima edição de sexualidade: conquista de novas oportunidades

Aqui estamos, na centésima edição dessa revista. Com um enriquecimento cultural, intelectual e vivencial. Sentimos novamente – agora falo no plural, porque formamos uma equipe – a necessidade de estar em movimento. De continuar crescendo como seres humanos, de continuar em constante aprendizagem.

Nada é mais como fora ontem. Tudo é mutável. E nós precisamos continuar evoluindo. Brindamos essa edição com novos projetos para esse período de nossas vidas: Mestrado, Doutorado, novos trabalhos em uma nova morada. Aceitando o risco como parte do contínuo processo de liberdade.

O Géh com 40 mil visitações mensais (estimado), com um banco de dados de mais de 500 mil palavras, 2 mil imagens é referência nos temas que se propôs: Arte, Sexualidade e Corporalidade. Fruto de muito trabalho e dedicação.

Posso dizer que hoje sei qual é o gosto da liberdade, da felicidade e do prazer. Essas conquistas foram importantes para meu o amadurecimento. Valorizo tudo o que tenho, o que aprendi, o que mudei, o que conquistei, o que vivi. Cada erro e cada acerto fizeram parte desse processo de libertação.

Viver é um eterno caminhar, é estar sempre em movimento. Como diria Gaiarsa (2006) “o próprio caminho é feito a cada passo”. E é assim que nos movemos rumo a novas realizações.

Bibliografia

Freire, Roberto. Brito, Fausto. Utopia e Paixão: A política do cotidiano. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

Gaiarsa, José Ângelo. Meio século de psicoterapia verbal e corporal. São Paulo: Ágora, 2006.

One Response “Cem edições de “Sexualidade” – escolhas, riscos e vitórias no contínuo processo de libertação”

  1. Vanny says:

    Me indentifiquei com seu relato e complemento dizendo que eu apesar das castrações vividas pela educação aprendi com a propria vida passando por varios traumas um deles foi aos 15 anos um amigo forçou a barra e o que pensei:o que vale esse pedacinho de carne?-nada… respondi para mim mesma.Dezencanei e aos 16 incompleto gravida hoje ele com 28 anos meu orgulho.Preconceito a começar que fui banida de sair com as primas da mesma geração…Taxada de Puta…segui só sem amigas.Nem sabia nada sobre prevenção ou pirulas outra gravidez dessa vez a familia me escondeu no interior quis que abortasse porque um filho achava um casamento e com dois impossivél.Enfim concluir meu curso de Tecnico em Turismo e para meu terror perdi meu patrio poder de exercer minha maternidade e criar do meu jeito meus filhos minha genitora alegou disturbio d comportamento levou algumas receitas e como nunca soube foi a revelia.E amadurecia convivendo com a falta de afetividade que ate hoje imperara no meio em que fui e eles criados.Fui me descobrindo aos poucos varios relacionamentos turbulentos.GORA PESQUISANDO SOBRE SEXUALIDADE LIVRE OU O TAL DO RELACIONAMENTO ABERTO porque o parceiro queria em sua fantasia me ver com outros homens ..pirei ate hoje vou a psicologo uscar respostas fiz esse log como laboratorio de pesquisa tentar saber como fica a relaçao o respeito a cumplicidade o ciume as responsabilidades fora de quatro paredes e se esse clube de seres além fronteira da hipocresia estava dando certo no amadurecimento e na discoberta de sua propria sexualidade.Respostas não me convenceram afazer parte do MEIO…mas me redescobrir uma mulher sensual cheia de encantos que antes eram ofuscados e assim graças aminha grande vontade de posar nua numa revista famosa fui fazendo caras e bocas e pincelei de poesias o meu LOG afim de que naquele ambiente cujo foco é o prazer o gozo a liberalidade a fuga das castrações e preconceitos…SIgo acreditando nobelo na sexualidde sem promiscuidade sei separar a ilusão do amor do sexo como fazem nossos Machos.Acredito na lealdade no amor da vida a dois na paz e no consenso de negociações do respeito pela individualidade do outro.HÁ AINDA NAO ME SINTO PREPARADA PARA UMA DP…MAS ME SINTO TENTADA E SE ACONTECER VOU CONSCIÊNTE QUE EU QUERO E ASSIM COMO SE EXPERIMENTA A DOR DO PARTO PODE SER UMA UNICA OU VIRÃO VARIAS.ESPIRITUOSA COMO SOU SEI ATÉ ONDE ME PERMITIR.Vanny em 03/03/2009 SSA/BA/BRASIL.01:29hs.

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