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Energia e consciência – sobre a violência doméstica contra a mulher | Sexualidade by géh

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Energia e consciência – sobre a violência doméstica contra a mulher



Por Dayse Mara Bortoli
Psicoterapeuta

A energia psíquica, as pulsões são fundamentais para que o ser humano expresse suas sensações e sentimentos, perceba o mundo ao seu redor e através de atitudes de comportamento procure ser feliz e ter prazer.

A limited independence por Ni Ketut

A limited independence por Ni Ketut

É certo que esse prazer não é o mesmo que prazer imediato, aquele alheio ao respeito e necessidades do outro. Para tal, o funcionamento natural do ser humano é o da aprendizagem através de relações afetivas sobre valores éticos e morais. O ego ideal é formado através da construção do superego, no dia a dia da criança com adultos de referência, sendo valorizado, respeitado como ser em desenvolvimento, onde suas pulsões naturais de vida são livremente expressas. Com esse desenvolvimento imbuído de relações afetivas de liberdade e respeito às pulsões naturais, se desenvolve a saúde e o investimento energético da pessoa é canalizado para projetos de vida e busca de felicidade.

Por outro lado quando essas pulsões são proibidas como coisas más ou imorais, a criança não entende que seu desejo não é adequado, retrai-se ou torna-se uma agente de agressões. A saúde e a doença estão intimamente ligadas ao nível de energia ou pulsão que o individuo se apropria para si, de forma consciente, com poder quanto a sua própria vida e felicidade.

Quando essa energia não está disponível para nossos projetos e nossa vida, de forma consciente, fica a mercê do que é necessário para a proteção do sistema, sistema esse vulnerável às feridas emocionais. É como se a não apropriação da própria energia, o não assumir seus desejos e pulsões o levassem a um caminho onde se fica vulnerável a projeções, e todo tipo de defesas por não suportar a intensidade desses mesmos desejos. O caminho então se torna antinatural e o leva para longe de si mesmo, perdido nas brumas entre o eu e o outro.

Vemos Milhares de mulheres no Brasil, vítimas de violência doméstica. Mulheres que não conseguem sair de relações destrutivas ou se fortalecerem como pessoas humanas devido à percepção inadequada que tem de si mesmas. A energia diária de suas vidas que seria utilizada para projetos pessoais, é consumida no sentido de poderem sobreviver em relações de dor e frustração. Utilizam forças internas na tentativa de permanecerem na relação acreditando que se “se esforçarem”, e “serem boazinhas” as coisas melhoram. Essa situação cotidiana, que tira a mulher da sua naturalidade e espontaneidade é de muito esforço energético e libidinal.

Projetam as suas força no homem que as violentam dia a dia, sem se darem conta que se eles assim o fazem é em função de sentimentos de insegurança, menos valia fracasso. Esses homens precisam ser violentos para provarem alguma força, algum valor.

Mulheres que não se dão conta que são elas que têm a responsabilidade do cuidado com os filhos, com a casa, com o aluguel, água, luz, etc., que são competentes perante suas vidas. Mulheres que projetaram naquele relacionamento o sonho do amor romântico, do príncipe encantado e esperam, com esperança que esse príncipe reapareça e que tudo em seu mundo de violência se transforme em amor. Amam quem também é o agente da violência, projetam para sobreviverem.

Atualmente vemos que já houve uma mudança no feminino. Temos ministras, governadoras, ativistas e também presidenciáveis. Mulheres, inteligentes, senhoras de seu destino e cientes de que o feminino e masculino interiores são polaridades que podem coexistir harmonicamente. As potencialidades interiores podem ser colocadas a serviço das transformações sociais, econômicas e políticas de nosso tempo. Mulheres que se identificam com seu animus, com suas qualidades de planejamento, força, racionalização, objetividade e lógica. O problema é que ainda essas mulheres são uma minoria. A maior massa da população ainda se enquadra no modelo chauvinista, misógino e machista dos séculos anteriores e por essa razão se deixam escravizar e violentar facilmente, e não conseguem saídas desse ciclo de violência que passa de geração a geração.

Há a necessidade de mulheres que conheçam a si mesmas, seu interior, seu animus, enquanto sistemas de proteção à vida que devem ser trabalhados de forma pedagógica e terapêutica. Somente a proteção social da mulher e a responsabilização do homem não mudam o quadro violento que se amplia diariamente em nosso país.

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