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Narcisismo | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Narcisismo



por Géssica Hellmann

Este breve resumo do conceito de narcisismo começa pela mitologia grega, abre caminho pelas variações no conceito psicanalítico e desdobra-se pela arte literária.

Narcissus por William T. Ayton

Narcissus por William T. Ayton

O mito

Narciso foi fruto do estupro de sua mãe, Liríope, pelo deus dos rios, Céfiso. Por sua beleza extraordinária, os pais consultam o adivinho Tirésio sobre o futuro da criança. O adivinho respondeu-lhes que Narciso viveria muitos anos se não viesse a conhecer a si mesmo. Narciso torna-se um jovem belíssimo. A ninfa Ecos ao vê-lo pela primeira vez se apaixona perdidamente por Narciso e ele a rejeita. (Dicionário de mitologia greco-romana, 1973)

Então, Narciso é punido, condenado a apaixonar-se por sua própria imagem refletida na água. Tenta abraçar e beijar a imagem refletida mas, quando percebe que é a sua própria imagem, desespera-se e percebe que deve morrer, já que não consegue alcançar o objeto desejado.

“Sou uma flor arrancada”, “Que a morte venha rápido”. Finalmente sente compaixão por outra pessoa: “Aquele que amei deve continuar vivo. Deve sobreviver a mim, sem culpa”. Mas ele sabe que é impossível: ao suicidar-se, estaria matando seu objeto amado, seu próprio reflexo. Quando morre, ele sofre uma metamorfose e se transforma em uma linda flor, de bulbo delicado e com um perfume sedutor. (Holmes, 2005)

As variações no conceito psicanalítico

Holmes (2005) afirma que Freud diferenciava tipos de narcisismo: o primário, desenvolvido na primeira infância, e o secundário “que os indivíduos acometidos se vêem, por regressão, como objetos primordiais de amor, em vez de outras pessoas”.

Para Araújo (2007), “o narcisismo infantil coincide com o surgimento do ego enquanto unidade psíquica e representação do corpo”. Afirma também que “Lacan denominará ‘fase do espelho’ a esse momento da constituição egóica, em que a criança é apresentada à imagem de si mesma, a qual recebe com júbilo. É que ela pode ver-se através do espelho, por uma imagem integrada, antecipatória do que virá no futuro: uma organização do seu esquema corporal ainda incipiente”.

A fase do espelho resume o interesse lúdico de que a criança dá mostras, entre os seis e os dezoito meses, por sua imagem especular, “aspecto pelo qual a criança se distingue, certamente, do animal. Reconhece sua imagem, se interessa por ela, e esse é um fato que, podemos admitir, é observável. Ao mesmo tempo que a criança reconhece a própria imagem, exulta, ao mesmo tempo reconhece a existência de um outro, pois está em déficit em relação a ela. Isso levou Lacan à idéia de que a alienação imaginária (o fato de se identificar com a imagem de um outro), é constitutiva do eu no desenvolvimento do ser humano”. (Miller 1988).

Freud via no homossexualismo, na psicose e na hipocondria exemplos de narcisismos secundários em que a libido é dirigida para o eu, e não para fora, para outros.

Holmes (2005) afirma que estas distinções banais entre homossexualismo e heterossexualismo são muito antiquadas, pois muitos homessexuais podem estabelecer relacionamentos maduros, enquanto a escolha heterossexual, não raramente, pode ser narcisista, onde se exibe o companheiro como um objeto de ostentação.
Atualmente, a questão do narcisismo ganhou importância diferencia com a “psicologia do self”, de Khout. Ele afirmou que se devia abandonar a idéia freudiana de uma linha de desenvolvimento única, que iria do narcisismo para a relação de objeto: o narcisismo seria, antes, um eixo da estrutura psíquica e, portanto, haveria um narcisismo normal e outro patológico; mas não um “primário” e um “secundário”.

Khout afirma que, em vez de encarar o narcisismo como algo negativo, característico dos doentes mentais, o narcisismo é uma precondição de uma vida feliz, aí incluídas as relações de objeto. O fenômeno do narcisismo secundário deveria ser considerado um “produto de decomposição” do processo normal da maturação narcísica. (Holmes, 2005).

Em seu livro o autor apresenta uma perspectiva de integração e o aparecimento das metamorfoses do narcisismo:

- Primeira fase (primeiro ano de vida) – sentimento seguro de um eu criativo em relação com o outro receptivo: A importância nesta fase é a sintonia dos pais em relação à criança: se tratada com a devoção normal dos pais, a criança sente-se especial e única. Os pais aos poucos ajudam-na a ter contato com o mundo e a confiar que ela será recebida com alegria, instituindo assim os primeiros passos da auto-estima, ou o que chamamos de narcisismo saudável. Por outro lado se ocorrer o inverso, pais ausentes, ou extremamente sufocantes, a criança tende a ter um temperamento difícil.

- Segunda fase (segundo ano de vida) – investimento narcísico no corpo e seus poderes crescentes: O exibicionismo surge nesta fase, quando elas começam a andar, falar, explorar o mundo e querem a aprovação e o encorajamento de seus pais. A criança se deleita com o olhar de admiração e aprovação dos pais. Quando ocorre o contrário, pais insensíveis, agressivos ou deprimidos, que não percebem a necessidade do filho de se irradiar, criam um filho com baixa estima, vergonha e decepção consigo mesmo, característica de crianças que são feridas em seu narcisismo.

- Terceira fase (terceiro ano de vida) – frustração ideal: a criança em seu narcisismo individual passa a se incluir no narcisismo social. Sem este processo, a negação da realidade ameaça persistir.

- Quarta fase (adolescência) – idéias e ambições: Adolescentes sadios tem heróis, esperanças, sonhos, ambições. O adolescente com narcisismo ferido é deprimido, sente-se condenado, oprimido pela morte. O corpo pode tornar-se uma fonte de prazer e orgulho ou um estorvo odiado que leva à raiva de si mesmo e do mundo.

- Quinta fase (vida adulta) – transferência do narcisismo para a geração seguinte: O adulto sadio começa a conhecer suas forças e suas limitações, sente-se bem consigo mesmo, em seus relacionamentos. Suas esperanças narcisistas são investidas nos filhos. Os ideais frustrados são substituídos pelo amor à verdade. Já o narcisista negativo, doentio, torna-se egocêntrico,o provocando inveja e sentindo desprezo pelos outros.

- Sexta fase (vida madura) – assimilação da sabedoria: para Kohut a constituição saudável faz o ser humano ver e aceitar o mundo como ele realmente é, tornando-o capaz de aceitar a realidade da morte. Sem a ocorrência destas metamorfoses, a entrada na meia-idade pode ser desesperadora, hipocondríaca, destrutiva, exercendo uma tirania sobre seus relacionamentos.

Segundo Holmes (2005) essas seriam as fases de transformação do narcisismo, que pode tanto ser saudável quanto patológico.

Reflexões narcisistas na arte literária

Em seu livro sobre narcisismo Holmes (2005) cita alguns versos do soneto 62 de Shakespeare:

“O pecado do amor-próprio se apossa de todo o meu olhar
E de toda a minha alma e de todas as partes minhas;
E para esse pecado remédio não há,
Ele está bem enraizado no meu coração.” (62:1-4)

“Sei que não existe rosto tão belo quanto o meu [...]
E os meus méritos os de todos superam” (62:5,8)

“Mas quando o espelho me mostra como sou,
Alquebrado e vincado de curtida velhice,
Vejo bem de outro modo meu amor-próprio:
Eu, de modo que amar a mim seria iníquo”. (62:9-12)

“És tu, meu eu, que por mim enalteço,
Pintando minha idade com a beleza dos teus dias.” (62:13-14)

O autor questiona: Seria mesmo pecado o amor-próprio? O narcisismo saudável precisa estar “enraizado no coração”, se pretende atingir seu fim. Mas, se o narcisista só tiver olhos para si, está perdido pois, segundo o autor, se consome de inveja e tem de se incentivar constantemente por comparação com os outros. Quando chega a velhice, o amor-próprio tende a se transformar em aversão a si próprio.

O autor afirma também que a solução para o narcisismo é amar outra pessoa. O amor pode tanto destruir quanto preservar o narcisismo.

Quanto à “tinta teatral”, podemos fazer uma comparação com a maquiagem, as cirurgias plásticas e os cremes “rejuvenescedores”: todos são metamorfoses da real idade.

Segundo Holmes (2005), existem três modos narcisistas de amar:

(a) o que ela é (ou seja ela mesma)

(b) o que ela foi

(c) o que ela gostaria de ser

Em “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, o autor explora essas três variedades freudianas.

Oscar Wilde questiona a existência dos valores morais, no mito da eterna juventude, e nos conflitos e desejos. Neste romance, Wilde faz referências ao mito de Narciso e ao de Fausto, em que o sujeito, em prol dos prazeres mundanos, vende sua alma em um pacto com o demônio.

O primeiro personagem que aparece é personagem dominador e inescrupuloso “Lord Henry” admirando a beleza de uma árvore. O segundo, não é Dorian, mas seu retrato, mais importante que ele mesmo. O terceiro personagem é Basil Hallward, o pintor que se apaixona narcisicamente pelo retrato pintado.

“O pintor explica o efeito desta beleza sobre ele: cada retrato pintado com emoção é o retrato do artista, não do modelo. Isto é, o pintor se encontrou narcisicamente em Dorian”. (Laberge, 2007).

A partir deste ponto inicia-se o percurso de devassidão de Dorian, que vende sua alma pela eterna juventude e beleza, enquanto, em contrapartida, o retrato revelaria seu verdadeiro eu.

Quando Dorian perde totalmente seus escrúpulos, cometendo crimes horríveis, o pintor, na tentativa de fazê-lo emendar-se, vai ter com ele. Dorian confronta o pintor com o desespero do narcisista e mostra-lhe o retrato, o seu verdadeiro eu, depois mata-o com uma faca. Mais tarde, tenta emendar-se, deixando de explorar outra mulher que cruza seu caminho. Volta a rever o quadro para ver se algo havia mudado ou suavizado em seu retrato. Mas seus pecados eram grandes demais para que apenas um ato suavizasse a feiúra de sua alma retratada. Enlouquecido, enfia uma faca no quadro mágico e cai morto ao lado da tela. Na manhã seguinte é encontrado por seus criados, um homem envelhecido e morto ao lado de um retrato intacto que exibia a beleza exuberante pintada 20 anos antes.

Holmes (2005) afirma que o narcisista tem a propensão de se tornar suicida quando entra em um colapso narcisíco.

Na música de Caetano Veloso, “Sampa”:

“Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”

Ele canta um narciso maduro que não quis se deparar com o mundo real: preferia ver fantasia ou seu “eu ideal”.

O narcisismo patológico não deixa de ser também a peste emocional denunciada por Reich. Você sofre e impõe sofrimento aos outros por não querer ver a si mesmo e a sua própria doença.

Como vimos, a corrente contemporânea de Kohut sobre o conceito de narcisismo afirma que todos passamos por e, dependendo de como lidamos com a situação, a resultante pode ser um narcisismo saudável ou patológico.

Poderíamos chamar de “narcisismo” à doenças da moda: “anorexia” e “bulimia”? Poderíamos chamar também de “narcisismo” os crimes cometidos pelos políticos corruptos, ao desviar a verbas públicas, dando vazão apenas ao seu egoísmo extremo? E o ato o pedófilo, daquele adulto que pensa apenas em seu próprio prazer, pouco se importando com o outro indefeso, sem importar-se com freios éticos? Eram narcisistas os nazistas, ao se considerarem pertencentes a uma “raça ariana”, superior às demais?

Seja qual for o termo psicanalítico relacionado às minhas indagações, uma coisa é certa: a peste emocional continua à solta, a sociedade continua, sem remorsos, passando adiante sua doença.

O amor próprio é base para amar o outro.

Bibliografia

Araújo, João Carlos de. Narcisismo e relação narcísica de objeto. Disponível em: http://br.geocities.com/jcdaraujo/narcisismo.html. Acessado em: 15/06/2007.

Dicionário da mitologia greco-romana. São Paulo: Abril, 1976.

Holmes, Jeremy. Conceitos da psicanálise – Narcisismo. Rio de Janeiro: Relume Dumará : Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.

Laberge, Jacques. A beleza em O Retrato de Dorian Gray. Disponível em: http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/art019.htm. Acessado em: 15/06/2007.

Miller, Jacques-Alain. Percurso de Lacan uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

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