Quer mais visitas para seu site? Contrate um blog corporativo para sua empresa! Entre em contato!
Géssica Hellmann
E-mail: geh@gehspace.com
http://redegehspace.gehspace.com
Redescoberta do ser feminino
Desde as primeiras edições desta revista, procuro analisar minuciosamente a sexualidade humana em seus mais diversos aspectos: históricos, antropológicos, biológicos e, principalmente, psicanalíticos. No decorrer desse processo de estudo, percebi a existência de diversas correntes teóricas que separam corpo e sexualidade, tratando esta última como uma “abstração”. É Reich quem nos aponta esse equívoco: alma (consciência) e corpo não podem ser divorciados, ou seja, a sexualidade reflete-se no corpo, é um “evento corporal”.

Pedaços de mim - Cláudia Perroti
Já apresentei, em diversos artigos publicados neste site, alguns conceitos psicanalíticos fundamentais. Grifo, aqui, uma crítica pessoal: a “pomposidade” da terminologia empregada em grande parte dos textos psicanalíticos, tornando complexo o que poderia ser dito em uma simples frase. Esse é uns dos motivos de minha preferência pela escola reichiana.
Na primeira vez em que tive contato com o texto introdutório de Rose Marie Muraro à edição brasileira do “Malleus Maleficarum”, na qual ela afirma que, na sociedade matriarcal, o homem sentia “inveja do útero” e, na sociedade patriarcal, a mulher inveja o pênis, o conceito de castração rodeava meus pensamentos.
Mulher: um ser castrado? Um “furo na fala”, como preferem os lacanianos?
Como mulher, não me sinto incompleta como se algo me faltasse, ou no caso, uma “mulher sem pênis”. Não seria o homem então um ser sem peito ou vagina? Quem seria realmente castrado: a mulher, o homem, a sociedade?
Cito Gaiarsa (1984) em seu livro “O Espelho Mágico”, no qual ele faz uma reflexão sobre “nós diante dos outros, sobre os outros face a nós e, principalmente, sobre cada um de nós em confronto com o seu próprio eu”. Segundo o autor a “alma é aquilo que eu acho que estou mostrando” e o “corpo é aquilo que o outro vê em mim”.
Até onde o modo como me sinto (vejo) é igual ao que os outros me vêem? Será a mulher um ser realmente castrado ou será a sociedade que nela projeta este sentimento?
A psicanálise, em seu trono majestoso, adora atribuir conceitos universais a quase tudo o que se refere à sexualidade. Somos indivíduos únicos e, por isso mesmo, com necessidades diferentes uns dos outros.
Sim, é claro que necessitamos da “sociabilidade”, de conversar e conviver com outras pessoas. Assim, também como precisamos de água e comida para sobreviver. Agora, seria eu “incompleta” por não ter um parceiro ou parceira?
Lembro-me então do que a “peste emocional” – essa doença da massa – é capaz de gerar: violências, genocídios, guerras, ou seja, a Inquisição e suas várias máscaras. Como um ser vivo pode alimentar tanto ódio contra o sexo oposto – contra o que lhe é diferente?
Não discuto que a Inquisição foi um momento de loucura coletiva. Mas que fatores favoreceram a manifestação dessa insanidade? No caso da perseguição aos cátaros e aos judeus, tratavam-se de grupos sociais que acumularam grande riqueza. Assim é relativamente simples identificar motivações econômicas por trás da inquisição na França do século XIII e na Espanha dos séculos XV e XVI.
Mas o que dizer sobre a “caça as bruxas” empreendida até mesmo pelos protestantes alemães e ingleses no Novo Mundo? Não havia motivação econômica aparente. Um genocídio em massa contra as fêmeas é uma aberração em qualquer espécie animal. Que reais motivos teriam despertado tanta misoginia?
“As idéias fundamentais da Inquisição eram a de que o demônio, procurando fazer o mal aos homens, o faria através do corpo, através do controle da sexualidade. Pois foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a sexualidade é o ponto mais vulnerável de todos os homens. Como as mulheres seriam mais suscetíveis ao erotismo e à sexualidade, tornar-se-iam alvos fáceis para a corrupção e a bruxaria” (Hellmann, 2007).
Como já havia dito inicialmente, procuro empreender uma análise minuciosa para me levar a um melhor entendimento do comportamento humano no que se refere à sexualidade. A partir desses questionamentos, mergulhei em um tempo mais longínquo, a “sociedade primitiva”, a “era matriarcal”, no dizer de Bachofen, o primeiro autor a publicar pesquisas sobre a existência do matriarcado.
Seus escritos levaram outros pensadores a se embrenhar neste campo de estudo: desde Engels a Freud e, posteriormente, por antropólogos como Malinowski, Durkheim, mitólogos como Joseph Campbell e pensadores como José Ortega, Morgan, entre outros.
Um dos primeiros textos sobre o matriarcado a me cair nas mãos, o da pesquisadora alemã Heide Göttner-Abendroth, provocou uma sede por beber destas fontes. Heide tem um PhD em filosofia pela Universidade de Munique na área “Lógica da interpretação”. Há mais de trinta anos é pesquisadora independente da origem do matriarcado. Também é fundadora e diretora da “International Academy Hagia” dedicada aos estudos do matriarcado.
Em um de seus artigos, ela apresenta a sua metodologia de pesquisa e um breve resumo dos conceitos por trás do termo “matriarchy”, instigando ao leitor a pesquisar mais sobre o tema. Suas quinze publicações em alemão sobre suas pesquisas, nos faz perceber sua paixão pelo ser feminino e pela busca de um melhor entendimento do comportamento humano. Através dela, cheguei a Bachofen e Morgan.
Morgan (1976), em seu livro “A sociedade primitiva”, relata outras formas de “família”, algumas muito anteriores à “família patriarcal”. Entre elas temos:
1) consangüínea – casamento entre irmãos e irmãs no seio de um grupo;
2) a punaluana – casamento entre certo número de irmãos, cada um com as esposas de todos os outros. Irmãos neste contexto referem-se a primos em primeiro, segundo e terceiro grau;
3) sindiásmica ou por pares – baseava-se no acasalamento pelo matrimonio de um homem e uma mulher sem coabitação exclusiva;
4) patriarcal – casamento de um homem com varias mulheres. Surgiu entre as tribos pastoris hebraicas, cujos chefes e personalidades mais importantes praticavam a poligamia;
5) monogâmica – casamento de um só homem com uma só mulher com coabitação.
Outra questão importante apontada por Morgan é a organização familiar. Segundo o autor, antes da divisão pela “gens” (parentesco), existia a divisão social por sexo. A primeira é substituída pela segunda quando atinge seu pleno desenvolvimento. A filiação, na “sociedade primitiva”, seguiria por linha materna pois, como não havia casamento monogâmico, era praticamente impossível provar a paternidade.
Ao estudar esses primeiros textos, logo percebo que a mulher na sociedade matriarcal era um ser completo, sua sexualidade era natural, bela e divina. Então, quando o que é natural começou a ser pecado, proibido? Quando surge a “peste emocional” – ou a “normopatia”, segundo Gaiarsa?
Reich afirma que negamos a sexualidade natural de Cristo crucificando-o; e que negamos a Maria, sua mãe, transformando-a em um ser assexuado e virgem.
Com esses questionamentos, mergulho na antropologia e na história do matriarcado em busca de respostas. De uma forma oblíqua, já tenho exposto muitos desses conceitos através das minhas pinturas.
Um amigo, também artista plástico, questionou-me sobre minha forma de retratar o ser feminino nas pinturas e é claro atiçando-me a escrever sobre isto. As mulheres que retrato, são mulheres completas, “peitudas e vaginudas”, como a Deusa. Os seios não procuram ser necessariamente maternais, o corpo é completo, sexualizado, com uma carga erótica sem necessariamente dirigir-se à libido. Entendo a mulher, do mesmo modo que o homem, como um ser completo e sexual.
Em busca do entendimento da analogia da castração à história primitiva da sexualidade, convido meus leitores a analisar comigo, nos próximos artigos, os resultados desta deliciosa exploração da redescoberta do ser feminino e da sexualidade tal como hoje se apresenta.
Bibliografia:
Gaiarsa, José Ângelo. O espelho mágico: um fenômeno social chamado corpo e alma. 10 ed, Summus, São Paulo, 1984.
Hellmann, Géssica. Da deusa a bruxa. Disponível em: . Acessado em: 28/06/2007.
Morgan. Lewis H. A sociedade primitiva. Volume I, 2 ed, Editorial Presença Lisboa Portugal, Martins Fontes Brasil, 1976.







