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Géssica Hellmann
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Seguindo os passos de Reich na busca pelo entendimento do papel da corporalidade na sexualidade (parte I)
Wilhelm Reich, antes de se tornar membro da Sociedade Psicanalítica de Viena em outubro de 1920, já havia adquirido extenso conhecimento no campo da ciência natural e da filosofia natural.

Clandestine Libido por Ramaz Razmadze
Entende-se por:
“Ciência Natural: o conhecimento é fundamentado na observação e experiência. Formulam-se hipóteses baseadas na percepção sensorial. Sobre as hipóteses estabelecem-se, dedutivamente conseqüências. As conseqüências serão aceitas como verdadeiras, se confirmadas pela observação e experiência – pela percepção sensorial” (Gregório, 2007).
“A filosofia natural é o estudo racional da natureza. Isto significa, a natureza do ponto de vista de sua especificidade substancial e de suas propriedades, usando o pensamento meramente raciocinativo” (Introdução, 2007).
Segundo Reich, seu encontro com a sexologia foi por acaso. Em janeiro de 1919, alguém fez circular um panfleto que pedia aos estudantes interessados que organizassem um seminário. Reich compareceu às primeiras reuniões sem participar diretamente dos debates e sentiu que o que falavam não soava natural.
“A sexualidade natural não parecia absolutamente existir; o inconsciente estava apenas cheio de instintos perversos” (Reich, 1991).
A psicanálise segundo o autor, negava a existência de um erotismo vaginal, atribuindo à sexualidade feminina uma complicada combinação de outros instintos.
Nesse período, Reich teve contato com vários trabalhos sobre sexologia de autores como Bloch, Back, Forel, Taruffi, Jung e, finalmente, Freud. “Os ‘Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade’ e as ‘Conferências Introdutórias sobre Psicanálise’, de Freud, decidiram a escolha de minha profissão”.
Antes de mergulhar de cabeça na psicanálise, Reich adquiriu um bom conhecimento básico geral de ciência e filosofia natural. Muitas contradições e perguntas sem respostas surgiam em sua busca para entender a fundo a psicanálise e o funcionamento da sexualidade do ser humano. Para isto estudou as teorias de Moll, Driesch – que achou um tanto confuso – e aprofundou-se nas obras de Bergson: ‘Matéria e memória”, ‘Tempo e Liberdade’ e ‘A evolução criadora’.
Nesse estudo, descobriu-se diante de duas vertentes: os “vitalistas” e os “mecanicistas”. O primeiro grupo acreditava no principio de uma força criativa governando a vida. Esta explicação, apesar de plausível, não parecia satisfatória na medida que não podia ser “tocada”. Já os mecanicistas “cortavam a vida em pedaços” antes de procurar compreendê-la.
Reich, como médico, considerava-se mecanicista. Ele dominava a anatomia do cérebro e de todo o sistema nervoso. Sentia-se fascinado por sua complexidade e, ao mesmo tempo, sentia-se arrastado para a metafísica. Somente muito tarde em sua carreira sentiu ter conseguido solucionar a contradição entre mecanicismo e vitalismo. Esses primeiros estágios foram muito importantes para que finalmente ele pudesse compreender as teorias freudianas.
Reich descobria então, o quão diferentemente cada um dos cientistas encarava a sexualidade. Com exceção de Freud, os demais acreditavam que uma “sexualidade vinda de um céu azul sem nuvens surpreendia o homem na puberdade”. Sexualidade e procriação eram encaradas como a mesma coisa.
“A tensão e a relaxação sexual eram atribuídas a diferentes instintos especiais”. Até a moralidade era, na época, encarada como um instinto. Um período terrivelmente ético segundo Reich. As perversões sexuais eram encaradas como “coisas do diabo”. Supunha-se que uma pessoa que sofria de depressão tinha uma “mancha hereditária”, ou seja, era “má”. Os pacientes mentais e os criminosos eram considerados “biologicamente manchados”.
“Nada se sabia das enfermidades psíquicas ou sexuais” e as lacunas eram preenchidas com uma moral desprezível. “O instinto sexual levava uma existência estéril no campo da ciência”. (Reich, 1991).
Essa era a atmosfera no campo da sexologia e da psiquiatria antes de Freud. Segundo Reich, Freud abriu uma longa estrada para a compreensão da sexualidade, deixando claro que sexualidade e procriação não eram a mesma coisa, pois a experiência sexual inclui muito mais do que a experiência genital. Os escritores pré-freudianos empregaram o conceito de libido para definir o desejo consciente da atividade sexual.
Para Freud, o instinto não é consciente, manifesta-se como um impulso emocional em busca de uma satisfação. A libido de Freud difere da libido pré-freudiana. A libido de Freud não pode ser inteiramente entendida por não ser consciente, ela seria a energia do instinto sexual. A idéia de energia atraía Reich.
Nos livros sobre anatomia da época, nada se dizia sobre como os órgãos sexuais se relacionavam com o sistema nervoso autônomo e pouco se dizia também sobre sua relação com os hormônios sexuais.
Baseando-se em seus estudos biológicos e seguindo a definição freudiana de instinto, Reich investigou a tensão sexual: a relação prazer-desprazer. A tensão, segundo a concepção habitual, tende sempre a ser desagradável, somente a relaxação causaria prazer. No caso da sexualidade, entretanto, as coisas pareciam não ocorrer exatamente assim. Reich interpretou esse impasse entendendo que a antecipação mental do prazer não somente gera tensão, mas descarrega excitação sexual em pequena quantidade, até finalmente atingir o clímax e a descarga total da tensão.
Nos próximos artigos, veremos como Reich procurou preencher as várias lacunas na psicologia e na teoria do sexualidade.
Bibliografia
Gregório, Sérgio Biagi. Ciência e Espiritismo. Disponível em: http://www.ceismael.com.br/artigo/artigo037.htm. Acessado em: 17/01/2006.
Introdução Geral à filosofia natural. Disponível em: http://www.simpozio.ufsc.br/Port/1-enc/y-micro/SaberFil/FilosNatur/2211y454.html#BM2211y456. Acessado em: 17/01/2006.
Reich, Wilhelm. A função do orgasmo – Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.







