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Géssica Hellmann
E-mail: geh@gehspace.com
http://redegehspace.gehspace.com
Sexualidade, corporalidade e arte – um aprendizado constante
Parece que foi ontem que recebi a proposta para fazer um portal de arte e sexualidade. Os primeiros artigos foram surgindo, ainda que um tanto tímidos. E com a pesquisa neste campo tão carregado de tabus que é a sexualidade fui buscando informações pictóricas em artes visuais, principalmente na pintura, que refletissem os temas da pesquisa.

Exorcismo - Acrílico sobre papel - Géssica Hellmann
Como escrever de modo que meus leitores entendessem facilmente os palavreados acadêmicos no que se referia as teorias psicanalíticas e fatos históricos/políticos sobre a sexualidade? Falar de libido, eros, sem parecer “marciano” ou superficial?
A pesquisa é extensa e contínua. Sim contínua! Quanto mais pesquiso sobre sexualidade e corporalidade, mais percebo na sociedade e, muitas vezes, em mim mesma, o que, usando as palavras de Reich, a “Peste Emocional” provoca nos seres humanos.
Segundo Tosta (2007), “A peste emocional está intrínseca nas sociedades que reprimem a livre educação sexual, ou seja, sociedades que tentam estabelecer o controle alienante sobre os indivíduos, atingindo o ser na sua principal forma de alívio das tensões, garantindo uma redução ou ausência do potencial orgástico, resultando em indivíduos encouraçados, rígidos e incapazes de um saudável metabolismo energético de carga e descarga”.
A peste emocional geralmente aparece velada, por trás de boas intenções, no intuito de ajudar o outro e a sociedade. (Volpi, 2007)
O autor afirma também que um educador acometido por esta doença geralmente alega que as crianças são difíceis de educar e, por isso, seus métodos severos e autoritários são necessários; encontram toda espécie de argumentos superficiais para apoiar sua convicção de que age pelo bem da criança.
Isto me faz do modismo atual de falar em “impor limites”. Os maiores fascistas que já existiram na humanidade tiveram uma criação “tradicional”. Desconheço até o momento, algum “facínora” que tenha sido criado com uma educação libertária.
Muitos fingem que querem ser livres. A liberdade é crua e esbofeteia. Como dizia Reich quando afirmava que dentro de nós há um Zé Ninguém e a basta a nós, e somente a nós, querer libertá-lo, “a segurança é-te mais importante que a verdade” (Reich, 1982, 54)
O autor afirma também “Não és tu que perseques a ‘mãe solteira’ como uma criatura imoral, Zé Ninguém? Não és tu que estabelece uma distinção severa entre as crianças ‘legítimas’ e as crianças ‘ilegítimas’? Pobre criatura que não entendes as tuas próprias palavras – ou não és tu que veneras o Cristo enquanto criança? Cristo menino, que nasceu de uma mãe que não possuia um certificado de casamento? Sem fazeres idéia de que assim seja, como veneras no Cristo criança o teu desejo de liberdade sexual! Fizeste do Cristo criança, nascido ilegitimamente, o filho de Deus, que não reconhece a ilegitimidade das crianças. Para logo em seguida, como Paulo, o apóstolo, perseguir os filhos nascidos do amor e proteger sob a alçada das leis religiosas os nascidos do ódio. És realmente um desgraçado, Zé Ninguém!” (Reich, 1982, 40)
Suas palavras fortes gritam a cada Zé Ninguém que carregamos dentro de nós. Porque carregamos tantos tabus e preconceitos? É tão fácil julgar as pessoas quando não enxergamos o que há dentro de cada um de nós, nossos próprios desejos camuflados!
Vejam, não estou dizendo que as pessoas devem ou não devem “impor limites”, nem em qual medida. Só apresento fatos e deixo a cargo de cada um a melhor maneira de criar seu filho. Peço a Deus sabedoria e iluminação para saber educar meu filho para ser livre desta “doença de massa”, desta sociedade neurótica, com tantos tabus e preconceitos. Que nossos filhos possam aprender a conviver e a respeitar as diferenças. Saibam também respeitar os que ainda preferem viver reprimidos por assim acharem ser mais “seguro” que a responsabilidade da liberdade. Ensinar, acima de tudo, o amor ao próximo.
Segundo Volpi (2007), “O importante é sabermos reconhecer a peste emocional em nós mesmos e nos outros e procurarmos ajuda para isso. Se a humanidade soubesse discernir os momentos em que está se sentindo com a peste emocional, se fizesse respeitar e a tratasse, tudo seria diferente”.
Como vimos nos artigos anteriores, Reich descobriu no corpo um caminho para a cura da neurose sexual e dos problemas originados por ela. Reich mapeou o corpo humano através de um estudo biológico, fisiológico e psicológico.
Reich sempre procurava estabelecer o que era um comportamento natural de um comportamento inatural. Ele em seu trabalho procurava isolar e desmascarar as atitudes de caráter, sempre com o objetivo de liberar as emoções reprimidas. Segundo o autor, desde crianças somos levados a controlar nossos sentimentos; somos tão reprimidos que esquecemos como respirávamos quando éramos bebês e começamos a fazer uma respiração incompleta.
Isto me faz lembrar da última entrevista publicada em corporalidade sobre a prática milenar do Chi Kun que “surgiu da necessidade de certos ‘monges’ – chamamo-los de “monges” por falta de palavra melhor, mas, certamente, eles nem eram exatamente “monges’ – que buscavam a transformação através da observação da Natureza” segundo Felipe Ribeiro Alvares.
Felipe afirma também “Assim, aqueles ‘monges’ a que nos referimos começaram a prestar atenção nos animais que voavam”. Por observação da natureza (do que é natural) criou-se a prática de Chi Kun que é a combinação de um movimento ou postura com a respiração e a concentração. “Chi Kun significa ‘exercitar o sopro’, ‘exercitar a energia’”.
Mas o que isto tem a ver com sexualidade? Muito, eu diria. Nossa sexualidade reflete intimamente em nosso corpo. Criamos couraças musculares como forma de “proteção” do medo da rejeição e traumas de uma educação repressora passada de geração em geração.
Reich em sua pesquisa, descobriu a importância de uma “respiração completa” quando investigava o comportamento natural. O ocidente mais uma vez atrasado em séculos. A cultura oriental a muito tempo já sabia da importância para a saúde do corpo e da mente de uma respiração completa, do desenvolvimento de atividade corporal e do reequilibrio energético.
O Tai Chi Chuan é eficiente na cura de doenças orgânicas e psicóticas, como reumatismo, hipertensão, insônia, depressão, asma, gastrite e enxaqueca – exatamente as doenças que a medicina convencional considera incuráveis. (Kit, 2003).
Doenças estas, segundo vimos no artigo anterior, ocasionadas pelo mau fluxo de energia, ocasionado pelo encouraçamento muscular, originário da repressão sexual, da repressão do que é natural.
Em meu trabalho artístico, busco sempre refletir o meu aprendizado da sexualidade e da corporalidade durante esta caminhada. A arte é um meio de auto-conhecimento. Procuro sempre refletir em minha vida este rico estudo sobre o comportamento humano. As cores, refletidas em minhas pinturas, possuem um vocabulário próprio, pessoal. A algumas cores relaciono energias positivas ou negativas.
Apresento agora algumas pinturas que refletem fortemente a dita “Peste Emocional”.
Tormenta: Nesta pintura o verde representa o bloqueio de energia, ou “encouraçamento do ser”: dúvidas, tabus, medos, preconceitos. Os tons de vermelho representam a energia em sua potência máxima, energia fluente e vital. O amarelo representa forças douradas, forças positivas, solares, construtivas, que têm em seu potencial a evolução do espírito. O preto, neste caso, é o inverso do amarelo: a ausência de luz, uma energia destrutiva.
A boca aberta, como se um grito de socorro escapasse de seu íntimo, faz uma referência e uma suíte com outro trabalho realizado na mesma época: Vaticínio, “A boca como canal de amor ou de ódio”.
As pinceladas fortes e curtas simbolizam a revolução interna que reflete em todo seu corpo, ela quer amar a si mesma, viver sua sexualidade, mas sente medo. Sente-se reprimida, culpada por sentir prazer. Vive em uma sociedade repressora. Ela quer se libertar, mas saberá ela viver em liberdade? Saberá ela viver “curada” em uma sociedade sexualmente neurótica? “Uma pintura dramática que expressa o sentimento de dualidade entre o bem e o mal, o certo e o incerto, num caminho entre a luz e as trevas do próprio ser”.
Rótulos: Qual é a sua identidade? Um ser coberto por rótulos de puro preconceito? Esta obra reflete o preconceito dentro de outros grupos discriminados. Já existe preconceito por ser simplesmente mulher, não importa a classe social. Mas, e quando esta mulher é pobre, negra, mãe solteira, soropositiva, lésbica? Onde ela se encaixa? A que grupo pertence? É possível que, dentro de um grupo de homossexuais, uma mulher soropositiva seja discriminada pelo próprio grupo? Hipocrisia? Não. Hipocrisia seria dizer que preconceito não existe. O que quero refletir com este trabalho é que você e eu, sejam quais forem os rótulos que pendurem em nós, somos maiores do que eles: somos seres humanos, necessitamos de carinho e amor como todos os seres humanos. Ao assinar minha tela em um desses rótulos, estou dando a minha cara a tapa, dispo-me contra mais essa forma de violência.
Peste Emocional – Instintos Perversos: Nesta pintura quase caricata, carregada de símbolos míticos como “A maçã, Eva, Adão e a Serpente”. Porque tanta repressão ao órgão sexual? O que é natural em muitas espécies, no ser humano, parece ser algo inatural, proibido e carregado de medos reprimidos.
Couraça: Camadas de resistências envolvem seu corpo. A energia (verde) bloqueada, cria um grande vazio interno. Seu corpo parece paralisado, enraizado, impedido de sentir a energia vital, de amar e sentir prazer. A energia natural da vida (representada pelo vermelho) está presente mesmo que ele não a sinta. Ele pode mudar esta situação? Pode reaprender a sentir a vida pulsando como algo natural e não perverso? A esperança está em suas mãos.
Estudo do pescoço encouraçado: Estudo sobre peste emocional e encouraçamento dos sentimentos enraizados no pescoço. O verde representa a energia reprimida. O vermelho, a energia pulsante da vida.
Por último gostaria de compartilhar a experiência e o significado da obra “Exorcismo“. Nesta caminhada pesquisando, compartilhando conhecimentos, estudando e aprimorando meu trabalho artístico, encontrei um caminho de auto-conhecimento. Descobri o motivo por trás de certas dificuldades, como falar sobre alguns sentimentos, medo de cantar… Meu corpo todo conseguia sentir a energia, conseguia expressá-la, muitas vezes, através das mãos, da arte, mas era como se não houvesse conexão do meu corpo com minha cabeça, as palavras não surgiam em minha mente e nem em minha boca.
Ao exercitar minha garganta, ao forçar-me a exercícios sugeridos por Reich, sentia as lágrimas já secas e reprimidas há tanto tempo em minha garganta. A musculatura encouraçada. Aos poucos tornei consciente fatos ocorridos na infância que haviam sido “esquecidos” e, que, separados pareciam ter pouca importância, mas, no conjunto, fizeram todo o sentido.
O primeiro passo para a cura é estar ciente da causa e do problema. Nesta pintura exorcizei todas as experiências reprimidas. Aquela menina ressentida que queria receber amor, não sabia que seus pais, por motivos que hoje sei, não sabiam como doar amor. Sim, eles me amavam, mas não sabiam demonstrar, provavelmente por uma educação repressiva. Também é certo que ela merecia ser amada e não se sentir culpada por não ter “mérito” para receber este amor, como ela achava.
Como disse no inicio deste artigo, é uma pesquisa extensa e contínua e uma descoberta nova a cada dia que tenho o grande prazer de compartilhar com vocês.
Bibliografia
Kit, Wong Kiew. O Livro completo do Tai Chi Chuan. São Paulo: Pensamento, 2003. 2a ed.
Reich, Wilhelm. Escuta, Zé Ninguém! Portugal: Martins Fontes Editora, 1982. 10a ed.
Tosta, Francisco. Psicopatologia do trabalho e a peste emocional. Disponível em: <http://www.psicologia.com.pt/artigos/textos/A0329.pdf>. Acessado em: 04/05/2007.
Volpi, José Henrique. Peste emocional. Curitiba: Centro Reichiano, 2003. Disponível em: <http://www.centroreichiano.com.br/artigos/artigo2.pdf>. Acessado em 04/05/2007.







