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Géssica Hellmann
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Sexualidade do povo brasileiro: uma construção de identidade
Que dimensão a sexualidade ocupa na construção na idéia de identidade nacional? O Brasil é um paraíso sexual, com habitantes sexualmente liberais? Este artigo é uma introdução a criação de identidade principalmente no contexto de sexualidade e gênero.

Onde eu estaria feliz por Di Cavalcanti
Segundo Heilborn (2006) dizem “que os brasileiros são ‘quentes’, calorosos e estão sempre prontos a fazer de tudo na cama. Essa noção foi construída historicamente: Segundo relatos, o Brasil-colônia era uma terra “sem rei e sem lei”, com costumes como, por exemplo, o das tribos Tupi (da região costeira), de homens oferecerem suas mulheres a forasteiros como prova de reciprocidade, o que era muito estranho para os europeus. A idéia dos colonizadores era de que o Brasil era um país sem moralidade sexual, com nativos muito sensuais, imagem que foi muitas vezes reproduzida por historiadores e viajantes europeus”.
Nos últimos anos, alguns historiadores questionaram a imagem desregrada da Colônia, produzida pelos observadores dos primeiros séculos da Colonização e pelos intelectuais dos anos vinte e trinta do século passado, encontrando muitas regras, normas e formas de culpabilização, onde outros viram apenas caos e descompromisso. (Rago, 2006).
Um dos intelectuais relatados pela autora foi Paulo Prado:
“Em seu ensaio inaugural de 1928, ‘Retrato do Brasil. Ensaio sobre a Tristeza do Brasil’, Paulo Prado procura explicar o Brasil, construindo um fiel retrato, como indica o próprio título. Logo na primeira página, o autor afirma: “Numa terra radiosa vive um povo triste”. Nas seguintes, explicita o significado da tristeza, que passa progressivamente a denominar, a partir de um vocabulário médico, de “melancolia”. Somos, então, informados de que melancolia é o estado físico e psíquico decorrente da ‘hiperestesia sexual’. De tantos excessos sexuais e vícios da multiplicação das ‘uniões de pura animalidade’, desde os inícios da colonização no Brasil, os brasileiros se tornaram um povo triste, cansado, prostrado. A terra virgem, a mata abundante, os rios caudalosos, a natureza farta, o clima, ‘o homem livre na solidão’, o encanto da nudez total das índias, posteriormente a presença das negras sensuais, tudo, na formação histórica do país, contribuiu para que os brasileiros se tornassem um povo mole, instintivo e sensual, dionisíaco, em comparação com os norte-americanos apolíneos”.
Seriam as “índias” tão “devassas”, ou melhor, deveria eu mudar a pergunta: devassa segundo moralidade de qual cultura? Dos europeus, invasores, bárbaros, estupradores e genocidas?
Outro trecho mencionado pela autora:
“A história do Brasil é o desenvolvimento desordenado dessas obsessões subjugando o espírito e o corpo de suas vítimas. Para o erotismo exagerado contribuíram como cúmplices – já dissemos – três fatores: o clima, a terra, a mulher indígena ou a escrava africana. Na terra virgem, tudo incitava ao culto do vício sexual… Desses excessos de vida sensual ficaram traços indeléveis no caráter brasileiro. Os fenômenos de esgotamento não se limitam às funções sensoriais e vegetativas; estendem-se até o domínio da inteligência e dos sentimentos. Produzem no organismo perturbações somáticas e psíquicas, acompanhadas de profunda fadiga, que facilmente toma aspectos patológicos, indo do nojo até o ódio (PRADO, 1929: 120)”.
A autora afirma que “o paulistano Prado é conhecido como membro da elite oligárquica decadente, representante de seu pessimismo em termos da avaliação do país, às vésperas das transformações políticas de 1930. Medo da degeneração da raça, do escurecimento em vez do embranquecimento populacional que tanto queriam, medo do predomínio do instinto sobre a razão, medo de uma “psyché racial” que predeterminaria os brasileiros ao fracasso”.
Finalmente a autora conclui que “esta visão pessimista sobre o povo brasileiro parece assentar numa concepção altamente negativa da sexualidade que tem o próprio autor, para além de toda a influência do darwinismo social em sua obra. Afinal, o excesso de energia sexual, a abertura para o outro, a facilidade de contato físico, em princípio, poderiam não ser percebidos como fatores negativos na constituição de um povo”.
Para Rago (2006) “Enxergaram nas práticas sexuais dos indígenas todos os vícios que o cristianismo lhes ensinava ver. As índias nuas foram transformadas em “ninfomaníacas” e “devassas”, segundo as classificações das “perversões sexuais” elaboradas pelo médico vienense Von Krafft-Ebing, em meados do século XIX. As representações instituíram-se como fatos, e, apenas nas últimas décadas têm-se desconstruído essas imagens, entre misóginas e racistas, veiculadas pela documentação”.
Obcecados com a sexualidade, voyeuristas disfarçados, os homens da ciência não paravam de falar da sexualidade desde o século XIX, principalmente para condená-la. Dissecaram o corpo da meretriz, do cafetão, do homossexual, “perverteram o sexo”. Todas as práticas sexuais foram postas sob o signo do discurso científico, explicadas, analisadas, classificadas, contidas e condenadas. Mas, todas ganharam ampla visibilidade. Dir-se-ia que a ciência domou o sexo, com medo de ser dominada. (Rago, 2006)
Mais adiante a autora continua “Em relação à prostituição, por exemplo, o médico Francisco Ferraz de Macedo classificava as prostitutas que encontrava na cidade do Rio de Janeiro, por volta de 1872, na esteira do que diria o pai da antropologia criminal, Cesare Lombroso, como “degeneradas natas”, gulosas, preguiçosas, excêntricas, irrecuperáveis para a Nação, signos da involução das espécies: sub-raça. Seus pares insistiam na ausência de instinto sexual nas “mulheres castas”, a não ser para fins reprodutivos. Juristas como Viveiros de Castro, ao lado dos médicos, enxergavam onanistas, pedófilos, homossexuais, tríbades, perversos sexuais em quase todos os cantos da cidade, sobretudo nas ruas, bares, restaurantes, teatros e cafés-concertos do submundo”.
“Do olhar dos viajantes e inquisidores à historiografia, essas misóginas e fantasiosas representações sobre a ‘realidade brasileira’ foram reproduzidas e repetidas indefinidamente, ensinando quem era e o que seria ser brasileiro. O resultado é a construção de um campo discursivo etnocêntrico e xenófobo, apreende o outro biologicamente como raça inferior; falocêntrico, institui o masculino como lugar da verdade e da perfeição”.
Podemos agora ter uma ligeira de como foi entendida e contada a história ao longo dos anos e o porque os brasileiros são vistos como um povo erotizado.
Segundo Heilborn, (2006) “Os estudos dos processos histórico-culturais demonstram como algumas condutas, perfeitamente aceitas em determinados momentos da história, passam a ser interditadas em outros períodos, modificando a forma como os sujeitos vivenciam as sensações corporais. Através do autocontrole individual os interditos são internalizados e atos que eram praticados publicamente se transformam em comportamentos cada vez mais privados”. Em palavras simples, você acha que o “outro não faz”, e começa a fazer escondido, temendo reprovação e alimentando sentimentos de vergonha.
A autora exemplifica sua afirmação:
“Atualmente compartilhar com alguém o mesmo copo onde se bebe água é um ato que exige um certo nível de intimidade. Nesse caso, estão em jogo representações da ordem do ‘sujo’ e ‘desconhecido”, em oposição às dimensões do ‘limpo’ e ‘conhecido’. Assim, uma das maneiras de demonstrar amor é suspender as barreiras entre os corpos. Um casal de namorados pode trocar chicletes já mastigados sem que isso provoque nojo entre eles, o que ilustra a suspensão dos limites entre os corpos das pessoas que se amam”.
A autora considera que o sexo deva ser encarado como um aprendizado natural, análogo qualquer outra atividade humana. Afirma que os indivíduos são socializados para a entrada na vida sexual por meio da cultura, que orienta roteiros e comportamentos, considerados aceitáveis para cada grupo social.
Para a autora a um tópico relevante é a concepção do sexo como atividade legítima de comunicação ou de mobilidade social, o que também varia de acordo com o gênero, a classe e o contexto histórico. O sexo pode ser pensado como uma alternativa digna ou menos aceitável de estabelecer relações que não almejam somente um vínculo erótico, afetivo ou reprodutivo. “Na cultura brasileira é altamente possível o uso do sexo como forma de ascensão social em determinados contextos. A preferência de homens negros por mulheres brancas, em casamentos inter-raciais, é reveladora de uma forma de ascensão social e de uma hierarquia, tanto de beleza como racial, o que integra distintos modos de prática e de representações da sexualidade”.
“Michel Bozon, em seu artigo sobre a composição de casais, ressalta que geralmente, quando se pensa em um par, o homem deve ser mais alto que a mulher. Por que é esteticamente inadequado que uma mulher seja mais alta que o homem? Essa formulação expressa uma relação hierárquica de gênero, revelando uma representação de gênero baseado na dominação masculina”. (Heilborn, 2006)
Segundo a autora é extremamente importante uma abordagem sociológica sobre a sexualidade pois, através dela, é possível demonstrar os mecanismos inconscientes, repletos de regras coletivas totalmente interiorizadas.
A autora prossegue afirmando que “a imagem do Brasil como um país de moralidade sexual flexível diante dos padrões europeus oriundos do catolicismo e protestantismo é resultante de um conjunto heterogêneo de representações científicas e populares. Esse mito está presente também na divulgação de um tipo de propaganda do país, na publicidade do turismo, que promove, por exemplo, a imagem da mulata: uma mulher sexualmente muito liberada, ‘quente’ e ‘fogosa’, o resultado da miscigenação de um homem branco com uma mulher negra. A publicidade difunde uma imagem de um país no qual as pessoas andam quase nuas nas praias, com mulatas, de modo que há uma associação entre as imagens do carnaval com as de paraíso sexual. Mais recentemente, o Brasil também é vendido como um paraíso gay, indicando um país onde há muita tolerância e liberdade em relação à homossexualidade, tanto masculina como feminina. Na realidade, não é exatamente assim que se passa”.
Uma ampla pesquisa foi realizada em três cidades muitos distintas no Brasil, segundo a autora, sendo Porto Alegre a cidade mais ao sul do país, com a maior parte de sua população branca (75% de brancos), de origem alemã, italiana e polonesa. Já a cidade de Salvador possui 60% de negros e é a capital brasileira com a maior população negra. Essas diferenças podem dar origem a idéias preconceituosas, em função de estereótipos raciais. “Por exemplo, quando falava da pesquisa com meus companheiros acadêmicos, lhes perguntava: qual seria a cidade com iniciação sexual mais precoce? – como uma forma de aproximação do imaginário presente. Todos, sem exceção, respondiam que seria Salvador, por ser uma cidade com uma grande proporção de negros”.
A pesquisa comprovou justamente o contrário. Salvador foi a cidade com a iniciação sexual mais tardia, e a iniciação sexual mais precoce foi observada na cidade de Porto Alegre com uma população que descende, em sua maior parte, de imigrantes europeus brancos. A autora afirma que “não se trata de explicar a diferença pelo impacto modernizador dos europeus, mas de desconstruir o vínculo entre raça e sexualidade mais precoce”.
Segundo a autora deve ser agregado aos resultados da pesquisa as “condições materiais de existência também estão presentes na modelação da sexualidade. Porto Alegre, por exemplo, governada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) durante 16 anos, é a cidade que possui os melhores índices de desenvolvimento social e de escolaridade, maior cobertura dos serviços de saúde, melhor índice de uso de contraceptivos na primeira relação sexual e uma distribuição de renda mais equânime, em um país com tantas desigualdades sociais como o Brasil. Porto Alegre, no âmbito da comparação empreendida pela mencionada pesquisa, apresenta os percentuais de gravidez menos precoce. Esse cenário rapidamente descrito serve para relativizar os mitos difundidos sobre a sexualidade brasileira”.
Na pesquisa, perguntou-se aos jovens se era possível controlar a vontade de fazer sexo por pouco tempo, por muito tempo ou se era impossível controlá-la. “O sexo como uma necessidade física tem pequena proporção de aceitação entre mulheres de maior escolaridade e é mais aceito em moças com menor nível de escolaridade. Mas, na comparação dos dados dos jovens com alta escolaridade, observa-se uma diferença de gênero muito importante. Os homens altamente escolarizados, pertencentes às camadas médias e médias altas da sociedade, são os que melhor expressam a ideologia de gênero do sexo masculino, que associa o sexo a uma necessidade física e a uma força incontrolável, o que contrasta com as mulheres do mesmo grupo social. São exatamente os privilegiados que vão rejeitar uma perspectiva mais relacional da sexualidade, afirmando valores tradicionais da supremacia do desejo masculino.”
Outro dado interessante é que parece que a tolerância à homosssexualidade masculina é maior entre as moças do que entre os rapazes. Outro fator percebido é que a iniciação sexual no Brasil não apresenta variações entre grupos sociais, mas sim variações entre homens e mulheres: para os primeiros é uma obrigação social para garantir o status de virilidade. Já para as mulheres, a iniciação sexual depende das formas de controle da família, do nível de escolaridade e de religião.
Quanto à religião, destaco um fator que, nos últimos anos, vem se processando com freqüência principalmente entre muitos católicos: “São muitas as investigações que demonstram a diferença entre o discurso oficial da Igreja e a prática dos católicos sobre sexualidade”. (Rodrigues, 2006). A pesquisa efetuada por Rodrigues foi realizada com um público de classe média, com nível médio e superior de escolarização, inserido num contexto social urbano. Sobre este assunto abordarei com maiores detalhes em um próximo artigo.
Heilborn (2006) conclui que o quadro está longe de se aproximar da imagem de um país sexualmente desinibido. Modos de significação e contabilidade das práticas sexuais se apresentam como demarcadores de universos distintos para homens e mulheres. O destaque dado pelos rapazes à experiência do sexo anal contrasta fortemente com dados de pesquisas internacionais, considerada a mesma faixa etária. “Parece-me assim possível arrazoar sobre o intrincado nexo entre o imaginário (o de paraíso sexual) e as condições concretas (simbólicas e materiais) do exercício da sexualidade no Brasil”.
Pelo que tenho pesquisado e presenciado, mesmo em grandes centros urbanos, observo uma resistência, relacionada provavelmente a algum tipo neurose sexual coletiva, quando revelo que estudo sexualidade e mantenho um site sobre o assunto. As reações envolvem um misto de curiosidade, surpresa e censura velada nos semblantes. Essa neurose coletiva revela-se sem limites em expressões que costumo escutar: “ela pediu isso, estava procurando”, quando mulheres se vestem (ou melhor, quase nada vestem) seguindo o que dita a moda e recebem agressões verbais, cantadas, bolinações e até o estupro propriamente dito. Por seguir a moda e vestir-se de um jeito ou de outro, as vítimas transformam-se em culpadas no discurso social.
Muitas mulheres ainda não conhecem sua própria anatomia. Poderia até apostar que muitas delas nunca pararam para ver sua própria genitália na frente do espelho. Mesmos as mulheres que se vestem com micro-roupas, rotuladas pela mídia como “poposudas”, principalmente as de baixa renda, não usam anticoncepcionais, ou outros métodos para evitar uma gravidez, porque seus “companheiros” ainda vivem da aparência social: “homem tem que fazer filhos para se mostrar viril”.
Uma nação em que se observam esses comportamentos de forma tão generalizada ainda precisa quebrar muitas barreiras na abordagem da própria sexualidade e, mais, longe estamos de ser um país com uma “liberalidade sexual”. Como em todos os países – e isto inclui o Brasil – é óbvio que os turistas encontraram aqui todo o tipo de pessoa, de profissão, de opções sexuais, mas não é possível dizer que o brasileiro, coletivamente, é sexualmente desinibido, bem resolvido ou, mesmo, sexualmente liberal.
Bibliografia
Heilborn, Maria Luiza. Entre as tramas da sexualidade brasileira. Disponível em: Estudos Feministas, Florianópolis, 14(1): 336, janeiro-abril/2006.
Rago, Margareth. Sexualidade e identidade na historiografia brasileira. Disponível em: www.unicamp.br/~aulas. Acessado em: 12/12/2006.
Rodrigues, Cátia S. Lima. Católicas e Femininas:Identidade Religiosa e Sexualidade de Mulheres Católicas Modernas. Revista de Estudos da Religião Nº 2 / 2003 / pp. 36-55.







