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Géssica Hellmann
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Sexualidade e Corporalidade – Seguindo os passos de Reich: A couraça do caráter e a moralidade social
Em seu trabalho, Wilhelm Reich distinguiu a aparente confusão entre agressão, sadismo, destruição e instinto de morte. Sua experiência clínica levou-o à conclusão que todas as manifestações que poderiam ser interpretadas como “instinto de morte”, na verdade, provaram ser produtos da neurose.

Detalhe "Peste Emocional - Instintos Perversos" por Géssica Hellmann
Segundo Reich (1991) “o medo da morte e de morrer equivale a uma inconsciente angústia de orgasmo, e o suposto instinto da morte, o desejo de desintegração na inexistência é o desejo inconsciente da solução orgástica da tensão”. Entre outras palavras o medo da morte podia sempre ser reduzido a um medo de catástrofes, e esse medo, por sua vez a uma angústia genital.
O autor afirma também que um ser vivo desenvolve um impulso destrutivo quando quer eliminar uma fonte de perigo. O motivo original não é o prazer da destruição, não tem conotação sexual.
“Agressão” no sentindo estrito da palavra, não se relacionaria com sadismo ou destruição, seu significado seria de “aproximação”. Agressão é a expressão da vida na musculatura e no sistema de movimento. O autor descreve: “agressão é sempre uma tentativa de prover meios para a satisfação de uma necessidade vital. Assim, a agressão não é um instinto no sentido estrito da palavra; consiste mais no meio indispensável de satisfação de todo impulso instintivo”.
Toda agressão aos impulsos sexuais provocaria ódio, agressividade não-dirigida e tendências destrutivas. Em suas análises clínicas, Reich considerava impossível desprezar a redução dos impulsos de ódio nos pacientes que haviam conseguido atingir a satisfação genital. Perversões ou fantasias sádicas no ato sexual reduziam-se na medida que a satisfação crescia.
“Acabei por entender os traços brutais de caráter que se manifestam em condições de insatisfação sexual crônica. Pude observar esse fenômeno em solteironas malevolentes e em moralistas ascéticos” (Reich, 1991).
Parecia ser insuficiente atingir o objetivo terapêutico da função orgástica, pois a energia destrutiva também estava enrustida em muitos pontos e formas na couraça do caráter. Precisava-se desfazer o bloqueio efetivo.
Reich constatou que a angústia sexual é causada por uma frustração externa da satisfação do instinto e é internamente ancorada pelo medo da excitação sexual represada. A conseqüente angústia do orgasmo seria devida ao desconhecimento da experiência do prazer genital. Essa angústia formaria a base do generalizado medo da vida.
O autor percebeu também que as pacientes mulheres ofereciam melhores possibilidades para seu estudo, já que, nos homens, a sensação de ejaculação esconde freqüentemente a angústia de orgasmo. Em suas pacientes, percebeu que suas mais freqüentes angústias são de sujar-se durante a excitação. Quando inibida a excitação orgástica por fantasias não-genitais, a experiência orgástica é sentida como um aniquilamento físico.
Outro fator percebido em suas análises clínicas é que toda forma de neurose teria uma perturbação genital correspondente: a histeria feminina caracteriza-se por uma perturbação localizada de excitação vaginal, junto com uma hipersexualidade geral. Um exemplo seria abstinência causada pela angústia genital. Os homens histéricos seriam incapazes de experimentar uma ereção no ato sexual, ou sofreriam de ejaculação precoce.
As neuroses compulsivas tornariam as mulheres geralmente incapazes de excitar-se e, os homens, geralmente potentes na ereção, mas nunca orgasticamente potentes. Alguns homens sentiriam a necessidade de provar sua potência de forma fálico-narcisista: o ato sexual representaria para eles apenas uma evacuação, seguida de uma ereção de desgosto. Raramente seriam capazes de amar a mulher; seu comportamento sexual criaria profunda aversão ao ato sexual.
Reich identificou erros em algumas regras básicas da psicanálise convencional. Uma das regras era interpretar o material na mesma seqüência em que o paciente o oferecia, sem considerar a estratificação e a profundidade. Reich sugeriu que as resistências fossem tratadas uma a uma, começando com a mais próxima a superfície. A neurose devia ser combatida de uma posição segura. “Uma remoção sistemática dos estratos da couraça do caráter deveria levar em conta a estratificação dos mecanismos neuróticos”.
A maioria dos pacientes era incapaz de seguir a regra básica da psicanálise: “dizer tudo que vem à mente”. Reich, ao contrário dos outros psicanalistas, analisava não somente o que era dito pelo paciente e sim o modo “como” era dito. Analisava seu comportamento, suas expressões corporais. Segundo Reich, as palavras podem mentir, a expressão nunca. Reich também evitava usar terminologia psicanalítica, que poderia dificultar o diálogo com os pacientes. O paciente não mais falava de seu “ódio”, sentia-o.
Em seu trabalho clínico, Reich também reverteu o caráter acadêmico das transferências de amor e ódio entre paciente e analista. Uma coisa era falar sobre um erotismo anal na infância, outra era experimentá-lo como uma necessidade real durante a sessão. Reich sentia que precisava se libertar da atitude acadêmica e afirmava a si mesmo que, como um sexólogo, ele precisava lidar com a sexualidade da mesma forma que um médico lida com os órgãos do corpo. Seu método levou a descobrir o sério obstáculo gerado pela regra analítica convencional de que o paciente deveria viver em abstinência sexual durante o tratamento. Muitas regras analíticas eram carregadas de forte tabu, o que em nada ajudava o paciente.
A intenção de Reich durante as análises era que o paciente o visse como ser humano e não como autoridade. Sua prioridade era libertar os pacientes das inibições do prazer genital.
Ao mudar sua atitude, Reich percebeu em suas analises que, na base do mecanismo neurótico, por trás de todas as fantasias, impulsos perigosos, havia um cerne simples e decente. Com muita espontaneidade, os pacientes começaram a experimentar com estranheza as atitudes moralistas do mundo ao seu redor. Pacientes que não tinham escrúpulos em procurar prostitutas tornaram-se incapazes de procurá-las depois que passavam a se sentir orgasticamente potentes. Mulheres infelizes em seus casamentos não se sentiam mais obrigadas ao ato conjugal. Esses comportamentos iam contra as regras morais vigentes na época, mas seus pacientes estavam se libertando de seus próprios preconceitos. “A mudança na atitude dos pacientes a respeito desse código moralista não era nem claramente negativa, nem claramente positiva… A moralidade funciona como obrigação. É incompatível com a satisfação natural dos instintos”.
Uma pessoa regulada e estruturada pela moralidade é uma pessoa sexualmente repleta de “deveres e proibições”. Quando se liberta desta “moralidade”, tem o controle sobre sua couraça, porque não precisa mais coibir os “impulsos proibidos”.
Somente anos mais tarde Reich entendeu porque essa “liberdade” assustava tanto as pessoas. “Aquilo que se afirmava e se desejava no plano das idéias despertava angústia e terror quando se tratava da realidade, pois era estranho à estrutura vigente”. Para poder competir com esse mundo, às pessoas tinham de suprir aquilo que era realmente básico nelas mesmas; tinham de desejar aniquilá-lo e vencê-lo com a parede grossa da couraça do caráter. Ou seja, a sociedade moldaria o caráter humano, que por sua vez, reproduziria, em massa, a ideologia social.
Reich sabia que o caminho era árduo, e que para uma solução era preciso uma pesquisa ampla sobre os aspectos sociais da psicoterapia. Como haveria de viver em uma sociedade neurótica e moralista um paciente curado?
Concluo este artigo, para fins de reflexão, um poema de nossa querida Sole Mazzeto:
“Veja
A lua brilha lá fora
E cá dentro do meu seio
Explode em cores o sol
O lampejo se afoga
A brincadeira segue em roda
A virgula sai pelos poros
A maciez da carne
Envenena o ócio
E dobra-se em debrum vermelho
A figura vive
A conquista reside
O peito clama
E a morte não vem …”
Bibliografia
Reich, Wilhelm. A função do orgasmo – Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.







