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Géssica Hellmann
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Sexualidade e Corporalidade – Seguindo os passos de Reich: A higiene mental e o problema da cultura
Géssica Hellmann
O trabalho “político-sexual” de Reich aos poucos, foi adquirindo autonomia autonomia. Promovia reuniões abertas em que era indagado por pessoas de todos os círculos e profissões. Ele apresenta alguns exemplos de perguntas freqüentes:

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“O que se deve fazer quando a mulher, apesar de um desejo consciente, tem a vagina seca”? “Com que freqüência se deve praticar o ato sexual”? “Pode-se praticar o ato sexual durante a menstruação”? “O que se deve fazer quando o homem quer, e ela não?”. “O ato sexual entre irmão e irmã é punido na União Soviética?”. “O que se fazer quando se quer ter uma relação sexual e há outras pessoas no quarto”? “Meu marido tem outra mulher. O que devo fazer”? “Gostaria de ter outro homem. Há algo errado nisso”? “A liberdade sexual não levaria à completa destruição da família”? “O coitus interruptus é nocivo”? “A masturbação é nociva? Dizem que provoca vertigens”. Reich, durante as reuniões, procurava responder e elucidar todas as questões apresentadas (Reich, 1991).
Nesta fase de seu trabalho Reich percebia quatro indagações que precisavam de respostas:
1 – Quais seriam as conseqüências finais da teoria e da terapia psicanalíticas?
2 – Seria possível ao psicanalista continuar limitando-se apenas às análises individuais? A neurose era uma epidemia que agiria sob a superfície e a sociedade como um todo estaria enferma.
3 – Qual a natureza do papel que o movimento psicanalítico deve assumir na estrutura social?
4 – Porque a sociedade produziria neurose em massa?
Reich, através de sua experiência clínica, chegou à conclusão que mais de 60% dos jovens demonstravam ter graves moléstias neuróticas. Em seis dos centros que estavam sob a supervisão de Reich, das pessoas que buscavam ajuda, somente 30% não precisavam de ajuda psicanalítica. O restante precisava de um tratamento de, no mínimo, três anos de terapia. Era necessária uma higiene mental social para mudar esse curso.
A fonte mais importante da neurose, segundo Reich, era a educação familiar sexualmente repressiva e autoritária. Uma repressão mecanizada: os pais reprimem os filhos, primeiro porque também foram reprimidos na infância, e segundo porque as leis sociais de moralidade assim exigem. Agem mecanicamente porque é “certo”. As crianças, com a sua expressão natural bloqueada, se enchem de culpa, tornando-se adultos com sérias neuroses de caráter que, depois, transmitiriam as neuroses para seus próprios filhos.
O que fazer para mudar essa situação? Segundo Reich, a resposta estaria na teoria do orgasmo. Seria possível libertar-se da neurose enraizada na infância com uma sexualidade genital satisfatória.
Se a neurose é em massa, como pode viver em sociedade uma pessoa sã? Reich sabia que não seria fácil superar os efeitos da miséria sexual da sociedade.
Na infância, o treinamento “adestramento” para o “bom comportamento”, “higiene”, “autocontrole”, tornariam a criança dócil para a proibição mais importante do período seguinte: a masturbação. Na puberdade, repete-se o erro da educação, que levaria à estagnação psíquica e ao encouraçamento do caráter. Este é uns dos motivos também por que a maior parte das neuroses e psicoses se desenvolveria na puberdade. A hipocrisia social permitia legalmente a um adolescente casar-se na véspera do seu décimo sexto aniversário – afirmando assim que a sexualidade em si, não é nociva para os casados, apenas para os solteiros.
A juventude de hoje é a geração de amanhã. Seja qual forem as etapas que uma geração nova vá enfrentar, conflito estará sempre entre o medo da geração mais velha quanto à sexualidade e o espírito de luta do jovem. Reich afirmava que a educação convencional torna as pessoas incapazes para o prazer – criando uma couraça para o desprazer.
“A miséria psíquica não é a finalidade do caos sexual, mas faz parte integrante dele. O casamento e a família compulsivos reproduzem a estrutura humana de uma era econômica e psiquicamente mecanizada”. (Reich, 1991).
Reich afirmava também que uma pessoa atormentada por problemas materiais também teria grande dificuldade em sentir prazer, podendo facilmente se transformar em um psicopata sexual.
Os argumentos de Reich tinham um efeito provocador, ele sabia disso, mesmo sem que ele ainda sequer tivesse mencionado a “obrigação conjugal” impingida legalmente, e a “obediência aos pais” sob punição física. Parecia um assunto proibido nos círculos acadêmicos, encarados como “não científicos e políticos”.
Para Reich, tornava-se cada vez mais claro que, a felicidade cultural em geral, e a felicidade sexual em particular, seriam os conteúdos reais da vida e deveriam ser o objetivo de uma política efetiva do povo. Muitos se opunham a essa idéia, inclusive os marxistas. Reich sabia que este era o caminho, sua pesquisa provara isso. Toda a produção de cultura, da história de amor às mais altas realizações da poesia, confirmavam sua teoria. Toda a política cultural gira em torno do elemento sexual, as indústrias e a mídia capitalizam-no. Então, por que não tornar o sonho em realidade?
Freud fugia a este tema e refugiava-se na sua teoria do sofrimento biológico, visando sempre a uma saída para a catástrofe da civilização em um “esforço por parte de Eros”. Reich sabia que estava cada vez mais seguindo seu próprio caminho e se afastando da teoria freudiana.
Segundo Reich “Toda educação sofre com o fato de que a adaptação social requer a repressão da sexualidade natural, e de que essa repressão torna as pessoas doentes e anti-sociais”. Mas a indagação era: porque a adaptação social exige repressão? Poderia um dia solucionar-se a contradição entre o anseio do prazer e a frustração social do prazer?
Para Reich a psicanálise havia se transformado em uma teoria abstrata de “adaptação cultural” cheia de contradições.
As conclusões de Freud eram desesperadoras, segundo Reich. “Embora admitisse que o anseio de prazer é inextirpável, afirmava que não é o caos social, mas o impulso de prazer, o que deveria ser modificado”.
Reich se afastava cada vez mais da posição de Freud e foi à procura de uma solução econômico-sexual desses problemas. Primeiro, era preciso entender o fator biológico e, depois, a questão social: entender por que as pessoas desejavam e temiam ao mesmo tempo tanto a felicidade.
Bibliografia
Reich, Wilhelm. A função do orgasmo – Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.










