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Géssica Hellmann
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Sexualidade e Corporalidade – Seguindo os passos de Reich: A irrupção no campo biológico
por Géssica Hellmann
Como vimos nos artigos anteriores, Reich, em seus estudos sobre a sexualidade, conclui que “a repressão sexual é de origem econômico-social e não biológica”. Outra pergunta sem resposta: é como um indivíduo são como pode viver em uma sociedade neurótica? Os instintos são de origem natural (biológica), como os de todos os seres vivos: “o homem precisa, primeiro e acima de tudo, matar a fome e satisfazer seus desejos sexuais”. O primeiro, a sociedade atual já torna difícil de satisfazer e, a última, a sociedade frustra. Se o homem pode ser livre, por que procura viver reprimido?

Tension por Mike McCuen
Reich abria caminho em suas pesquisas no campo biológico na procura de uma solução para o problema do masoquismo.
“Para a psicanálise, o prazer de sofrer a dor era o resultado de uma necessidade biológica”. Caso fosse diagnosticado este sintoma no paciente, nada poderia ser feito. Em seu trabalho terapêutico, Reich se viu diante da questão: por que o masoquismo transforma o desejo de prazer em um desejo de desprazer?
Em 1928, Reich tratou de um paciente masoquista. Os pedidos incessantes do paciente para ser surrado impediam a comunicação entre Reich e o paciente. Após meses dedicados ao trabalho psicanalítico habitual, Reich perguntou a ele o que faria se satisfizesse seu desejo. Sorriu com alegria. Reich, então pegou uma régua e deu-lhe duas pancadas nas nádegas. O paciente deixou escapar um grito, sem sinal algum de prazer.
Foi então que Reich compreendeu que a dor e o desprazer não são o objetivo do instinto masoquista, pois quando apanha, ele, como toda pessoa normal, sente dor. Mais tarde, Reich descobriu a fantasia por trás do instinto masoquista: o desejo de romper-se. Só desta maneira o paciente conseguiria a relaxação. Ao mesmo tempo em que desejam romper-se, sentem um medo profundo deste rompimento. A dor não é o objetivo do impulso; é simplesmente uma experiência desagradável durante a liberação de tensões existentes e reais.
O masoquista permanece na estimulação pré-genital, aumentando assim a tensão e diminui a capacidade de experimentar a relaxação. O masoquista fica preso a esse círculo vicioso. O medo da excitação orgástica se encontra em todas as neuroses, desta forma, as fantasias masoquistas estão presentes em todas as enfermidades emocionais.
Para Reich, o masoquismo é o resultado e não a causa da neurose; é a expressão de uma tensão sexual que não pode ser aliviada; sua fonte é o medo da descarga orgástica. Esta compreensão abriu caminho, para Reich, no campo biológico.
Os pacientes queixavam-se de estarem tensos até o ponto de explodirem; temiam qualquer ataque ao seu encouraçamento. Reich afirmava que o masoquismo tornou-se o problema central da psicologia das massas. “As massas trabalhadoras sofrem graves privações, são dominadas e exploradas por poucos que detêm o poder. Em forma de ideologia prática de várias religiões patriarcais, o masoquismo prolifera como erva má e sufoca todos os direitos naturais à vida. Mantém as pessoas no estado abissal de submissão. Impede suas tentativas de chegar a uma ação racional comum e os satura do medo de assumir a responsabilidade de sua existência. É a causa do fracasso dos melhores impulsos de democratização da sociedade”. (Reich, 1991).
Esta idéia do caráter humano como uma couraça envolta de um organismo vivo era muito significativa. Imaginem uma bexiga sendo pressionada que pudesse falar: pediria para ser aberta com furos, rompida para aliviar a tensão causada pelo mundo exterior. Agora imaginem uma bexiga encouraçada no espírito, imaginemos um organismo vivo em que a membrana da superfície seria a couraça do caráter. A energia interna (sexual ou excitação biológica) fazendo pressão para fora e a parede externa da couraça impede esse impulso, exercendo uma pressão de fora para dentro, tornando rígido o organismo.
Os esforços para entrar em contato com a vida, com o prazer natural, são freqüentemente dolorosos. O organismo encouraçado não pode romper-se para livrar-se de sua tensão interior. Desta forma ou ele se torna masoquista ou pode fazer a descarga orgástica da energia represada em direção ao exterior.
Ao se aprofundar em sua pesquisa da função do orgasmo, Reich percebeu que não poderia utilizar no campo fisiológico os mesmos conceitos e a forma de abordagem utilizados no campo psíquico. O último procura “significados” e o primeiro simplesmente “funciona”. Reich, mais uma vez, se deparava com os problemas do mecanismo e do vitalismo.
Segundo Reich, sua teoria masoquista foi importante para encontrar uma solução para este problema. O seu pensamento se desenvolveu da seguinte maneira: a psique é determinada pela qualidade da idéia e, o soma, pela quantidade de energia em ação. Os problemas observados em sua experiência terapêutica demonstravam que a qualidade de uma atitude psíquica depende da quantidade de excitação somática da qual provém. Ainda não estava muito clara a resposta, mas Reich sabia que a energia biológica governaria tanto o psíquico quanto o somático.
Reich percebeu, então, que se completava uma seqüência de idéias: “O que anteriormente parecia uma excitação psíquica surgia agora como uma corrente biofisiológica… Na excitação sexual, os vasos periféricos se dilatam. Na angústia, sente-se uma tensão interior centralizada como se fosse explodir, os vasos periféricos se contraem. O pênis sexualmente estimulado expande-se. Na angústia contrai-se. As fontes de energia ativa encontram-se no ‘centro de energia biológica’”.
Vários preconceitos na estrutura psicanalítica foram destruídos com esta descoberta. Reich percebia cada vez mais que se distanciava da organização psicanalítica e desbravava um novo caminho no estudo da sexualidade.
Bibliografia
Reich, Wilhelm. A função do orgasmo – Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.










