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Sexualidade e Corporalidade – Seguindo os passos de Reich: primeiras experiências para o desenvolvimento da teoria do orgasmo | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Sexualidade e Corporalidade – Seguindo os passos de Reich: primeiras experiências para o desenvolvimento da teoria do orgasmo


Géssica Hellmann

No caso mencionado no artigo anterior, um paciente de Reich, um garçom, era totalmente incapaz de ter uma ereção. Depois de três anos de terapia, Reich descobre que o paciente, aos dois anos de idade havia presenciado sua mãe em trabalho de parto. A cena da cavidade sangrante entre as pernas da mãe havia causado uma sensação de “vazio” em seus próprios órgãos genitais. Explicou-se o caso como mais uma experiência traumática do genital feminino “castrado”.

por Erin Prucha

por Erin Prucha

O paciente era aparentemente quieto, possuía um bom comportamento era sociavelmente ajustado. Teoricamente a explicação estava correta. Somente mais tarde Reich percebeu que não estava totalmente correto seu diagnóstico. O problema do paciente era justamente o fato de estar “ajustado por demais a realidade”, essa “tranqüilidade inabalável” que o impedia de ter ereção.

Neste momento Reich encontra a ligação entre a formação do caráter humano e a frieza emocional e morte genital.

“Um desejo precipitado de curar não leva ao conhecimento de novos fatos”. Reich nesta época ainda tinha uma vaga idéia sobre aonde esta pesquisa poderia levá-lo. (Reich, 1991).

O autor afirma que Freud chamava de “neuroses atuais” as enfermidades causadas pelas perturbações presentes da vida sexual, sendo manifestações diretas de uma sexualidade reprimida. Afirmava também que a “neurose de angústia” era causada por abstinência sexual ou coitos interrompidos. Era diferente de “neurastenia” que seria causada pela sexualidade desregrada, como a “masturbação excessiva”.

Também afirmava que a fantasia do incesto e o medo de ser ferido nos genitais estavam no cerne de todas as psiconeuroses, sendo claramente de natureza sexual infantil. Freud distinguia as psiconeuroses das neuroses atuais: a primeira tinha grande importância no campo psicanalítico enquanto a segunda poderia ser facilmente curada.

Foi a partir desta teoria que Reich iniciou suas investigações da angústia estásica. Segundo a teoria freudiana, a angústia atual seria alimentada por uma excitação sexual não resolvida.

Outra questão levantada na época era se a psicanálise era uma ciência natural ou filosófica? Muitos queriam relegar os psicanalistas à categoria dos espíritas e, assim, desacreditá-los. Reich lutava arduamente contra essa visão. Sua experiência e observações no dia a dia da clínica lhe provavam que era uma ciência natural.

A emoção teria origem nos instintos e, portanto, participaria do campo somático. Por outro lado, uma idéia seria uma formação puramente psíquica. “Quando uma pessoa é sexualmente estimulada de maneira plena, a idéia de relação sexual é vívida e insistente. Após a satisfação, por outro lado, não pode ser imediatamente reproduzida” (Reich, 1991).

Segundo o autor, esse era o segredo na relação da angústia com a psiconeurose. Seu primeiro paciente havia perdido momentaneamente todos os sintomas após a satisfação sexual mas, com uma nova excitação, os sintomas reapareciam. Já o outro paciente (o garçom), mesmo tendo seguido todas as recomendações não havia conseguido sequer uma ereção. Reich compreendeu então que uma idéia psíquica dotada de uma pequena quantidade de energia pode provocar um aumento de excitação, tornando a idéia vívida, e cessando a excitação a idéia desaparece.

Assim, como na neurose estásica uma idéia consciente do ato sexual não consegue materializar-se por inibições morais, Reich concluiu que a neurose estásica, na verdade, seria uma perturbação física provocada pela excitação sexual não resolvida. Livrando-se o paciente da inibição moral esta excitação podia ser devidamente descarregada.

Durante sete anos, Reich pensava estar trabalhando em completo acordo com a escola freudiana e não imaginava que sua linha de pesquisa levaria a uma ruptura.

Reich sustentava a idéia de que toda pessoa psiquicamente enferma precisava somente de uma coisa: completa e repetida satisfação genital.

Em janeiro de 1923, Reich apresentou um caso de uma paciente idosa que sofria de um tique diafragmático que cessou quando ela conseguiu masturbar-se. Foi aplaudido pelo conselho. Já em novembro do mesmo ano, quando apresentou sua pesquisa de três anos de investigação sobre “a genitalidade do ponto de vista da prognose e terapia da psicanálise”, Reich sentiu frieza e desaprovação por parte do conselho.

É preciso considerar os conceitos de saúde sexual vigentes em sua época, em que a “potência” de um homem era avaliada pelo número de vezes que podia realizar um ato sexual ao longo da noite e que uma mulher era considerada genitalmente sã quando podia experimentar um orgasmo clitoridiano, sem levar em conta a excitação genital e a função natural do orgasmo. Reich procurava pela fonte de energia da neurose, sabia que era a energia sexual reprimida, mas não conseguia explicar sua origem.

Quanto mais Reich observava as descrições de seus pacientes, mais convicto se tornava de “que todos, sem exceção, estavam seriamente perturbados em sua função genital” (Reich, 1991). Os homens queriam provar sua potência penetrando, dominando e conquistando a mulher. Muitos sequer sentiam prazer genital, tendo serias perturbações de ereção e ejaculação.

“A impotência orgástica tem estado sempre na vanguarda da pesquisa econômico-sexual, e seus pormenores ainda não são conhecidos na sua totalidade. Seu papel na economia sexual é semelhante ao papel do complexo de Édipo na psicanálise” (Reich, 1991).

O autor continua “Potência orgástica é a capacidade de abandonar-se, livre de quaisquer inibições, ao fluxo de energia biológica; a capacidade de descarregar completamente a excitação sexual reprimida, por meio de involuntárias e agradáveis convulsões do corpo”.

Reich descreve a fase de controle voluntária da excitação em cinco etapas:
1 – A ereção é agradável; o pênis não está superexcitado; o genital feminino torna-se úmido pela secreção das glândulas genitais,
2 – O homem e a mulher mostram-se ternos um com o outro;
3 – A excitação que permaneceu nos parceiros, agradável durante o anteprazer, aumenta subitamente com a penetração do pênis na vagina;
4 – Pela fricção mútua, gradual, rítmica, espontânea e sem esforço, a excitação vai se concentrando na glande do pênis e nas partes posteriores da membrana mucosa da vagina;
5 – Nesta fase, a interrupção da fricção é em si mesma agradável por causa das sensações de prazer que acompanham esta pausa, prolongando-se o ato. Ao continuar a fricção a excitação aumenta.

Após essas fases iniciam-se as contrações musculares involuntárias:

6 – Aumento de excitação e cada vez mais concentrada no prazer genital, aceleração cardíaca, ocorrendo uma suave sensação que se espalha pelo resto do corpo, causando contrações involuntárias em toda musculatura genital e pélvica; a vagina da mulher se contrai e aumenta as contrações espasmódicas que aceleram a ejaculação; a interrupção do ato neste estágio é totalmente desagradável.

7 – A excitação e o ritmo das fricções aumentam aproximando-se do clímax com as primeiras contrações ejaculatórias no homem;

8 – Neste ponto a consciência torna-se nublada antecedendo ao clímax;

9 – A excitação orgástica toma conta do corpo inteiro produzindo fortes convulsões na musculatura do corpo todo. Antes do clímax a excitação dirigi-se para o genital, após o clímax reflui “do genital para o corpo”.

10 – Descarga total da excitação.

A primeira fase (1 a 5) seria a “experiência sensorial do prazer”, a segunda (6 a 10) constituiria a “experiência motora do prazer”.

Reich estabelece então suas primeiras bases para sua teoria da função orgástica. Reich afirma que, se houvesse definido a sexualidade apenas como genitalidade, cairia no conceito errado da teoria freudiana. Quando ampliou seu conceito para a potência orgástica, definindo os termos de energia sexual, passou a ter uma visão mais completa da sexualidade.

Bibliografia

Reich, Wilhelm. A função do orgasmo – Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.

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