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Uma nova construção da identidade da mulher católica | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Uma nova construção da identidade da mulher católica


Géssica Hellmann

Este artigo aborda a construção da identidade da mulher católica moderna no que se refere ao exercício de sua sexualidade.

Abrimos este artigo com uma importante consideração de Lopes (2006): “Desde que a humanidade passou a refletir sobre si mesma, o corpo, lugar de prazer, vida e fecundidade, mas ao mesmo tempo lugar interdito e espaço onde o mal pode se alojar, tem sido fruto das mais diversas formas de pensar e teorizar”.

CONTEMPORARY ADAM AND EVE por Laurentiu Dimisca

CONTEMPORARY ADAM AND EVE por Laurentiu Dimisca

A autora afirma que “as bases ideológicas que situam a mulher como inferior e submissa vêm de muito longe, desde os mitos da Criação, sendo que na igreja cristã temos o mito de Eva: Eva é feita a partir de uma costela de Adão, suprindo, porém, sua necessidade de homem, que não deve ficar sozinho. No entanto, ela simboliza a tentação, o pecado da carne, o desejo de sexo, responsável pela perda da paz e da tranqüilidade do homem, representadas pela perda do paraíso terrestre… Os pronunciamentos e práticas da tradição judaico-cristã em relação ao uso do corpo afetaram as atitudes sociais contemporâneas, no que se refere à sexualidade feminina, bem como a própria percepção da mulher sobre si mesma”.

A Igreja Católica, em meados do século XIV e XV, constrói uma outra identidade feminina mítica: a Virgem Maria – Mãe de Cristo, Mãe da Igreja, Mãe dos pobres e infelizes do planeta, que podem ser absolvidos do pecado original, desde que se convertam às normas da Igreja. As mulheres irão alcançar a salvação ao acatar o ideal de feminilidade de Maria, o que pressupõe uma destituição da sexualidade e do prazer, mantendo apenas a função reprodutiva.(Lopes, 2006)

Como podemos perceber, inicialmente, a mulher foi culpada do “pecado capital”, comparada à serpente tentadora e desvirtuadora. Posteriormente, a Igreja permite que a mulher exerça sua sexualidade, desde que sob o controle da Igreja e somente para fins reprodutivos.

A identidade sexual feminina é reduzida ao espaço da maternidade, único lugar que lhe é outorgado pela sociedade. Essa identidade de mulher ideal nega o ato sexual, dessexualizando o corpo, que deve ser santificado. (Lopes, 2006)

A autora afirma que a Igreja Católica impõe, situando as questões de gênero numa perspectiva inteiramente patriarcal, indicando a dominação masculina como “atitude natural” ou uma experiência excluída de questionamentos e reconhecida como absolutamente legítima. A prova deste posicionamento, segundo a autora, é dada pela indução de mulheres violentadas que engravidam a terem os bebês, através de trabalho educativo maciço e fornecimento de apoio financeiro. O silêncio consentido das próprias mulheres violentadas, a desonra póstuma da mulher no julgamento de seus assassinatos, que, até nos anos noventa, contaram com os homens absolvidos com a tese de legítima defesa da honra, indicam uma prática cotidiana consensual, compartilhada pelo pensamento social que legitima a Representação Social Hegemônica do corpo-expropriado.

Segundo Dom Fernando Mason, bispo de Piracicaba, “Por vezes questões ligadas à afetividade e à sexualidade repercutem com muita intensidade na mídia. Sobretudo quando a Igreja manifesta com palavras claras sua posição. E aí, todo mundo se julga entendido, até o profissional formado anteontem na faculdade da esquina acha que pode dizer palavras solenes e importantes sobre o quanto a Igreja é retrógrada, medieval e obscurantista, insensível diante de problemas de hoje. Julga-se no direito de passar uma lição de moral à igreja”.

O autor afirma que ao falar daquelas forças positivas da natureza chamadas afetividade e sexualidade, a Igreja recorda sempre que também elas devem ser “humanizadas”, isto é, devem ser elaboradas, amadurecidas, responsabilizadas, transcendidas.

São muitas as investigações que demonstram a diferença entre o discurso oficial da Igreja e a prática dos católicos sobre a sexualidade, é o que conclui Rodrigues (2006) em sua pesquisa.

“No contexto da referida pesquisa, deve-se considerar um público de classe média, com nível médio e superior de escolarização, inserido num contexto social urbano, metropolitano e individualista. Todas as participantes da pesquisa receberam educação religiosa católica desde a primeira infância, sendo filhas de pais católicos, com a primeira socialização mais conservadora, marcada pelos preceitos morais da sua religião, ainda que numa segunda socialização tenham assumido uma postura mais liberal em suas vidas”. (Rodrigues, 2006)

Os resultados da pesquisa apontam que as mulheres católicas modernas sentem uma distância entre suas necessidades afetivas de realização pessoal no campo da sexualidade e as orientações da Igreja nesse aspecto, que limita tal realização.

Alguns valores, principalmente no que se refere à orientação católica sobre a sexualidade, são questionados, refletidos e adaptados às suas realidades. Mesmo assim não desejam deixar de ser católicas, pois os valores vinculados ao amor cristão dão sentido à sua vida.

“Acredito que, do mesmo modo, mulheres católicas que percebem incompatibilidade entre os valores da sua religião e os seus desejos pessoais diante da vida buscam novos caminhos e interpretações da sua crença. ‘Migram’ dentro da própria religião, como quem muda de cidade em busca de melhores condições de vida sem, contudo, mudar de país. Ou seja, dando novos significados à orientação religiosa, é possível elaborar uma identidade religiosa alternativa para vivenciar sua espiritualidade”. (Rodrigues, 2006)

A autora afirma: “Penso que a alteração da identidade feminina quanto a ‘ser mulher’, ocorrida radicalmente no último século, desencadeou questionamentos sobre o ‘ser mulher católica’ dentro da sociedade, sobretudo para as mulheres católicas. A busca desta resposta – que contou com os conflitos internos e sociais enfrentados rumo à transformação, que era contrária ao esforço da Igreja Católica pela conservação de valores e costumes – culminou com uma crise de identidade religiosa”.

Desta forma, as mulheres católicas modernas tentam buscar um novo caminho, modificando os aspectos do catolicismo que lhes incomodam, passando a agir segundo suas consciências.

Para Rodrigues, (2006) deixar de reprimir a sexualidade e a existência a partir de um papel moral culturalmente estabelecido indica uma busca de saúde psicológica, um momento de ampliação da consciência, e uma evolução crítica humana. Fazê-lo sem perder a identidade religiosa, mas, ao contrário, atribuindo-lhe novos significados, ilustra um processo de metamorfose.

“Em recente pesquisa sobre identidade religiosa e sexualidade feminina, Michelle Spenser Arsenault (1999) conclui que, quando questionadas sobre ensinamentos católicos e sexualidade e maternidade, as mulheres do seu estudo discordam da Igreja sobre a contracepção, mas escolhem incorporar os ensinamentos católicos sobre maternidade em suas vidas”.(Rodrigues, 2006.)

Em sua pesquisa, Rodrigues 2006 cita Penélope Ryan (1999), em seu livro “Católico Praticante”. Neste livro, a autora questiona o modo pelo qual alguém pode ser um “bom” católico no mundo contemporâneo, vistas as divergências entre os ensinamentos transmitidos pela Igreja Católica e a realidade das pessoas que são católicas, apontando para o conflito interno e externo gerado por tal desacordo. O texto indica como principais virtudes almejadas pelo católico a fé, a esperança e caridade, seguidas pela pureza e virgindade. Mas quanto ao que identifica o católico no mundo moderno, a autora apresenta novas virtudes, como a prática social da fé e a justiça.

A autora percebe um resultado semelhante ao citado por Ryan em sua pesquisa: “As mulheres católicas vivenciam sua fé assumindo os valores da ética cristã de amor e fraternidade nos seus relacionamentos, mas buscam a absolvição de seus “pecados sexuais” nas descontinuidades da modernidade. E, de fato, passam a se sentir livres da maioria das ‘culpabilidades’ sobre sua conduta sexual. A permanência no Catolicismo está mais ligada à relação que essas mulheres mantém com Deus do que com a afinidade com as orientações e costumes religiosos da pratica sexual.”

Em sua pesquisa a autora diz que embora as entrevistadas conheçam a posição oficial da Igreja, não consideram pecado praticar sexo antes do casamento e declaram que sua sexualidade não atrapalha sua religiosidade. Percebe-se uma visão positiva em relação à sexualidade, associando sexo ao amor. A maioria das entrevistadas utiliza métodos contraceptivos em suas relações.

Dom Fernando Mason (2006), afirma que a Igreja não é contra o planejamento familiar, é a favor da paternidade responsável, só afirma que a Igreja tem uma posição diferente da usual e comum, mas, não entra em maiores detalhes em seu artigo.

Rodrigues (2006) afirma que, em relação ao aborto, embora quase metade das participantes já tenham passado por um aborto, sendo que seis delas o provocaram, a maioria o considera crime e cinco o apontam como pecado. “Os sentimentos descritos com relação à prática foram paradoxais: variam da culpabilidade, arrependimento, tristeza, medo e depressão à alegria e alívio”.

Desta forma, percebe-se uma distância entre o discurso oficial da Igreja e a prática da sexualidade das mulheres católicas modernas. Segundo a autora, ao associar sexo ao amor, concluem que Deus é amor e que, por isso, está presente em sua sexualidade, o que legitimaria suas condutas.

A Igreja Católica, como Dom Fernando Mason faz questão de ressaltar, tem mais de 2000 anos de respostas para quase tudo o que se refere à conduta humana. Deixo a questão em aberto e faço um convite para um representante que possa falar em nome da Igreja para descrever como a Igreja tem lidado com as transformações no contexto moderno de “ser católico”, quando muitos acreditam que sua sexualidade não interfere em sua religiosidade e sua fé, sentindo-se assim bons católicos por praticarem atos de compaixão, solidariedade, a prática social da fé e da justiça? A Igreja é contra o uso de preservativos como método de planejamento familiar, mas quanto ao risco e o controle da epidemia da Aids, que outro método de prevenção pode ser adotado? Abstinência sexual em massa até o casamento?

Bibliografia

Lopes, Helena Theodoro. Mulher negra, mitos e sexualidade. Disponível em: www.lpp-uerj.net/olped/documentos/ppcor/0224.pdf. Acessado em: 19/12/2006.

Mason, Dom Fernando – Bispo de Piracicaba. Sentido cristão da sexualidade. Disponível em: http://www.catequisar.com.br/txt/materias/especial/bispo/38.htm. Acessado em: 19/12/2006.

Rodrigues, Cátia S. Lima.Católicas e Femininas: Identidade Religiosa e Sexualidade de Mulheres Católicas Modernas. Revista de Estudos da Religião Nº 2 / 2003 / pp. 36-55.

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