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	<title>Sexualidade by géh &#187; edições 11 a 15</title>
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	<description>Sexualidade: artigos de pesquisa e entrevistas</description>
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		<title>Eros</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Dec 2008 01:27:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Eros é a idéia de uma força          que liga: fisicamente pelo sexo; emocionalmente, pelo amor; e mentalmente,  <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/eros/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eros é a idéia de uma força          que liga: fisicamente pelo sexo; emocionalmente, pelo amor; e mentalmente,          pela imaginação. Hirsch começa pelo conceito de Freud          de &#8220;Instinto de vida&#8221;, a que ele chamou de &#8220;Eros&#8221;.          Antes de tê-lo criado, Freud deu ênfase à sexualidade como fonte de motivação          para muitas atividades fossem ou não sexuais. Ao introduzir o conceito          de Eros, Freud inseriu nele a sexualidade, chegando à visão          de que a pulsão da vida, ou Eros, mantém unidos os seres          vivos.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><img title="Eros - Geneviève Van der Wielen" src="http://gehspace.com/edicao%2015%20imagens/eros%20geneviev.jpg" alt="Eros - Geneviève Van der Wielen" width="300" /><p class="wp-caption-text">Eros - Geneviève Van der Wielen</p></div>
<p>O estado emocional de uma pessoa pode reagir de forma semelhante          ao sistema imunológico, repelindo idéias ou pensamentos          estranhos. Para que a cópula &#8211; entendendo-se cópula como          qualquer forma de união: sexual, emocional ou mental &#8211; seja possível,          a &#8220;estranheza&#8221; &#8211; a diferença da outra pessoa ou idéia          &#8211; precisa ser vista como relevante. O sexo oposto tem um corpo com características          sexuais diferentes, na diferença contém a promessa de algo          novo.</p>
<p>Seguindo este conceito de Eros, Freud fundamenta de um modo novo o seu          interesse nos instintos sexuais, criando uma teoria unificada de sexo          e do amor, em que nenhum deles seja secundário e ambos sejam formas          de ligação entre elementos diferentes.</p>
<p>Segundo Hirsch, a teoria das pulsões fundamenta a idéia          caricata de que &#8220;os homens só querem sexo&#8221;. Já          na teoria das relações de objeto, prevalece a caricatura          de que &#8220;as mulheres só querem amor&#8221;, dando a impressão          que as mulheres não têm desejos sexuais. Nessas duas visões,          existe uma divisão entre sexo e amor. De acordo com a teoria das          relações de objeto, o amor parece mais um desejo de segurança          do que o desejo de estar com a outra pessoa.</p>
<p>Isso não quer dizer que a quantidade e a qualidade de amor em um          namoro sejam as mesmas que a de um casamento duradouro, mas sim que a          consideração pelo outro possibilita a cópula entre          duas pessoas diferentes. Do mesmo modo que o amor, a maneira de expressar          o sexo é bem diversa entre amantes, e digamos, mães e filhos,          mas sem dúvida falta alguma coisa se a relação mãe-filho          não tiver nada de sensual.</p>
<p>O conceito freudiano de Eros é um modelo de sexualidade complexo,          ajustável ao desenvolvimento sexual diferente dos indivíduos.          A ênfase na genitalidade baseia-se na sua conclusão de que          há um elo entre relação sexual e vida nova (procriação).          Do ponto de vista de Eros, não existiria cópula, mesmo ocorrendo          penetração, quando o corpo é usado do outro é          usado somente como objeto de masturbação.</p>
<p>Existe uma diferença entre ver o relacionamento com outra pessoa          como se desejaria que fosse e descobrir o que o relacionamento realmente          é. O amor sempre se inicia pela idealização, ignorando          aquilo que o contradiz. Ao mesmo tempo a idealização pode          dissipar-se quando a pessoa passa a conhecer melhor a outra, tendo condições          de tornar o amor mais complexo e generoso.</p>
<p>O trabalho de imaginação é uma cópula entre          a vida interior do indivíduo e o mundo que o cerca. Do ponto de          vista da psicanálise, a capacidade de ser imaginativo está          relacionada com a capacidade de se deixar influenciar. Um exemplo adotado          por Hirsch, sobre a origem da imaginação: o bebê começa          a ter fome e se torna irrequieto. Faz então movimentos de sucção          com a boca e parece satisfeito. Depois de alguns minutos, começa          a gritar. O que aconteceu nos poucos minutos de satisfação?</p>
<p>O bebê talvez tenha tido uma alucinação com o seio,          acreditou ser alimentado, até que a dor da fome cortou a alucinação.          A alucinação é predecessora dos devaneios. Da maneira          análoga, as pessoas adultas têm alucinações          em que tentam dar a si mesmas o que querem e, especialmente, tentam se          recompensar e acalmar.</p>
<p>As relações deturpadas também são uma maneira          de evitar a cópula e a diferença (separação).          O autor cita o exemplo de um paciente de Betty Joseph, que notou que seu          paciente estava fazendo algo com os dedos, encostando a ponta dos dedos          de uma mão na outra com muita suavidade quase sem parar, como uma          atividade masturbatória. O paciente, de forma consciente era apartado          da sua mulher e do analista, mas não tinha consciência de          que essa separação expressava um medo de proximidade.</p>
<p>Em uma exploração analítica, Betty Joseph e o paciente          descobriram com o tempo que ele podia &#8220;tocar&#8221; uma relação,          mas não consumá-la. Pode parecer estranho um sentido de          estimulo sexual em uma ação tão aparentemente trivial.          No entanto, conhecemos gestos de mãos com um sentido sexual que          são trocados socialmente, como mostrar o dedo médio.</p>
<p>Alguns contemporâneos de Freud e muitos outros depois deles apresentaram,          por exemplo, argumentos que inferem que a teoria freudiana da sexualidade          funciona como uma pressuposição, ou seja, ele achava ou          reconhecia que o sexo estava em tudo e portanto &#8220;via o sexo em tudo&#8221;.          Já o psicanalista Bion dizia que a teoria deveria ficar na mente          do analista como uma pré-concepção, referindo-se          ao uso de uma teoria para ajudar a reconhecer o que poderia ser o material,          em vez de uma teoria usada para impor um julgamento prematuro.</p>
<p>Nas palavras de Hirsch (2005:67): &#8220;As pressuposições          são interessantes por si sós, especialmente no contexto          Eros. Elas podem se parecer com a ligação promovida por          Eros mas, quando rígidas, são na verdade letais para o raciocínio&#8221;.</p>
<p>Relacionando as três áreas onde Eros atua &#8211; sexo, amor e          imaginação &#8211; percebemos qualidades em comum:<br />
- As relações entre as pessoas e dentro do próprio          indivíduo são extremamente complexas. Sentir-se vivo (Eros)          abrange o amor e o ódio do indivíduo;<br />
- É imprescindível reconhecer as diferenças entre          as pessoas para se ter uma vida própria pois só o reconhecimento          faz emergir possibilidade de cópulas &#8211; vínculos primordiais          do Eros.</p>
<p class="texto"><strong>HIRSCH</strong>, Nicola Abel. <strong>Conceito da          Psincanálise: Eros</strong>. Rio de Janeiro: Relume Dumará:          Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.</p>
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		<title>Castração</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Dec 2008 00:28:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[castração]]></category>
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		<description><![CDATA[<p class="texto">Neste trabalho, abordamos o conceito psicanalítico          de castração tal como exposto por Ivan Ward (2005), através  <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/castracao/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="texto">Neste trabalho, abordamos o conceito psicanalítico          de castração tal como exposto por Ivan Ward (2005), através          de casos expostos por psicanalistas consagrados.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 340px"><img title="Mother por Damien Hirst" src="http://gehspace.com/edicao%2014%20imagens/hirst-mother%20damien.jpg" alt="Damien Hirst - Mother - arte sexualidade" width="330" height="190" /><p class="wp-caption-text">Mother por Damien Hirst</p></div>
<p>O complexo de castração consiste em          uma diversidade de crenças e emoções infantis relacionadas          com a consciência nascente de uma identidade sexual definida. No          menino, a crença de que a mãe teve o pênis decepado          pelo pai e que seu próprio órgão sexual pode estar          sujeito ao mesmo perigo. Já para a menina, a crença de que          ela teve um pênis que foi removido brutal e injustamente.</p>
<p>Freud em seus ensaios que abordam o complexo de castração,          foram baseados nos relatos das crianças. Na época da última          grande obra de Freud, o complexo de castração praticamente          se fundira ao complexo de Édipo.</p>
<p>Melaine Klein, em suas pesquisas, demonstrou que as inibições          na escola podem estar intimamente ligadas ao pavor da castração,          ou seja, se eu fizer &#8220;X&#8221; serei castigado (com a castração).          Só se pode superar a inibição quando esta angústia          é solucionada.</p>
<p>Na Antigüidade, era comum o uso de símbolos fálicos          como proteção contra o perigo. Segundo Freud, é preciso          muito pouco para que se desencadeie o sentimento da ameaça., como          no caso de um menino de 14 anos, Daniel, que contou sobre um objeto curioso          de que ele ouvira falar no berçário do Centro Anna Freud.          Chamava-se &#8220;willy-cut&#8221; (corta-pipi). Era como uma tesoura de          jardinagem, mas com funções bem mais específicas.          O garoto tivera essa convicção com pouquíssimas evidencias:          ouvira um dos terapeutas do centro dizer uma palavra enigmática          &#8220;Winnicott&#8221; (nome do psiquiatra inglês).</p>
<p>O psiquiatra Samuel Ritvo escreve sobre um caso em que a alucinação          é substituída pela fantasia: O paciente sofria de castração          intensa e consciente, fantasiando muitas vezes por dia que era vítima          de castração acidental ou intencional. Ele imaginava que          um cachorro fosse abocanhar o pênis dele, ou que quando estivesse          saindo de casa, cairia da escada e o seu pênis se prenderia em algo          e seria arrancado.</p>
<p>Ward utiliza outro exemplo bastante recente: o dos fanáticos político-religiosos          que lançaram aviões contra o World Trade Center e o Pentágono.          Os comentaristas classificaram os acontecimentos como um &#8220;toque de          despertar&#8221; para a nação americana. Ora, as torres não          deixavam de ser símbolos fálicos de poder, de modo que esse          incidente pode ser relacionado às dificuldades normais de amadurecimento.          A destruição dos símbolos foi interpretada pela metáfora          do &#8220;crescimento&#8221;, como se a investida contra esses símbolos          do poder, de alguma forma, lembrasse as perdas da infância.</p>
<p>A castração é fundamental em quatro aspectos: a aceitação          da diferença sexual; a negação desta diferença;          a produção de excitação e como causa de inibição          sexual. Para Freud a castração torna-se um símbolo          da diferença sexual, e a superação da ameaça          determina a identidade sexual.</p>
<p>A psicanalista Joyce McDougall, relata a historia de seu neto de 4 anos.          Depois de ter passado o dia inteiro perguntando sobre a gravidez de sua          mãe, o garoto ansioso para aproveitar o novo conhecimento, e quando          o pai chega faz um pedido especial: &#8220;você poderia, por favor,          por um bebê na minha barriga também&#8221;? McDougall relaciona          esse fato com uma homossexualidade primária, ressaltando as possibilidades          bissexuais da primeira infância.</p>
<p>&gt;A sexualidade pervertida usa variadas formas para evitar a ameaça          da castração. O exibicionista fálico defende-se da          angustia da castração e se tranqüiliza com a idéia          de que seu pênis não é mutilado, mas poderoso e lindo.          Ao concentrar o desejo sexual num objeto, o fetichista rejeita a existência          dos genitais femininos e terror da castração que eles originam.          Os sadomasoquistas vencem a angústia da castração          provocando dor, inclusive recorrendo a agressões genitais.</p>
<p>A analista israelense M. Woolf conta o caso de uma garotinha criada num          Kibbutz que se recusava a dormir no chalé das crianças.          Toda a vez que a mãe tentava levá-la meio adormecida, a          criança acordava chorando e tremendo: &#8220;O cachorro arrancou          meu pipi&#8221;</p>
<p>Na arte contemporânea também podemos verificar o sentimento          de castração sofrido por Damien Hirst. Mãe e filho          divididos &#8211; uma vaca e um bezerro serrados ao meio e colocados em quatro          tanques de formol &#8211; é uma representação simbólica          da separação brutal entre mãe e filho. Hirst nasceu          sem alarde em Bristol; o pai não quis conhecê-lo e um ano          depois a mãe mudou-se para Leeds, sua cidade natal, casando-se          novamente. A obra não trata de vida e morte, mas é uma forma          de simbolizar o que o menino sentiu quando a mãe voltou a se casar:          sua agonia ante os sentimentos de traição. A obra o modifica,          porque não é mais ele que sofre a ruptura provocada pela          divisão, mas é ele que, no ato de destruição          e criação, assume o lugar do pai e seu papel imaginário.          É em razão do medo da castração que o pai          tem um efeito inibidor, não só a castração          que se teme sofrer, mas a mutilação genital que se imagina          da mãe.</p>
<p>Ward (2005:46) relata a sua reação ao assistir ao filme          &#8220;A professora de Piano (2001)&#8221;. &#8220;Me senti com calor e suado,          tonto e nauseado. Um suor frio fez a minha pele formigar. Eu sabia que          ia desmaiar.&#8221; A cena que provou o desmaio era a representação          de uma automutilação genital feminina. A professora entra          no banheiro de sua casa, nua, desembrulha uma lâmina de barbear          de um pedaço de pano, entra na banheira e senta-se na beirada.          Com um espelho pequeno para ver melhor as pernas, ela corta os genitais          com a lâmina, e o sangue pinga na banheira. A cena é filmada          em perfil, e o que se vê realmente é o gotejar de sangue          na banheira. Ward se pergunta: &#8220;Por que isso me alarmou tanto?&#8221;.          Argumenta que não era devido ao sangue, pois estava acostumado          com os seriados dramalhões de hospitais, em que sempre havia muito          sangue e isso nunca lhe provocou reação semelhante. Até          mesmos cenas de castração como em &#8220;Império dos          Sentidos&#8221;, não produziram esse efeito. Ele concluiu que sua          angústia não deve ter relação direta com a          imagem, mas com o tema de mutilação genital, que deve ter          aflorado inconscientemente.</p>
<p>Ward conclui que o complexo de castração é um conjunto          de crenças infantis; um organizador da diferença sexual;          um determinante fundamental do caráter e do destino das pessoas. Os efeitos deste complexo são amplos          e variáveis para o individuo e para a cultura.</p>
<p>WARD, Ivan. <strong>Conceitos da Psicanálise: Castração</strong>.          Rio de Janeiro: Relume Dumará: Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto,          2005.</p>
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		<title>Inferninho</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Dec 2008 00:02:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Saudades daquele inferninho! Isso mesmo. Aquela boate GLS          num beco de Sampa! Saudades de ser a única &#8220;raxa&#8221; <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/inferninho/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Saudades daquele inferninho! Isso mesmo. Aquela boate GLS          num beco de Sampa! Saudades de ser a única &#8220;raxa&#8221; trabalhando          entre Drag Queens! Saudades da bee berrando sempre que me via chegar “Lá          vem aquela que dá a ELZA&#8221;. Saudades do inferninho que          derretia a maquiagem toda que tinha que usar. Do Velvet Goldmine em terras          paulistas. Dançar &#8220;Down By the Water &#8211; PJ&#8221; com aquela          gente.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><img title="Rocca - Foto por Renato Stockler" src="http://gehspace.com/edicao%2013%20imagens/rocca.jpg" alt="Rocca Stockler - foto por Renato Stockler" width="300" height="225" /><p class="wp-caption-text">Rocca - Foto por Renato Stockler</p></div>
<p>Saudades daquelas pessoas tão maravilhosas e tão          perseguidas pelos preconceituosos. Perdi a conta de quantas vezes olhei          pra alguém com pena. Pena da postura pequena, cabeça fechada&#8230;          Pena de saber quanto àquela pessoa estava perdendo por ser medíocre.          Do namorado que propôs “pro nosso namoro continuar você          tem de escolher eu ou ser hostess desse inferninho”. Pedi desculpa,          mas não podia chorar e correr o risco de borrar a maquiagem, afinal,          tinha a que estar ali até às 8h da manhã de segunda-feira.          Se cuida, querido!</p>
<p>Saudades de andar de metrô as nove da manha e ser          observada como um alien. Coturnos, corseletes and make-up. Saudades do          rosto assustado da minha mãe quando me reencontrou quatro anos          depois de me mandar embora. Rosto de descrença e orgulho. Como          quem diz “Ela sobreviveu, ainda que eu não faça mais          idéia de quem seja minha filha, mas to vendo uma mulher com RG          de menina. Confesso que senti muita magoa da minha mãe. Papai,          e melhor amigo, morre. Mamãe surta. E Rocca teve que enterrar os          dois em menos de três meses. Um morto, literalmente. Ela, uma viva          morta que, surtada, falou, tchau Rocca. Mas quer saber? Foi a melhor coisa          que aconteceu na minha vida. Te vira nêga é o que toda mãe          deveria fazer com os filhos”.</p>
<p>“Ela é tão nova!”, falou o tiozinho          da padaria um dia desses. Eu agradeci sorrindo e concordei “sim,          sou nova. Uma velhinha assanhada” Ele não entendeu, mas retribuiu          o sorriso! Kadu fala que se não me conhecesse há 15 anos          jamais teria casado comigo. Ele sabe que sempre fui responsável          demais. É perfeitamente possível estar num banheiro compartilhado          por homens e mulheres drogados e bêbados e não ser um. Ter          19 tatuagens e não ser um marginal perigoso fora da jaula. E quando          vinham aqueles zombies oferecendo “um pega” eu agradecia falando          “não obrigada eu sou o traficante e não o usuário”          e caía na gargalhada. Sempre fui tão moleca no meio de tanta          “droga”.</p>
<p>E os porteiros que achavam que eu era puta. Por que? Ué,          por pagar a PUC e o apErtamento sozinha, com 18 anos&#8230; “Isso só          puta consegue” – Eu caia na gargalhada – Não          há argumento que convença quando você chega no prédio          pela manha fedendo a cigarro nem corselete e salto alto! Eu brincava:          “Tá louco! Puta? Não querido, eu sou acompanhante          de luxo” e mais gargalhada. Bons tempos&#8230;</p>
<p>&#8220;Hoje digo a essas pessoas que tantas vezes          acolheram aquela garota dos ojos de perra (olhos de cachorra): A mulher          que sou hoje, é reflexo do que aprendi com vocês. Quando          meus olhos buscam visualizar o que valeu a pena, garanto, vocês          foram o que valeu a pena.&#8221;</p>
<p>Com todo meu amor, muito obrigada!</p>
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		<title>As Mãos Estendidas do Universo Sexual Paralelo</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Dec 2008 23:58:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[edições 11 a 15]]></category>
		<category><![CDATA[preconceito]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Entrevista com Rocca Stockler &#8211; por Alexis Kauffmann e Géssica Hellmann</p>
<p>Rocca Stockler, no depoimento publicado acima, conta sua          <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/as-maos-estendidas-do-universo-sexual-paralelo/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Entrevista com Rocca Stockler &#8211; por Alexis Kauffmann e Géssica Hellmann</em></p>
<p>Rocca Stockler, no <a title="Inferninho, por Rocca Stockler" href="http://gehspace.com/sexualidade/inferninho/">depoimento publicado acima</a>, conta sua          vivência entre grupos cujo comportamento social e sexual as transforma          em vítimas de preconceitos nem sempre justificados, gente que é          rotulada de forma infame, mas que são capazes de estender as mãos,          às vezes com espírito mais solidário do que aqueles          que a sociedade rotula como &#8220;bons rapazes&#8221;, &#8220;boas moças&#8221;,          &#8220;cidadãos exemplares&#8221;.</p>
<p>Ela não é a única. Em 31 de agosto deste ano, marquei          minha volta ao Multiply com um pequeno texto de acesso restrito intitulado          &#8220;Sim, eu sou racista&#8221;:</p>
<p>&#8220;Sou homem, heterossexual, branco (bem, pelo menos para os padrões          do IBGE, defino-me etnicamente como &#8220;vira-lata&#8221;) e católico          (para efeito de preenchimento de formulários).<br />
Passando minha vida em revista, reparo que, sempre que passei por apertos,          quem me estendeu a mão e foi legal comigo foi &#8220;a mulher&#8221;,          &#8220;a prostituta&#8221;, &#8220;o viado&#8221;, &#8220;o crioulo&#8221;,          &#8220;o crente&#8221;, &#8220;o judeu&#8221;. Então, confesso meu          racismo. Com algumas exceções, é claro, não          suporto homens heterossexuais brancos e católicos. Ô raçazinha          inútil que não serve pra nada&#8230;&#8221;.</p>
<p>Trata-se, obviamente, de uma ironia. Também tenho ótimos          amigos homens heterossexuais brancos e católicos.</p>
<p>Ao conhecer a história de vida de Rocca Stockler, decidi que PRECISAVA          saber suas idéias a respeito. Conversamos sobre o assunto e a Géh          conduziu o bate-papo que vocês lerão agora, com exclusividade          para o gehspace:</p>
<p><strong>Géh</strong>: Comparando com a sua experiência de          vida, qual a sua opinião sobre o texto do Alexei? A &#8220;minoria&#8221;,          os marginalizados, são mais solidários, com quem está          passando por problemas?</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Por problemas todo mundo passa, poucos encaram.          Acredito que a minoria já é maioria. Existe uma &#8216;hierarquia&#8217;          de rótulos sociais, não há mais maioria e minoria.          O ponto X, ou G, seria o preconceito que também está em          todos os cantos. Sim, são as putas, os travestis, os drogados,          eu, você&#8230; Essa questão abrange uma quebra de limite pessoal          e não maiorias e minorias.</p>
<p><strong>Géh</strong>: &#8220;Minorias&#8221; talvez realmente não          seja o termo adequado, e sim os que sofrem de &#8220;preconceitos&#8221;.</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Essa moeda tem mais de dois lados. Existe um fator          primordial: até certa idade, o humano, em sua inocência,          caminha com um cabresto. Alguns passam o resto da vida usando essa limitação.          Outros encaram de frente quando percebem ser diferentes daqueles que mantém          um cabresto (tradicionalismo arcaico). Quando isso acontece junto vem          uma quebra do limite normal, é quando você passa a se defender          em postura, quando você percebe que não tem mais como estar          feliz junto aos que mantém o tal cabresto. Quando rola isso é          como se abrissem uma janela num quarto em que só existia uma porta.          Infelizmente, o diferente assusta, e a sobrevivência faz você          buscar estar com iguais até mesmo como defesa. E, diferente do          cabresto que é repleto de problemas sabiamente ocultos, a violência          destinada aos &#8220;diferentes&#8221; é totalmente explicita.<br />
Lógico que, quando você é alvo de toda penalidade          por encarar de frente ser o que é, seja o que for, você se          torna infinitamente mais humano. Assim como perde o medo de estar entre          humanos. Você passa a viver no limite porque ultrapassou o limite          que conhecia na época que se desconhecia.</p>
<p><strong>Géh</strong>: Sabe, vou contar algo que eu senti quando          fui a primeira vez em uma boate gay, na verdade, até então,          a única. Eu era a única mulher. Os homens eram sarados,          lindos maravilhosos e gays. Um grande amigo meu veio me visitar no rio          e eu disse que gostaria de conhecer uma boate gay. Procuramos uma e lá          fui eu, o Alexei, meu amigo com o namorado. Eu fui tratada com tanta gentileza,          não sei o que eu esperava, talvez por ser a única estranha          no ninho.</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Levou um susto com a forma que foi tratada?</p>
<p><strong>Géh</strong>: Sem brincadeira, nunca em nenhum outro lugar          me senti tão bem. Em boates heteros, por exemplo, nunca me cederam          a mesa o ambiente estando lotado. E lá cederam.</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Você assumir ser o que é, é          uma forma de respeitar ser o que são. Não há por          quê gerar preconceito quando se luta contra. Mas há muito          preconceito nesse mundo &#8220;excluso&#8221; também, aí entra          o terceiro lado da moeda. Preconceito entre os &#8220;exclusos&#8221; [uso          essa palavra por não achar outra]. O dedo humano infelizmente não          se contenta. Não generalizo, mas sei que existe, e existe forte.</p>
<p><strong>Géh</strong>: Sim. Mas lembro sempre de uma frase: quando          se aponta um dedo para uma pessoa, três dedos se voltam contra você          mesmo.</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Por isso o problema não finda. Um ponto          chave nisso tudo: Sim: foram as pessoas &#8220;da rua&#8221; que mais me          deram a mão, independente de quem eu era, e do que fazia entre          eles. Não se questiona muito. Mas também temos que levar          em consideração que as pessoas com cabresto não estão          nas ruas. Contrário. Elas temem um olhar fixo &#8211; ao menos sempre          abaixaram a cabeça pros meus &#8211; Deve ser o tal medo do desconhecido.          Talvez se eu não tivesse sido abortada do ambiente família          precocemente, hoje eu poderia ser alguém que estranha as pessoas          que fizeram parte da minha vida.</p>
<p><strong>Géh</strong>: É mais fácil o confortável          do que se conhece, do que descobrir o novo.</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Sim. Mas rola um pra que, né? Não          há necessidade de apenas conhecer. Pode haver curiosidade, mas          não necessidade. Querendo ou não, é um &#8220;olhar&#8221;          de impacto, e muitas vezes sempre mostram só a parte ruim desse          mundo. A única coisa que mostram e acaba por atrair a todos, por          curiosidade, é a tal &#8220;parada gay&#8221;, mas isso é          algo que não sinto como positivo pra nenhum dos lados. <strong>Géh</strong>:          O pior de tudo é o ser humano ter a mania de criar &#8220;rótulos&#8221;,          e esses rótulos que levam ao preconceito. Esquecem que todos são          humanos, tem sentimentos&#8230;</p>
<p><strong>Rocca</strong>: A parada gay é um rótulo criado          pelos próprios. Olha o paradoxo? É uma vitória de          uma batalha eterna. As leis pouco favorecem o mundo GLS. Essa luta é          complicada porque além das nossas leis serem do tempo da pedra,          elas passam a alimentar o caos dentro da vida daquele casal homossexual          que só quer andar pela praça da republica em paz como qualquer          casal faz. Parada gay, o manifesto, é uma forma que acharam para          conseguir espaço e paz. Só que há uma contramão          de intenção. Decretar um dia do ano para o orgulho gay é          você assinar ser excluso no cotidiano de 365 dias do ano.</p>
<p><strong>Géh</strong>: É tão fácil julgar sem          conhecer&#8230;</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Sempre fácil. Tudo é fácil          quando feito frente uma televisão. Estendendo mais o assunto: quantos          &#8220;pais de família&#8221; pagam putas e travecos para serviços          prestados? Inúmeros. Só que isso é algo que o &#8220;pai          de família&#8221; jamais vai assumir no almoço de domingo.          A melhor maneira de se defender é agredir, logo ele vai ser o primeiro          a desrespeitar a pessoa que ele busca pra ter prazer. Não defendo          nenhum dos lados, mas sei que existem muitos ângulos. Literalmente.</p>
<p><strong>Géh</strong>: Já senti muito preconceito por ter          &#8220;blogs com poesias eróticas&#8221;. Era o mesmo que estampar          &#8220;ela quer dar, é puta&#8230; etc&#8221;. E pior nem é isso,          mas sim a energia negativa que recebi quando muitos destes &#8220;fãs&#8221;          souberam que casei. É o tal do fio da navalha, você tem que          andar e tomar cuidado pra não cair pro lado errado.</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Porra, criam todo um fetiche. &#8220;O rito faz          o mito&#8221;. Acham que você é um ícone a ser seguido,          quando na verdade você tá de meião no chão          e calcinha branca de algodão. Mas o ícone jamais. Não          é?</p>
<p><strong>Géh</strong>: Falou e disse, quase me descreveu.</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Sinto que o problema real é o mais oculto.          Acontece que chega um ponto que não há como ver e, se há,          não existe mais pique pra mudar. Exemplo: um homossexual que sofreu          a vida inteira o lance de exclusão. De repente ele percebe que          pode usar isso a favor e cria uma persona em cima. Já que vai apanhar          que seja com glamour né? E assim ele continua sendo o que sempre          foi, com a diferença que passa a ter paz. Por que isso? Porque          a geração que está vindo, aqueles que teriam de estar          formando um caráter, se não tivessem perdendo o que sobra          nos embalos de qualquer um, olham esse homossexual como um ícone.          É quando fode tudo. É quando o ícone encontra a tal          paz, afinal querendo ou não existe admiradores e isso é          uma retaguarda. Mas é também quando uma geração          começa a &#8220;estar como&#8221; algo que jamais vão vir          a ser.<br />
Essa questão social é um assunto que eu posso passar a vida          inteira pensando sobre e jamais vou chegar ate a raiz. É complexo          demais. Mas dentro desse complexo eu vejo o erro na tal expressão          &#8220;Tem um elefante na sala de estar&#8221; saca? Tudo é uma questão          de raiz.<br />
Eu estive entre eles. Não sou um deles e sempre fui, porque pra          mim são as pessoas com quem mais troquei vida. Mas eu nunca saí          de casa por ser gay, ou puta ou traveco ou traficante&#8230; E quando saí          não virei nenhuma dessas coisas. Eu me tornei um item a mais entre          eles. Acho que fui a garota precoce que estava perdida e encontrou apoio          destas pessoas.</p>
<p><strong>Géh</strong>: É uma experiência que a gente          leva pra vida toda né?</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Completamente. Deixa de ser uma experiência          e passa a ser você. Quando abrimos janelas dos limites humanos nunca          mais as fechamos.</p>
<p><strong>Géh</strong>: É quando você conhece uma nova          história (realidade). Você se torna parte dela&#8230;</p>
<p><strong>Rocca</strong>: E não só essa. Tem muita coisa que          não vivi ainda. Hoje em dia eu tenho que aprender a fazer as coisas          leves que não fiz aos 17 anos, mas já sou uma 2.9 quase          3.0. Fica difícil.</p>
<p><strong>Géh</strong>: Fala aí velha. [risos]. Estou com          2.7 e me surpreendo. A cada dia quero aprender mais, só espero          ter sabedoria para saber o que fazer com o que eu aprender.</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Você tocou num ponto fundamental, o qual          vem do berço: Caráter. Sabedoria. Andar por coisas desconhecidas,          ser parte, mas não mudar sua referência. Às vezes          eu brinco que, quando vou embora não olho pra trás, mas          a real é que o &#8220;atrás&#8221; está um passo a          frente. Eu, todos, tive tudo pra me afundar. Não há dúvidas          de que o ambiente proporcionava rumos que desconheço, por sorte          me mantive sendo o que sempre fui.</p>
<p><strong>Géh</strong>: Uma pontinha das coisas novas que estou aprendendo          tento deixar aqui no Géh. Sinto que algumas outras não cabem          neste espaço, mas sei que se aprender só pra mim não          terá valido a pena. É preciso passar um pouco para os outros.          São coisas que tenho pensando, idéias que surgem ainda sem          forma. É exatamente isso o que você passa para as pessoas,          e é muito bom. É uma energia boa. Esta no coração,          na intenção, no caráter e na cabeça&#8230;</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Não é fácil. Se eu falar          que é estaria mentindo. Tem uma multidão que pega pesado          pro meu lado, sem falar os que se afastam. Quando eu comecei a escrever          sobre a vida não pensei estar fazendo o que vejo hoje. Cheguei          num ponto que percebi não poder ultrapassar e isso machuca. Escrevi          a casca, não posso quebrar o ovo. Até porque sinto que,          se eu quebrar o ovo, vou transformar em perda tudo que um dia foi ganho.          Percepção é cisco no olho. Você suporta alguns.          Mas todo dia não há como.<br />
Eu entendo seu receio em relatar o que está vivendo. Caminhamos          numa linha tênue. Tem que ter muito cuidado pra não se deixar          agredir por não ter conseguido passar o fato de fato.</p>
<p><strong>Géh</strong>: Nem todos estão preparados pra ler,          e se mostrar também te torna vulnerável. Mas pode apostar          uma coisa: assim como pra você foi importante o apoio recebido naquela          fase da sua vida. Pra eles foi importante em dobro poder te ajudar&#8230;          E saber que alguém que fazia parte do &#8220;outro lado&#8221; soube          andar no mundo deles também.</p>
<p><strong>Rocca</strong>: Eu já era um deles.</p>
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		<title>A vontade do saber &#8211; A implantação perversa</title>
		<link>http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/vontade-do-saber-implantacao-perversa/</link>
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		<pubDate>Sat, 06 Dec 2008 23:52:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 11 a 15]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[michel foucault]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Géssica          Hellmann</p>
<p>No século XIX ocorreu uma dispersão          de sexualidade <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/vontade-do-saber-implantacao-perversa/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a title="escreva para a editora" href="mailto:geh@gehspace.com">Géssica          Hellmann</a></p>
<p>No século XIX ocorreu uma dispersão          de sexualidade e uma implantação múltiplas das perversões.          Multiplicaram-se as condenações judiciárias das perversões          menores, atribuindo-se a irregularidade sexual à doença          mental; da infância à velhice, foram impostas normas caracterizando          todos os desvios possíveis; enfatizaram-se os controles pedagógicos          e médicos.</p>
<p>Segundo Foucault, até o final do século XVIII, três          códigos estavam explícitos: o direito canônico, a          pastoral cristã e a lei civil. Cada código com suas próprias          normas, centrados nas relações matrimoniais. Na lista dos          pecados graves, estavam: o estupro (fora do casamento), o adultério,          o rapto, o incesto espiritual ou carnal, e a sodomia (carícia recíproca).</p>
<p>Quanto aos tribunais, condenavam tanto a homossexualidade quanto a infidelidade,          o casamento sem consentimento dos pais ou a &#8220;bestialidade&#8221;.          Na ordem civil como na religiosa, o que se levava em conta era um ilegalismo          global. Por muito tempo, os hermafroditas foram considerados criminosos          ou filhos do crime.</p>
<p>Os discursos do século XVIII e XIX enfatizavam a investigação          da sexualidade das crianças, dos homossexuais, dos loucos e criminosos          e das &#8220;grandes raivas&#8221;. Os chamados &#8220;pervertidos&#8221;          levavam o estigma de &#8220;loucura moral&#8221;, &#8220;neurose genital&#8221;          ou &#8220;desequilíbrio psíquico&#8221;. Daí a adoção          da expressão &#8220;contra-natureza&#8221; no campo da sexualidade,          que rapidamente se tornavam mais condenadas do que as outras &#8211; como o          adultério e o rapto &#8211; conquistando praticamente a autonomia: &#8220;casar          com parente próximo ou praticar a sodomia, seduzir uma religiosa          ou praticar sadismo, enganar a mulher ou violar cadáveres tornaram-se          coisas essencialmente diferentes&#8221;. (FOUCAULT, 1988:40)</p>
<p>Foucault afirma que, no século XIX, a severidade do código          foi atenuada, cedida pela própria justiça em benefício          da Medicina. Já em termos de controle, ocorreu grande severidade          em todos os mecanismos de vigilância instalados, pela Pedagogia          e pela terapêutica. Foucault descreveu quatro operações          bem diferentes da simples proibição:</p>
<p>1 &#8211; As velhas proibições de alianças consangüíneas          e a condenação do adultério com sua inevitável          freqüência e, por outro lado, os recentes controles da sexualidade          das crianças. É evidente que não se tratam do mesmo          mecanismo de poder: uma, é lei, penalidade; a outra (pelo comparecimento          da Medicina) o adestramento. Organizou-se assim, em torno na criança,          um dispositivo de barragem, com linhas de penetração infinitas.</p>
<p>2 &#8211; Esta nova caça às &#8220;sexualidades periféricas&#8221;,          provoca a incorporação da idéia de &#8220;perversão&#8221;          e uma nova especificação dos indivíduos. O homossexual          do século XIX, torna-se uma personagem, uma anatomia indiscreta.          Nada do que ele é escapa à sua sexualidade. Como uma personagem,          a homossexualidade apareceu quando foi transferida, da prática          da sodomia, para uma espécie de androgenia interior.</p>
<p>3 &#8211; Engajadas no corpo, transformadas em caráter, as extravagâncias          sexuais sobrepõem-se à tecnologia da saúde e do patológico.          O poder toma a seu cargo a sexualidade, mediante exames e observações          insistentes, implicando em proximidades e sensações intensas,          assume como um dever de roçar os corpos, acariciar-lhe com os olhos,          estimular regiões do corpo, dramatizar momentos conturbados. Cria-se,          assim, um aumento do domínio sob controle e uma sensualização          do poder em beneficio do prazer. Os exames médicos, psiquiátricos,          pedagógicos e controles familiares podem ter objetivo de dizer          não às sexualidades, mas funcionam como mecanismos de incitação          do prazer e poder.</p>
<p>4 &#8211; Surgem assim os dispositivos de &#8220;saturação sexual&#8221;.          Afirma-se freqüentemente que a sociedade moderna tentou reduzir a          sexualidade ao casal. Mas também pode-se afirmar que ela fez proliferar          grupos com elementos múltiplos de sexualidade em busca do prazer.          Na sociedade moderna, instalou-se uma rede de prazeres-poderes articulados.          A separação entre o quarto das crianças e do casal,          a separação dos meninos e meninas, os cuidados com os bebês          (amamentação e higiene), os perigos da masturbação,          a puberdade, a vigilância sugerida aos pais, extorsões e          segredos, isso tudo tranformou-se em uma rede complexa e saturada de sexualidades          múltiplas.</p>
<p>Foucault conclui este capítulo sugerindo que as sexualidades múltiplas,          as práticas sexuais, de lugar, gosto ou tipo de prática,          são, todas elas, formas de poder. Poder e prazer não se          anulam e, sim, se entrelaçam, através de mecanismos que          excitam e incitam.</p>
<p><strong>FOUCAULT</strong>, Michel. História da sexualidade: a vontade          de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 16a. edição.</p>
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		<title>Androginia</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Dec 2008 23:44:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[edições 11 a 15]]></category>
		<category><![CDATA[homossexualismo]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Tenho ouvido muita discussão sobre o que é          Travesti, Transformista, Transgênero, Transexual, Drag-Queen e Cross-Dresser.    <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/androginia/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho ouvido muita discussão sobre o que é          Travesti, Transformista, Transgênero, Transexual, Drag-Queen e Cross-Dresser.          Realmente essa diversidade provoca confusão na cabeça de          muitos ainda. Vou dar uma pincelada sobre o assunto assim, quem sabe,          aumentando o conhecimento diminua o preconceito!</p>
<p>Quem é travesti? A palavra travesti refere-se ao traje, ou seja,          disfarce no trajar, pessoas que se vestem com roupas do sexo oposto, tra-vestir-se.          Concluindo&#8230; É o Transformista, a Drag-Queen e o Cross-Dresser.          Quem é transexual? O prefixo latino “Trans” refere-se          a transitar, transformar, ir além de. Então é transexual,          a pessoa que transforma o seu genital, é a pessoa que recorre à          cirurgia para a mudança de sexo. Trans-sexual. Quem é transgênero?          Como eu disse antes, a palavra trans quer dizer transitar. Então          é trans-gênero, a pessoa que muda de um gênero para          o outro é a pessoa que transforma seu corpo, que pode ser do gênero          masculino para o feminino, ou ao contrario. O transexual não deixa          de ser um transgênero, pois além de mudar de sexo, ele também          mudou de gênero. Entre todas as diversidades de transgêneros,          podemos afirmar que as crossdressers constituem um dos grupos de maior          complexidade. Geralmente confundidas com as travestis ou com as drag queens,          em virtude do fator comum que é o uso de roupas femininas, as CD´s,          entretanto e apesar de todas as afinidades, possuem características          próprias e intransferíveis, relacionadas diretamente com          o trânsito possível entre os universos masculino e feminino.          CROSSDRESSER é um homem que esporadicamente e por motivos relacionados          com a sua libido ou com as suas pulsões sexuais, cultiva o hábito          de usar roupas femininas. Independente de seu gênero ou opção          sexual. Podem ser heterossexuais, homossexuais ou bissexuais. E descobrem          a identidade de gênero feminino sempre muito antes de conseguir          perceber as diferenças sexuais existentes entre homens e mulheres.</p>
<p>Tudo isso que expliquei detalhadamente são vertentes de uma coisa          linda que se chama androginia. Quem sabe um dia, nós não          vamos mais precisar de tantas palavras para designar o que faz parte de          um só gênero. O gênero humano!</p>
<p>Se você, alguém que você gosta, ou até um filho          aparecer falando ser algo do que citei, relaxa, ele continua humano viu?          O coração dele certamente continua o amando. E ele aprendera,          por enfrentar o preconceito, a engolir a possível pena que sentiria          de você <img src='http://gehspace.com/sexualidade/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';-)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Enquanto alguns usam a cabeça pra se ocupar em repudiar o prazer          da maquina que é o corpo humano, só vem uma frase na minha          cabeça, sabiamente escrita por um louco que o mundo admira:</p>
<p><strong><em><span style="color: #cc0000;">Te chamam de ladrão,          de bicha, maconheiro.<br />
Transformam o país inteiro num puteiro,<br />
Pois assim se ganha mais dinheiro.</span></em></strong></p>
<p><strong><em><span style="color: #cc0000;">A TUA piscina ta cheia          de ratos,<br />
TUAS idéias não correspondem aos fatos.<br />
E o tempo não pára, pessoa!</span></em></strong></p>
<p>Abra sua mente pra imundície real que é, e esta, nossa          grande pátria desinteressante. Despeitar o prazer alheio é          pequeno demais na atual situação prostituída que          nossa pátria (eu e vocês) nos encontramos. Não acham?</p>
<p><em>Rocca Stockler</em></p>
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		<title>A vontade do saber</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Dec 2008 23:34:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
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		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[michel foucault]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[repressão sexual]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Géssica          Hellmann</p>
<p align="left">O intuito desta resenha é apresentar          os <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/a-vontade-do-saber/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a title="escreva para a editora" href="mailto:geh@gehspace.com">Géssica          Hellmann</a></p>
<p align="left">O intuito desta resenha é apresentar          os primeiros pensamentos expressos nos dois primeiros capítulos          da História da Sexualidade &#8211; A vontade do saber, de Michel Foucault.</p>
<p>Segundo Foucault, no início do século XVII, os corpos pavoneavam          sem refreios, gestos diretos, discursos sem vergonha, transgressões          visíveis, anatomias a mostra, crianças vagando entre adultos.          No final deste século, porém, a sexualidade é cuidadosamente          encerrada dentro dos quartos dos pais.</p>
<p>Afirmava ele que nesta época tinha-se o pensamento que as crianças          não possuíam sexo: razão para proibi-las de falar          neste assunto (final do século XVII seguindo pelo século          XVIII). Este conceito só viria a mudar com os estudos de Freud.</p>
<p>O discurso de repressão sexual, iniciado no século XVII,          após centenas de anos de expressão sexual livre, é          protegido historicamente e politicamente, coincidindo com o início          do capitalismo.</p>
<p>A explicação enunciada por Foucault sobre o pensamento da          época: &#8220;se o sexo é reprimido com tanto rigor, é          por ser incompatível com uma colocação no trabalho,          geral e intensa; na época que se explora sistematicamente a força          de trabalho&#8230;&#8221; (FOUCAULT, 1977:11).</p>
<p>O que revela que um dos principais motivos, da repressão          sexual, foi controlar a população          para manter uma economia a favor dos dirigentes.</p>
<p>Outra dialética apresentada neste primeiro capítulo foi:          &#8220;se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição,          a inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e da sua          repressão possui como que um ar de transgressão deliberada.&#8221;          (FOUCAULT, 1988:12). Com esta afirmação Foucault quiz levantar          o benefício do locutor que emprega essa linguagem, que de certa          forma se encontra fora do alcance do poder.</p>
<p>A idéia da repressão sexual, não é somente          objeto de teoria. A afirmação de uma sexualidade que nunca          fora dominada com tanto rigor, como na época da hipócrita          burguesia negocista, é acompanhada pela ênfase de um discurso          destinado a dizer a verdade sobre o sexo, a modificar sua economia na          real, mudando seu futuro. Podemos observar que esta &#8220;verdade sobre          o sexo&#8221;, era dita com a finalidade que os efeitos beneficiassem a          burguesia e os que estavam no poder.</p>
<p>No primeiro capítulo, Foucault levantou várias questões,          não para negar a teoria de repressão sexual, e sim para          explicar por quais razões e por que meios se estabeleceu esta repressão.          Questões tais como:<br />
- A repressão do sexo seria realmente a acentuação          ou talvez a instauração desde o século XVII, de um          regime de repressão ao sexo? (Questão histórica)<br />
- A mecânica do poder, a que é posta em jogo em uma sociedade          como a nossa, seria de ordem repressiva? (Questão histórica-teórica)<br />
- O discurso crítico que se dirige a repressão viria a cruzar          com a mecânica do poder, que funcionava até então          sem constatação, barrando-lhe, faria parte dessa mesma rede          histórica daquilo que denuncia, chamada de repressão? (Questão          histórica-política)</p>
<p>No segundo capítulo ele se propõe a responder as questões          levantadas sobre a hipótese repressiva, explicando o motivo da          incitação dos discursos.<br />
Como já havia comentado, no final do século XVII, não          se podia falar de sexo com as crianças; a regra era silêncio          e discrição absoluta. Mas, quanto ao nível de discurso          a regra era a proliferação, principalmente a partir do século          XVIII. O cerco às regras da decência, provocou uma intensificação          nos discursos indecentes.</p>
<p>Nos discursos no campo do poder havia uma incitação institucional          para falar do sexo, sob forma da articulação explícita          e do detalhamento. A evolução do pastoral católico          e do sacramento da confissão, depois do concílio de Trento,          obrigava todo um exame minucioso do ato sexual. A discrição          é cada vez mais recomendada: no que se refere ao pecado contra          a pureza. é necessária a maior reserva. A contra-reforma          católica dedicava-se a acelerar a quantidade por ano das confissões,          atribuindo grande importância às penitências &#8211; todas          as insinuações carnais, pensamentos, desejos, deleites,          tudo detalhadamente. Por este meio, a Igreja, pretendia controlar o seu          &#8220;rebanho&#8221;, através do amplo e detalhado conhecimento          dos hábitos sexuais da população.</p>
<p>O projeto de uma colocação do sexo em discurso formava-se          já há muito tempo, numa tradição ascética          e monástica. O Século XVIII fez dele uma regra para todos.          Uma obrigação colocada ao bom cristão.</p>
<p>O essencial: que o homem ocidental há três séculos          tenha permanecido atado a essa tarefa que consiste em dizer tudo sobre          seu sexo, que a partir da época clássica tenha havido uma          constante valorização do discurso sobre sexo. Censura sobre          sexo? Pelo contrário, constitui-se uma aparelhagem para a produção          de discursos sobre sexo, suscetíveis a funcionar e de serem efeito          para sua própria economia capitalista. Nasce assim, no século          XVIII, uma incitação política, econômica, técnica          a falar de sexo, sob forma de contabilizar, classificar, especificar,          através de pesquisas quantitativas ou casuais. Foucault demonstra          aqui a verdadeira intenção da repressão sexual, não          como uma forma de censura, mas como uma forma de controle populacional          com objetivos políticos e econômicos.</p>
<p>No século XVIII o sexo torna-se questão de polícia,          não como repressão da desordem e sim como necessidade de          regular o sexo por meio de discursos e não pelo rigor da proibição.          A polícia tinha o papel principal não com o rigor de proibir,          e sim de &#8220;rotular&#8221; os que não seguiam o discurso da época.</p>
<p>Com o surgimento do problema &#8220;população&#8221;, entendeu-se          que controlar o sexo era de certa forma controlar a natalidade, idade          de casamento, filhos legítimos e ilegítimos, freqüência          das relações, a maneira de torná-las fecundas ou          estéreis, celibato entre outros. Forma-se toda uma teoria de observação          sobre o sexo, surgindo as análises de condutas, seus efeitos no          limite entre a biologia e o plano econômico. Através de pesquisas,          governantes e capitalistas controlavam a população, visando          principalmente dominar a &#8220;força de trabalho&#8221;, em benefício          econômico deles próprios.</p>
<p>Já em meados do século XVIII, era incentivado através          de discursos, a orientação de educadores, administradores,          médicos e pais, a uma educação sexual para as crianças,          permitindo intensificar a multiplicação dos discursos, mudando          a estratégia familiar na educação sexual das crianças:          a idéia de que a criança não possuía sexualidade          não teria sido derrubada, mas a educação sexual serviria          para exercer controle sobre elas.</p>
<p>Foucault conclui no fim do segundo capítulo que o que é          próprio das sociedades modernas não é terem condenado          o sexo a permanecer na obscuridade, mas sim o terem devotado a falar dele          sempre, o valorizando como segredo.</p>
<p><strong>FOUCAULT</strong>, Michel. História da sexualidade: a vontade          de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 16a. edição.</p>
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		<title>A manipulação do exercício da sexualidade pelo processo de socialização</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Dec 2008 23:29:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 11 a 15]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade e política]]></category>
		<category><![CDATA[sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Somos seres sexuais. É fato. Somos seres políticos.          Também é fato. Ao longo da vida sofremos um intenso <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/manipulacao-exercicio-sexualidade-processo-socializacao/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Somos seres sexuais. É fato. Somos seres políticos.          Também é fato. Ao longo da vida sofremos um intenso processo          de sócio-politização que visa nos domesticar, tornar-nos          aptos para o convívio em sociedade.</p>
<p>Por mais que nos acreditemos livres ou liberados, quando nos distanciamos          das nossas experiências e assumimos o papel de sujeito observador          percebemos que para o nosso desejo foram estabelecidas normas que não          fomos nós mesmos que criamos e às quais muitas vezes nos          submetemos sem sequer ter a consciência desta submissão.</p>
<p>Isso acontece porque o nosso processo de erotização é          manipulado desde muito cedo, assim como outras áreas relativas          à socialização dos seres humanos; na verdade, existe          um considerável ‘pacote’ de conhecimentos que são          socialmente distribuídos e este ‘pacote’ inclui a sexualidade.</p>
<p>Para citar apenas um destes poderosos condicionantes, basta lembrar que          os homens são ensinados desde meninos a desejar (e o que desejar)          e as mulheres aprendem a se tornar desejáveis segundo os padrões          do que os homens estão aprendendo a desejar. Escapar a esse controle          consiste num esforço intelectual e da sensibilidade, exatamente          nessa ordem.</p>
<p>Tive um aluno cujo apelido na faculdade era “deus grego”,          apelido que se enquadrava perfeitamente com sua aparência; pois          bem, esse apolo perseguido por todas as ninfas da escola se sentia muito          atraído por uma moça que não se encaixava nos padrões          de beleza vigentes e também não se importava com isso. Ele          tentou convencê-la a manter um romance escondido, claro, sem explicar          o verdadeiro motivo, ou seja, sua incapacidade de rebelar-se contra aquilo          que seria lícito desejar, que o colocaria numa posição          desconfortável diante do grupo social com o qual interagia. Ela          teve maturidade afetiva para não aceitar.</p>
<p>Como observadora da situação fiquei satisfeita ao notar          que uma mulher, embora jovem, não se sentiu encurralada pelo condicionamento          sócio-cultural que a obriga a ter a aparência que os homens          estão condicionados a desejar. Lamento pelo ‘apolo’          que teve uma oportunidade de se conhecer melhor, conhecer melhor a realidade          dos seus desejos e de sua sexualidade e deixou-a passar.</p>
<p>Entendo que não é fácil escapar da prisão          do simulacro: estar condicionado é o oposto de estar livre, já          que liberdade implica agir como nos parecer melhor, mas, na sociedade          contemporânea, mais do que nunca, o ‘natural’ é          estar condicionado, portanto, rejeitamos os estranhos, os anti-naturais,          os que se rebelam.</p>
<p>Em algum momento, esquecemos que sexo é anarquia e passamos a vivenciar          uma pseudo-liberdade consentida, governada pelo mesmo poder que promovia          a repressão, mas, agora, fortalecido por estratégias novas          e mais eficazes.</p>
<p>Ultrapassar o condicionamento é essencial para desenvolver o nosso          saber erótico, e a única forma de repudiar a regulamentação          do nosso prazer sexual. É preciso que o desejo se torne novamente          o que nunca deixou de ser: um exercício de dádiva. Nada          mais anárquico do que isso.</p>
<p><em>Sandra R. S. Baldessin</em></p>
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