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	<title>Sexualidade by géh &#187; psicanálise</title>
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	<description>Sexualidade: artigos de pesquisa e entrevistas</description>
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		<title>Narcisismo</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:14:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 96 a 100]]></category>
		<category><![CDATA[narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Géssica Hellmann</p>
<p>Este breve resumo do conceito de narcisismo começa pela mitologia grega, abre caminho pelas variações no conceito psicanalítico e desdobra-se pela arte literária.</p>
<p class="wp-caption-text">Narcissus por <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/narcisismo/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Géssica Hellmann</em></p>
<p>Este breve resumo do conceito de narcisismo começa pela mitologia grega, abre caminho pelas variações no conceito psicanalítico e desdobra-se pela arte literária.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img title="Narcissus por William T. Ayton" src="http://gehspace.com/edicao%2097%20imagens/narcissus_William%20T%20Ayton.jpg" alt="Narcissus por William T. Ayton" width="408" height="471" /><p class="wp-caption-text">Narcissus por William T. Ayton</p></div>
<p>O mito</p>
<p>Narciso foi fruto do estupro de sua mãe, Liríope, pelo deus dos rios, Céfiso. Por sua beleza extraordinária, os pais consultam o adivinho Tirésio sobre o futuro da criança. O adivinho respondeu-lhes que Narciso viveria muitos anos se não viesse a conhecer a si mesmo. Narciso torna-se um jovem belíssimo. A ninfa Ecos ao vê-lo pela primeira vez se apaixona perdidamente por Narciso e ele a rejeita. (Dicionário de mitologia greco-romana, 1973)</p>
<p>Então, Narciso é punido, condenado a apaixonar-se por sua própria imagem refletida na água. Tenta abraçar e beijar a imagem refletida mas, quando percebe que é a sua própria imagem, desespera-se e percebe que deve morrer, já que não consegue alcançar o objeto desejado.</p>
<p>&#8220;Sou uma flor arrancada&#8221;, &#8220;Que a morte venha rápido&#8221;. Finalmente sente compaixão por outra pessoa: &#8220;Aquele que amei deve continuar vivo. Deve sobreviver a mim, sem culpa&#8221;. Mas ele sabe que é impossível: ao suicidar-se, estaria matando seu objeto amado, seu próprio reflexo. Quando morre, ele sofre uma metamorfose e se transforma em uma linda flor, de bulbo delicado e com um perfume sedutor. (Holmes, 2005)</p>
<p>As variações no conceito psicanalítico</p>
<p>Holmes (2005) afirma que Freud diferenciava tipos de narcisismo: o primário, desenvolvido na primeira infância, e o secundário &#8220;que os indivíduos acometidos se vêem, por regressão, como objetos primordiais de amor, em vez de outras pessoas&#8221;.</p>
<p>Para Araújo (2007), &#8220;o narcisismo infantil coincide com o surgimento do ego enquanto unidade psíquica e representação do corpo&#8221;. Afirma também que &#8220;Lacan denominará &#8216;fase do espelho&#8217; a esse momento da constituição egóica, em que a criança é apresentada à imagem de si mesma, a qual recebe com júbilo. É que ela pode ver-se através do espelho, por uma imagem integrada, antecipatória do que virá no futuro: uma organização do seu esquema corporal ainda incipiente&#8221;.</p>
<p>A fase do espelho resume o interesse lúdico de que a criança dá mostras, entre os seis e os dezoito meses, por sua imagem especular, &#8220;aspecto pelo qual a criança se distingue, certamente, do animal. Reconhece sua imagem, se interessa por ela, e esse é um fato que, podemos admitir, é observável. Ao mesmo tempo que a criança reconhece a própria imagem, exulta, ao mesmo tempo reconhece a existência de um outro, pois está em déficit em relação a ela. Isso levou Lacan à idéia de que a alienação imaginária (o fato de se identificar com a imagem de um outro), é constitutiva do eu no desenvolvimento do ser humano&#8221;. (Miller 1988).</p>
<p>Freud via no homossexualismo, na psicose e na hipocondria exemplos de narcisismos secundários em que a libido é dirigida para o eu, e não para fora, para outros.</p>
<p>Holmes (2005) afirma que estas distinções banais entre homossexualismo e heterossexualismo são muito antiquadas, pois muitos homessexuais podem estabelecer relacionamentos maduros, enquanto a escolha heterossexual, não raramente, pode ser narcisista, onde se exibe o companheiro como um objeto de ostentação.<br />
Atualmente, a questão do narcisismo ganhou importância diferencia com a &#8220;psicologia do self&#8221;, de Khout. Ele afirmou que se devia abandonar a idéia freudiana de uma linha de desenvolvimento única, que iria do narcisismo para a relação de objeto: o narcisismo seria, antes, um eixo da estrutura psíquica e, portanto, haveria um narcisismo normal e outro patológico; mas não um &#8220;primário&#8221; e um &#8220;secundário&#8221;.</p>
<p>Khout afirma que, em vez de encarar o narcisismo como algo negativo, característico dos doentes mentais, o narcisismo é uma precondição de uma vida feliz, aí incluídas as relações de objeto. O fenômeno do narcisismo secundário deveria ser considerado um &#8220;produto de decomposição&#8221; do processo normal da maturação narcísica. (Holmes, 2005).</p>
<p>Em seu livro o autor apresenta uma perspectiva de integração e o aparecimento das metamorfoses do narcisismo:</p>
<p>- Primeira fase (primeiro ano de vida) &#8211; sentimento seguro de um eu criativo em relação com o outro receptivo: A importância nesta fase é a sintonia dos pais em relação à criança: se tratada com a devoção normal dos pais, a criança sente-se especial e única. Os pais aos poucos ajudam-na a ter contato com o mundo e a confiar que ela será recebida com alegria, instituindo assim os primeiros passos da auto-estima, ou o que chamamos de narcisismo saudável. Por outro lado se ocorrer o inverso, pais ausentes, ou extremamente sufocantes, a criança tende a ter um temperamento difícil.</p>
<p>- Segunda fase (segundo ano de vida) &#8211; investimento narcísico no corpo e seus poderes crescentes: O exibicionismo surge nesta fase, quando elas começam a andar, falar, explorar o mundo e querem a aprovação e o encorajamento de seus pais. A criança se deleita com o olhar de admiração e aprovação dos pais. Quando ocorre o contrário, pais insensíveis, agressivos ou deprimidos, que não percebem a necessidade do filho de se irradiar, criam um filho com baixa estima, vergonha e decepção consigo mesmo, característica de crianças que são feridas em seu narcisismo.</p>
<p>- Terceira fase (terceiro ano de vida) &#8211; frustração ideal: a criança em seu narcisismo individual passa a se incluir no narcisismo social. Sem este processo, a negação da realidade ameaça persistir.</p>
<p>- Quarta fase (adolescência) &#8211; idéias e ambições: Adolescentes sadios tem heróis, esperanças, sonhos, ambições. O adolescente com narcisismo ferido é deprimido, sente-se condenado, oprimido pela morte. O corpo pode tornar-se uma fonte de prazer e orgulho ou um estorvo odiado que leva à raiva de si mesmo e do mundo.</p>
<p>- Quinta fase (vida adulta) &#8211; transferência do narcisismo para a geração seguinte: O adulto sadio começa a conhecer suas forças e suas limitações, sente-se bem consigo mesmo, em seus relacionamentos. Suas esperanças narcisistas são investidas nos filhos. Os ideais frustrados são substituídos pelo amor à verdade. Já o narcisista negativo, doentio, torna-se egocêntrico,o provocando inveja e sentindo desprezo pelos outros.</p>
<p>- Sexta fase (vida madura) &#8211; assimilação da sabedoria: para Kohut a constituição saudável faz o ser humano ver e aceitar o mundo como ele realmente é, tornando-o capaz de aceitar a realidade da morte. Sem a ocorrência destas metamorfoses, a entrada na meia-idade pode ser desesperadora, hipocondríaca, destrutiva, exercendo uma tirania sobre seus relacionamentos.</p>
<p>Segundo Holmes (2005) essas seriam as fases de transformação do narcisismo, que pode tanto ser saudável quanto patológico.</p>
<p>Reflexões narcisistas na arte literária</p>
<p>Em seu livro sobre narcisismo Holmes (2005) cita alguns versos do soneto 62 de Shakespeare:</p>
<p>&#8220;O pecado do amor-próprio se apossa de todo o meu olhar<br />
E de toda a minha alma e de todas as partes minhas;<br />
E para esse pecado remédio não há,<br />
Ele está bem enraizado no meu coração.&#8221; (62:1-4)</p>
<p>&#8220;Sei que não existe rosto tão belo quanto o meu [...]<br />
E os meus méritos os de todos superam&#8221; (62:5,8)</p>
<p>&#8220;Mas quando o espelho me mostra como sou,<br />
Alquebrado e vincado de curtida velhice,<br />
Vejo bem de outro modo meu amor-próprio:<br />
Eu, de modo que amar a mim seria iníquo&#8221;. (62:9-12)</p>
<p>&#8220;És tu, meu eu, que por mim enalteço,<br />
Pintando minha idade com a beleza dos teus dias.&#8221; (62:13-14)</p>
<p>O autor questiona: Seria mesmo pecado o amor-próprio? O narcisismo saudável precisa estar &#8220;enraizado no coração&#8221;, se pretende atingir seu fim. Mas, se o narcisista só tiver olhos para si, está perdido pois, segundo o autor, se consome de inveja e tem de se incentivar constantemente por comparação com os outros. Quando chega a velhice, o amor-próprio tende a se transformar em aversão a si próprio.</p>
<p>O autor afirma também que a solução para o narcisismo é amar outra pessoa. O amor pode tanto destruir quanto preservar o narcisismo.</p>
<p>Quanto à &#8220;tinta teatral&#8221;, podemos fazer uma comparação com a maquiagem, as cirurgias plásticas e os cremes &#8220;rejuvenescedores&#8221;: todos são metamorfoses da real idade.</p>
<p>Segundo Holmes (2005), existem três modos narcisistas de amar:</p>
<p>(a) o que ela é (ou seja ela mesma)</p>
<p>(b) o que ela foi</p>
<p>(c) o que ela gostaria de ser</p>
<p>Em &#8220;O Retrato de Dorian Gray&#8221;, de Oscar Wilde, o autor explora essas três variedades freudianas.</p>
<p>Oscar Wilde questiona a existência dos valores morais, no mito da eterna juventude, e nos conflitos e desejos. Neste romance, Wilde faz referências ao mito de Narciso e ao de Fausto, em que o sujeito, em prol dos prazeres mundanos, vende sua alma em um pacto com o demônio.</p>
<p>O primeiro personagem que aparece é personagem dominador e inescrupuloso &#8220;Lord Henry&#8221; admirando a beleza de uma árvore. O segundo, não é Dorian, mas seu retrato, mais importante que ele mesmo. O terceiro personagem é Basil Hallward, o pintor que se apaixona narcisicamente pelo retrato pintado.</p>
<p>&#8220;O pintor explica o efeito desta beleza sobre ele: cada retrato pintado com emoção é o retrato do artista, não do modelo. Isto é, o pintor se encontrou narcisicamente em Dorian&#8221;. (Laberge, 2007).</p>
<p>A partir deste ponto inicia-se o percurso de devassidão de Dorian, que vende sua alma pela eterna juventude e beleza, enquanto, em contrapartida, o retrato revelaria seu verdadeiro eu.</p>
<p>Quando Dorian perde totalmente seus escrúpulos, cometendo crimes horríveis, o pintor, na tentativa de fazê-lo emendar-se, vai ter com ele. Dorian confronta o pintor com o desespero do narcisista e mostra-lhe o retrato, o seu verdadeiro eu, depois mata-o com uma faca. Mais tarde, tenta emendar-se, deixando de explorar outra mulher que cruza seu caminho. Volta a rever o quadro para ver se algo havia mudado ou suavizado em seu retrato. Mas seus pecados eram grandes demais para que apenas um ato suavizasse a feiúra de sua alma retratada. Enlouquecido, enfia uma faca no quadro mágico e cai morto ao lado da tela. Na manhã seguinte é encontrado por seus criados, um homem envelhecido e morto ao lado de um retrato intacto que exibia a beleza exuberante pintada 20 anos antes.</p>
<p>Holmes (2005) afirma que o narcisista tem a propensão de se tornar suicida quando entra em um colapso narcisíco.</p>
<p>Na música de Caetano Veloso, &#8220;Sampa&#8221;:</p>
<p>&#8220;Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto<br />
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto<br />
É que Narciso acha feio o que não é espelho<br />
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho<br />
Nada do que não era antes quando não somos mutantes<br />
E foste um difícil começo<br />
Afasto o que não conheço<br />
E quem vem de outro sonho feliz de cidade<br />
Aprende depressa a chamar-te de realidade<br />
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso&#8221;</p>
<p>Ele canta um narciso maduro que não quis se deparar com o mundo real: preferia ver fantasia ou seu &#8220;eu ideal&#8221;.</p>
<p>O narcisismo patológico não deixa de ser também a peste emocional denunciada por Reich. Você sofre e impõe sofrimento aos outros por não querer ver a si mesmo e a sua própria doença.</p>
<p>Como vimos, a corrente contemporânea de Kohut sobre o conceito de narcisismo afirma que todos passamos por e, dependendo de como lidamos com a situação, a resultante pode ser um narcisismo saudável ou patológico.</p>
<p>Poderíamos chamar de &#8220;narcisismo&#8221; à doenças da moda: &#8220;anorexia&#8221; e &#8220;bulimia&#8221;? Poderíamos chamar também de &#8220;narcisismo&#8221; os crimes cometidos pelos políticos corruptos, ao desviar a verbas públicas, dando vazão apenas ao seu egoísmo extremo? E o ato o pedófilo, daquele adulto que pensa apenas em seu próprio prazer, pouco se importando com o outro indefeso, sem importar-se com freios éticos? Eram narcisistas os nazistas, ao se considerarem pertencentes a uma &#8220;raça ariana&#8221;, superior às demais?</p>
<p>Seja qual for o termo psicanalítico relacionado às minhas indagações, uma coisa é certa: a peste emocional continua à solta, a sociedade continua, sem remorsos, passando adiante sua doença.</p>
<p>O amor próprio é base para amar o outro.</p>
<p>Bibliografia</p>
<p>Araújo, João Carlos de. Narcisismo e relação narcísica de objeto. Disponível em: http://br.geocities.com/jcdaraujo/narcisismo.html. Acessado em: 15/06/2007.</p>
<p>Dicionário da mitologia greco-romana. São Paulo: Abril, 1976.</p>
<p>Holmes, Jeremy. Conceitos da psicanálise &#8211; Narcisismo. Rio de Janeiro: Relume Dumará : Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.</p>
<p>Laberge, Jacques. A beleza em O Retrato de Dorian Gray. Disponível em: http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/art019.htm. Acessado em: 15/06/2007.</p>
<p>Miller, Jacques-Alain. Percurso de Lacan uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.</p>
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		<title>A mulher, o Outro e a piada suja</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Dec 2008 13:29:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 36 a 40]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Em artigo publicado na seção &#8220;Foro Íntimo&#8221; de outra edição, lemos o depoimento de uma mulher, cuja indignação, embora oscilante entre o riso de ridículo e a <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/09/a-mulher-o-outro-e-a-piada-suja/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em artigo publicado na seção &#8220;Foro Íntimo&#8221; de outra edição, lemos o depoimento de uma mulher, cuja indignação, embora oscilante entre o riso de ridículo e a fúria quase desenfreada, não deixa, sempre, de constituir uma indignação diante algo que ela identifica como uma agressão, tão ou mais dolorida quanto uma agressão física, uma agressão que até efeitos físicos provoca: uma agressão da palavra, que não é exatamente aquilo que chamamos de uma &#8220;agressão verbal&#8221;.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 346px"><img title="Woman's face - por Ana Maria Baralt" src="http://www.gehspace.com/edicao%2038%20imagens/Anamaria%20Baralt%20womans%20face.jpg" alt="Woman's face - pintura por Ana Maria Baralt" width="336" height="450" /><p class="wp-caption-text">Woman&#39;s face - por Ana Maria Baralt</p></div>
<p>Não, o homem que usa a palavra como um alfinete para espetá-la, não a agride por algo que ela tenha feito que o indigne, não se trata de um verdadeiro ataque contra um inimigo hostil, como fica claro quando o homem foge, se encolhe, se envergonha diante da reação irada da mulher. Porque há, nas palavras que lhe dirige, um humor sutil, que ela compreende no seu ridículo, e às vezes ri. Também há, nessas palavras, uma espécie elogio implícito, um elogio grosseiro, sem dúvida, o qual ela não compreende: &#8220;como pode um homem elogiar-me, elogiar minha beleza e meus encantos, se me encontro no momento próprio da agressão, despida dos meus aparatos de sedução &#8211; cabelos, roupas, maquiagem&#8221; &#8211; ela se indaga, sem encontrar resposta.</p>
<p>Estamos falando, é claro, da &#8220;piadinha suja&#8221; que um homem dirige a uma mulher estranha na rua &#8211; no texto de Miller, chamado de &#8220;piropo&#8221;.</p>
<p>Neste breve artigo, seguiremos os passos de Jacques Alain-Miller em uma conferência sobre psicanálise e linguagem (1) para explicar à mulher o que subjaz à &#8220;piadinha suja&#8221;, não para absolvê-la, não para justificar o seu perpetrador, mas para compreender a amplitude e os limites do ato em si.</p>
<p>A indagação inicial, perturbadora para a mulher, é saber qual é o gozo que um homem encontra em dirigir uma mensagem erótica a uma mulher desconhecida, com quem sequer pretende ou aspira a conquistar? O erotismo da mensagem contrasta com a intenção real, um &#8220;corte entre o dizer e o fazer&#8221;, expressa ao mesmo tempo um desinteresse profundo pela sua destinatária que, no limite, o transformaria em uma atividade estética.</p>
<p>Para Miller, essa incongruência, o gozo, se dá no nível da infração ao código da decência. A mensagem vale por sua diferença com o código, mas a infração do código não é suficiente. É necessária a &#8220;sanção do Outro&#8221;, no caso, a raiva ou o riso da mulher desconhecida. A mulher &#8211; no caso, qualquer mulher &#8211; encarna para o autor da &#8220;piada suja&#8221;, o Outro sexo, incompreensível, inalcançável. É a esperança o motor da piada, a esperança de que essa mulher, ou qualquer outra mulher, possa ser dele. &#8220;É sempre por abuso que se imagina que uma mulher é sua. Os homens inventaram o casamento para poder imaginá-lo&#8221;, pontua Miller.</p>
<p>O aspecto principal da falta de sentido do ato é que ele atrai significações, cria sentidos para além dos sentidos normais. Ele se dirige, segundo Miller, ao grande Outro da Lei, da decência entendida como conjunto de inibições e proibições. O autor da piada, &#8220;esse homem infeliz que sempre vê passar diante dele a mulher desconhecida&#8221;, deseja apenas atrair a atenção da mulher o suficiente para que ela admita sua existência. Portanto, ele se torna homem na medida em que persiste em se fazer ouvir &#8220;pelo Outro encarnado na mulher&#8221;.</p>
<p>O aspecto trágico da piada é que ele pode, em seu limite, reduzir-se a uma interpelação do Outro, a essa mulher qualquer, representante de todas as mulheres, da Mulher em sentido absoluto; uma tentativa desesperada de estabelecer contato com o próprio objeto do desejo.</p>
<p>O autor conclui que a mulher a quem se dirige a mensagem é, portanto, uma ficção, pois representa todas as mulheres em uma só. &#8220;Todos os homens em um só, isso pode existir&#8230; Mas, todas as mulheres, é esse sonho fundamental, só existe como ficção&#8221;. Por carregar o emblema da própria castração, a piada que se dirige à mulher-fictícia encarnada na mulher real, aquela que passa, é também uma agressão. Daí a piada situar-se em uma &#8220;zona indecisa&#8221; entre o elogio e a ofensa, especialmente quando se fixa na desintegração do corpo feminino, no elogio fetichista a partes da anatomia.</p>
<p>(1) MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 1988, 2ª ed.</p>
<p><strong>Dica de Leitura &#8211; Percurso de Lacan: uma Introdução JACQUES-ALAIN MILLER</strong></p>
<p>Reuniao de Nove Conferencias do Autor. as Cinco Primeiras, Conhecidas Internacionalmente Como &#8220;conferencias Caraquenhas&#8221;, Realizadas em 1979, e as Quatro Ultimas, Unidas Pelo Titulo &#8220;duas Dimensoes Clinicas: Sintoma e Fantasia&#8221;, Realizadas em 1983.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 140px"><a href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=50374&amp;ST=SE&amp;franq=142908" target="_blank"><img style="border: 0pt none;" title="Clique para comprar" src="http://www.gehspace.com/edicao%2038%20imagens/50374.jpg" border="0" alt="Percurso de Lacan - Jacques Alain Miller - dica de leitura psicanálise sexualidade" width="130" height="198" /></a><p class="wp-caption-text">Clique para comprar</p></div>
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		<title>Eros</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Dec 2008 01:27:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
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		<category><![CDATA[edições 11 a 15]]></category>
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		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[sigmund freud]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eros é a idéia de uma força          que liga: fisicamente pelo sexo; emocionalmente, pelo amor; e mentalmente,  <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/eros/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eros é a idéia de uma força          que liga: fisicamente pelo sexo; emocionalmente, pelo amor; e mentalmente,          pela imaginação. Hirsch começa pelo conceito de Freud          de &#8220;Instinto de vida&#8221;, a que ele chamou de &#8220;Eros&#8221;.          Antes de tê-lo criado, Freud deu ênfase à sexualidade como fonte de motivação          para muitas atividades fossem ou não sexuais. Ao introduzir o conceito          de Eros, Freud inseriu nele a sexualidade, chegando à visão          de que a pulsão da vida, ou Eros, mantém unidos os seres          vivos.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><img title="Eros - Geneviève Van der Wielen" src="http://gehspace.com/edicao%2015%20imagens/eros%20geneviev.jpg" alt="Eros - Geneviève Van der Wielen" width="300" /><p class="wp-caption-text">Eros - Geneviève Van der Wielen</p></div>
<p>O estado emocional de uma pessoa pode reagir de forma semelhante          ao sistema imunológico, repelindo idéias ou pensamentos          estranhos. Para que a cópula &#8211; entendendo-se cópula como          qualquer forma de união: sexual, emocional ou mental &#8211; seja possível,          a &#8220;estranheza&#8221; &#8211; a diferença da outra pessoa ou idéia          &#8211; precisa ser vista como relevante. O sexo oposto tem um corpo com características          sexuais diferentes, na diferença contém a promessa de algo          novo.</p>
<p>Seguindo este conceito de Eros, Freud fundamenta de um modo novo o seu          interesse nos instintos sexuais, criando uma teoria unificada de sexo          e do amor, em que nenhum deles seja secundário e ambos sejam formas          de ligação entre elementos diferentes.</p>
<p>Segundo Hirsch, a teoria das pulsões fundamenta a idéia          caricata de que &#8220;os homens só querem sexo&#8221;. Já          na teoria das relações de objeto, prevalece a caricatura          de que &#8220;as mulheres só querem amor&#8221;, dando a impressão          que as mulheres não têm desejos sexuais. Nessas duas visões,          existe uma divisão entre sexo e amor. De acordo com a teoria das          relações de objeto, o amor parece mais um desejo de segurança          do que o desejo de estar com a outra pessoa.</p>
<p>Isso não quer dizer que a quantidade e a qualidade de amor em um          namoro sejam as mesmas que a de um casamento duradouro, mas sim que a          consideração pelo outro possibilita a cópula entre          duas pessoas diferentes. Do mesmo modo que o amor, a maneira de expressar          o sexo é bem diversa entre amantes, e digamos, mães e filhos,          mas sem dúvida falta alguma coisa se a relação mãe-filho          não tiver nada de sensual.</p>
<p>O conceito freudiano de Eros é um modelo de sexualidade complexo,          ajustável ao desenvolvimento sexual diferente dos indivíduos.          A ênfase na genitalidade baseia-se na sua conclusão de que          há um elo entre relação sexual e vida nova (procriação).          Do ponto de vista de Eros, não existiria cópula, mesmo ocorrendo          penetração, quando o corpo é usado do outro é          usado somente como objeto de masturbação.</p>
<p>Existe uma diferença entre ver o relacionamento com outra pessoa          como se desejaria que fosse e descobrir o que o relacionamento realmente          é. O amor sempre se inicia pela idealização, ignorando          aquilo que o contradiz. Ao mesmo tempo a idealização pode          dissipar-se quando a pessoa passa a conhecer melhor a outra, tendo condições          de tornar o amor mais complexo e generoso.</p>
<p>O trabalho de imaginação é uma cópula entre          a vida interior do indivíduo e o mundo que o cerca. Do ponto de          vista da psicanálise, a capacidade de ser imaginativo está          relacionada com a capacidade de se deixar influenciar. Um exemplo adotado          por Hirsch, sobre a origem da imaginação: o bebê começa          a ter fome e se torna irrequieto. Faz então movimentos de sucção          com a boca e parece satisfeito. Depois de alguns minutos, começa          a gritar. O que aconteceu nos poucos minutos de satisfação?</p>
<p>O bebê talvez tenha tido uma alucinação com o seio,          acreditou ser alimentado, até que a dor da fome cortou a alucinação.          A alucinação é predecessora dos devaneios. Da maneira          análoga, as pessoas adultas têm alucinações          em que tentam dar a si mesmas o que querem e, especialmente, tentam se          recompensar e acalmar.</p>
<p>As relações deturpadas também são uma maneira          de evitar a cópula e a diferença (separação).          O autor cita o exemplo de um paciente de Betty Joseph, que notou que seu          paciente estava fazendo algo com os dedos, encostando a ponta dos dedos          de uma mão na outra com muita suavidade quase sem parar, como uma          atividade masturbatória. O paciente, de forma consciente era apartado          da sua mulher e do analista, mas não tinha consciência de          que essa separação expressava um medo de proximidade.</p>
<p>Em uma exploração analítica, Betty Joseph e o paciente          descobriram com o tempo que ele podia &#8220;tocar&#8221; uma relação,          mas não consumá-la. Pode parecer estranho um sentido de          estimulo sexual em uma ação tão aparentemente trivial.          No entanto, conhecemos gestos de mãos com um sentido sexual que          são trocados socialmente, como mostrar o dedo médio.</p>
<p>Alguns contemporâneos de Freud e muitos outros depois deles apresentaram,          por exemplo, argumentos que inferem que a teoria freudiana da sexualidade          funciona como uma pressuposição, ou seja, ele achava ou          reconhecia que o sexo estava em tudo e portanto &#8220;via o sexo em tudo&#8221;.          Já o psicanalista Bion dizia que a teoria deveria ficar na mente          do analista como uma pré-concepção, referindo-se          ao uso de uma teoria para ajudar a reconhecer o que poderia ser o material,          em vez de uma teoria usada para impor um julgamento prematuro.</p>
<p>Nas palavras de Hirsch (2005:67): &#8220;As pressuposições          são interessantes por si sós, especialmente no contexto          Eros. Elas podem se parecer com a ligação promovida por          Eros mas, quando rígidas, são na verdade letais para o raciocínio&#8221;.</p>
<p>Relacionando as três áreas onde Eros atua &#8211; sexo, amor e          imaginação &#8211; percebemos qualidades em comum:<br />
- As relações entre as pessoas e dentro do próprio          indivíduo são extremamente complexas. Sentir-se vivo (Eros)          abrange o amor e o ódio do indivíduo;<br />
- É imprescindível reconhecer as diferenças entre          as pessoas para se ter uma vida própria pois só o reconhecimento          faz emergir possibilidade de cópulas &#8211; vínculos primordiais          do Eros.</p>
<p class="texto"><strong>HIRSCH</strong>, Nicola Abel. <strong>Conceito da          Psincanálise: Eros</strong>. Rio de Janeiro: Relume Dumará:          Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.</p>
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		<title>Castração</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Dec 2008 00:28:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[castração]]></category>
		<category><![CDATA[edições 11 a 15]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p class="texto">Neste trabalho, abordamos o conceito psicanalítico          de castração tal como exposto por Ivan Ward (2005), através  <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/castracao/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="texto">Neste trabalho, abordamos o conceito psicanalítico          de castração tal como exposto por Ivan Ward (2005), através          de casos expostos por psicanalistas consagrados.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 340px"><img title="Mother por Damien Hirst" src="http://gehspace.com/edicao%2014%20imagens/hirst-mother%20damien.jpg" alt="Damien Hirst - Mother - arte sexualidade" width="330" height="190" /><p class="wp-caption-text">Mother por Damien Hirst</p></div>
<p>O complexo de castração consiste em          uma diversidade de crenças e emoções infantis relacionadas          com a consciência nascente de uma identidade sexual definida. No          menino, a crença de que a mãe teve o pênis decepado          pelo pai e que seu próprio órgão sexual pode estar          sujeito ao mesmo perigo. Já para a menina, a crença de que          ela teve um pênis que foi removido brutal e injustamente.</p>
<p>Freud em seus ensaios que abordam o complexo de castração,          foram baseados nos relatos das crianças. Na época da última          grande obra de Freud, o complexo de castração praticamente          se fundira ao complexo de Édipo.</p>
<p>Melaine Klein, em suas pesquisas, demonstrou que as inibições          na escola podem estar intimamente ligadas ao pavor da castração,          ou seja, se eu fizer &#8220;X&#8221; serei castigado (com a castração).          Só se pode superar a inibição quando esta angústia          é solucionada.</p>
<p>Na Antigüidade, era comum o uso de símbolos fálicos          como proteção contra o perigo. Segundo Freud, é preciso          muito pouco para que se desencadeie o sentimento da ameaça., como          no caso de um menino de 14 anos, Daniel, que contou sobre um objeto curioso          de que ele ouvira falar no berçário do Centro Anna Freud.          Chamava-se &#8220;willy-cut&#8221; (corta-pipi). Era como uma tesoura de          jardinagem, mas com funções bem mais específicas.          O garoto tivera essa convicção com pouquíssimas evidencias:          ouvira um dos terapeutas do centro dizer uma palavra enigmática          &#8220;Winnicott&#8221; (nome do psiquiatra inglês).</p>
<p>O psiquiatra Samuel Ritvo escreve sobre um caso em que a alucinação          é substituída pela fantasia: O paciente sofria de castração          intensa e consciente, fantasiando muitas vezes por dia que era vítima          de castração acidental ou intencional. Ele imaginava que          um cachorro fosse abocanhar o pênis dele, ou que quando estivesse          saindo de casa, cairia da escada e o seu pênis se prenderia em algo          e seria arrancado.</p>
<p>Ward utiliza outro exemplo bastante recente: o dos fanáticos político-religiosos          que lançaram aviões contra o World Trade Center e o Pentágono.          Os comentaristas classificaram os acontecimentos como um &#8220;toque de          despertar&#8221; para a nação americana. Ora, as torres não          deixavam de ser símbolos fálicos de poder, de modo que esse          incidente pode ser relacionado às dificuldades normais de amadurecimento.          A destruição dos símbolos foi interpretada pela metáfora          do &#8220;crescimento&#8221;, como se a investida contra esses símbolos          do poder, de alguma forma, lembrasse as perdas da infância.</p>
<p>A castração é fundamental em quatro aspectos: a aceitação          da diferença sexual; a negação desta diferença;          a produção de excitação e como causa de inibição          sexual. Para Freud a castração torna-se um símbolo          da diferença sexual, e a superação da ameaça          determina a identidade sexual.</p>
<p>A psicanalista Joyce McDougall, relata a historia de seu neto de 4 anos.          Depois de ter passado o dia inteiro perguntando sobre a gravidez de sua          mãe, o garoto ansioso para aproveitar o novo conhecimento, e quando          o pai chega faz um pedido especial: &#8220;você poderia, por favor,          por um bebê na minha barriga também&#8221;? McDougall relaciona          esse fato com uma homossexualidade primária, ressaltando as possibilidades          bissexuais da primeira infância.</p>
<p>&gt;A sexualidade pervertida usa variadas formas para evitar a ameaça          da castração. O exibicionista fálico defende-se da          angustia da castração e se tranqüiliza com a idéia          de que seu pênis não é mutilado, mas poderoso e lindo.          Ao concentrar o desejo sexual num objeto, o fetichista rejeita a existência          dos genitais femininos e terror da castração que eles originam.          Os sadomasoquistas vencem a angústia da castração          provocando dor, inclusive recorrendo a agressões genitais.</p>
<p>A analista israelense M. Woolf conta o caso de uma garotinha criada num          Kibbutz que se recusava a dormir no chalé das crianças.          Toda a vez que a mãe tentava levá-la meio adormecida, a          criança acordava chorando e tremendo: &#8220;O cachorro arrancou          meu pipi&#8221;</p>
<p>Na arte contemporânea também podemos verificar o sentimento          de castração sofrido por Damien Hirst. Mãe e filho          divididos &#8211; uma vaca e um bezerro serrados ao meio e colocados em quatro          tanques de formol &#8211; é uma representação simbólica          da separação brutal entre mãe e filho. Hirst nasceu          sem alarde em Bristol; o pai não quis conhecê-lo e um ano          depois a mãe mudou-se para Leeds, sua cidade natal, casando-se          novamente. A obra não trata de vida e morte, mas é uma forma          de simbolizar o que o menino sentiu quando a mãe voltou a se casar:          sua agonia ante os sentimentos de traição. A obra o modifica,          porque não é mais ele que sofre a ruptura provocada pela          divisão, mas é ele que, no ato de destruição          e criação, assume o lugar do pai e seu papel imaginário.          É em razão do medo da castração que o pai          tem um efeito inibidor, não só a castração          que se teme sofrer, mas a mutilação genital que se imagina          da mãe.</p>
<p>Ward (2005:46) relata a sua reação ao assistir ao filme          &#8220;A professora de Piano (2001)&#8221;. &#8220;Me senti com calor e suado,          tonto e nauseado. Um suor frio fez a minha pele formigar. Eu sabia que          ia desmaiar.&#8221; A cena que provou o desmaio era a representação          de uma automutilação genital feminina. A professora entra          no banheiro de sua casa, nua, desembrulha uma lâmina de barbear          de um pedaço de pano, entra na banheira e senta-se na beirada.          Com um espelho pequeno para ver melhor as pernas, ela corta os genitais          com a lâmina, e o sangue pinga na banheira. A cena é filmada          em perfil, e o que se vê realmente é o gotejar de sangue          na banheira. Ward se pergunta: &#8220;Por que isso me alarmou tanto?&#8221;.          Argumenta que não era devido ao sangue, pois estava acostumado          com os seriados dramalhões de hospitais, em que sempre havia muito          sangue e isso nunca lhe provocou reação semelhante. Até          mesmos cenas de castração como em &#8220;Império dos          Sentidos&#8221;, não produziram esse efeito. Ele concluiu que sua          angústia não deve ter relação direta com a          imagem, mas com o tema de mutilação genital, que deve ter          aflorado inconscientemente.</p>
<p>Ward conclui que o complexo de castração é um conjunto          de crenças infantis; um organizador da diferença sexual;          um determinante fundamental do caráter e do destino das pessoas. Os efeitos deste complexo são amplos          e variáveis para o individuo e para a cultura.</p>
<p>WARD, Ivan. <strong>Conceitos da Psicanálise: Castração</strong>.          Rio de Janeiro: Relume Dumará: Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto,          2005.</p>
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		<title>Primeiras mutações Junguianas no conceito de libido</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Dec 2008 15:12:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[edições 1 a 5]]></category>
		<category><![CDATA[libido]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
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		<category><![CDATA[sigmund freud]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Géssica          Hellmann</p>
<p class="wp-caption-text">Dream of Love - Jean-Honoré Fragonard - 1768</p>
<p align="left">O propósito desta resenha é    <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/primeiras-mutacoes-junguianas-no-conceito-de-libido/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong><a title="escreva para a editora" href="mailto:geh@gehspace.com">Géssica          Hellmann</a></strong></em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 252px"><img title="Dream of Love - Jean-Honoré Fragonard - 1768" src="http://gehspace.com/edicao%204%20imagens/Dream%20of%20Love.jpg" alt="[Pintura] Jean-Honoré Fragonard - Dream of Love" width="242" height="198" /><p class="wp-caption-text">Dream of Love - Jean-Honoré Fragonard - 1768</p></div>
<p align="left">O propósito desta resenha é          apresentar as primeiras divergências no pensamento de Jung sobre          as idéias de Freud a respeito do conceito de libido, conforme expostas          na terceira de suas nove conferências proferidas na Fordham University,          Nova Iorque, setembro de 1912. Vale notar que as idéias expostas          nessa conferência representam suas primeiras análises sobre          um tema que desenvolveria extensamente ao longo de sua vida.</p>
<p>Para Jung a <a href="http://www.gehspace.com/sexualidade46a50.htm#48">libido</a> era uma transferência de energia na busca de uma satisfação.          Ele ao contrário de Freud, não entendia que a libido era          um conceito puramente sexual.<br />
Para Freud, o termo libido estava exclusivamente relacionado à          necessidade genital. Ele afirmava que a criança possuía          uma sexualidade poliformo-perversa: a libido acionava diversas perversidades          na criança. Dizia ainda que a criança tinha uma libido &#8220;sexual&#8221;,          como a do adulto, só que em menor intensidade, conceito este como          veremos a seguir, combatido fortemente por Jung.</p>
<p>Jung afirmava que a diferença entre a sexualidade madura e a imatura          era determinada pela localização da libido, e não          pela intensidade, valorizando a libido como um ponto de vista energético          e não no sentido sexual. Ele considerava a libido uma transferência          de <a href="http://www.gehspace.com/sexualidade76a80.htm#78">energia</a>.          Em virtude disso Jung afirmava que, quando o individuo está num          estado &#8220;alterado&#8221; ou, como se diz popularmente, com &#8220;um          parafuso a menos&#8221;, ele estaria com excesso de libido, ou seja, este          excesso teria sido retirado de outro lugar, onde passou a faltar. O mesmo          poderia se afirmar quando o individuo está apático, &#8220;aparentemente&#8221;          com uma inexistência de libido. Neste caso, a libido teria sido          transferida para outro lugar, provavelmente para o inconsciente.</p>
<p>Analisando o conceito de libido como &#8220;energia&#8221; e não          como puramente &#8220;sexual&#8221;, Jung concluiu que os impulsos libidinosos          da criança não eram correspondentes à função          genital como a do adulto, o que invalidaria o conceito Freudiano sobre          libido como um fenômeno sexual presente desde a primeira infância;          por exemplo, a sucção no ato de mamar.</p>
<p align="left">Jung concluiu que a libido poderia ter          várias formas de manifestação. Na infância,          ela se manifestaria principalmente através da nutrição,          ou seja, a libido da fome, em que a criança, através da          sucção, absorve alimento acompanhado de sinais de satisfação.          Com o crescimento do indivíduo e o desenvolvimento dos órgãos,          a libido buscaria novos caminhos para gerar esta satisfação          do desejo. Nesse processo, grande parte da libido de nutrição          se converteria em libido sexual e, por conseqüência, a busca          de prazer abandonaria a zona oral e procuraria outros órgãos,          principalmente outros orifícios do corpo, em seguida a pele e outros          lugares.</p>
<p>Jung confrontou o conceito freudiano que afirmava que a criança          teria uma sexualidade perversa, originando à idéia que a          criança teria uma sexualidade transitória. Desta forma,          concluiu que quanto mais rápida e tranqüila for a transferência,          mais perfeito seria o desenvolvimento da sexualidade.</p>
<p>JUNG, C.G. Tentativa de apresentação da teoria          psicanalítica. In: <strong>Freud e a psicanálise</strong>.          Petrópolis: Vozes, 1989, p. 120-136.</p>
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