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	<title>Sexualidade by géh &#187; psicologia</title>
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	<description>Sexualidade: artigos de pesquisa e entrevistas</description>
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		<title>Energia e consciência &#8211; sobre a violência doméstica contra a mulher</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:55:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[edições 101 a 105]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Dayse Mara Bortoli
Psicoterapeuta

A energia psíquica, as pulsões são fundamentais para que o ser humano expresse suas sensações e sentimentos, perceba o mundo ao seu redor e <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/energia-e-consciencia-sobre-a-violencia-domestica-contra-a-mulher/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por Dayse Mara Bortoli<br />
Psicoterapeuta<br />
</em><br />
A energia psíquica, as pulsões são fundamentais para que o ser humano expresse suas sensações e sentimentos, perceba o mundo ao seu redor e através de atitudes de comportamento procure ser feliz e ter prazer.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 406px"><img title="A limited independence por Ni Ketut" src="http://gehspace.com/edicao%20106%20imagens/A%20limited-independence_%20NI_Ketut.jpg" alt="A limited independence por Ni Ketut" width="396" height="330" /><p class="wp-caption-text">A limited independence por Ni Ketut</p></div>
<p>É certo que esse prazer não é o mesmo que prazer imediato, aquele alheio ao respeito e necessidades do outro. Para tal, o funcionamento natural do ser humano é o da aprendizagem através de relações afetivas sobre valores éticos e morais. O ego ideal é formado através da construção do superego, no dia a dia da criança com adultos de referência, sendo valorizado, respeitado como ser em desenvolvimento, onde suas pulsões naturais de vida são livremente expressas. Com esse desenvolvimento imbuído de relações afetivas de liberdade e respeito às pulsões naturais, se desenvolve a saúde e o investimento energético da pessoa é canalizado para projetos de vida e busca de felicidade.</p>
<p>Por outro lado quando essas pulsões são proibidas como coisas más ou imorais, a criança não entende que seu desejo não é adequado, retrai-se ou torna-se uma agente de agressões. A saúde e a doença estão intimamente ligadas ao nível de energia ou pulsão que o individuo se apropria para si, de forma consciente, com poder quanto a sua própria vida e felicidade.</p>
<p>Quando essa energia não está disponível para nossos projetos e nossa vida, de forma consciente, fica a mercê do que é necessário para a proteção do sistema, sistema esse vulnerável às feridas emocionais. É como se a não apropriação da própria energia, o não assumir seus desejos e pulsões o levassem a um caminho onde se fica vulnerável a projeções, e todo tipo de defesas por não suportar a intensidade desses mesmos desejos. O caminho então se torna antinatural e o leva para longe de si mesmo, perdido nas brumas entre o eu e o outro.</p>
<p>Vemos Milhares de mulheres no Brasil, vítimas de violência doméstica. Mulheres que não conseguem sair de relações destrutivas ou se fortalecerem como pessoas humanas devido à percepção inadequada que tem de si mesmas. A energia diária de suas vidas que seria utilizada para projetos pessoais, é consumida no sentido de poderem sobreviver em relações de dor e frustração. Utilizam forças internas na tentativa de permanecerem na relação acreditando que se “se esforçarem”, e “serem boazinhas” as coisas melhoram. Essa situação cotidiana, que tira a mulher da sua naturalidade e espontaneidade é de muito esforço energético e libidinal.</p>
<p>Projetam as suas força no homem que as violentam dia a dia, sem se darem conta que se eles assim o fazem é em função de sentimentos de insegurança, menos valia fracasso. Esses homens precisam ser violentos para provarem alguma força, algum valor.</p>
<p>Mulheres que não se dão conta que são elas que têm a responsabilidade do cuidado com os filhos, com a casa, com o aluguel, água, luz, etc., que são competentes perante suas vidas. Mulheres que projetaram naquele relacionamento o sonho do amor romântico, do príncipe encantado e esperam, com esperança que esse príncipe reapareça e que tudo em seu mundo de violência se transforme em amor. Amam quem também é o agente da violência, projetam para sobreviverem.</p>
<p>Atualmente vemos que já houve uma mudança no feminino. Temos ministras, governadoras, ativistas e também presidenciáveis. Mulheres, inteligentes, senhoras de seu destino e cientes de que o feminino e masculino interiores são polaridades que podem coexistir harmonicamente. As potencialidades interiores podem ser colocadas a serviço das transformações sociais, econômicas e políticas de nosso tempo. Mulheres que se identificam com seu animus, com suas qualidades de planejamento, força, racionalização, objetividade e lógica. O problema é que ainda essas mulheres são uma minoria. A maior massa da população ainda se enquadra no modelo chauvinista, misógino e machista dos séculos anteriores e por essa razão se deixam escravizar e violentar facilmente, e não conseguem saídas desse ciclo de violência que passa de geração a geração.</p>
<p>Há a necessidade de mulheres que conheçam a si mesmas, seu interior, seu animus, enquanto sistemas de proteção à vida que devem ser trabalhados de forma pedagógica e terapêutica. Somente a proteção social da mulher e a responsabilização do homem não mudam o quadro violento que se amplia diariamente em nosso país.</p>
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		<title>Narcisismo</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:14:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 96 a 100]]></category>
		<category><![CDATA[narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Géssica Hellmann</p>
<p>Este breve resumo do conceito de narcisismo começa pela mitologia grega, abre caminho pelas variações no conceito psicanalítico e desdobra-se pela arte literária.</p>
<p class="wp-caption-text">Narcissus por <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/narcisismo/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Géssica Hellmann</em></p>
<p>Este breve resumo do conceito de narcisismo começa pela mitologia grega, abre caminho pelas variações no conceito psicanalítico e desdobra-se pela arte literária.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img title="Narcissus por William T. Ayton" src="http://gehspace.com/edicao%2097%20imagens/narcissus_William%20T%20Ayton.jpg" alt="Narcissus por William T. Ayton" width="408" height="471" /><p class="wp-caption-text">Narcissus por William T. Ayton</p></div>
<p>O mito</p>
<p>Narciso foi fruto do estupro de sua mãe, Liríope, pelo deus dos rios, Céfiso. Por sua beleza extraordinária, os pais consultam o adivinho Tirésio sobre o futuro da criança. O adivinho respondeu-lhes que Narciso viveria muitos anos se não viesse a conhecer a si mesmo. Narciso torna-se um jovem belíssimo. A ninfa Ecos ao vê-lo pela primeira vez se apaixona perdidamente por Narciso e ele a rejeita. (Dicionário de mitologia greco-romana, 1973)</p>
<p>Então, Narciso é punido, condenado a apaixonar-se por sua própria imagem refletida na água. Tenta abraçar e beijar a imagem refletida mas, quando percebe que é a sua própria imagem, desespera-se e percebe que deve morrer, já que não consegue alcançar o objeto desejado.</p>
<p>&#8220;Sou uma flor arrancada&#8221;, &#8220;Que a morte venha rápido&#8221;. Finalmente sente compaixão por outra pessoa: &#8220;Aquele que amei deve continuar vivo. Deve sobreviver a mim, sem culpa&#8221;. Mas ele sabe que é impossível: ao suicidar-se, estaria matando seu objeto amado, seu próprio reflexo. Quando morre, ele sofre uma metamorfose e se transforma em uma linda flor, de bulbo delicado e com um perfume sedutor. (Holmes, 2005)</p>
<p>As variações no conceito psicanalítico</p>
<p>Holmes (2005) afirma que Freud diferenciava tipos de narcisismo: o primário, desenvolvido na primeira infância, e o secundário &#8220;que os indivíduos acometidos se vêem, por regressão, como objetos primordiais de amor, em vez de outras pessoas&#8221;.</p>
<p>Para Araújo (2007), &#8220;o narcisismo infantil coincide com o surgimento do ego enquanto unidade psíquica e representação do corpo&#8221;. Afirma também que &#8220;Lacan denominará &#8216;fase do espelho&#8217; a esse momento da constituição egóica, em que a criança é apresentada à imagem de si mesma, a qual recebe com júbilo. É que ela pode ver-se através do espelho, por uma imagem integrada, antecipatória do que virá no futuro: uma organização do seu esquema corporal ainda incipiente&#8221;.</p>
<p>A fase do espelho resume o interesse lúdico de que a criança dá mostras, entre os seis e os dezoito meses, por sua imagem especular, &#8220;aspecto pelo qual a criança se distingue, certamente, do animal. Reconhece sua imagem, se interessa por ela, e esse é um fato que, podemos admitir, é observável. Ao mesmo tempo que a criança reconhece a própria imagem, exulta, ao mesmo tempo reconhece a existência de um outro, pois está em déficit em relação a ela. Isso levou Lacan à idéia de que a alienação imaginária (o fato de se identificar com a imagem de um outro), é constitutiva do eu no desenvolvimento do ser humano&#8221;. (Miller 1988).</p>
<p>Freud via no homossexualismo, na psicose e na hipocondria exemplos de narcisismos secundários em que a libido é dirigida para o eu, e não para fora, para outros.</p>
<p>Holmes (2005) afirma que estas distinções banais entre homossexualismo e heterossexualismo são muito antiquadas, pois muitos homessexuais podem estabelecer relacionamentos maduros, enquanto a escolha heterossexual, não raramente, pode ser narcisista, onde se exibe o companheiro como um objeto de ostentação.<br />
Atualmente, a questão do narcisismo ganhou importância diferencia com a &#8220;psicologia do self&#8221;, de Khout. Ele afirmou que se devia abandonar a idéia freudiana de uma linha de desenvolvimento única, que iria do narcisismo para a relação de objeto: o narcisismo seria, antes, um eixo da estrutura psíquica e, portanto, haveria um narcisismo normal e outro patológico; mas não um &#8220;primário&#8221; e um &#8220;secundário&#8221;.</p>
<p>Khout afirma que, em vez de encarar o narcisismo como algo negativo, característico dos doentes mentais, o narcisismo é uma precondição de uma vida feliz, aí incluídas as relações de objeto. O fenômeno do narcisismo secundário deveria ser considerado um &#8220;produto de decomposição&#8221; do processo normal da maturação narcísica. (Holmes, 2005).</p>
<p>Em seu livro o autor apresenta uma perspectiva de integração e o aparecimento das metamorfoses do narcisismo:</p>
<p>- Primeira fase (primeiro ano de vida) &#8211; sentimento seguro de um eu criativo em relação com o outro receptivo: A importância nesta fase é a sintonia dos pais em relação à criança: se tratada com a devoção normal dos pais, a criança sente-se especial e única. Os pais aos poucos ajudam-na a ter contato com o mundo e a confiar que ela será recebida com alegria, instituindo assim os primeiros passos da auto-estima, ou o que chamamos de narcisismo saudável. Por outro lado se ocorrer o inverso, pais ausentes, ou extremamente sufocantes, a criança tende a ter um temperamento difícil.</p>
<p>- Segunda fase (segundo ano de vida) &#8211; investimento narcísico no corpo e seus poderes crescentes: O exibicionismo surge nesta fase, quando elas começam a andar, falar, explorar o mundo e querem a aprovação e o encorajamento de seus pais. A criança se deleita com o olhar de admiração e aprovação dos pais. Quando ocorre o contrário, pais insensíveis, agressivos ou deprimidos, que não percebem a necessidade do filho de se irradiar, criam um filho com baixa estima, vergonha e decepção consigo mesmo, característica de crianças que são feridas em seu narcisismo.</p>
<p>- Terceira fase (terceiro ano de vida) &#8211; frustração ideal: a criança em seu narcisismo individual passa a se incluir no narcisismo social. Sem este processo, a negação da realidade ameaça persistir.</p>
<p>- Quarta fase (adolescência) &#8211; idéias e ambições: Adolescentes sadios tem heróis, esperanças, sonhos, ambições. O adolescente com narcisismo ferido é deprimido, sente-se condenado, oprimido pela morte. O corpo pode tornar-se uma fonte de prazer e orgulho ou um estorvo odiado que leva à raiva de si mesmo e do mundo.</p>
<p>- Quinta fase (vida adulta) &#8211; transferência do narcisismo para a geração seguinte: O adulto sadio começa a conhecer suas forças e suas limitações, sente-se bem consigo mesmo, em seus relacionamentos. Suas esperanças narcisistas são investidas nos filhos. Os ideais frustrados são substituídos pelo amor à verdade. Já o narcisista negativo, doentio, torna-se egocêntrico,o provocando inveja e sentindo desprezo pelos outros.</p>
<p>- Sexta fase (vida madura) &#8211; assimilação da sabedoria: para Kohut a constituição saudável faz o ser humano ver e aceitar o mundo como ele realmente é, tornando-o capaz de aceitar a realidade da morte. Sem a ocorrência destas metamorfoses, a entrada na meia-idade pode ser desesperadora, hipocondríaca, destrutiva, exercendo uma tirania sobre seus relacionamentos.</p>
<p>Segundo Holmes (2005) essas seriam as fases de transformação do narcisismo, que pode tanto ser saudável quanto patológico.</p>
<p>Reflexões narcisistas na arte literária</p>
<p>Em seu livro sobre narcisismo Holmes (2005) cita alguns versos do soneto 62 de Shakespeare:</p>
<p>&#8220;O pecado do amor-próprio se apossa de todo o meu olhar<br />
E de toda a minha alma e de todas as partes minhas;<br />
E para esse pecado remédio não há,<br />
Ele está bem enraizado no meu coração.&#8221; (62:1-4)</p>
<p>&#8220;Sei que não existe rosto tão belo quanto o meu [...]<br />
E os meus méritos os de todos superam&#8221; (62:5,8)</p>
<p>&#8220;Mas quando o espelho me mostra como sou,<br />
Alquebrado e vincado de curtida velhice,<br />
Vejo bem de outro modo meu amor-próprio:<br />
Eu, de modo que amar a mim seria iníquo&#8221;. (62:9-12)</p>
<p>&#8220;És tu, meu eu, que por mim enalteço,<br />
Pintando minha idade com a beleza dos teus dias.&#8221; (62:13-14)</p>
<p>O autor questiona: Seria mesmo pecado o amor-próprio? O narcisismo saudável precisa estar &#8220;enraizado no coração&#8221;, se pretende atingir seu fim. Mas, se o narcisista só tiver olhos para si, está perdido pois, segundo o autor, se consome de inveja e tem de se incentivar constantemente por comparação com os outros. Quando chega a velhice, o amor-próprio tende a se transformar em aversão a si próprio.</p>
<p>O autor afirma também que a solução para o narcisismo é amar outra pessoa. O amor pode tanto destruir quanto preservar o narcisismo.</p>
<p>Quanto à &#8220;tinta teatral&#8221;, podemos fazer uma comparação com a maquiagem, as cirurgias plásticas e os cremes &#8220;rejuvenescedores&#8221;: todos são metamorfoses da real idade.</p>
<p>Segundo Holmes (2005), existem três modos narcisistas de amar:</p>
<p>(a) o que ela é (ou seja ela mesma)</p>
<p>(b) o que ela foi</p>
<p>(c) o que ela gostaria de ser</p>
<p>Em &#8220;O Retrato de Dorian Gray&#8221;, de Oscar Wilde, o autor explora essas três variedades freudianas.</p>
<p>Oscar Wilde questiona a existência dos valores morais, no mito da eterna juventude, e nos conflitos e desejos. Neste romance, Wilde faz referências ao mito de Narciso e ao de Fausto, em que o sujeito, em prol dos prazeres mundanos, vende sua alma em um pacto com o demônio.</p>
<p>O primeiro personagem que aparece é personagem dominador e inescrupuloso &#8220;Lord Henry&#8221; admirando a beleza de uma árvore. O segundo, não é Dorian, mas seu retrato, mais importante que ele mesmo. O terceiro personagem é Basil Hallward, o pintor que se apaixona narcisicamente pelo retrato pintado.</p>
<p>&#8220;O pintor explica o efeito desta beleza sobre ele: cada retrato pintado com emoção é o retrato do artista, não do modelo. Isto é, o pintor se encontrou narcisicamente em Dorian&#8221;. (Laberge, 2007).</p>
<p>A partir deste ponto inicia-se o percurso de devassidão de Dorian, que vende sua alma pela eterna juventude e beleza, enquanto, em contrapartida, o retrato revelaria seu verdadeiro eu.</p>
<p>Quando Dorian perde totalmente seus escrúpulos, cometendo crimes horríveis, o pintor, na tentativa de fazê-lo emendar-se, vai ter com ele. Dorian confronta o pintor com o desespero do narcisista e mostra-lhe o retrato, o seu verdadeiro eu, depois mata-o com uma faca. Mais tarde, tenta emendar-se, deixando de explorar outra mulher que cruza seu caminho. Volta a rever o quadro para ver se algo havia mudado ou suavizado em seu retrato. Mas seus pecados eram grandes demais para que apenas um ato suavizasse a feiúra de sua alma retratada. Enlouquecido, enfia uma faca no quadro mágico e cai morto ao lado da tela. Na manhã seguinte é encontrado por seus criados, um homem envelhecido e morto ao lado de um retrato intacto que exibia a beleza exuberante pintada 20 anos antes.</p>
<p>Holmes (2005) afirma que o narcisista tem a propensão de se tornar suicida quando entra em um colapso narcisíco.</p>
<p>Na música de Caetano Veloso, &#8220;Sampa&#8221;:</p>
<p>&#8220;Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto<br />
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto<br />
É que Narciso acha feio o que não é espelho<br />
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho<br />
Nada do que não era antes quando não somos mutantes<br />
E foste um difícil começo<br />
Afasto o que não conheço<br />
E quem vem de outro sonho feliz de cidade<br />
Aprende depressa a chamar-te de realidade<br />
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso&#8221;</p>
<p>Ele canta um narciso maduro que não quis se deparar com o mundo real: preferia ver fantasia ou seu &#8220;eu ideal&#8221;.</p>
<p>O narcisismo patológico não deixa de ser também a peste emocional denunciada por Reich. Você sofre e impõe sofrimento aos outros por não querer ver a si mesmo e a sua própria doença.</p>
<p>Como vimos, a corrente contemporânea de Kohut sobre o conceito de narcisismo afirma que todos passamos por e, dependendo de como lidamos com a situação, a resultante pode ser um narcisismo saudável ou patológico.</p>
<p>Poderíamos chamar de &#8220;narcisismo&#8221; à doenças da moda: &#8220;anorexia&#8221; e &#8220;bulimia&#8221;? Poderíamos chamar também de &#8220;narcisismo&#8221; os crimes cometidos pelos políticos corruptos, ao desviar a verbas públicas, dando vazão apenas ao seu egoísmo extremo? E o ato o pedófilo, daquele adulto que pensa apenas em seu próprio prazer, pouco se importando com o outro indefeso, sem importar-se com freios éticos? Eram narcisistas os nazistas, ao se considerarem pertencentes a uma &#8220;raça ariana&#8221;, superior às demais?</p>
<p>Seja qual for o termo psicanalítico relacionado às minhas indagações, uma coisa é certa: a peste emocional continua à solta, a sociedade continua, sem remorsos, passando adiante sua doença.</p>
<p>O amor próprio é base para amar o outro.</p>
<p>Bibliografia</p>
<p>Araújo, João Carlos de. Narcisismo e relação narcísica de objeto. Disponível em: http://br.geocities.com/jcdaraujo/narcisismo.html. Acessado em: 15/06/2007.</p>
<p>Dicionário da mitologia greco-romana. São Paulo: Abril, 1976.</p>
<p>Holmes, Jeremy. Conceitos da psicanálise &#8211; Narcisismo. Rio de Janeiro: Relume Dumará : Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.</p>
<p>Laberge, Jacques. A beleza em O Retrato de Dorian Gray. Disponível em: http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/art019.htm. Acessado em: 15/06/2007.</p>
<p>Miller, Jacques-Alain. Percurso de Lacan uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.</p>
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		<title>O Papel da Psicoterapia no Tratamento de portadores de HIV/AIDS &#8211; Entrevista com Mariceli Bernini (Parte 1)</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 18:38:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[aids]]></category>
		<category><![CDATA[edições 91 a 95]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Alexis Kauffmann Mariceli Bernini é psicóloga formada na Universidade Estadual de Londrina. Atualmente, faz um trabalho voluntário de terapia individual e em grupo direcionado ao público <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/o-papel-da-psicoterapia-no-tratamento-de-portadores-de-hivaids-entrevista-com-mariceli-bernini-parte-1/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Alexis Kauffmann</em> Mariceli Bernini é psicóloga formada na Universidade Estadual de Londrina. Atualmente, faz um trabalho voluntário de terapia individual e em grupo direcionado ao público infectado com o vírus HIV no Instituto de Prevenção à AIDS – IPrA. Durante  90 minutos de uma conversa agradável e informativa, coletamos informações suficientes para uma série de três artigos. Nesta primeira parte, procuramos aprofundar o conhecimento sobre os estágios porque passam os portadores de HIV, desde o diagnóstico até o tratamento com a medicação anti-retroviral.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img title="Mariceli Bernini" src="http://gehspace.com/edicao%2092%20imagens/mariceli.jpg" alt="Mariceli Bernini" width="400" height="348" /><p class="wp-caption-text">Mariceli Bernini</p></div>
<p>Informação e Desinformação   &#8220;Por mais que a mídia bombardeie as pessoas com informações sobre o HIV/AIDS, eu noto que, quando essa informação não participa do cotidiano da pessoa, ela tende a ignorá-la. Aqui no IPrA, eu atendo a pessoas de todas as classes sociais e todos os graus de instrução. Há, inclusive, pessoas que poderiam pagar por atendimento individual, particular, mas que preferem ser atendidas na ONG, por ser direcionada exclusivamente para o público soropositivo.   Percebo também que o nível de desinformação do paciente com diagnóstico recente – defino como “infecção recente” o paciente que se descobriu portador do HIV há no máximo seis meses – é igual em todas as classes sociais e graus de instrução. Pois a frase que eu mais ouço aqui é &#8216;eu não me cuidei porque achava que isso nunca iria acontecer comigo&#8217;. Com essa mentalidade, as pessoas não prestam atenção e não absorvem as informações trasnsmitidas&#8221;.   Primeiras fases do processo terapêutico: negação e desespero.   &#8220;A primeira reação do paciente com diagnóstico recente, normalmente, é a negação. Essas pessoas procuram a terapia por causa do diagnóstico, me contam sobre sua soropositividade, mas não querem falar sobre o assunto. Qualquer informação que eu forneça nessa etapa tende a assustar muito o paciente.   Com o desenrolar do processo terapêutico, a negação cede lugar ao desespero. Por que o desespero se instala? Porque elas começam a prestar atenção nas informações sobre a doença e surgem as dúvidas, por exemplo, &#8216;como vou passar a transar agora&#8217;?   Quando a pessoa tem um parceiro fixo, ela já tem muita dificuldade de contar que é soropositivo. Mas muitas pessoas não têm parceiro fixo, algumas chegam a ter mais de um parceiro por semana. Então, surge o dilema: contar ou não contar ao parceiro no primeiro encontro? O que tenho ouvido dos meus pacientes é que, por exemplo, quando vão a um baile, conhecem uma pessoa e, logo no primeiro encontro, já partem para um relacionamento mais íntimo, é que eles não contam ao parceiro que são soropositivos. Só após algum tempo, se o relacionamento perdurar, é que decidem tocar no assunto.   Além do dilema &#8216;contar ou não contar&#8217;, há várias dúvidas que perturbam muito os pacientes, por exemplo, &#8216;como fazer sexo oral – com ou sem camisinha&#8217;? Uma queixa muito freqüente é a de que os homens não usam preservativos. Então, quando um homem soropositivo é heterossexual, isso significa que as mulheres com quem eles se relacionam também não usam o preservativo. Isso explica porque o número de mulheres infectadas está crescendo de forma alarmante. Se o uso do preservativo fosse generalizado, a epidemia não apresentaria o crescimento explosivo que tem atualmente&#8221;.   Soropositividade e Stress   &#8220;Numa terceira etapa, o desespero cede à medida que as informações vão sendo absorvidas e a pessoa consegue resolver suas dúvidas. A partir daí, é preciso cuidar de todos os fatores estressantes. O stress psicólogico, a fadiga, os estados depressivos, as crises existenciais, todos esses fatores são portas de entrada para as infecções oportunistas.   Esse fato explica em parte uma dúvida freqüente: por que algumas pessoas apresentam rapidamente uma série de infecções oportunistas enquanto outras, infectadas há quinze, vinte anos, nunca ficaram doentes? Porque a maneira como as pessoas reagem aos problemas cotidianos está estreitamente relacionada com as infecções oportunistas&#8221;.   Efeitos colaterais da medicação anti-retroviral   &#8220;Quando o paciente passa da fase do desespero e, porventura sua carga viral aumenta muito e seu CD 4 diminui consideravelmente, podendo, inclusive, começar a apresentar doenças oportunistas, o médico infectologista o encaminha para o uso da medicação anti-retroviral. Aí, começa uma nova fase no processo psicoterapêutico, que é o de lidar com os efeitos colaterais da medicação. Esses efeitos colaterais ainda são devastadores em alguns casos. Um de meus pacientes desenvolveu um problema seriíssimo no fígado, chegou a ser internado e quase morreu. O infectologista que tratava dele teve que mudar a medicação anti-retroviral porque ela ocasionou uma hepatite medicamentosa.  Há pessoas em que a medicação provoca alucinações, diarréia incessante, erupções na pele, insônia, dores de cabeça crônicas&#8230; Já outras pessoas não sentem nada, nenhum efeito colateral. Em qualquer caso, do ponto-de-vista psicólogico, surge o medo da morte: &#8216;se eu não tomar a medicação anti-retroviral, eu vou morrer. Mas, se eu tomar a medicação, vou ter que mudar o meu estilo de vida, não por causa do vírus, mas pelos efeitos colaterais&#8217;.   Nessa fase, a psicoterapia desempenha um papel muito importante porque, uma vez que o stress é a porta de entrada das infecções oportunistas, quanto melhor a pessoa estiver em equilíbrio e de bem consigo mesma, menos riscos ela vai enfrentar. O stress e a imunidade estão tão estreitamente relacionados que, se um soropositivo tiver um forte aborrecimento na parte da manhã e, na parte da tarde, ele fizer o exame de CD4 e carga viral, muito provavelmente será detectada uma forte alteração no resultado do exame. Agora, imagine como não ficará o organismo de um soropositivo vivendo em situação de stress prolongado por semanas ou meses?   Está comprovado cientificamente que o stress libera hormônios que atacam as células de defesa do organismo. Essa reação hormonal, quando somada ao ataque do próprio vírus HIV às células de defesa, pode deixar o soropositivo em situação terrível. A psicoterapia contribui conduzindo o paciente a uma situação de melhor equilíbrio interior, aprendendo a lidar melhor com a doença, com o diagnóstico de HIV positivo, ajudando a pessoa a criar estratégias para ter uma vida melhor&#8221;.   A rotina de vida de um soropositivo: adaptações e restrições   &#8220;Um diagnóstico positivo para HIV não significa que a pessoa tenha que sofrer incessantemente e que não possa mais fazer tudo o que fazia antes. É claro que pode, mas com um pouco mais de cuidado e algumas adaptações. Por exemplo, se a pessoa sente prazer no sexo, ela não precisa deixar de sentir esse prazer, mas terá que aceitar algumas restrições. Um de meus pacientes, antes de descobrir-se soropositivo, vivia em academias de ginástica. Depois do diagnóstico, por desinformação, ele parou com a atividade física, por achar que não podia mais fazer musculação. Pode sim. Ao contrário, o soropositivo deve fazer atividades físicas.   O nó da questão, nesta etapa, é conciliar a rotina de vida anterior ao diagnóstico com as restrições e modificações decorrentes da doença e do tratamento. O paciente não precisa mudar todo o seu estilo de vida, mas precisa, sim, fazer algumas adaptações. A pessoa tende a se sentir perdida no começo mas, com o tempo, por assim dizer, ela vai &#8216;se acostumando&#8217; com o diagnóstico e se adapta bem à nova situação.   Cada pessoa tem um tipo de reação à soropositividade, mas algumas coisas precisam ser iguais para todo mundo. Por exemplo, quando o paciente for ao dentista, ele deve comunicar ao profissional que é soropositivo. Quando for se relacionar sexualmente, caso não se sinta à vontade para contar ao parceiro que é soropositivo, insista no uso do preservativo, para não contaminá-lo.   Uma informação importante relacionado ao uso de preservativo é a de que a probabilidade de que uma mulher se contamine durante a relação sexual com um homem é muito maior do que a de um homem se contaminar ao fazer sexo com uma mulher. Assim, a responsabilidade da mulher exigir que o homem use o preservativo é igual à do homem ao assumir a posição irredutível de usá-lo. Mas muitas pessoas continuam não usando preservativos&#8221;.   Quando iniciar o tratamento anti-retroviral   &#8220;Por uma grande variedade de fatores, recomenda-se que o início do tratamento com drogas anti-retrovirais seja adiado o máximo possível. Há um valor de referência relativo ao nível de CD4 e de carga viral; só quando esse valor é atingido, ou seja, quando o nível de CD4 estiver muito baixo e a carga viral muito alta é que se recomenda o início do tratamento.   Digamos que um paciente descobre hoje que é soropositivo, mas seu CD4 está em um nível não muito baixo e sua carga viral não está muito alta. O médico provavelmente não vai entrar logo com a medicação anti-retroviral porque, quanto mais cedo for iniciado o tratamento, mais rapidamente o vírus poderá desenvolver resistência à medicação, o que poderá limitar suas opções futuras de tratamento.   Nesse aspecto, a desinformação assume um aspecto mais grave na disseminação da epidemia. Porque implantou-se a idéia de que a &#8216;AIDS não mata mais: se eu me contaminar, já existe remédio&#8217;. Sim, existe o remédio, a política de distribuição de medicamento para a AIDS no Brasil é excelente, mas a medicação ainda apresenta efeitos colaterais muito fortes. Ainda são freqüentes os casos de hepatite medicamentosa, isto é, uma hepatite provocada pelo próprio medicamento. Aí, a pessoa pode ter que ser hospitalizada e se ver forçada a trocar a medicação. A rotina de uma pessoa hospitalizada provoca várias alterações nas relações do trabalho, no relacionamento com marido, esposa, filhos&#8230;   Veja, eu não estou dizendo que todas as medicações anti-retrovirais provocam efeitos tão dramáticos. Como salientei antes, algumas pessoas iniciam o tratamento e sentem apenas uma leve dor-de-cabeça durante algum tempo e, depois, não sentem mais nada. Mas a grande maioria dos pacientes sente pelo menos alguns efeitos colaterais bastante incômodos. Como para qualquer medicação, há um leque imenso de efeitos colaterais registrados e grandes variações de um indivíduo para outro. Como não é possível adivinhar se você vai ter ou não efeitos colaterais antes de começar o tratamento, continua valendo a política de que o melhor remédio é a prevenção &#8220;.   Papel da psicoterapia na aderência ao tratamento anti-retroviral   &#8220;Por tudo isso, eu ouço muitas queixas, não do HIV, mas dos efeitos da medicação. É quase um lugar-comum as pessoas dizerem que o &#8216;tratamento é pior do que a doença&#8217;.   Eu tive um paciente, um rapaz muito jovem, que parou o tratamento porque não conseguiu suportar os efeitos colaterais e acabou morrendo. Uma outra paciente desenvolveu um quadro grave de depressão e está se tratando com antidepressivos, para suportar a avalanche de sensações e sentimentos que emergem quando se aproxima a hora de tomar a medicação. Ela toma uma dose de manhã e outra à tarde. Portanto, ela já acorda tensa, briga com todo mundo em casa, xinga as pessoas, tem crises de choro&#8230; E aí o marido dela a força a tomar o remédio. Doze horas depois, já no final da tarde, ela tem que tomar de novo. Ela me disse que o pôr-do-sol, para ela, se transformou em um pesadelo, porque o baixar do sol faz com que ela se lembre de que vai ter que tomar a medicação.   Tenho outros pacientes que têm efeitos colaterais leves, como uma diarréia. Incomoda? Sim, incomoda, mas existe coisa muito pior do que isso.   Resumindo, é uma bola-de-neve descendo morro abaixo: o stress pode desencadear doenças oportunistas que obrigam a pessoa a partir para o tratamento delas e/ou para o início do uso dos anti-retrovirais, que têm efeitos colaterais sobre o organismo e a psiquê. O papel do psicólogo, durante todo esse processo, é o de ajudar estas pessoas a encontrar alternativas para lidar com todas essas situações estressantes, auxiliar na adaptação do início do possível tratamento e também o de impedir que o paciente desista do tratamento, caso já tenha iniciado um. Porque, se o médico responsável chegou ao ponto de prescrever a medicação anti-retroviral, é porque essa pessoa está com a carga viral alta e o CD4 muito baixo (porta de entrada de doenças oportunistas). Nesse caso, se a pessoa não iniciar a medicação anti-retroviral ou descuidar-se do tratamento de alguma doença oportunista, dependendo da gravidade do conjunto de sintomas, a perspectiva é a de desenvolver sérios problemas de saúde, ter uma doença atrás da outra e chegar ao óbito&#8221;.   (continua&#8230;)</p>
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		<title>Dimensões clínicas da moralidade sexual</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Dec 2008 19:21:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[dst]]></category>
		<category><![CDATA[edições 61 a 65]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psiquiatria]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Entrevista com Dr. Sérgio          Frajblat, especialista em Neurologia pela PUC-Rio e em Psiquiatria pela     <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/09/dimensoes-clinicas-da-moralidade-sexual/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Entrevista com Dr. Sérgio          Frajblat, especialista em Neurologia pela PUC-Rio e em Psiquiatria pela          UERJ.<br />
<em>por Alexis Kauffmann</em></em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><img title="Dr. Sérgio Frajblat" src="http://gehspace.com/edicao%2063%20imagens/sergio.jpg" alt="Dr. Sérgio Frajblat" width="300" height="279" /><p class="wp-caption-text">Dr. Sérgio Frajblat</p></div>
<p>Alexis:  Gostaria de começar por uma introdução ao tema &#8220;Moralidade Sexual&#8221;, tal como se apresenta clinicamente. Por exemplo, vemos uma contradição entre práticas e idéias libertárias em relação ao sexo e valores culturais arraigados sobre a sexualidade que não desaparecem.</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: A gente pode considerar todo um histórico da evolução da sexualidade do ser humano, desde os homens das cavernas até tempos mais recentes. Por exemplo, até o século passado, havia restrições quanto à sexualidade, principalmente direcionadas à mulher.</p>
<p>Mas, na década de 1960, com suas revoluções culturais e comportamentais, houve uma liberação muito mais ampla, com transformações em um ritmo muito acelerado até uns vinte anos atrás, quando houve uma freada com o advento do HIV, da AIDS. Essa mudança de ritmo afetou mais as populações mais esclarecidas. As menos esclarecidas deram continuidade da liberação sem segurança. Um reflexo disso é um número cada vez maior de adolescentes grávidas, o que demonstra um descuido crescente não só em relação à gravidez, como também em relação ao risco de doenças.</p>
<p>Alexis: Então, vamos por partes: como você vê a relação entre DST&#8217;s e liberação/repressão sexual?</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: Não se pode separar uma da outra. Porque a própria prevenção das DST&#8217;s envolve algumas precauções comportamentais. Mas, a liberação sexual também envolve a adoção de certos cuidados, porque a prevenção se relaciona com o esclarecimento da população. Uma população mais esclarecida toma medidas preventivas, já a parte menos esclarecida não. Existe toda uma questão cultural com relação ao respeito à mulher. Se considerarmos por exemplo, a civilização do Egito Antigo, existia todo um código de respeito à posição da mulher, ela tinha direitos, possuía seu espaço social próprio, não era uma serviçal, como em outras culturas. É sempre com relação a esse conflito em relação à condição da mulher que a gente pode situar a sexualidade. Porque os homens, durante todo o seu curso de vida, sempre tiveram essa liberdade. Mais recentemente, a sociedade começa a oferecer condições para que a própria mulher possa se proteger. A pílula anticoncepcional foi um fator de liberdade da mulher e de liberdade sexual. Os preservativos femininos também propiciam uma maior liberdade não só em relação à gravidez indesejada como em relação a DST&#8217;s. Então, ao conseguir reverter sua posição subalterna ao homem, não só na sexualidade, mas no campo profissional e em outros, as mulheres conquistam espaços que revolucionam não só as relações sexuais, mas os relacionamentos entre os sexos. Isso, em muitos momentos, gera conflitos no relacionamento dos casais.</p>
<p>Alexis: Você relacionou a ocorrência de gravidez indesejada e DST&#8217;s ao nível de esclarecimento da população. Você também mencionou um crescimento desses problemas entre a população adolescente. Você acha que a população adolescente carece de maior informação?</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: Existem vários fatores que influenciam, como a cultura de determinadas regiões e países, mas a desinformação é o principal.</p>
<p>Alexis: Então eu pergunto tanto ao psiquiatra quanto ao neurologista: a informação dirige-se, digamos, ao lado &#8220;racional&#8221; do ser humano. Por outro lado, no calor da excitação sexual, a &#8220;racionalidade&#8221; pode voar pela janela, especialmente se estiver associada a alguns chopinhos&#8230; Especialmente no caso do adolescente, como lidar com essa situação?</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: Aí entra muito a questão da impulsividade&#8230; Mas vale a máxima: &#8220;quando a mente não pensa, o corpo padece&#8221;. Quando não se consegue ter algum equilíbrio, especialmente quando influenciado por álcool e drogas, não vamos nos esquecer delas&#8230; É importante entender que sexo não é algo que se comece a praticar de uma hora para outra, há toda uma preparação prévia. Se você tiver informações adequadas, uma formação adequada, no sentido de educação, dentro da família, da escola, com acesso a leitura adequada, você se prepara com informações para vivenciar a situação prática. Pode haver circunstâncias em que o instinto fale mais alto mas, tendo um preparo educacional, o indivíduo é capaz de equacionar a situação.</p>
<p>Alexis: Você fez uma distinção entre &#8220;informação&#8221; e &#8220;formação&#8221;. Que fatores de &#8220;formação&#8221; do indivíduo podem ser relacionados ao risco nos comportamentos sexuais?</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: Quando falei em formação, me referi ao ambiente familiar, à convivência, aos exemplos que se recebe do comportamento dos pais, à forma de se relacionar com a família. O ambiente também é um fator de formação, independente de se ter informação sobre o que se deve ou não fazer, os cuidados que se deve ter. O meio em que se é criado influencia muito. E aí incluímos o meio familiar, social, cultural e religioso.</p>
<p>Alexis: Sobre as restrições religiosas, alega-se que elas se destinam a &#8220;proteger&#8221; os fiéis&#8230;</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: &#8220;Protegem&#8221; ao mesmo tempo que &#8220;desprotegem&#8221;. &#8220;Protegem&#8221; no sentido de evitar a liberação desinformada do sexo. Mas, quando se sai do ambiente da religião de origem, a pessoa vai se sentir excluída, despreparada para enfrentar situações diferentes do seu ambiente original.</p>
<p>Alexis: Falando, então, sobre fatores de &#8220;deformação&#8221; do comportamento sexual, se é que posso me expressar assim&#8230; Por exemplo, você mencionou a &#8220;impulsividade&#8221;. A impulsividade é uma característica de personalidade?</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: Não, não é exclusivamente de personalidade. É também uma característica de momento do ser humano, uma situação em que o corpo fala mais alto do que a mente. Sobre deformação, poderíamos citar não a desinformação, mas todo um processo de estimulação na mídia, na propaganda, em filmes, em telenovelas&#8230; Podemos lembrar do exemplo do cigarro, que era cultuado como ideal de consumo até algumas décadas atrás e hoje em dia é o oposto. A velocidade da circulação da informação não-direcionada, excessivamente aberta, atingindo a todas as faixas etárias, sem adequação de linguagem é um fator de deformação. Quando se fala em restrição de idade para se assistir a determinados programas de TV, estamos, na verdade, falando em adequação de linguagem para determinadas faixas de idade. Essa liberação excessiva do acesso à informação possibilita que crianças tomem contato com informações numa forma para a qual não estão preparadas e isso é um fator de &#8220;deformidade&#8221; na formação, no sentido de que, se não estiverem preparadas, a absorção dessa informação será deformada.</p>
<p>Alexis: Podemos relacionar esse tema a uma questão recorrente em nossa revista: a moralidade sexual e as fronteiras entre Arte e Pornografia. Embora o retrato do corpo nu seja uma constante na Arte, às vezes é difícil desfazer a confusão entre uma revista pornô e uma publicação que aborda o tema da sexualidade na Arte, mostra pinturas e desenhos de corpos humanos nus. Gostaria de ouvir sua opinião sobre esse tema.</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: Olha, além da questão cultural, há que se considerar a adequação das imagens ao veículo que você está usando, à informação que você quer transmitir, ao estímulo de consumo que você deseja provocar&#8230; É preciso saber adequar-se a essas diferentes situações. Porque estamos, já há muito tempo, numa sociedade em que predomina o uso das imagens. E o que se vai considerar, ao avaliar um veículo, é a conveniência de associar a própria imagem às imagens que você veicula. Isso se relaciona ao que falei antes sobre as restrições de horários em função de faixas etárias para veiculação de filmes, exibição de capas de revistas em bancas de jornais, porque pode haver um choque de interesses e finalidades da imagem veiculada em relação ao local onde é exibida.</p>
<p>Alexis: Especificamente na Internet, notamos que a definição do que é &#8220;pornográfico&#8221; é extremamente confusa. Alguns sistemas de busca, por exemplo, nos classificam sem problemas na categoria &#8220;Arte&#8221;, enquanto outros recusam nossa inscrição por termos &#8220;conteúdo adulto&#8221;. Ou seja, empregam uma expressão ambígua e subjetiva para designar uma ambigüidade existente no próprio meio social e a subjetividade de quem é encarregado de analisar o conteúdo.</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: A Internet é só uma face mais recente desse conflito, que é bem mais visível nas bancas de jornais, que passaram por diversas fases de evolução, não só na forma de apresentação, como na forma de divulgação, nas restrições e permissões que a sociedade impõe. Veja, antes, revistas de sexo nem eram expostas à venda, ficavam escondidas, para acesso somente do indivíduo adulto. Mas se o garoto conhecesse o jornaleiro, às vezes também conseguia o acesso&#8230; Depois, foram ganhando exposição crescente, mas com as revistas empacotadas, fechadas e imagens censuradas com tarjas na capa, depois passaram a ser embaladas em plástico preto&#8230; É preciso considerar que as imagens das revistas ditas pornográficas também passaram por um processo de evolução, tornando-se cada vez mais intensas. Por outro lado, há um processo de transformação que vem da própria divulgação mais ampla de livros, artigos, enfim, de informação qualificada sobre a sexualidade, que leva a uma maior liberalidade. Enfim, há uma transformação em processo, não só em relação à sexualidade como a diversos outros temas.</p>
<p>Alexis: O que nós notamos, estudando a História da Sexualidade na Arte, é que há uma alternância cíclica, momentos de maior tolerância seguidos de momentos de maior restrição. Esses momentos não são comparáveis entre si, cada um tem sua especificidade, mas o ciclo é nitidamente observável. Então, algo gaiatamente, argumentei com o gerente de um site que nos classificou como &#8220;pornográfico&#8221; que, se nós fôssemos pornográficos, então deveríamos pintar de preto o teto da Capela Sistina&#8230; Afinal, representações de nus podem ser vistas pelo Vaticano inteiro!</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: Bem, no caso, não acho que a gente deva julgar, pressionar, forçar as pessoas a aceitar idéias que não são as delas&#8230; Mas, de uma forma geral, essas contradições existem e são conseqüência desses ciclos que você mencionou, de maior liberação e maior restrição, não só na sexualidade, mas em diversas áreas, como na política e nas religiões por exemplo.</p>
<p>Alexis: No nível do indivíduo, como se manifestam essas contradições sociais? De um lado, excesso de informação e estímulo, de outro, moralidade e restrições. Você já observou esse conflito no contexto clínico, do indivíduo?</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: Sem dúvida, existem conflitos. Pessoas que, dentro de sua formação, aparecem com dúvidas e questionamentos em relação à própria sexualidade, pedindo que modifiquem suas idéias em relação à sexualidade&#8230; Inclusive, tanto homens quanto mulheres homossexuais pedindo para serem &#8220;curados&#8221; de sua homossexualidade, com receios e dificuldades de se aceitar. A origem está nesses conflitos que dificultam a formação do indivíduo.</p>
<p>Alexis: Sobre preconceito. Tem-se usado os termos como &#8220;homofobia&#8221;, &#8220;androfobia&#8221;, &#8220;ginofobia&#8221;&#8230; Esses termos são clinicamente corretos? Podem ser usados para designar essas formas de preconceito?</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: Não concordo em classificar preconceitos como &#8220;fobias&#8221;, senão teríamos que cunhar muitos outros termos ligados à fobias. Não se deve misturar fobias &#8211; receios que se originam na formação do indivíduo &#8211; com o preconceito, idéias preconcebidas, distorcidas, que se originam da desinformação. As fobias são medos que surgem em relação a situações não só relacionadas com a sexualidade, mas no dia-a-dia. Há diversos transtornos fóbicos, claustrofobia, aracnofobia, e nem por isso são relacionados a preconceitos.</p>
<p>Alexis: E sobre os preconceitos que desembocam em ódios&#8230; O que você pode comentar sobre o ódio e a violência?</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: Os ódios são sentimentos profundos, intensos, que se criam dentro de indivíduos em conseqüência de traumas, situações vivenciadas, muitas vezes já durante sua formação, desde pequenos já recebendo uma carga de ódio contra outro grupo social, religioso&#8230;</p>
<p>Alexis: E o comportamento violento? Porque me parece que há um abismo entre odiar um grupo social &#8211; por exemplo, a mulher, o homossexual &#8211; e assassinar, espancar&#8230;</p>
<p>Dr. Sérgio Frajblat: Aí você já está entrando no contexto de outros transtornos, no caso, de formação da personalidade. Existem diversos transtornos de personalidade agressivos que, associados a outros fatores, podem gerar comportamentos de agressividade extremada. Somam-se os defeitos de formação aos preconceitos e mistura-se tudo dentro de uma panela de pressão, altamente explosiva. Mas o comportamento violento é uma situação-limite, que pode ser circunstancial, como a violência no trânsito, as brigas na ruas, nos estádios de futebol, nas boates, às vezes por motivo fútil, como um simples esbarrão. É preciso não simplificar demais, ater-se a conceitos que venham unicamente de sua área de formação acadêmica, seja a Psicologia, Sexologia, Antropologia, ou qualquer outra, para não cairmos numa visão maniqueísta de &#8220;bem&#8221; e &#8220;mal&#8221; e sejamos capazes de compreender a intervenção de outros fatores sobre o comportamento humano.</p>
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		<title>Entrevista com o artista plástico e psicólogo Paulo França</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Dec 2008 17:38:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[arte e sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[edições 51 a 55]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Géssica Hellmann e Alexis Kauffmann</p>
<p class="wp-caption-text">Psicólogo e artista plástico Paulo França</p>
<p>1 &#8211; Para começar, Paulo França por Paulo França. Pode falar um pouco sobre sua formação <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/09/entrevista-com-o-artista-plastico-e-psicologo-paulo-franca/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Géssica Hellmann e Alexis Kauffmann</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><img title="Psicólogo e artista plástico Paulo França" src="http://www.gehspace.com/edicao%2055%20imagens/paulo%20franca.jpg" alt="Psicólogo e artista plástico Paulo França" width="200" height="282" /><p class="wp-caption-text">Psicólogo e artista plástico Paulo França</p></div>
<p>1 &#8211; Para começar, Paulo França por Paulo França. Pode falar um pouco sobre sua formação profissional e sua trajetória como artista plástico?</p>
<p>Paulo: Objetivamente, minha formação é na área da psicologia e, por conta disso, ao longo dos anos desenvolvi minha atividade profissional no campo da sexualidade humana. Nesses casos, especificamente, lanço mão da abordagem corporal, que, na prática clínica, oferece aos pacientes resultados mais avançados, atuando sobre padrões físicos, aprimorando e ampliando a consciência corporal/emocional, através de técnicas específicas.</p>
<p>Quanto à pintura, não tenho formação acadêmica como artista plástico. Sou autodidata desde os 15 anos de idade. Tive a oportunidade de realizar algumas exposições. Apenas em uma ocasião decidi entrar numa escola a fim de aprimorar a pintura da figura humana, sem abandonar, contudo, meu traço e o abstracionismo, além da técnica do óleo sobre tela. Independente disto, a pintura é um talento onde a técnica acaba se desenvolvendo e se aprimorando na prática, já que o exercício da pintura favorece a isto, naturalmente.</p>
<p>2 &#8211; Segundo tenho pesquisado, os problemas de ordem sexual têm, freqüentemente, relação direta com a cultura familiar, com os valores e conceitos morais transmitidos pela família, ou seja, no tipo de &#8220;educação sexual&#8221; que se recebe em casa. Você concorda com esse ponto de vista? Em caso positivo, poderia esclarecer melhor esse ponto, talvez citando um ou dois casos típicos? Em caso negativo, qual a real importância ou o verdadeiro sentido da educação sexual?</p>
<p>Paulo: Vou começar a responder esta pergunta pelo fim.</p>
<p>Penso que toda forma de educação é importante, seja qual for a área. Podemos tomar como exemplo, a questão alimentar, tão importante para a manutenção da saúde. Podemos comer de tudo, porém qualquer exagero provoca desequilíbrio orgânico. O importante é alimentar-se com qualidade evitando abusar na quantidade, além de uma ordenação levando-se em conta as necessidades nutricionais diárias.</p>
<p>Com a sexualidade; penso que seja a mesma coisa.</p>
<p>Impossível fechar o olho para esta realidade. O ser humano tem sexualidade, bem como a energia sexual circulando em seu corpo, desde que nasce. Em tenra idade, esta sexualidade é pouco elaborada e com o passar dos anos e dependendo de vários fatores, (familiares, sociais e culturais) seus valores serão moldados neste contexto. Logicamente que a tendência de cada ser humano é evoluir e determinados valores se transformam ao longo de seu desenvolvimento e de acordo com suas novas necessidades. Entretanto, os modelos iniciais bem como toda forma de educação sexual será determinante para que a expressão e a vivência sexual sejam mais saudáveis. Pode ser que valores muito arraigados provoquem algumas tensões e dificuldades na expressão sexual, contudo este não é o único motivo que desencadeia uma desordem sexual. Não resolve nada simplesmente responsabilizar a cultura familiar como forma de justificar um problema sexual. Mesmo porque, cabe ao ser humano, em seu processo de evolução/individuação, encontrar a melhor forma para sanar suas dificuldades, buscando, por exemplo, ajuda especializada. E, antes de tudo, admitir que é o único responsável por isso, já que a ‘cultura’ não é ele próprio. A ‘cultura’ não está nele, mas sim ele está nela. E é no aqui e agora que ele pode buscar estratégias, encontrar e desenvolver seus recursos internos para isto.</p>
<p>Observo ao longo de minha experiência profissional que existe um panorama novo se abrindo, já que tanto homens quanto mulheres, estão buscando em si a expressão de um ser humano muito mais sensual do que sexual. Por conseguinte, penso que a nova expressão da sexualidade vem ganhando em qualidade e não mais em quantidade.</p>
<p>3 &#8211; Vivemos um momento cultural algo contraditório, em que a banalização do sexo; transformado em mercadoria midiática, convive com grandes tabus. Ao que parece; todas as grandes transformações ideológicas e comportamentais, relativas à sexualidade que ocorreram no século XX; passaram ao largo das mentes de grandes segmentos sociais que, entretanto, são consumidoras do sexo embalado para consumo. Por exemplo, o sentimento que emergiu ao saber que uma recepcionista de uma clínica de depilação se referiu ao meu trabalho como &#8220;depravado&#8221; foi mais ou menos equivalente ao de encontrar a tumba de um faraó em plena Avenida Paulista. Como entender esse fenômeno?</p>
<p>Paulo: Se for tão importante entender este fato, é provável que a resposta anterior possa ajudá-la.</p>
<p>Assim como foi uma recepcionista, poderia ser um alto executivo com MBA (acredite, é possível), mas que permanecem distantes de sua evolução/individuação. Não é um mero ‘pré-conceito’, mas a dificuldade até de compreender o sentido da própria palavra ‘pré-conceito’. Um conceito antecipado sobre determinado assunto, motivado por alguns valores. Ao iniciar a ‘própria evolução’, a tendência é criar o ‘próprio conceito’ a respeito de determinado assunto, que pode se coadunar a alguns outros e a algumas pessoas. Este novo conceito pode provocar em outro indivíduo o mesmo sentimento que aquela pessoa experimentou antes quando estava aprisionada nos seus ‘pré-conceitos’. Daí a importância da educação ao longo da existência. E é assim que a humanidade se transforma, cada um contribuindo com a sua evolução.</p>
<p>4 &#8211; Sobre a fronteira entre arte e pornografia. Há uma frase célebre de um político americano sobre não ser necessário saber a definição de indecência para reconhecê-la quando se vê uma. A imagem, a representação do corpo nu, é &#8220;indecente&#8221; por natureza? Por que se adota correntemente a expressão pleonástica &#8220;nu artístico&#8221;, implicando que haveria formas de &#8220;não-artísticas&#8221; de nu? Em que momento a arte deixa de ser &#8220;arte&#8221; para se tornar &#8220;suja&#8221;, &#8220;pornográfica&#8221;? Aliás, o que é &#8220;pornografia&#8221;? Ou é algo que não se precisa definir para reconhecer?</p>
<p>Paulo: Antes de tudo é importante contextualizar o momento em que a frase foi proferida pelo célebre político americano, para não correr o risco de dar um peso maior do que o necessário àquele pensamento. O que ele disse ou pensa está vinculado aos próprios conceitos, valores e à própria imagem corporal. Não seria a visão de si próprio indecente? Em que medida ele evoluiu até aquele momento?</p>
<p>Teoricamente, o termo pornografia, pode ser definido como um gênero literário que descreve atos eróticos com o fim de excitar o desejo sexual do leitor (do grego porne, ‘prostituta vulgar’, e graphos, ‘escrito’). Por extensão, consideram-se pornográficas todas as obras cênicas, desenhos e artefatos explicitamente destinados a causar excitação ou assistir a prática de atos sexuais (segundo o Dicionário da Vida Sexual, volume 2, 2ª edição, 1982, Editora Abril Cultural, pág.419).</p>
<p>Deste modo, particularmente, creio que seja um pouco inadequado colocar especificamente a pintura artística ou o nu artístico, como queria, nesta mesma linha. A não ser que esta seja a proposta de trabalho do artista, considerando aquele conceito de pornografia ‘&#8230;explicitamente destinado a causar excitação&#8230;’.</p>
<p>Ainda assim, a obra não perderá seu caráter. A proposta é pessoal e a obra passa a ser conceitual, mas não deixa de ser expressão artística, principalmente se ele utilizar as técnicas próprias na execução. Se ele alcança o seu objetivo e ‘toca’ através do seu trabalho, o observador, não difere em nada do artista que se propõe atingir os admiradores de naturezas mortas. Sinceramente, isto é uma simples questão de gosto.</p>
<p>Cada um tem a sensação de sujo, limpo, prazeroso ou desconfortável, a partir da própria experiência interna sobre tais sentimentos.</p>
<p>5 &#8211; O preconceito sexual, a intolerância contra a diversidade sexual, é uma forma de ódio que pode, inclusive, chegar ao crime, segundo pudemos averiguar em estatísticas sobre assassinatos de homossexuais, definidos como &#8220;crimes de ódio&#8221; pelo antropólogo Dr. Luiz Mott, professor da UFBA e presidente do Grupo Gay da Bahia. Nossa pergunta aos homofóbicos, na edição em que abordamos esse assunto, foi “Você tem medo do quê?” O que temem os chamados “homofóbicos?” A expressão é clinicamente correta, pode-se caracterizá-la como uma “fobia?” E as outras formas de ódio sexual, por exemplo, o preconceito de gênero (ódio à mulher)? Qual a origem desse sentimento? É passível de tratamento, de superação?</p>
<p>Paulo: Sim, é um termo correntemente usado atualmente. Um neologismo que originalmente foi empregado por sexólogos ingleses para designar reações de medo em relação à homossexualidade, própria ou de outras pessoas. Teoricamente a homofobia seria o medo neurótico de negar em si mesmo inclinações ou traços homossexuais e bissexuais. Neste sentido, poderíamos até pensar que na impossibilidade da auto-agressão explícita, melhor agredir o que está fora. Talvez para eles seja mais cômodo agredir a outrem do que se confrontar com os próprios medos e fantasias. A origem de tais sentimentos está vinculada igualmente ao distanciamento do indivíduo com a própria essência.</p>
<p>É importante ressaltar outra forma de distúrbio definida como heterofobia, que seria a dificuldade do relacionamento com pessoas do sexo oposto. Curiosamente, algumas dessas pessoas, acabam acreditando serem homossexuais, contudo, apenas não sabem lidar naturalmente com as pessoas do sexo oposto. Disto pode resultar tantas outras dificuldades e enganos nesta área.</p>
<p>Todo distúrbio pode ser tratado e alguns, mesmo sem cura, têm controle, através de tratamento especializado.</p>
<p>6 &#8211; Finalmente, perguntamos sobre a relação entre Arte e Tolerância. Temos visto muitos programas e projetos nesse sentido, este site é apenas um entre muitos. Você acredita na eficácia das manifestações artísticas como forma de estímulo à fraternidade, à tolerância, á solidariedade? Por quê?</p>
<p>Paulo: Toda forma de arte é estimulante já que propõe tocar o espectador naquilo que é mais sutil no ser humano, a emoção. A manifestação artística é o manifesto do próprio ser humano. Admirar uma obra é admirar as sutilezas, a sensibilidade, os segredos do próprio artista, mesmo que em algumas vezes sejam colocados estrategicamente de forma obscura. A natureza humana tem nuances que às vezes os próprios humanos desconhecem. Sensibilizar-se com estes aspectos, nos dá a possibilidade de experimentarmos muito mais intensamente tudo aquilo que estiver ao alcance de nossos órgãos do sentido. Daí surge o desejo de compartilhar a própria experiência com outras pessoas gerando seres humanos mais fraternos, tolerantes e solidários.</p>
<p>E, para finalizar, é bom lembrar que somos ‘seres sexuais’ por natureza e, na minha experiência, observo que a dificuldade de uma grande maioria de pessoas é se descobrirem como ‘seres sensuais’. Isto sim é difícil, talvez pelo fato de terem também uma grande dificuldade de descobrir suas nuances através das próprias emoções. Entretanto, observo que isto está mudando. Homens e mulheres se buscam, paralela ou conjuntamente para, no fim, encontrarem a manifestação de si próprios numa arte sexual que prima pela beleza do encontro, pela conquista do prazer sentida em todos os sentidos.</p>
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		<title>A mulher, o Outro e a piada suja</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Dec 2008 13:29:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 36 a 40]]></category>
		<category><![CDATA[lacan]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade masculina]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Em artigo publicado na seção &#8220;Foro Íntimo&#8221; de outra edição, lemos o depoimento de uma mulher, cuja indignação, embora oscilante entre o riso de ridículo e a <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/09/a-mulher-o-outro-e-a-piada-suja/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em artigo publicado na seção &#8220;Foro Íntimo&#8221; de outra edição, lemos o depoimento de uma mulher, cuja indignação, embora oscilante entre o riso de ridículo e a fúria quase desenfreada, não deixa, sempre, de constituir uma indignação diante algo que ela identifica como uma agressão, tão ou mais dolorida quanto uma agressão física, uma agressão que até efeitos físicos provoca: uma agressão da palavra, que não é exatamente aquilo que chamamos de uma &#8220;agressão verbal&#8221;.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 346px"><img title="Woman's face - por Ana Maria Baralt" src="http://www.gehspace.com/edicao%2038%20imagens/Anamaria%20Baralt%20womans%20face.jpg" alt="Woman's face - pintura por Ana Maria Baralt" width="336" height="450" /><p class="wp-caption-text">Woman&#39;s face - por Ana Maria Baralt</p></div>
<p>Não, o homem que usa a palavra como um alfinete para espetá-la, não a agride por algo que ela tenha feito que o indigne, não se trata de um verdadeiro ataque contra um inimigo hostil, como fica claro quando o homem foge, se encolhe, se envergonha diante da reação irada da mulher. Porque há, nas palavras que lhe dirige, um humor sutil, que ela compreende no seu ridículo, e às vezes ri. Também há, nessas palavras, uma espécie elogio implícito, um elogio grosseiro, sem dúvida, o qual ela não compreende: &#8220;como pode um homem elogiar-me, elogiar minha beleza e meus encantos, se me encontro no momento próprio da agressão, despida dos meus aparatos de sedução &#8211; cabelos, roupas, maquiagem&#8221; &#8211; ela se indaga, sem encontrar resposta.</p>
<p>Estamos falando, é claro, da &#8220;piadinha suja&#8221; que um homem dirige a uma mulher estranha na rua &#8211; no texto de Miller, chamado de &#8220;piropo&#8221;.</p>
<p>Neste breve artigo, seguiremos os passos de Jacques Alain-Miller em uma conferência sobre psicanálise e linguagem (1) para explicar à mulher o que subjaz à &#8220;piadinha suja&#8221;, não para absolvê-la, não para justificar o seu perpetrador, mas para compreender a amplitude e os limites do ato em si.</p>
<p>A indagação inicial, perturbadora para a mulher, é saber qual é o gozo que um homem encontra em dirigir uma mensagem erótica a uma mulher desconhecida, com quem sequer pretende ou aspira a conquistar? O erotismo da mensagem contrasta com a intenção real, um &#8220;corte entre o dizer e o fazer&#8221;, expressa ao mesmo tempo um desinteresse profundo pela sua destinatária que, no limite, o transformaria em uma atividade estética.</p>
<p>Para Miller, essa incongruência, o gozo, se dá no nível da infração ao código da decência. A mensagem vale por sua diferença com o código, mas a infração do código não é suficiente. É necessária a &#8220;sanção do Outro&#8221;, no caso, a raiva ou o riso da mulher desconhecida. A mulher &#8211; no caso, qualquer mulher &#8211; encarna para o autor da &#8220;piada suja&#8221;, o Outro sexo, incompreensível, inalcançável. É a esperança o motor da piada, a esperança de que essa mulher, ou qualquer outra mulher, possa ser dele. &#8220;É sempre por abuso que se imagina que uma mulher é sua. Os homens inventaram o casamento para poder imaginá-lo&#8221;, pontua Miller.</p>
<p>O aspecto principal da falta de sentido do ato é que ele atrai significações, cria sentidos para além dos sentidos normais. Ele se dirige, segundo Miller, ao grande Outro da Lei, da decência entendida como conjunto de inibições e proibições. O autor da piada, &#8220;esse homem infeliz que sempre vê passar diante dele a mulher desconhecida&#8221;, deseja apenas atrair a atenção da mulher o suficiente para que ela admita sua existência. Portanto, ele se torna homem na medida em que persiste em se fazer ouvir &#8220;pelo Outro encarnado na mulher&#8221;.</p>
<p>O aspecto trágico da piada é que ele pode, em seu limite, reduzir-se a uma interpelação do Outro, a essa mulher qualquer, representante de todas as mulheres, da Mulher em sentido absoluto; uma tentativa desesperada de estabelecer contato com o próprio objeto do desejo.</p>
<p>O autor conclui que a mulher a quem se dirige a mensagem é, portanto, uma ficção, pois representa todas as mulheres em uma só. &#8220;Todos os homens em um só, isso pode existir&#8230; Mas, todas as mulheres, é esse sonho fundamental, só existe como ficção&#8221;. Por carregar o emblema da própria castração, a piada que se dirige à mulher-fictícia encarnada na mulher real, aquela que passa, é também uma agressão. Daí a piada situar-se em uma &#8220;zona indecisa&#8221; entre o elogio e a ofensa, especialmente quando se fixa na desintegração do corpo feminino, no elogio fetichista a partes da anatomia.</p>
<p>(1) MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 1988, 2ª ed.</p>
<p><strong>Dica de Leitura &#8211; Percurso de Lacan: uma Introdução JACQUES-ALAIN MILLER</strong></p>
<p>Reuniao de Nove Conferencias do Autor. as Cinco Primeiras, Conhecidas Internacionalmente Como &#8220;conferencias Caraquenhas&#8221;, Realizadas em 1979, e as Quatro Ultimas, Unidas Pelo Titulo &#8220;duas Dimensoes Clinicas: Sintoma e Fantasia&#8221;, Realizadas em 1983.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 140px"><a href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=50374&amp;ST=SE&amp;franq=142908" target="_blank"><img style="border: 0pt none;" title="Clique para comprar" src="http://www.gehspace.com/edicao%2038%20imagens/50374.jpg" border="0" alt="Percurso de Lacan - Jacques Alain Miller - dica de leitura psicanálise sexualidade" width="130" height="198" /></a><p class="wp-caption-text">Clique para comprar</p></div>
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		<title>Entrevista com Oswaldo M. Rodrigues Jr.</title>
		<link>http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/07/entrevista-com-oswaldo-m-rodrigues-jr/</link>
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		<pubDate>Sun, 07 Dec 2008 15:31:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 21 a 25]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[sexologia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Géssica Hellmann</p>
<p></p>
<p>Entrevista          com o Psicólogo Oswaldo M. Rodrigues Jr. &#8211; CRP 06/20610-7 &#8211; Presidente    <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/07/entrevista-com-oswaldo-m-rodrigues-jr/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Géssica Hellmann</em></p>
<p><img src="http://gehspace.com/edicao%2021%20imagens/foto_oswrod.gif" alt="Oswaldo Rodrigues - psicólogo especialista em sexualidade humana" width="58" height="43" /></p>
<p>Entrevista          com o Psicólogo Oswaldo M. Rodrigues Jr. &#8211; CRP 06/20610-7 &#8211; Presidente          (2005-2007) &#8211; <strong>SBRASH &#8211; Sociedade Brasileira para o Estudo em Sexualidade          Humana</strong></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 281px"><img title="Round Bench por Emil Alzamora" src="http://gehspace.com/edicao%2021%20imagens/alzamora_roundbench_el.jpg" alt="Alzamora Roundbench" width="271" height="200" /><p class="wp-caption-text">Round Bench por Emil Alzamora</p></div>
<p><strong>Géh: Falando como especialista, qual a importância          de se estudar a sexualidade e da facilitação do acesso a          informações sobre o tema?</strong></p>
<p><strong>Oswaldo:</strong> Estudar sexualidade nos leva          a preencher um dos três aspectos envolvidos em problemas da sexualidade          que ocorrem na vida toda. A compreensão cognitiva é um passo          muito importante por permitir a liberdade e a auto-produção          da vida sexual.O estudo da sexualidade humana permite reconhecer os mitos          e enfrentar os erros do passado na vida de uma pessoa ou mesmo impedir          que mitos e idéias errôneas produzam ansiedades e comportamentos          de esquiva.</p>
<p><strong>Géh: Em 2006 acontecerá o XIII Congresso          Latino Americano de Sexologia em Salvador. Como Vice-Presidente do Comitê          Organizador poderia falar sobre os principais temas abordados, a importância          e as expectativas em relação a esse evento? </strong></p>
<p><strong>Oswaldo:</strong> São várias          áreas que chamam a atenção dos profissionais e que          serão apresentadas neste que é o maior evento sobre sexualidade          na América Latina. O congresso acontece a cada dois anos. O último          foi em Santiago do Chile e já esteve em Belo Horizonte em 1992.</p>
<p>A área mais em moda é a destinada às disfunções          sexuais com os medicamentos que foram colocados nas farmácias desde          1998 para auxiliar vencer dificuldades de ereção nos homens.          A discussão sobre formas de tratamentos ainda é calorosa,          pois mantém-se a tentativa e expectativa de que apenas os medicamentos          bastam para curar estes problemas comportamentais&#8230; Claro que isto não          é verdadeiro, pois nenhum governo foi mobilizado para distribuir          gratuitamente o medicamento para acabar com estes problemas. Nesta área          deve ser apresentado um medicamento para reposição hormonal          em homens para restabelecimento de funções vitais que são          a base do desejo sexual masculino.</p>
<p>A Educação Sexual estará representada          de forma fortalecida com mesas-redondas, com grande divulgação          e facilidades nas inscrições para professores da rede de          ensino básico e médio que desejem participar do congresso          (XIII CLASES). Um grupo de professores universitários, dentre eles          posso citar a Profa. Sonia Melo (UDESC), a Profa. Mary Neide Figueiro          (UEL), e Paulo Rennes (UNESP) deverão apresentar o “State          of the Art” da Educação Sexual no Brasil. Professores          de outros países também trarão suas teorias e métodos          para a Educação na Sexualidade.</p>
<p>Estudos sociais da sexualidade e pesquisas antropológicas          e psicológicas também estão entre os destaques. A          Violência sexual e de gênero permeará as discussões          e mesas redondas. Ambicionamos um público que pode atingir 1000          profissionais de Educação e Saúde. Já contamos          com o apoio formal de várias entidades brasileiras, em especial          as filiadas à FLASSES: SBRASH – Sociedade Brasileira para          os Estudos em Sexualidade Humana; CEPCoS – Centro de Estudos e Pesquisas          em Comportamento e Sexualidade, InPaSex – Instituto Paulista de          Sexualidade, CESEX – Centro de Estudos em Sexologia de Brasília.</p>
<p><strong>Géh: Na cultura brasileira, ainda se prevalece          mitos e tabus relacionados ao sexo e a sexualidade. Qual a sua visão          sobre isto?</strong></p>
<p><strong>Oswaldo:</strong> Toda e qualquer cultura          tem que manter mitos e tabus sobre a sexualidade para exercer poder sobre          os indivíduos. A sexualidade é a única área          de relacionamento interpessoal que é menos dirigida pela cultura          e pela sociedade. Por ser uma área não pública, a          cultura tem menos acesso a modelar o comportamento e atitudes das pessoas.          Assim, instituir tabus e mitos permite que o controle social seja exercido          sobre as pessoas até mesmo em sua intimidade.</p>
<p>Também se mantêm mitos e tabus pela falta          de acesso a informações fidedignas sobre sexualidade. As          discussões e debates sobre sexo precisam ocorrer sempre, pois sempre          temos novos adolescentes com idênticos questionamentos que, se não          forem resolvidos, permanecerão até a vida adulta, trazendo          problemas e afastamentos da sexualidade.</p>
<p><strong>Géh: Ao falar em tabus, é interessante          falar sobre parafilias, antigamente chamadas de “perversões          sexuais”. Poderia nos citar os tipos mais comuns de parafilias?</strong></p>
<p><strong>Oswaldo:</strong> As formas diferentes de          se fazer sexo sempre preocuparam as sociedades que sentiam suas regras          quebradas pelos praticantes desses &#8220;sexos diferentes&#8221;. Por isso          eram chamadas de &#8220;perversões&#8221;, um chamativo moral e não-científico,          mas que foi assumido por profissionais de saúde desde o século          XIX.</p>
<p>Atualmente as formas mais comuns de se obter excitação          e prazer sexuais são: travestismo fetichista, sadomasoquismo, sexo          virtual. Com advento da internet, muitos praticantes isolados encontraram          suas turmas e têm trocado informações, incluindo o          aumento do numero de praticantes entre pessoas que antes nem pensavam          em determinadas práticas. O controle social imediato foi perdido          e a modelagem do comportamento passa a ser virtual e a partir de desconhecidos.</p>
<p><strong>Géh: Pedofilia, se verificarmos no curso          ao longo da História, desde a antiguidade, sempre ocorreu de uma          forma ou de outra. O que leva as pessoas a praticarem a pedofilia? E quais          os traumas que podem sofrer as crianças que sofrem deste abuso?</strong></p>
<p><strong>Oswaldo:</strong> Existe uma grande diferença          entre o que a legislação chama de pedofilia e o que a psicologia          denomina pedofilia.</p>
<p>Na legislação brasileira, e na maior parte          do mundo, denomina-se pedofilia o sexo de um(a) adulto(a) com um(a) criança          ou adolescente. Mistura-se o conceito com o crime de estupro (sexo não          consensual ou com presunção de força com menores          de 14 anos).</p>
<p>O brasileiro adulto, geralmente homem, que gosta de fazer          sexo com adolescentes é muito normótico, muito parecido          com qualquer um da rua. Historicamente sempre foi uma prática muito          tolerada e socialmente considerada positiva. Falar aos amigos que transou          com uma “menina” sempre foi motivo de orgulho para muitos          homens. Assim é que temos algumas centenas de milhares de prostitutas          menores de idade no Brasil, sustentadas por talvez, uma dezena de milhões          de homens adultos&#8230;</p>
<p>O que se denomina pedófilo, em Psicologia, é          o adulto, geralmente homem, que precisa de uma pessoa de pouca idade para          conseguir excitar-se e realizar-se sexualmente. São pessoas que          estruturam a sexualidade ao redor de um padrão muito específico          de objeto sexual. Este adulto específico, por exemplo, somente          desejará meninos com idades em torno de 10 anos; o outro apenas          meninas com 8 anos&#8230; e assim por diante.</p>
<p>Muitas vezes, esta estereotipização implica          em padrões de personalidade psiquiatricamente reconhecíveis          como perturbadas, mesmo porque são pessoas que não assimilaram          adequadamente a cultura e as regras sociais (sem falar nas legais).</p>
<p>Considera-se que cerca de 30% dos adultos foram abusados          sexualmente quando crianças. Apenas para alguns isto terá          significado negativo e promoverá comportamentos semelhantes na          vida adulta. Para a maioria não haverá maiores problemas.          Um dos problemas mais sérios será a falta de confiança          nos relacionamentos afetivos. Não existe associação          entre abuso sexual infantil e disfunções sexuais na vida          adulta.</p>
<p><strong>Géh: Recentemente entrevistamos um adepto          a Hipoxifilia, denominada por ele como “asfixia erótica”.          Quais os perigos dessa prática para a saúde?</strong></p>
<p><strong>Oswaldo: </strong>Apenas um perigo: morte.</p>
<p>De uma a duas pessoas a cada milhão de habitantes          em grandes cidades morrem a cada ano devido a esta prática. O risco          advém do pouco tempo entre a possibilidade de curtir o prazer sexual          e o morrer asfixiado. Muitos que morrem ainda são classificados          nas delegacias e hospitais como suicidas&#8230; o que está muito longe          da realidade. Quando morrem foi porque cometeram um erro de avaliação          de tempo.</p>
<p><strong>Géh: Na vida real, assim como representações          na arte e no cinema, temos exemplos de sadismo e masoquismo. Relembrando          a cena do filme “A professora de Piano”, dirigido pelo alemão          Michael Hanek, trata de dominação e opressão em relacionamentos          – tanto amorosos como familiares. Erika Kohut é uma professora          de piano na faixa dos 40 anos que é tratada como uma criança          e oprimida pela mãe. Por trás da aparência fria e          indiferente, se esconde uma mulher com bizarros fetiches sexuais. As fantasias          de Erika vão além do voyeurismo e pensamentos sadomasoquistas.          Ela cria seu próprio conceito de amor e chega a se mutilar sexualmente          em busca de um prazer. Muitos adeptos ao sadomasoquismo negam ter um problema          psicológico. É um problema psicológico ou não?          Em caso positivo, como se trata este problema?</strong></p>
<p><strong>Oswaldo:</strong> Sempre existe um limite entre          o saudável e o doente. Tudo que seja contra a manutenção          de vida saudável tem a consideração de doença.          Mesmo porque, se uma pessoa deseja mutilar-se e a sociedade compreende          que esta mutilação eliminará parte da produtividade          desta pessoa, a sociedade considerará isto doença, ou será          ilegal.</p>
<p>Alguns praticantes do sadomasoquismo têm apresentações          psicológicas problemáticas com as quais não sabe          lidar. Muitas vezes, o comportamento sádico ou masoquista se instalou          na pessoa (sem a vontade dela exercer escolha) para diminuir o estresse          e a ansiedade frente a problemas da vida. Assim, não se resolve          o problema e cria-se um comportamento que o evita&#8230; Isto sempre foi considerado          neurótico&#8230; Mas a mesma formulação serve para o          uso do álcool, cigarro ou explosões de raiva.</p>
<p><strong>Investir em saúde reprodutiva ajuda no desenvolvimento          social</strong></p>
<p>O investimento em serviços de saúde          reprodutiva contribui para o fortalecimento do papel da mulher na sociedade          pós-moderna e é um forte aliado na construção          do desenvolvimento social e econômico sustentável. De acordo          com o Programa de Ação da Conferência de Cairo (1994)          a saúde reprodutiva tem uma relação intrínseca          com estado de completo bem-estar social, mental e físico e o sistema          reprodutivo humano. Esse conceito é fruto do amadurecimento das          noções de saúde sexual e planejamento familiar.</p>
<p>Experiências mundiais têm demonstrado que a integração          dos serviços de planejamento familiar implica o fortalecimento          do sistema de saúde como um todo. Isso significa melhorar a coordenação          entre as diversas áreas e facilitar o atendimento às necessidades          da população. O fato é que, em muitas culturas, a          desvalorização da mulher, seu status inferior na escala          social, assim como seu baixo poder de decisão sobre a própria          sexualidade e capacidade reprodutiva a impede de desfrutar de serviços          que poderiam melhorar sua qualidade de vida. Desde adolescente, ela deveria          obter informações sobre a transição para a          maturidade, livre de gravidez indesejada, DST/AIDS ou aborto inseguro;          a prevenção e tratamento de DST e HIV/AIDS; a saúde          e mortalidade materna etc.</p>
<p><strong>Dados</strong><br />
* A Aids já atingiu mais de 258 mil pessoas: 73 mil mulheres e          185 mil homens. No inicio dos anos 80 a relação era de 25          homens para cada mulher infectada e agora já é de 1 mulher          para cada 2 homens. Entre as mulheres, 55% tem entre 20 a 29 anos, predominando          as afrodescendentes e as de camadas mais pobres, segundo o Ministério          da Saúde, 2003.<br />
* Anualmente, são realizados cerca de um milhão de abortos,          a maior parte deles clandestinos. No país, a interrupção          voluntária da gestação é permitida apenas          em caso de risco de morte da mãe ou se ela for resultado de estupro,          de acordo com o Center for Reproductive, 2004.<br />
* Mais de quatro milhões de mulheres morrem a cada ano na América          Latina por complicações causadas por abortos inseguros.          Essa prática representa 13% da mortalidade materna nos países          da região. (Center for Reproductive; 2004)<br />
* No mundo inteiro, estima-se que uma de cada três mulheres já          foi espancada, forçada ao ato sexual ou agredida de outras formas.          A violência contra as mulheres e meninas pode ser física,          sexual, psicológica ou econômica, porém o sexo forçado          e a agressão dentro do matrimônio estão entre suas          manifestações mais comuns.<br />
Fonte: <a href="http://www.agende.org.br/" target="_blank">http://www.agende.org.br</a></p>
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		<title>Castração</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Dec 2008 00:28:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[castração]]></category>
		<category><![CDATA[edições 11 a 15]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p class="texto">Neste trabalho, abordamos o conceito psicanalítico          de castração tal como exposto por Ivan Ward (2005), através  <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/castracao/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="texto">Neste trabalho, abordamos o conceito psicanalítico          de castração tal como exposto por Ivan Ward (2005), através          de casos expostos por psicanalistas consagrados.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 340px"><img title="Mother por Damien Hirst" src="http://gehspace.com/edicao%2014%20imagens/hirst-mother%20damien.jpg" alt="Damien Hirst - Mother - arte sexualidade" width="330" height="190" /><p class="wp-caption-text">Mother por Damien Hirst</p></div>
<p>O complexo de castração consiste em          uma diversidade de crenças e emoções infantis relacionadas          com a consciência nascente de uma identidade sexual definida. No          menino, a crença de que a mãe teve o pênis decepado          pelo pai e que seu próprio órgão sexual pode estar          sujeito ao mesmo perigo. Já para a menina, a crença de que          ela teve um pênis que foi removido brutal e injustamente.</p>
<p>Freud em seus ensaios que abordam o complexo de castração,          foram baseados nos relatos das crianças. Na época da última          grande obra de Freud, o complexo de castração praticamente          se fundira ao complexo de Édipo.</p>
<p>Melaine Klein, em suas pesquisas, demonstrou que as inibições          na escola podem estar intimamente ligadas ao pavor da castração,          ou seja, se eu fizer &#8220;X&#8221; serei castigado (com a castração).          Só se pode superar a inibição quando esta angústia          é solucionada.</p>
<p>Na Antigüidade, era comum o uso de símbolos fálicos          como proteção contra o perigo. Segundo Freud, é preciso          muito pouco para que se desencadeie o sentimento da ameaça., como          no caso de um menino de 14 anos, Daniel, que contou sobre um objeto curioso          de que ele ouvira falar no berçário do Centro Anna Freud.          Chamava-se &#8220;willy-cut&#8221; (corta-pipi). Era como uma tesoura de          jardinagem, mas com funções bem mais específicas.          O garoto tivera essa convicção com pouquíssimas evidencias:          ouvira um dos terapeutas do centro dizer uma palavra enigmática          &#8220;Winnicott&#8221; (nome do psiquiatra inglês).</p>
<p>O psiquiatra Samuel Ritvo escreve sobre um caso em que a alucinação          é substituída pela fantasia: O paciente sofria de castração          intensa e consciente, fantasiando muitas vezes por dia que era vítima          de castração acidental ou intencional. Ele imaginava que          um cachorro fosse abocanhar o pênis dele, ou que quando estivesse          saindo de casa, cairia da escada e o seu pênis se prenderia em algo          e seria arrancado.</p>
<p>Ward utiliza outro exemplo bastante recente: o dos fanáticos político-religiosos          que lançaram aviões contra o World Trade Center e o Pentágono.          Os comentaristas classificaram os acontecimentos como um &#8220;toque de          despertar&#8221; para a nação americana. Ora, as torres não          deixavam de ser símbolos fálicos de poder, de modo que esse          incidente pode ser relacionado às dificuldades normais de amadurecimento.          A destruição dos símbolos foi interpretada pela metáfora          do &#8220;crescimento&#8221;, como se a investida contra esses símbolos          do poder, de alguma forma, lembrasse as perdas da infância.</p>
<p>A castração é fundamental em quatro aspectos: a aceitação          da diferença sexual; a negação desta diferença;          a produção de excitação e como causa de inibição          sexual. Para Freud a castração torna-se um símbolo          da diferença sexual, e a superação da ameaça          determina a identidade sexual.</p>
<p>A psicanalista Joyce McDougall, relata a historia de seu neto de 4 anos.          Depois de ter passado o dia inteiro perguntando sobre a gravidez de sua          mãe, o garoto ansioso para aproveitar o novo conhecimento, e quando          o pai chega faz um pedido especial: &#8220;você poderia, por favor,          por um bebê na minha barriga também&#8221;? McDougall relaciona          esse fato com uma homossexualidade primária, ressaltando as possibilidades          bissexuais da primeira infância.</p>
<p>&gt;A sexualidade pervertida usa variadas formas para evitar a ameaça          da castração. O exibicionista fálico defende-se da          angustia da castração e se tranqüiliza com a idéia          de que seu pênis não é mutilado, mas poderoso e lindo.          Ao concentrar o desejo sexual num objeto, o fetichista rejeita a existência          dos genitais femininos e terror da castração que eles originam.          Os sadomasoquistas vencem a angústia da castração          provocando dor, inclusive recorrendo a agressões genitais.</p>
<p>A analista israelense M. Woolf conta o caso de uma garotinha criada num          Kibbutz que se recusava a dormir no chalé das crianças.          Toda a vez que a mãe tentava levá-la meio adormecida, a          criança acordava chorando e tremendo: &#8220;O cachorro arrancou          meu pipi&#8221;</p>
<p>Na arte contemporânea também podemos verificar o sentimento          de castração sofrido por Damien Hirst. Mãe e filho          divididos &#8211; uma vaca e um bezerro serrados ao meio e colocados em quatro          tanques de formol &#8211; é uma representação simbólica          da separação brutal entre mãe e filho. Hirst nasceu          sem alarde em Bristol; o pai não quis conhecê-lo e um ano          depois a mãe mudou-se para Leeds, sua cidade natal, casando-se          novamente. A obra não trata de vida e morte, mas é uma forma          de simbolizar o que o menino sentiu quando a mãe voltou a se casar:          sua agonia ante os sentimentos de traição. A obra o modifica,          porque não é mais ele que sofre a ruptura provocada pela          divisão, mas é ele que, no ato de destruição          e criação, assume o lugar do pai e seu papel imaginário.          É em razão do medo da castração que o pai          tem um efeito inibidor, não só a castração          que se teme sofrer, mas a mutilação genital que se imagina          da mãe.</p>
<p>Ward (2005:46) relata a sua reação ao assistir ao filme          &#8220;A professora de Piano (2001)&#8221;. &#8220;Me senti com calor e suado,          tonto e nauseado. Um suor frio fez a minha pele formigar. Eu sabia que          ia desmaiar.&#8221; A cena que provou o desmaio era a representação          de uma automutilação genital feminina. A professora entra          no banheiro de sua casa, nua, desembrulha uma lâmina de barbear          de um pedaço de pano, entra na banheira e senta-se na beirada.          Com um espelho pequeno para ver melhor as pernas, ela corta os genitais          com a lâmina, e o sangue pinga na banheira. A cena é filmada          em perfil, e o que se vê realmente é o gotejar de sangue          na banheira. Ward se pergunta: &#8220;Por que isso me alarmou tanto?&#8221;.          Argumenta que não era devido ao sangue, pois estava acostumado          com os seriados dramalhões de hospitais, em que sempre havia muito          sangue e isso nunca lhe provocou reação semelhante. Até          mesmos cenas de castração como em &#8220;Império dos          Sentidos&#8221;, não produziram esse efeito. Ele concluiu que sua          angústia não deve ter relação direta com a          imagem, mas com o tema de mutilação genital, que deve ter          aflorado inconscientemente.</p>
<p>Ward conclui que o complexo de castração é um conjunto          de crenças infantis; um organizador da diferença sexual;          um determinante fundamental do caráter e do destino das pessoas. Os efeitos deste complexo são amplos          e variáveis para o individuo e para a cultura.</p>
<p>WARD, Ivan. <strong>Conceitos da Psicanálise: Castração</strong>.          Rio de Janeiro: Relume Dumará: Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto,          2005.</p>
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		<title>A vontade do saber</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Dec 2008 23:34:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 11 a 15]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[michel foucault]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[repressão sexual]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Géssica          Hellmann</p>
<p align="left">O intuito desta resenha é apresentar          os <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/06/a-vontade-do-saber/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a title="escreva para a editora" href="mailto:geh@gehspace.com">Géssica          Hellmann</a></p>
<p align="left">O intuito desta resenha é apresentar          os primeiros pensamentos expressos nos dois primeiros capítulos          da História da Sexualidade &#8211; A vontade do saber, de Michel Foucault.</p>
<p>Segundo Foucault, no início do século XVII, os corpos pavoneavam          sem refreios, gestos diretos, discursos sem vergonha, transgressões          visíveis, anatomias a mostra, crianças vagando entre adultos.          No final deste século, porém, a sexualidade é cuidadosamente          encerrada dentro dos quartos dos pais.</p>
<p>Afirmava ele que nesta época tinha-se o pensamento que as crianças          não possuíam sexo: razão para proibi-las de falar          neste assunto (final do século XVII seguindo pelo século          XVIII). Este conceito só viria a mudar com os estudos de Freud.</p>
<p>O discurso de repressão sexual, iniciado no século XVII,          após centenas de anos de expressão sexual livre, é          protegido historicamente e politicamente, coincidindo com o início          do capitalismo.</p>
<p>A explicação enunciada por Foucault sobre o pensamento da          época: &#8220;se o sexo é reprimido com tanto rigor, é          por ser incompatível com uma colocação no trabalho,          geral e intensa; na época que se explora sistematicamente a força          de trabalho&#8230;&#8221; (FOUCAULT, 1977:11).</p>
<p>O que revela que um dos principais motivos, da repressão          sexual, foi controlar a população          para manter uma economia a favor dos dirigentes.</p>
<p>Outra dialética apresentada neste primeiro capítulo foi:          &#8220;se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição,          a inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e da sua          repressão possui como que um ar de transgressão deliberada.&#8221;          (FOUCAULT, 1988:12). Com esta afirmação Foucault quiz levantar          o benefício do locutor que emprega essa linguagem, que de certa          forma se encontra fora do alcance do poder.</p>
<p>A idéia da repressão sexual, não é somente          objeto de teoria. A afirmação de uma sexualidade que nunca          fora dominada com tanto rigor, como na época da hipócrita          burguesia negocista, é acompanhada pela ênfase de um discurso          destinado a dizer a verdade sobre o sexo, a modificar sua economia na          real, mudando seu futuro. Podemos observar que esta &#8220;verdade sobre          o sexo&#8221;, era dita com a finalidade que os efeitos beneficiassem a          burguesia e os que estavam no poder.</p>
<p>No primeiro capítulo, Foucault levantou várias questões,          não para negar a teoria de repressão sexual, e sim para          explicar por quais razões e por que meios se estabeleceu esta repressão.          Questões tais como:<br />
- A repressão do sexo seria realmente a acentuação          ou talvez a instauração desde o século XVII, de um          regime de repressão ao sexo? (Questão histórica)<br />
- A mecânica do poder, a que é posta em jogo em uma sociedade          como a nossa, seria de ordem repressiva? (Questão histórica-teórica)<br />
- O discurso crítico que se dirige a repressão viria a cruzar          com a mecânica do poder, que funcionava até então          sem constatação, barrando-lhe, faria parte dessa mesma rede          histórica daquilo que denuncia, chamada de repressão? (Questão          histórica-política)</p>
<p>No segundo capítulo ele se propõe a responder as questões          levantadas sobre a hipótese repressiva, explicando o motivo da          incitação dos discursos.<br />
Como já havia comentado, no final do século XVII, não          se podia falar de sexo com as crianças; a regra era silêncio          e discrição absoluta. Mas, quanto ao nível de discurso          a regra era a proliferação, principalmente a partir do século          XVIII. O cerco às regras da decência, provocou uma intensificação          nos discursos indecentes.</p>
<p>Nos discursos no campo do poder havia uma incitação institucional          para falar do sexo, sob forma da articulação explícita          e do detalhamento. A evolução do pastoral católico          e do sacramento da confissão, depois do concílio de Trento,          obrigava todo um exame minucioso do ato sexual. A discrição          é cada vez mais recomendada: no que se refere ao pecado contra          a pureza. é necessária a maior reserva. A contra-reforma          católica dedicava-se a acelerar a quantidade por ano das confissões,          atribuindo grande importância às penitências &#8211; todas          as insinuações carnais, pensamentos, desejos, deleites,          tudo detalhadamente. Por este meio, a Igreja, pretendia controlar o seu          &#8220;rebanho&#8221;, através do amplo e detalhado conhecimento          dos hábitos sexuais da população.</p>
<p>O projeto de uma colocação do sexo em discurso formava-se          já há muito tempo, numa tradição ascética          e monástica. O Século XVIII fez dele uma regra para todos.          Uma obrigação colocada ao bom cristão.</p>
<p>O essencial: que o homem ocidental há três séculos          tenha permanecido atado a essa tarefa que consiste em dizer tudo sobre          seu sexo, que a partir da época clássica tenha havido uma          constante valorização do discurso sobre sexo. Censura sobre          sexo? Pelo contrário, constitui-se uma aparelhagem para a produção          de discursos sobre sexo, suscetíveis a funcionar e de serem efeito          para sua própria economia capitalista. Nasce assim, no século          XVIII, uma incitação política, econômica, técnica          a falar de sexo, sob forma de contabilizar, classificar, especificar,          através de pesquisas quantitativas ou casuais. Foucault demonstra          aqui a verdadeira intenção da repressão sexual, não          como uma forma de censura, mas como uma forma de controle populacional          com objetivos políticos e econômicos.</p>
<p>No século XVIII o sexo torna-se questão de polícia,          não como repressão da desordem e sim como necessidade de          regular o sexo por meio de discursos e não pelo rigor da proibição.          A polícia tinha o papel principal não com o rigor de proibir,          e sim de &#8220;rotular&#8221; os que não seguiam o discurso da época.</p>
<p>Com o surgimento do problema &#8220;população&#8221;, entendeu-se          que controlar o sexo era de certa forma controlar a natalidade, idade          de casamento, filhos legítimos e ilegítimos, freqüência          das relações, a maneira de torná-las fecundas ou          estéreis, celibato entre outros. Forma-se toda uma teoria de observação          sobre o sexo, surgindo as análises de condutas, seus efeitos no          limite entre a biologia e o plano econômico. Através de pesquisas,          governantes e capitalistas controlavam a população, visando          principalmente dominar a &#8220;força de trabalho&#8221;, em benefício          econômico deles próprios.</p>
<p>Já em meados do século XVIII, era incentivado através          de discursos, a orientação de educadores, administradores,          médicos e pais, a uma educação sexual para as crianças,          permitindo intensificar a multiplicação dos discursos, mudando          a estratégia familiar na educação sexual das crianças:          a idéia de que a criança não possuía sexualidade          não teria sido derrubada, mas a educação sexual serviria          para exercer controle sobre elas.</p>
<p>Foucault conclui no fim do segundo capítulo que o que é          próprio das sociedades modernas não é terem condenado          o sexo a permanecer na obscuridade, mas sim o terem devotado a falar dele          sempre, o valorizando como segredo.</p>
<p><strong>FOUCAULT</strong>, Michel. História da sexualidade: a vontade          de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 16a. edição.</p>
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		<title>A manipulação do exercício da sexualidade pelo processo de socialização</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Dec 2008 23:29:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 11 a 15]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade e política]]></category>
		<category><![CDATA[sociologia]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Somos seres sexuais. É fato. Somos seres políticos.          Também é fato. Ao longo da vida sofremos um intenso processo          de sócio-politização que visa nos domesticar, tornar-nos          aptos para o convívio em sociedade.</p>
<p>Por mais que nos acreditemos livres ou liberados, quando nos distanciamos          das nossas experiências e assumimos o papel de sujeito observador          percebemos que para o nosso desejo foram estabelecidas normas que não          fomos nós mesmos que criamos e às quais muitas vezes nos          submetemos sem sequer ter a consciência desta submissão.</p>
<p>Isso acontece porque o nosso processo de erotização é          manipulado desde muito cedo, assim como outras áreas relativas          à socialização dos seres humanos; na verdade, existe          um considerável ‘pacote’ de conhecimentos que são          socialmente distribuídos e este ‘pacote’ inclui a sexualidade.</p>
<p>Para citar apenas um destes poderosos condicionantes, basta lembrar que          os homens são ensinados desde meninos a desejar (e o que desejar)          e as mulheres aprendem a se tornar desejáveis segundo os padrões          do que os homens estão aprendendo a desejar. Escapar a esse controle          consiste num esforço intelectual e da sensibilidade, exatamente          nessa ordem.</p>
<p>Tive um aluno cujo apelido na faculdade era “deus grego”,          apelido que se enquadrava perfeitamente com sua aparência; pois          bem, esse apolo perseguido por todas as ninfas da escola se sentia muito          atraído por uma moça que não se encaixava nos padrões          de beleza vigentes e também não se importava com isso. Ele          tentou convencê-la a manter um romance escondido, claro, sem explicar          o verdadeiro motivo, ou seja, sua incapacidade de rebelar-se contra aquilo          que seria lícito desejar, que o colocaria numa posição          desconfortável diante do grupo social com o qual interagia. Ela          teve maturidade afetiva para não aceitar.</p>
<p>Como observadora da situação fiquei satisfeita ao notar          que uma mulher, embora jovem, não se sentiu encurralada pelo condicionamento          sócio-cultural que a obriga a ter a aparência que os homens          estão condicionados a desejar. Lamento pelo ‘apolo’          que teve uma oportunidade de se conhecer melhor, conhecer melhor a realidade          dos seus desejos e de sua sexualidade e deixou-a passar.</p>
<p>Entendo que não é fácil escapar da prisão          do simulacro: estar condicionado é o oposto de estar livre, já          que liberdade implica agir como nos parecer melhor, mas, na sociedade          contemporânea, mais do que nunca, o ‘natural’ é          estar condicionado, portanto, rejeitamos os estranhos, os anti-naturais,          os que se rebelam.</p>
<p>Em algum momento, esquecemos que sexo é anarquia e passamos a vivenciar          uma pseudo-liberdade consentida, governada pelo mesmo poder que promovia          a repressão, mas, agora, fortalecido por estratégias novas          e mais eficazes.</p>
<p>Ultrapassar o condicionamento é essencial para desenvolver o nosso          saber erótico, e a única forma de repudiar a regulamentação          do nosso prazer sexual. É preciso que o desejo se torne novamente          o que nunca deixou de ser: um exercício de dádiva. Nada          mais anárquico do que isso.</p>
<p><em>Sandra R. S. Baldessin</em></p>
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