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	<title>Sexualidade by géh &#187; sexualidade feminina</title>
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	<description>Sexualidade: artigos de pesquisa e entrevistas</description>
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		<title>Energia e consciência &#8211; sobre a violência doméstica contra a mulher</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:55:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[edições 101 a 105]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Dayse Mara Bortoli
Psicoterapeuta

A energia psíquica, as pulsões são fundamentais para que o ser humano expresse suas sensações e sentimentos, perceba o mundo ao seu redor e <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/energia-e-consciencia-sobre-a-violencia-domestica-contra-a-mulher/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por Dayse Mara Bortoli<br />
Psicoterapeuta<br />
</em><br />
A energia psíquica, as pulsões são fundamentais para que o ser humano expresse suas sensações e sentimentos, perceba o mundo ao seu redor e através de atitudes de comportamento procure ser feliz e ter prazer.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 406px"><img title="A limited independence por Ni Ketut" src="http://gehspace.com/edicao%20106%20imagens/A%20limited-independence_%20NI_Ketut.jpg" alt="A limited independence por Ni Ketut" width="396" height="330" /><p class="wp-caption-text">A limited independence por Ni Ketut</p></div>
<p>É certo que esse prazer não é o mesmo que prazer imediato, aquele alheio ao respeito e necessidades do outro. Para tal, o funcionamento natural do ser humano é o da aprendizagem através de relações afetivas sobre valores éticos e morais. O ego ideal é formado através da construção do superego, no dia a dia da criança com adultos de referência, sendo valorizado, respeitado como ser em desenvolvimento, onde suas pulsões naturais de vida são livremente expressas. Com esse desenvolvimento imbuído de relações afetivas de liberdade e respeito às pulsões naturais, se desenvolve a saúde e o investimento energético da pessoa é canalizado para projetos de vida e busca de felicidade.</p>
<p>Por outro lado quando essas pulsões são proibidas como coisas más ou imorais, a criança não entende que seu desejo não é adequado, retrai-se ou torna-se uma agente de agressões. A saúde e a doença estão intimamente ligadas ao nível de energia ou pulsão que o individuo se apropria para si, de forma consciente, com poder quanto a sua própria vida e felicidade.</p>
<p>Quando essa energia não está disponível para nossos projetos e nossa vida, de forma consciente, fica a mercê do que é necessário para a proteção do sistema, sistema esse vulnerável às feridas emocionais. É como se a não apropriação da própria energia, o não assumir seus desejos e pulsões o levassem a um caminho onde se fica vulnerável a projeções, e todo tipo de defesas por não suportar a intensidade desses mesmos desejos. O caminho então se torna antinatural e o leva para longe de si mesmo, perdido nas brumas entre o eu e o outro.</p>
<p>Vemos Milhares de mulheres no Brasil, vítimas de violência doméstica. Mulheres que não conseguem sair de relações destrutivas ou se fortalecerem como pessoas humanas devido à percepção inadequada que tem de si mesmas. A energia diária de suas vidas que seria utilizada para projetos pessoais, é consumida no sentido de poderem sobreviver em relações de dor e frustração. Utilizam forças internas na tentativa de permanecerem na relação acreditando que se “se esforçarem”, e “serem boazinhas” as coisas melhoram. Essa situação cotidiana, que tira a mulher da sua naturalidade e espontaneidade é de muito esforço energético e libidinal.</p>
<p>Projetam as suas força no homem que as violentam dia a dia, sem se darem conta que se eles assim o fazem é em função de sentimentos de insegurança, menos valia fracasso. Esses homens precisam ser violentos para provarem alguma força, algum valor.</p>
<p>Mulheres que não se dão conta que são elas que têm a responsabilidade do cuidado com os filhos, com a casa, com o aluguel, água, luz, etc., que são competentes perante suas vidas. Mulheres que projetaram naquele relacionamento o sonho do amor romântico, do príncipe encantado e esperam, com esperança que esse príncipe reapareça e que tudo em seu mundo de violência se transforme em amor. Amam quem também é o agente da violência, projetam para sobreviverem.</p>
<p>Atualmente vemos que já houve uma mudança no feminino. Temos ministras, governadoras, ativistas e também presidenciáveis. Mulheres, inteligentes, senhoras de seu destino e cientes de que o feminino e masculino interiores são polaridades que podem coexistir harmonicamente. As potencialidades interiores podem ser colocadas a serviço das transformações sociais, econômicas e políticas de nosso tempo. Mulheres que se identificam com seu animus, com suas qualidades de planejamento, força, racionalização, objetividade e lógica. O problema é que ainda essas mulheres são uma minoria. A maior massa da população ainda se enquadra no modelo chauvinista, misógino e machista dos séculos anteriores e por essa razão se deixam escravizar e violentar facilmente, e não conseguem saídas desse ciclo de violência que passa de geração a geração.</p>
<p>Há a necessidade de mulheres que conheçam a si mesmas, seu interior, seu animus, enquanto sistemas de proteção à vida que devem ser trabalhados de forma pedagógica e terapêutica. Somente a proteção social da mulher e a responsabilização do homem não mudam o quadro violento que se amplia diariamente em nosso país.</p>
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		<title>Aspectos políticos da sexualidade: curar a sociedade ou remendar o doente?</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:49:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 101 a 105]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade e política]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Aos que já me conhecem e acompanham as atualizações da revista, sabem que desde 2005 edito e publico neste espaço temas referente à sexualidade humana. <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/aspectos-politicos-da-sexualidade-curar-a-sociedade-ou-remendar-o-doente/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Aos que já me conhecem e acompanham as atualizações da revista, sabem que desde 2005 edito e publico neste espaço temas referente à sexualidade humana. Sou brasileira, nasci no sul do país, morei algum tempo no Rio de Janeiro e hoje estou em Santa Catarina.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 400px"><img title="Circe por Cassandra Tiffin-Lavers" src="http://gehspace.com/edicao%20104%20imagens/Circe.jpg" alt="Circe por Cassandra Tiffin-Lavers" width="390" height="492" /><p class="wp-caption-text">Circe por Cassandra Tiffin-Lavers</p></div>
<p>Nasci em uma cidade onde as mulheres são criadas para namorar, casar, ter filhos e ser dona de casa. Algumas para estudar&#8230; mas nunca se espera que elas sustentem a família. O homem é educado para o papel de provedor. Muitos homens casados acham que sentir prazer e fazer sexo &#8211; com todas as fantasias possíveis – é algo que só deve fazer no prostíbulo na esquina. Com a mulher, em casa, o “correto” limita-se ao &#8220;papai-mamãe&#8221;. Se a mulher pede algo a mais, ou tenta inovar, o homem já acha que está sendo traído: onde ela aprendeu tudo isso se não foi com ele?</p>
<p>Há muitas mulheres que ultrapassam os &#8220;limites impostos pela sociedade&#8221;. Estudam, ampliam os horizontes, querem ser independentes. Algumas conseguem um espaço. A maioria acaba saindo da cidade, em busca de &#8220;ar&#8221; ou de pessoas com outro tipo de pensamento. As mulheres, em sua maioria, são mais evoluídas do que os homens, mas muitas param ou se acomodam no cumprimento do papel que se espera delas.</p>
<p>A isso chamo de “educação tradicionalista”.</p>
<p>Mas essas definições rígidas dos papéis sexuais acontece somente em cidades tradicionalistas? Não. Esse é um fenômeno universal, que afeta a toda a humanidade, principalmente nas sociedades ocidentais. A diferença está no modo como essas neuroses são “revestidas”.</p>
<p>Em uma cidade metropolitana como o Rio de Janeiro, por exemplo, parte dessa moralidade funciona às avessas, mas de forma igualmente terrível. Se uma mulher quer se casar virgem, a moralidade vigente grita: “Mas você ainda é virgem”? O policiamento sobre o comportamento do outro e a exclusão quando se quebra as “sagradas regras sociais” são constantes, mas assumem forma de “bom humor”, através de piadinhas tão depreciativas quanto uma acusação direta. O carioca “tem” que gostar de pagode, de carnaval e de torrar na praia. Porque é isso que se espera dele. Ele precisa ignorar solenemente o que está debaixo de seu nariz: as praias poluídas, as calçadas imundas, a violência verbal e física a cada esquina, a falta de educação, gentileza e cordialidade&#8230; Mas o Rio é lindo!</p>
<p>“Em política cada um culpa os demais, nunca a si mesmo. É hora de parar de culpar o bode expiatório. Já é mais do que na hora de ver o que divide a humanidade. É a peste emocional, chamada “pecado” na Cristandade, que fragmenta a humanidade. É a couraça que torna o homem desamparado e prostrado. É novamente a couraça que é o terror da Vida viva, fluente, que cria os portadores da peste, que se tornam os sargentos dos exércitos de nações cruéis” (Reich, 1995 p.206).</p>
<p>Demos o exemplo da mulher, mas a culpa é somente dos homens? Não. A culpa é da sociedade e de suas “regras morais”. Qualquer pessoa que infringir as regras é crucificado. Quem faz a sociedade? O Zé Ninguém e a Maria Ninguém, ou seja, nós. Vivemos em uma sociedade que produz neurose, uma sociedade em que desde que se nasce, já se é doente. Será que a solução se encontra em “remendar” o problema em consultórios de psicoterapias? Ou será que Reich estava certo ao defender que era preciso “produzir” saúde? Por que, mesmo nas comunidades auto-intituladas “reichianas”, pouco se fala sobre seu importantíssimo trabalho político?</p>
<p>Além de editora, sou artista plástica, e abordo na arte a corporalidade e a sexualidade humana. Daqui a duas semanas, farei uma exposição cujo o tema é uma homenagem aos 50 anos de morte de Wilhelm Reich, chamada “Função do Orgasmo”.</p>
<p>Imaginem agora, nesse momento estou enviando convites para o coquetel da exposição. Muitos me perguntam qual é a reação das pessoas ao verem que o tema é relacionado com sexualidade. Não espero ser recebida com flores, aplausos e confetes. Procuro tratar o tema com a maior naturalidade, já que é assim que sempre deveria ser tratado.</p>
<p>Fui muito bem recebida pela mídia até o momento e tenho certeza de ter despertado pelo menos a curiosidade de alguns: “quem é esta artista que fala sobre sexo”? Essa estranheza vem de que muitos limitam sua idéia de sexualidade ao ato sexual, sem perceber que o termo se refere a toda nossa existência.</p>
<p>As obras que preparei para essa esposição retratam a mulher desde o matriarcado, quando ainda podemos dizer que havia uma “sexualidade natural”, até a mulher contemporânea. Com a passagem do matriarcado para o patriarcado, surge o “pecado original” e também a “peste emocional”, quando a sociedade começa a reprimir e anular no corpo tudo o que é o belo e natural.</p>
<p>É isso que a psicologia corporal nos mostra, ao ensinar-nos a ler a corporalidade, as expressões corporais. Reich foi o fundador da psicologia corporal. Ele e seus contemporâneos mapearam o corpo humano e nos mostraram que há possibilidade de libertar essa energia represada no que chamou de couraça muscular. Mas Reich foi mais além, nos instigando a não somente remendar os estragos sociais através da terapia, incitando-nos.a mudar todo o pensamento político e ideológico que nos mantém nessa prisão sem muros que é a sexualidade amordaçada.</p>
<p>Voltando ao nosso inimigo contemporâneo, a AIDS, sinto que devo lutar contra esse monstro aqui em Santa Catarina. A idéia que se transmite na mídia sobre o &#8220;Coquetel anti-AIDS&#8221; como solução para o problema, sem abordar os graves efeitos colaterais da medicação antiretroviral, ou as dificuldades do dia a dia de um HIV positivo. Uma pessoa que desenvolveu a doença precisa de apoio diário: psicológico, atividade física, massoterapia, terapias de grupo e outras atividades em que os pacientes possam dar e receber apoio mútuo.</p>
<p>A AIDS, assim como as outras DSTs, são conseqüências diretas da &#8220;Peste Emocial&#8221;, do desconhecimento e intolerância com relação à própria sexualidade. Na década de 1960, explode a &#8220;liberação sexual&#8221;, o lema &#8220;sexo, drogas e rock and roll&#8221;. Nos anos 1980 surge a AIDS, e a tal “liberação” sem liberdade de fato cobra o seu preço. Onde está a liberdade real?</p>
<p>Não vou mudar o mundo. Mas se eu puder alertar e fazer alguma diferença no pensamento e atitude de quem estiver próximo, eu o farei, e a arte estará a meu lado.</p>
<p>Bibliografia:</p>
<p>Reich, Wilhelm. O assassinato de Cristo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.</p>
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		<title>Mutações da sexualidade feminina &#8211; Uma introdução ao matriarcado</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:26:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[edições 96 a 100]]></category>
		<category><![CDATA[matriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Abordar, de forma introdutória, a história da sexualidade, do comportamento humano, das relações de gênero, nos primórdios da humanidade, é o meu objetivo no presente <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/mutacoes-da-sexualidade-feminina-uma-introducao-ao-matriarcado/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por Géssica Hellmann</em></p>
<p>Abordar, de forma introdutória, a história da sexualidade, do comportamento humano, das relações de gênero, nos primórdios da humanidade, é o meu objetivo no presente artigo. Estudar o matriarcado é conhecer a história feminina, uma história que pode mudar a visão de como as mulheres se vêem e como a sociedade as projeta.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img title="Como eu me vejo por Géssica Hellmann" src="http://gehspace.com/edicao%2099%20imagens/como_eu_me_vejo2.jpg" alt="Como eu me vejo por Géssica Hellmann" width="300" height="473" /><p class="wp-caption-text">Como eu me vejo por Géssica Hellmann</p></div>
<p>Sanz (2007), em sua extensa pesquisa sobre os escritos de Bachofen, afirma que ele foi o grande iniciador dos estudos sobre as origens do matriarcado, da &#8220;cultura ginecocrática&#8221; na antiguidade. Pensador e investigador do século XIX, docente colega de Nietzsche, Bachofen distinguiu três momentos importantes na constituição do período matriarcal no passado grego e sua passagem para o patriarcado:</p>
<p>- Primeiro estágio: Dominado pela deusa Afrodite, a vida se encontrava então em plena de símbolos do feminino e da natureza. O direito natural que prevalece aqui é o da fecundidade. Da terra, sua capacidade criadora. A terra é a grande mãe.</p>
<p>- Segundo estágio: Predomina o culto à deusa Deméter, na qual o feminino aceita a mediação do matrimônio num plano social e na agricultura como uma forma essencial, contudo, em unidade com a natureza.</p>
<p>- Terceiro estágio: Triunfo de Apolo, o deus-sol. Aqui inicia-se o predomínio masculino e o desprezo ao feminino, produzindo-se, assim, a passagem do sistema matriarcal para o patriarcal. A sociedade patriarcal privilegia o racional, a individualidade, a guerra, a autoridade, a dominação.</p>
<p>Segundo a autora, Bachofen &#8220;converte&#8221; sua investigação em uma antropologia histórica das representações simbólicas que configuram a memória coletiva de um povo e, em ultima instância, sua identidade.</p>
<p>Seguindo a linha dos antropólogos evolucionistas, Morgan defendeu, ao estudar as tribos dos Iroqueses, a visão de que as relações de parentesco eram matrilineares. Afirmou também que, na sucessão para a filiação patrilinear, depois do aparecimento da propriedade, o parentesco passou a ser constituído por um homem, considerado o antepassado comum, pelos seus filhos, pelos filhos dos seus descendentes masculinos e assim sucessivamente. (Morgan, 1976)</p>
<p>Na opinião de Götner-Abendroth (2007), o trabalho de Bachofen situa-se no campo da história das culturas e encontra-se em paralelo perfeito com o trabalho de Morgan no campo da antropologia/etnologia. Mas a crítica avaliou muito diferentemente o trabalho desses estudiosos: Morgan foi considerado o pai da etonologia/antropologia; já a Bachofen, não foi-lhe dada a devida importância.</p>
<p>Segundo a autora a razão é simples: &#8220;se fosse feito um exame minucioso de seu trabalho, isso causaria o começo da ruína da visão patriarcal, da ideologia e do mundo. Marca o início do desenvolvimento de um novo paradigma da história humana: por isso é tão &#8220;perigoso&#8221; estudá-lo adequadamente&#8221;.</p>
<p>Götner-Abendroth (2007) afirma que, por mais importante que tenham sido &#8211; e o foram realmente &#8211; os primeiros textos sobre o matriarcado, foram escritos por homens que viviam e estavam completamente inseridos em uma sociedade machista e patriarcal. O trabalho da autora, assim como de outros contemporâneos, procura revisar o conhecimento sobre a estrutura do matriarcado numa visão menos preconceituosa.</p>
<p>Para Bachofen, as sociedades humanas, em seus primórdios eram, seguramente, sociedades matriarcais. &#8220;As mulheres&#8221;, assegurou, &#8220;dominavam o mundo de então&#8221; (Existiu, 2007).</p>
<p>Götner-Abendroth (2007) discorda do termo &#8220;dominar&#8221;, ela reformula o próprio siginificado do termo matriarcado: &#8220;Nós não somos obrigadas a seguir a noção machista do termo matriarcado significando: dominação pelas mães&#8221;. A autora afirma que a palavra grega &#8220;arché&#8221; tem um duplo sentido, significa tanto &#8220;começo&#8221; quanto &#8220;dominação&#8221;. A definição mais precisa de matriarcado seria então: &#8220;as mães do princípio&#8221;, enquanto o patriarcado, por outro lado, seria traduzido corretamente como &#8220;domínio dos pais&#8221;. Segundo a autora, a redefinição do termo matriarcado tem relevância política, pois ele não evita discussão com colegas profissionais e com a audiência interessada.</p>
<p>Como a sociedade matriarcal era estruturada, social, cultural e economicamente? Götner-Abendroth (2007), em suas pesquisas, procura responder a essas questões:</p>
<p>- No nível econômico, são sociedades em sua maioria agrícolas. As tecnologias agrícolas desenvolvidas vão desde simples jardinagem (horta) à uma agricultura completa com arado (no começo do Neolítico) e, finalmente, aos sistemas de grandes irrigações das primeiras culturas urbanas as mais adiantadas. Os bens não são acumulados por uma pessoa ou por um grupo específico, a sociedade é igualitária e não-acumulativa. Cada vantagem ou desvantagem a respeito da aquisição dos bens é mediada por regras sociais. Por exemplo, nos festivais da cidade, os clãs mais ricos são obrigados convidar todos os habitantes. Organizam o banquete, no qual distribuem sua riqueza para ganhar a honra.</p>
<p>- No nível social, o parentesco é matrilinear, no qual todos os títulos sociais e políticos são transmitidos através da linhagem materna. Este tipo de matri-clã consiste pelo menos em três gerações das mulheres &#8211; a clã-mãe, suas filhas, seus netas &#8211; e os homens diretamente relacionados &#8211; os irmãos da mãe, de seus filhos e de netos. As mulheres vivem permanentemente e nunca saem da casa do clã de sua mãe, quando se casam. A isso se chama matrilocalidade. As mulheres têm o poder de controlar as fontes nutrição: campos e alimento. Os clãs são auto-suficientes e se relacionam com outros clãs através da união do casamento. Esse casamento não é uma união individual, mas uma união comunal que conduz ao matrimônio comunal. Por exemplo, os homens novos da casa do clã A são casados à casa do clã nova B das mulheres, e os homens novos da casa de clã B são casados às mulheres novas na casa de clã A. Isto é chamado uma união mútua entre dois clãs em uma aldeia matriarcal. Os homens jovens, que saíram das casa de suas mães após seu casamento, não têm que ir muito longe. Realmente, ao anoitecer vão à casa vizinha, onde suas esposas vivem, e voltam muito cedo &#8211; no alvorecer. Os homens matriarcais nunca consideram os filhos de sua esposa como seus, porque não compartilham de seu nome de clã. A paternidade biológica não é conhecida, nem a ela se dá atenção. Os homens matriarcais cuidam de seus sobrinhos e sobrinhas num tipo de paternidade social. Mesmo o processo de tomada de decisão política é organizado ao longo das linhas do parentesco matriarcal. Os delegados de cada casa de clã encontram-se com no conselho da aldeia, onde todos os assuntos são discutidos. Estes delegados podem ser as mulheres mais velhas dos clãs (as matriarcas), ou os irmãos e os filhos que escolheram para representar o clã. Nenhuma decisão a respeito da aldeia pode ser feita exame sem o consenso de todas as casas de clãs. Um fato importante: os delegados, que estão discutindo a matéria, não são aqueles que tomam a decisão, os delegados possuem a função simplesmente de porta-vozes.</p>
<p>Pessoas que vivem em uma determinada região tomam decisões na mesma maneira: os delegados de todas as vilas encontram-se com para trocar as decisões de suas comunidades. Em contraste aos erros etnológicos freqüentes feitos sobre estes homens, elas não são os &#8220;chefes&#8221; pois não depende deles a decisão. A decisão é tomada em nível regional, um consenso entre todas as casas de clãs. Conseqüentemente, do ponto de vista político, as sociedades matriarcais são sociedades igualitárias ou sociedades do consenso. Exatamente neste sentido, estariam livres de dominação, desprovidas de uma classe de dominadores e uma classe excluída, isto é, não possuem os aparelhos repressivos necessários para estabelecer a dominação.</p>
<p>- No nível cultural, é preciso esclarecer que não são sociedades caracterizadas por &#8220;cultos à fertilidade&#8221;, mas que desenvolveram complexos sistemas religiosos. O fator comum seria crença no renascimento, não como a idéia abstrata da transmigração de almas, mas em um sentido muito concreto: todos os membros de um clã sabem que, após a morte, vão renascer &#8211; por uma das mulheres de seu próprio clã, em sua própria casa de clã, em sua aldeia natal. As mulheres em sociedades matriarcais são grandemente respeitadas, porque elas garantem o renascimento. Assim como na natureza, cada planta, resseca no outono e renasce na próxima primavera, a terra é a grande mãe que concede o renascimento e a nutrição a todos os seres. No cosmos e na terra, os povos matriarcais observam este ciclo da vida, da morte e do renascimento. De acordo com o princípio matriarcal da conexão entre o macro-cosmo e o micro-cosmo, vêem o mesmo ciclo na vida humana. A existência humana não seria diferente dos ciclos da natureza, mas seguiria as mesmas regras. Da perspectiva matriarcal, a vida traria a morte e a morte traria a vida, cada coisa em seu próprio tempo. Da mesma maneira, a fêmea e o macho também seriam uma polaridade cósmica. Nunca ocorreria a um povo matriarcal considerar o outro sexo como mais fraco ou inferior ao outro, como é comum em sociedades patriarcais.</p>
<p>&#8220;O grande mérito destas obras, publicadas nas décadas de 1870 e 1880, foi a constatação de que a família tinha história e que, ao longo dos séculos, tinha conhecido várias formas. A família monogâmico-patriarcal era apenas uma delas. Conclusão: o poder masculino e a submissão da mulher não eram eternos, como diziam as religiões e as pseudociências racistas e sexistas da época&#8221; (Buonicori, 2007).</p>
<p>Segundo Buonicori (2007), Engels afirmaria que a monogamia teria sido fundada sob a dominação do homem com o fim expresso de procriar filhos duma paternidade incontestável, na qualidade de herdeiros diretos. Mas somente ao homem, garantido pelos costumes, é concedido o direito da infidelidade conjugal, já a mulher infiel é punida severamente pela sociedade.</p>
<p>Em outras palavras, podemos afirmar que, com a monogamia, instituiu-se a prostituição e o adultério. A mulher é condenada caso não aceite a condição monogâmica, enquanto o homem pode carregar uma &#8220;leve mancha moral&#8221; mas, ainda assim, é aceitável, até nos dias de hoje, principalmente pelas próprias mulheres, que o homem se relacione com prostitutas.</p>
<p>Pensamos agora na neurose coletiva, que tanto abordamos nos últimos artigos, ou nos indivíduos normopatas, como diz Gaiarsa, ou nos Zés ninguéns, como prefere Reich. Ao reprimir a sexualidade, ao criar esta idéia do &#8220;sexo frágil&#8221;, da &#8220;inferioridade feminina&#8221;, defendida durante séculos por estudiosos do comportamento humano e da sexualidade, ao negar o feminino proclamando um único Deus masculino, ao negar a sexualidade sadia de Cristo, ao tornar Maria um ser assexuado &#8211; ao fazer tudo isso, a quem estamos agredindo, a não ser a nós mesmos? O que tanto tememos? A liberdade? A felicidade?</p>
<p>Com o advento da sociedade patriarcal, com o casamento monogâmico, criamos o quê? Guerras, genocídios, a negação do prazer e da felicidade. Por isso considero importantíssimo um mergulho no passado, em nossos ancestrais mais longínquos: a sociedade matriarcal. É preciso entender o a estrutura, esse processo de transformação: da sociedade matriarcal para a patriarcal e todas as suas conseqüências.</p>
<p>Bibliografia:</p>
<p>Buonicori, Augusto C. Engels e as origens da opressão da mulher. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/070/70esp_buonicore.htm. Acessado em 10/08/2007.<br />
Existiu o matriarcado? Disponível em: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/artigos/matriarcado4.htm. Acessado em 10/08/2007.<br />
Götner-Abendroth, Heide. Matriarchal society: definition and theory. Disponivel em: http://www.hagia.de/documents/position.pdf Acessado em: 01/07/2007<br />
Morgan. Lewis H. A sociedade primitiva. Volume I, 2 ed, Editorial Presença Lisboa Portugal, Martins Fontes Brasil, 1976.<br />
Sanz, Marta Silvia Dios. El matriarcado. Disponível em: http://www.temakel.com/texmitmatriarcado.htm. Acessado em 10/08/2007.</p>
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		<title>Redescoberta do ser feminino</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:21:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[edições 96 a 100]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Desde as primeiras edições desta revista, procuro analisar minuciosamente a sexualidade humana em seus mais diversos aspectos: históricos, antropológicos, biológicos e, principalmente, psicanalíticos. No decorrer <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/redescoberta-do-ser-feminino/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por Géssica Hellmann</em></p>
<p>Desde as primeiras edições desta revista, procuro analisar minuciosamente a sexualidade humana em seus mais diversos aspectos: históricos, antropológicos, biológicos e, principalmente, psicanalíticos. No decorrer desse processo de estudo, percebi a existência de diversas correntes teóricas que separam corpo e sexualidade, tratando esta última como uma &#8220;abstração&#8221;. É Reich quem nos aponta esse equívoco: alma (consciência) e corpo não podem ser divorciados, ou seja, a sexualidade reflete-se no corpo, é um &#8220;evento corporal&#8221;.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 395px"><img title="Pedaços de mim - Cláudia Perroti" src="http://gehspace.com/edicao%2098%20imagens/pedacos_de_mim_claudia_perotti.jpg" alt="Pedaços de mim por Cláudia Perotti" width="385" height="513" /><p class="wp-caption-text">Pedaços de mim - Cláudia Perroti</p></div>
<p>Já apresentei, em diversos artigos publicados neste site, alguns conceitos psicanalíticos fundamentais. Grifo, aqui, uma crítica pessoal: a &#8220;pomposidade&#8221; da terminologia empregada em grande parte dos textos psicanalíticos, tornando complexo o que poderia ser dito em uma simples frase. Esse é uns dos motivos de minha preferência pela escola reichiana.</p>
<p>Na primeira vez em que tive contato com o texto introdutório de Rose Marie Muraro à edição brasileira do &#8220;Malleus Maleficarum&#8221;, na qual ela afirma que, na sociedade matriarcal, o homem sentia &#8220;inveja do útero&#8221; e, na sociedade patriarcal, a mulher inveja o pênis, o conceito de castração rodeava meus pensamentos.</p>
<p>Mulher: um ser castrado? Um &#8220;furo na fala&#8221;, como preferem os lacanianos?</p>
<p>Como mulher, não me sinto incompleta como se algo me faltasse, ou no caso, uma &#8220;mulher sem pênis&#8221;. Não seria o homem então um ser sem peito ou vagina? Quem seria realmente castrado: a mulher, o homem, a sociedade?</p>
<p>Cito Gaiarsa (1984) em seu livro &#8220;O Espelho Mágico&#8221;, no qual ele faz uma reflexão sobre &#8220;nós diante dos outros, sobre os outros face a nós e, principalmente, sobre cada um de nós em confronto com o seu próprio eu&#8221;. Segundo o autor a &#8220;alma é aquilo que eu acho que estou mostrando&#8221; e o &#8220;corpo é aquilo que o outro vê em mim&#8221;.</p>
<p>Até onde o modo como me sinto (vejo) é igual ao que os outros me vêem? Será a mulher um ser realmente castrado ou será a sociedade que nela projeta este sentimento?</p>
<p>A psicanálise, em seu trono majestoso, adora atribuir conceitos universais a quase tudo o que se refere à sexualidade. Somos indivíduos únicos e, por isso mesmo, com necessidades diferentes uns dos outros.</p>
<p>Sim, é claro que necessitamos da &#8220;sociabilidade&#8221;, de conversar e conviver com outras pessoas. Assim, também como precisamos de água e comida para sobreviver. Agora, seria eu &#8220;incompleta&#8221; por não ter um parceiro ou parceira?</p>
<p>Lembro-me então do que a &#8220;peste emocional&#8221; &#8211; essa doença da massa &#8211; é capaz de gerar: violências, genocídios, guerras, ou seja, a Inquisição e suas várias máscaras. Como um ser vivo pode alimentar tanto ódio contra o sexo oposto &#8211; contra o que lhe é diferente?</p>
<p>Não discuto que a Inquisição foi um momento de loucura coletiva. Mas que fatores favoreceram a manifestação dessa insanidade? No caso da perseguição aos cátaros e aos judeus, tratavam-se de grupos sociais que acumularam grande riqueza. Assim é relativamente simples identificar motivações econômicas por trás da inquisição na França do século XIII e na Espanha dos séculos XV e XVI.</p>
<p>Mas o que dizer sobre a &#8220;caça as bruxas&#8221; empreendida até mesmo pelos protestantes alemães e ingleses no Novo Mundo? Não havia motivação econômica aparente. Um genocídio em massa contra as fêmeas é uma aberração em qualquer espécie animal. Que reais motivos teriam despertado tanta misoginia?</p>
<p>&#8220;As idéias fundamentais da Inquisição eram a de que o demônio, procurando fazer o mal aos homens, o faria através do corpo, através do controle da sexualidade. Pois foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a sexualidade é o ponto mais vulnerável de todos os homens. Como as mulheres seriam mais suscetíveis ao erotismo e à sexualidade, tornar-se-iam alvos fáceis para a corrupção e a bruxaria&#8221; (Hellmann, 2007).</p>
<p>Como já havia dito inicialmente, procuro empreender uma análise minuciosa para me levar a um melhor entendimento do comportamento humano no que se refere à sexualidade. A partir desses questionamentos, mergulhei em um tempo mais longínquo, a &#8220;sociedade primitiva&#8221;, a &#8220;era matriarcal&#8221;, no dizer de Bachofen, o primeiro autor a publicar pesquisas sobre a existência do matriarcado.</p>
<p>Seus escritos levaram outros pensadores a se embrenhar neste campo de estudo: desde Engels a Freud e, posteriormente, por antropólogos como Malinowski, Durkheim, mitólogos como Joseph Campbell e pensadores como José Ortega, Morgan, entre outros.</p>
<p>Um dos primeiros textos sobre o matriarcado a me cair nas mãos, o da pesquisadora alemã Heide Göttner-Abendroth, provocou uma sede por beber destas fontes. Heide tem um PhD em filosofia pela Universidade de Munique na área &#8220;Lógica da interpretação&#8221;. Há mais de trinta anos é pesquisadora independente da origem do matriarcado. Também é fundadora e diretora da &#8220;International Academy Hagia&#8221; dedicada aos estudos do matriarcado.</p>
<p>Em um de seus artigos, ela apresenta a sua metodologia de pesquisa e um breve resumo dos conceitos por trás do termo &#8220;matriarchy&#8221;, instigando ao leitor a pesquisar mais sobre o tema. Suas quinze publicações em alemão sobre suas pesquisas, nos faz perceber sua paixão pelo ser feminino e pela busca de um melhor entendimento do comportamento humano. Através dela, cheguei a Bachofen e Morgan.</p>
<p>Morgan (1976), em seu livro &#8220;A sociedade primitiva&#8221;, relata outras formas de &#8220;família&#8221;, algumas muito anteriores à &#8220;família patriarcal&#8221;. Entre elas temos:<br />
1) consangüínea &#8211; casamento entre irmãos e irmãs no seio de um grupo;<br />
2) a punaluana &#8211; casamento entre certo número de irmãos, cada um com as esposas de todos os outros. Irmãos neste contexto referem-se a primos em primeiro, segundo e terceiro grau;<br />
3) sindiásmica ou por pares &#8211; baseava-se no acasalamento pelo matrimonio de um homem e uma mulher sem coabitação exclusiva;<br />
4) patriarcal &#8211; casamento de um homem com varias mulheres. Surgiu entre as tribos pastoris hebraicas, cujos chefes e personalidades mais importantes praticavam a poligamia;<br />
5) monogâmica &#8211; casamento de um só homem com uma só mulher com coabitação.</p>
<p>Outra questão importante apontada por Morgan é a organização familiar. Segundo o autor, antes da divisão pela &#8220;gens&#8221; (parentesco), existia a divisão social por sexo. A primeira é substituída pela segunda quando atinge seu pleno desenvolvimento. A filiação, na &#8220;sociedade primitiva&#8221;, seguiria por linha materna pois, como não havia casamento monogâmico, era praticamente impossível provar a paternidade.</p>
<p>Ao estudar esses primeiros textos, logo percebo que a mulher na sociedade matriarcal era um ser completo, sua sexualidade era natural, bela e divina. Então, quando o que é natural começou a ser pecado, proibido? Quando surge a &#8220;peste emocional&#8221; &#8211; ou a &#8220;normopatia&#8221;, segundo Gaiarsa?</p>
<p>Reich afirma que negamos a sexualidade natural de Cristo crucificando-o; e que negamos a Maria, sua mãe, transformando-a em um ser assexuado e virgem.</p>
<p>Com esses questionamentos, mergulho na antropologia e na história do matriarcado em busca de respostas. De uma forma oblíqua, já tenho exposto muitos desses conceitos através das minhas pinturas.</p>
<p>Um amigo, também artista plástico, questionou-me sobre minha forma de retratar o ser feminino nas pinturas e é claro atiçando-me a escrever sobre isto. As mulheres que retrato, são mulheres completas, &#8220;peitudas e vaginudas&#8221;, como a Deusa. Os seios não procuram ser necessariamente maternais, o corpo é completo, sexualizado, com uma carga erótica sem necessariamente dirigir-se à libido. Entendo a mulher, do mesmo modo que o homem, como um ser completo e sexual.</p>
<p>Em busca do entendimento da analogia da castração à história primitiva da sexualidade, convido meus leitores a analisar comigo, nos próximos artigos, os resultados desta deliciosa exploração da redescoberta do ser feminino e da sexualidade tal como hoje se apresenta.</p>
<p>Bibliografia:</p>
<p>Gaiarsa, José Ângelo. O espelho mágico: um fenômeno social chamado corpo e alma. 10 ed, Summus, São Paulo, 1984.</p>
<p>Hellmann, Géssica. Da deusa a bruxa. Disponível em: . Acessado em: 28/06/2007.</p>
<p>Morgan. Lewis H. A sociedade primitiva. Volume I, 2 ed, Editorial Presença Lisboa Portugal, Martins Fontes Brasil, 1976.</p>
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		<title>Mulher e sexualidade: uma introdução histórica</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:03:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 91 a 95]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Patrícia Gomes</p>
<p>“&#8230; a mente dos homens endurecera-se, passando a crer que havia um Deus, um mundo, um modo de descrever a realidade, que todas as coisas que <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/mulher-e-sexualidade-uma-introducao-historica/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Patrícia Gomes</p>
<p>“&#8230; a mente dos homens endurecera-se, passando a crer que havia um Deus, um mundo, um modo de descrever a realidade, que todas as coisas que se intrometessem no reino dessa grande unidade tinham que ser más e demoníacas, e que o som de seus sinos e a sombra de seus lugares santos manteriam o mal afastado.”<br />
Morgana das Fadas<br />
Marion Z. Bradley – 1986</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 406px"><img title="En el jardin por Mary Cary" src="http://gehspace.com/edicao%2095%20imagens/en_el_jardin-%20Mari%20Cary.jpg" alt="En el jardin por Mary Cary" width="396" height="221" /><p class="wp-caption-text">En el jardin por Mary Cary</p></div>
<p>Podemos perceber, através de alguns mitos que cercam o universo feminino que, desde a criação do mundo, ou melhor, desde que o homem tomou consciência de si, as instâncias culturais, econômicas, religiosas políticas e sociais, foram moldando o papel do homem e da mulher, fazendo desta última, ora endemoniada, ora divinizada. No entanto, as mulheres só assumiram papéis de contribuintes ativas da vida intelectual em alguns momentos históricos, em tempos de crise e descentralização da Ordem vigente.</p>
<p>Mito e história, realidade e sonho, passado e presente, fundem-se, muitas vezes, em nossas histórias de vida; o imaginário serve de ligação entre a realidade interna e externa da pessoa. Mesmo que os produtos da imaginação sejam elaborados a partir de informações armazenadas na memória, elas são resultados de projeções que o sujeito cria a partir de conteúdos memorizados. Quando tais imagens criam conflito com algum valor ou atitude consciente, enterramos nas profundezas do inconsciente tais imagens; e novos modelos e imagens tomam o lugar delas.</p>
<p>Cada imagem primordial leva em si uma mensagem que interessa diretamente à condição humana, porque desvenda aspectos da realidade última, de outra forma inacessíveis.</p>
<p>Seguindo o pensamento psicológico desenvolvido por C.G. Jung, tais imagens são consideradas como “arquetípicas”, sendo o Arquétipo uma forma preexistente que integra a estrutura herdada da psique, comum a todas as pessoas. Estas estruturas psíquicas são dotadas de uma forte densidade emocional. Jung também chamava os arquétipos de imagens primordiais, porque elas correspondem freqüentemente a temas mitológicos que reaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes.</p>
<p>Os mesmos temas podem ser encontrados em sonhos e fantasias de muitos indivíduos. De acordo com Jung, os arquétipos, como elementos estruturais formadores que se firmam no inconsciente, dão origem tanto às fantasias individuais quanto às mitologias de um povo.</p>
<p>Uma enorme variedade de símbolos pode ser associada a um dado arquétipo. O arquétipo materno, por exemplo, compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas as figuras de mãe, figuras nutridoras. Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres (tais como Vênus, Deméter, Virgem Maria, Mãe Natureza), e símbolos de apoio e nutrição, tais como a Igreja e o Paraíso. O arquétipo materno inclui não somente aspectos positivos, mas também negativos, como a mãe ameaçadora, dominadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto arquetípico estava convertido na imagem da bruxa.</p>
<p>Entretanto, várias questões permanecem no ar. O que aconteceu à nossa compreensão da deusa, do feminino divino nos tempos atuais? Por que a sexualidade feminina é tão explorada, tão degradada, se outrora fora reverenciada? E porque será a sexualidade desvinculada da espiritualidade, como se fossem extremos opostos? O que aconteceu à evoluída consciência da espécie humana quando os homens deixaram de venerar a deusa do amor, da paixão e do sexo?</p>
<p>Para entender a importância do mal que recaiu sobre a mulher é necessário uma visão, ao menos mínima da História da Mulher, no contexto da história humana geral. Segundo os antropólogos, o ser humano habita a Terra há mais de dois milhões de anos, sendo que mais de três quartos deste período o homem passou nas culturas de coleta e caça aos pequenos animais, não havendo a necessidade de força física para a sobrevivência. Nessas sociedades, que em nosso tempo ainda existem &#8211; Mahoris, na Indonésia; Pigmeus, na África Central &#8211; as mulheres ocupam um lugar de destaque.</p>
<p>Nesses grupos, que são os mais “primitivos” que existem, a mulher é ainda considerada um ser sagrado, porque pode dar a vida e, portanto, ajudar na fertilidade da terra e dos animais. Aqui, o princípio feminino e o masculino governam o mundo juntos. Havia a divisão do trabalho entre sexos sem haver desigualdade.<br />
A supremacia masculina se inicia nas sociedades de caça aos grandes animais, onde a força física é essencial. Mas em nenhuma dessas sociedades se conhecia a função masculina na procriação, continuando a mulher a ser considerada um ser sagrado, pois podia, graças aos deuses, reproduzir a espécie. Com isso os homens se sentiam “marginalizados” nesse processo e invejavam as mulheres.</p>
<p>A “inveja do útero”, dava origem a dois ritos: o primeiro é o Couvade, que consiste no fato de a mulher começar a trabalhar dois dias após dar à luz, enquanto o homem fica em casa de resguardo, com a criança, recebendo as visitas. O segundo é a Iniciação dos Homens: na puberdade eles são arrancados pelos homens às mães para serem iniciados na “Casa dos Homens”. Este ritual é a imitação cerimonial do parto, com objetos de madeira e instrumentos musicais. Desse dia em diante, o homem pode “parir” ritualmente.</p>
<p>Enquanto a mulher detinha o “poder biológico”, o homem foi desenvolvendo o “poder cultural” à medida que a tecnologia foi avançando. Essas sociedades “primitivas” tinham de ser cooperativas e, portanto, não havia coerção ou centralização, mas rodízio de lideranças, e as relações entre homens e mulheres eram mais fluidas do que viriam a ser nas futuras sociedades patriarcais. Nos grupos matricêntricos, as formas de associação entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder, nem a herança, por isso a liberdade sexual era maior. Também quase não existiam guerras, pois não havia pressão populacional pela conquista de novos territórios.</p>
<p>É somente nas regiões em que a coleta é escassa que começam a se instalar a supremacia e a competitividade entre os grupos na busca de novos territórios. Agora, para sobreviverem, as sociedades têm de competir entre si por um alimento escasso. As guerras, agora constantes, passam a ser mitificadas. Os homens mais valorizados são os heróis guerreiros. A harmonia que ligava o homem à natureza começa a se romper. No entanto, a lei do mais forte ainda não se instala de todo, pois o homem ainda desconhece sua função procriadora, conservando ainda à mulher, poder de decisão.</p>
<p>O homem só começa a dominar a sua função biológica reprodutora e, consequentemente, a sua e a sexualidade feminina no decorrer do Período Neolítico. Aparece, então, o casamento, em que a mulher é propriedade do homem e a herança é transmitida através da descendência masculina. Isso já ocorre nas sociedades pastoris descritas na Bíblia.</p>
<p>Nesta época, o homem já havia aprendido a fundir metais e. à medida que aperfeiçoava essa tecnologia, começavam a fabricar armas mais sofisticadas como também instrumentos que permitem cultivar melhor a terra, como o arado. As mulheres foram as primeiras humanas a descobrirem os ciclos da natureza, pois podiam compará-los aos ciclos do próprio corpo. Porém foram os homens que, a partir da invenção do arado, sistematizaram as atividades agrícolas, iniciando, assim, a era agrária.</p>
<p>Para poderem arar a terra, os agrupamentos nômades são obrigados a se tornar sedentários. Começam a se estabelecer, assim, as primeiras aldeias, depois as cidades, as cidades-estados, os primeiros Estados e os Impérios. Agora já não são mais os princípios feminino e masculino que governam juntos o mundo, mas sim a lei do mais forte. Nesse contexto, quanto mais filhos, mais soldados e mais mão-de-obra barata para arar a terra, melhor. As mulheres tinham sua sexualidade rigidamente controlada pelos homens. O casamento era monogâmico e a mulher tinha, obrigatoriamente, de ser virgem. Então, a mulher fica resumida ao âmbito doméstico e perde qualquer capacidade de decisão no domínio público.</p>
<p>A dicotomia entre o privado e o público torna-se a origem da dependência econômica da mulher, e essa dependência gera uma submissão psicológica que perdura até hoje.</p>
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		<title>Uma nova construção da identidade da mulher católica</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 16:09:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[catolicismo]]></category>
		<category><![CDATA[edições 71 a 75]]></category>
		<category><![CDATA[religião]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Géssica Hellmann</p>
<p>Este artigo aborda a construção da identidade da mulher católica moderna no que se refere ao exercício de sua sexualidade.</p>
<p>Abrimos este artigo com uma importante consideração <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/uma-nova-construcao-da-identidade-da-mulher-catolica/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Géssica Hellmann</em></p>
<p>Este artigo aborda a construção da identidade da mulher católica moderna no que se refere ao exercício de sua sexualidade.</p>
<p>Abrimos este artigo com uma importante consideração de Lopes (2006): &#8220;Desde que a humanidade passou a refletir sobre si mesma, o corpo, lugar de prazer, vida e fecundidade, mas ao mesmo tempo lugar interdito e espaço onde o mal pode se alojar, tem sido fruto das mais diversas formas de pensar e teorizar&#8221;.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img title="CONTEMPORARY ADAM AND EVE por Laurentiu Dimisca" src="http://gehspace.com/edicao%2074%20imagens/CONTEMPORARY%20ADAM%20AND%20EVE2.jpg" alt="CONTEMPORARY ADAM AND EVE por Laurentiu Dimisca" width="300" height="420" /><p class="wp-caption-text">CONTEMPORARY ADAM AND EVE por Laurentiu Dimisca</p></div>
<p>A autora afirma que &#8220;as bases ideológicas que situam a mulher como inferior e submissa vêm de muito longe, desde os mitos da Criação, sendo que na igreja cristã temos o mito de Eva: Eva é feita a partir de uma costela de Adão, suprindo, porém, sua necessidade de homem, que não deve ficar sozinho. No entanto, ela simboliza a tentação, o pecado da carne, o desejo de sexo, responsável pela perda da paz e da tranqüilidade do homem, representadas pela perda do paraíso terrestre&#8230; Os pronunciamentos e práticas da tradição judaico-cristã em relação ao uso do corpo afetaram as atitudes sociais contemporâneas, no que se refere à sexualidade feminina, bem como a própria percepção da mulher sobre si mesma&#8221;.</p>
<p>A Igreja Católica, em meados do século XIV e XV, constrói uma outra identidade feminina mítica: a Virgem Maria &#8211; Mãe de Cristo, Mãe da Igreja, Mãe dos pobres e infelizes do planeta, que podem ser absolvidos do pecado original, desde que se convertam às normas da Igreja. As mulheres irão alcançar a salvação ao acatar o ideal de feminilidade de Maria, o que pressupõe uma destituição da sexualidade e do prazer, mantendo apenas a função reprodutiva.(Lopes, 2006)</p>
<p>Como podemos perceber, inicialmente, a mulher foi culpada do &#8220;pecado capital&#8221;, comparada à serpente tentadora e desvirtuadora. Posteriormente, a Igreja permite que a mulher exerça sua sexualidade, desde que sob o controle da Igreja e somente para fins reprodutivos.</p>
<p>A identidade sexual feminina é reduzida ao espaço da maternidade, único lugar que lhe é outorgado pela sociedade. Essa identidade de mulher ideal nega o ato sexual, dessexualizando o corpo, que deve ser santificado. (Lopes, 2006)</p>
<p>A autora afirma que a Igreja Católica impõe, situando as questões de gênero numa perspectiva inteiramente patriarcal, indicando a dominação masculina como &#8220;atitude natural&#8221; ou uma experiência excluída de questionamentos e reconhecida como absolutamente legítima. A prova deste posicionamento, segundo a autora, é dada pela indução de mulheres violentadas que engravidam a terem os bebês, através de trabalho educativo maciço e fornecimento de apoio financeiro. O silêncio consentido das próprias mulheres violentadas, a desonra póstuma da mulher no julgamento de seus assassinatos, que, até nos anos noventa, contaram com os homens absolvidos com a tese de legítima defesa da honra, indicam uma prática cotidiana consensual, compartilhada pelo pensamento social que legitima a Representação Social Hegemônica do corpo-expropriado.</p>
<p>Segundo Dom Fernando Mason, bispo de Piracicaba, &#8220;Por vezes questões ligadas à afetividade e à sexualidade repercutem com muita intensidade na mídia. Sobretudo quando a Igreja manifesta com palavras claras sua posição. E aí, todo mundo se julga entendido, até o profissional formado anteontem na faculdade da esquina acha que pode dizer palavras solenes e importantes sobre o quanto a Igreja é retrógrada, medieval e obscurantista, insensível diante de problemas de hoje. Julga-se no direito de passar uma lição de moral à igreja&#8221;.</p>
<p>O autor afirma que ao falar daquelas forças positivas da natureza chamadas afetividade e sexualidade, a Igreja recorda sempre que também elas devem ser &#8220;humanizadas&#8221;, isto é, devem ser elaboradas, amadurecidas, responsabilizadas, transcendidas.</p>
<p>São muitas as investigações que demonstram a diferença entre o discurso oficial da Igreja e a prática dos católicos sobre a sexualidade, é o que conclui Rodrigues (2006) em sua pesquisa.</p>
<p>&#8220;No contexto da referida pesquisa, deve-se considerar um público de classe média, com nível médio e superior de escolarização, inserido num contexto social urbano, metropolitano e individualista. Todas as participantes da pesquisa receberam educação religiosa católica desde a primeira infância, sendo filhas de pais católicos, com a primeira socialização mais conservadora, marcada pelos preceitos morais da sua religião, ainda que numa segunda socialização tenham assumido uma postura mais liberal em suas vidas&#8221;. (Rodrigues, 2006)</p>
<p>Os resultados da pesquisa apontam que as mulheres católicas modernas sentem uma distância entre suas necessidades afetivas de realização pessoal no campo da sexualidade e as orientações da Igreja nesse aspecto, que limita tal realização.</p>
<p>Alguns valores, principalmente no que se refere à orientação católica sobre a sexualidade, são questionados, refletidos e adaptados às suas realidades. Mesmo assim não desejam deixar de ser católicas, pois os valores vinculados ao amor cristão dão sentido à sua vida.</p>
<p>&#8220;Acredito que, do mesmo modo, mulheres católicas que percebem incompatibilidade entre os valores da sua religião e os seus desejos pessoais diante da vida buscam novos caminhos e interpretações da sua crença. &#8216;Migram&#8217; dentro da própria religião, como quem muda de cidade em busca de melhores condições de vida sem, contudo, mudar de país. Ou seja, dando novos significados à orientação religiosa, é possível elaborar uma identidade religiosa alternativa para vivenciar sua espiritualidade&#8221;. (Rodrigues, 2006)</p>
<p>A autora afirma: &#8220;Penso que a alteração da identidade feminina quanto a &#8216;ser mulher&#8217;, ocorrida radicalmente no último século, desencadeou questionamentos sobre o &#8216;ser mulher católica&#8217; dentro da sociedade, sobretudo para as mulheres católicas. A busca desta resposta &#8211; que contou com os conflitos internos e sociais enfrentados rumo à transformação, que era contrária ao esforço da Igreja Católica pela conservação de valores e costumes &#8211; culminou com uma crise de identidade religiosa&#8221;.</p>
<p>Desta forma, as mulheres católicas modernas tentam buscar um novo caminho, modificando os aspectos do catolicismo que lhes incomodam, passando a agir segundo suas consciências.</p>
<p>Para Rodrigues, (2006) deixar de reprimir a sexualidade e a existência a partir de um papel moral culturalmente estabelecido indica uma busca de saúde psicológica, um momento de ampliação da consciência, e uma evolução crítica humana. Fazê-lo sem perder a identidade religiosa, mas, ao contrário, atribuindo-lhe novos significados, ilustra um processo de metamorfose.</p>
<p>&#8220;Em recente pesquisa sobre identidade religiosa e sexualidade feminina, Michelle Spenser Arsenault (1999) conclui que, quando questionadas sobre ensinamentos católicos e sexualidade e maternidade, as mulheres do seu estudo discordam da Igreja sobre a contracepção, mas escolhem incorporar os ensinamentos católicos sobre maternidade em suas vidas&#8221;.(Rodrigues, 2006.)</p>
<p>Em sua pesquisa, Rodrigues 2006 cita Penélope Ryan (1999), em seu livro &#8220;Católico Praticante&#8221;. Neste livro, a autora questiona o modo pelo qual alguém pode ser um &#8220;bom&#8221; católico no mundo contemporâneo, vistas as divergências entre os ensinamentos transmitidos pela Igreja Católica e a realidade das pessoas que são católicas, apontando para o conflito interno e externo gerado por tal desacordo. O texto indica como principais virtudes almejadas pelo católico a fé, a esperança e caridade, seguidas pela pureza e virgindade. Mas quanto ao que identifica o católico no mundo moderno, a autora apresenta novas virtudes, como a prática social da fé e a justiça.</p>
<p>A autora percebe um resultado semelhante ao citado por Ryan em sua pesquisa: &#8220;As mulheres católicas vivenciam sua fé assumindo os valores da ética cristã de amor e fraternidade nos seus relacionamentos, mas buscam a absolvição de seus &#8220;pecados sexuais&#8221; nas descontinuidades da modernidade. E, de fato, passam a se sentir livres da maioria das &#8216;culpabilidades&#8217; sobre sua conduta sexual. A permanência no Catolicismo está mais ligada à relação que essas mulheres mantém com Deus do que com a afinidade com as orientações e costumes religiosos da pratica sexual.&#8221;</p>
<p>Em sua pesquisa a autora diz que embora as entrevistadas conheçam a posição oficial da Igreja, não consideram pecado praticar sexo antes do casamento e declaram que sua sexualidade não atrapalha sua religiosidade. Percebe-se uma visão positiva em relação à sexualidade, associando sexo ao amor. A maioria das entrevistadas utiliza métodos contraceptivos em suas relações.</p>
<p>Dom Fernando Mason (2006), afirma que a Igreja não é contra o planejamento familiar, é a favor da paternidade responsável, só afirma que a Igreja tem uma posição diferente da usual e comum, mas, não entra em maiores detalhes em seu artigo.</p>
<p>Rodrigues (2006) afirma que, em relação ao aborto, embora quase metade das participantes já tenham passado por um aborto, sendo que seis delas o provocaram, a maioria o considera crime e cinco o apontam como pecado. &#8220;Os sentimentos descritos com relação à prática foram paradoxais: variam da culpabilidade, arrependimento, tristeza, medo e depressão à alegria e alívio&#8221;.</p>
<p>Desta forma, percebe-se uma distância entre o discurso oficial da Igreja e a prática da sexualidade das mulheres católicas modernas. Segundo a autora, ao associar sexo ao amor, concluem que Deus é amor e que, por isso, está presente em sua sexualidade, o que legitimaria suas condutas.</p>
<p>A Igreja Católica, como Dom Fernando Mason faz questão de ressaltar, tem mais de 2000 anos de respostas para quase tudo o que se refere à conduta humana. Deixo a questão em aberto e faço um convite para um representante que possa falar em nome da Igreja para descrever como a Igreja tem lidado com as transformações no contexto moderno de &#8220;ser católico&#8221;, quando muitos acreditam que sua sexualidade não interfere em sua religiosidade e sua fé, sentindo-se assim bons católicos por praticarem atos de compaixão, solidariedade, a prática social da fé e da justiça? A Igreja é contra o uso de preservativos como método de planejamento familiar, mas quanto ao risco e o controle da epidemia da Aids, que outro método de prevenção pode ser adotado? Abstinência sexual em massa até o casamento?</p>
<p>Bibliografia</p>
<p>Lopes, Helena Theodoro. Mulher negra, mitos e sexualidade. Disponível em: www.lpp-uerj.net/olped/documentos/ppcor/0224.pdf. Acessado em: 19/12/2006.</p>
<p>Mason, Dom Fernando &#8211; Bispo de Piracicaba. Sentido cristão da sexualidade. Disponível em: http://www.catequisar.com.br/txt/materias/especial/bispo/38.htm. Acessado em: 19/12/2006.</p>
<p>Rodrigues, Cátia S. Lima.Católicas e Femininas: Identidade Religiosa e Sexualidade de Mulheres Católicas Modernas. Revista de Estudos da Religião Nº 2 / 2003 / pp. 36-55.</p>
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		<title>Quais os limites da intervenção cirúrgica no parto? (continuação)</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 15:41:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 66 a 70]]></category>
		<category><![CDATA[gravidez]]></category>
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Christmas Eve Mary por Nathan Florence


<p>Diniz (2006b) questiona ainda &#8220;Será o hospital de fato o melhor cenário? O questionamento à segurança de mãe e criança, prometida pelo <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/limites-intervencao-cirurgica-no-parto-continuacao/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
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<dl class="wp-caption aligncenter" style="width: 364px;">
<dt class="wp-caption-dt"><img title="Christmas Eve Mary por Nathan Florence" src="http://gehspace.com/edicao%2069%20imagens/Christmas%20Eve%20Mary.JPG" alt="Christmas Eve Mary por Nathan Florence" width="354" height="302" /></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Christmas Eve Mary por Nathan Florence</dd>
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</div>
<p>Diniz (2006b) questiona ainda &#8220;Será o hospital de fato o melhor cenário? O questionamento à segurança de mãe e criança, prometida pelo parto hospitalar tem sido uma das heresias trazidas pela medicina baseada em evidências, que coloca a possibilidade do parto em Casas de Parto ou mesmo no domicílio como possíveis opções seguras a considerar nos partos de baixo risco. E qual o sentido de ter os partos nos centros cirúrgicos? E na posição horizontal, por que manter as mulheres numa posição tão desfavorável ao bom desenrolar do parto, se há alternativas às quais os profissionais podem se ajustar? E o que fazer com o conceito de que o parto só é normal em retrospecto? Qual o lugar, se algum, do chamado parto dirigido, aquele em que cada uma das funções do corpo feminino no parto &#8211; contração, dilatação, expulsão, etc. &#8211; deve ser substituído por uma intervenção, manejado e ter seu tempo controlado?&#8221;</p>
<p>A autora continua ainda &#8220;Porque fazer uma mulher ser transferida de leito em leito durante o trabalho de parto, como em uma linha de montagem (Martin, 1987; Davis Floyd, 1992; Rothman, 1993), freqüentemente em diferentes andares de um prédio; primeiro no leito de admissão; depois no de pré-parto, fora do centro cirúrgico, até o fim do período de dilatação; para durante a delicada fase chamada de transição (fim da dilatação) a mulher ser rebocada para a sala de parto, no centro cirúrgico; depois do qual para uma maca num corredor ou uma sala de recuperação/pós-operatório; em seguida para o leito de puerpério &#8211; num movimento conforme a conveniência dos serviços porém atrapalhando em todos os sentidos a fisiologia do parto?&#8221;</p>
<p>É certo que ainda precisamos de muitas respostas. É preciso pensar em primeiro lugar na saúde da mãe e do bebê, mudar políticas e procedimentos de rotina agressivos e em muitos casos desnecessários.</p>
<p>No Brasil, ainda temos o problema da &#8220;falta de leitos&#8221;. O direito de acesso ao leito obstétrico para todas as parturientes está inscrito na Constituição Brasileira e na legislação do Sistema Único de Saúde, que definem saúde como direito de todos e dever do Estado.</p>
<p>Na pesquisa de campo observada por Diniz (2006b), muitas maternidades alegam &#8220;falta de leitos&#8221;. Em um dos plantões, intrigada, a observadora perguntou se, de fato, a maternidade estava lotada, o que foi confirmado pelo plantonista; então esta resolveu contar os leitos e viu que, sim, havia leitos disponíveis, tanto no pré-parto e puerpério quanto na UTI neonatal, para além do limite de reserva de leitos, como relatado em um diário de plantão:</p>
<p>&#8220;Retornando ao quarto andar, encontrei o Dr. Lauro no corredor. Apresentei-me a ele e pedi para ele por favor me explicar o motivo das transferências, pois lhe disse que não estava entendendo. Ele disse que já havia providenciado a transferência de quatro mães naquela manhã para o Hospital Stella Maris, incluindo aquelas duas que tinham acabado de descer pois não havia vagas no berçário e os hospitais não aceitam transferências à noite, então era melhor tentar garanti-las durante o dia. Disse-me que tinha acabado de internar uma mulher com 4 cm de dilatação e mecônio, pois os hospitais não aceitam transferência de mulheres com mecônio. Disse-lhe então que tinha acabado de ver que tinha uma vaga na UTI do berçário. Ele respondeu: &#8220;É mesmo?&#8221;. Em seguida, disse que tinha ordens expressas da chefe do plantão de transferir todas as parturientes, guardando as vagas apenas para as mulheres em expulsivo ou as &#8216;patológicas&#8217;. Em seguida, disse-me que também transfere as patológicas &#8220;porque aqui não é um berçário de alto risco&#8221;. [...]</p>
<p>Em outra observação a autora continua: &#8220;[...]Fui até a ala do puerpério e de lá pra enfermaria, dei uma olhada no quadro branco. Perguntei a uma das auxiliares que estava ali se o quadro indicava que não havia vagas. Ela me respondeu que era isso mesmo. Em frente à enfermaria havia uma porta entreaberta. Dava para ver uma cama arrumada e desocupada de onde eu estava. Comentei sobre essa cama com a auxiliar e ela me disse, &#8220;É mesmo. Acabaram de dar algumas altas&#8221;. Perguntei quantas mulheres receberam altas, quantas vagas havia e ela me disse quatro. Novamente, a primeira resposta dela foi que não havia vagas.&#8221;</p>
<p>Como mãe durante todo o meu pré-natal sempre quis fazer um &#8220;parto natural&#8221;. Todas as vezes que explicitei meu desejo para minha médica, Dr. Kátia David Bello, e fui sempre desencorajada. Vezes me respondia que eu corria o risco de não fazer o parto com ela, caso o parto fosse noturno, e vezes ela se referia a falta de vagas na maternidade. Mesmo conhecendo meus direitos sobre o atendimento, que a maternidade não pode se negar a receber e prestar atendimento a uma parturiente, sei que na prática isto não ocorre. Até as últimas semanas ainda persistia meu desejo de parto natural. Na ultima semana a minha médica me desencorajou, afirmando que a criança era muito grande para um parto primário. Acabei optando pela cesariana. Na hora do parto, a médica informou que o bebê estava enrolado no cordão umbilical.</p>
<p>É comum na relação entre médico e paciente muitas vezes, durante o pré-natal, que a paciente seja persuadida pelo médico (caso ela já não esteja convencida) da superioridade da cesárea; a sugestão por parte dos médicos da necessidade de cesárea ainda no pré-natal, ou da &#8220;transformação&#8221; de um parto vaginal em uma cesárea no decorrer do trabalho de parto, como já descrito. (Diniz, 2006b)</p>
<p>A autora não acredita que as mulheres brasileiras estão em sua maioria aderidas à noção de que a cesárea seja uma alternativa superior. Vários estudos mostram que a maioria das mulheres, nas várias camadas sociais, preferem o parto vaginal e buscam profissionais que se comprometam com essa perspectiva, mas não conseguem necessariamente viabilizar o seu desejo &#8211; em geral, não a seu pedido, mas por indicação do profissional, menos ou mais apropriada, no decorrer do parto. &#8220;A paciente tem dois medos: primeiro, a dor, e segundo, não ser atendida pelo médico do pré-natal. Se ela não tiver ele lá, com quem ela tem um vínculo, ela se sente muito abandonada emocionalmente.&#8221;</p>
<p>Chen (2006) levanta dados curiosos sobre os partos no Brasil:<br />
1) 79% dos partos realizados no setor privado são cesarianas. (Dados de 2004)<br />
2) 27% dos partos realizados pelo SUS são cesarianas. (Dados de 2004)<br />
3) A OMS recomenda que apenas 15% dos partos sejam cesáreos.<br />
4) 77% das mulheres brasileiras entrevistadas preferem parto normal, segundo dados de entrevistas realizadas antes e depois do parto.<br />
5) Um parto normal pode durar até 48 horas.<br />
6) O custo do parto normal para médicos e hospitais é até 30% maior do que na cesariana, contabilizando o tempo de atenção dispensados pelas enfermeiras e equipe médica, o tempo de utilização de salas especiais para parto, etc..<br />
7) O número de cesarianas no SUS foi reduzido no momento em que o Governo decidiu estabelecer uma cota mensal de remuneração para cesarianas. Isto é, acima de uma determinada porcentagem, a cesariana não é remunerada.<br />
 <img src='http://gehspace.com/sexualidade/wp-includes/images/smilies/icon_cool.gif' alt='8)' class='wp-smiley' /> O número de cesarianas não diminuiu no setor privado, apesar da equiparação de remuneração dos médicos pelos dois tipos de procedimentos.<br />
9) O Ministério da Saúde não tem o poder de interferir na saúde privada.<br />
10) O órgão regulador que fiscaliza os planos de saúde e convênios é a ANS, que pouco pode fazer enquanto não houver denúncias.<br />
11) Apesar da cesariana ter se tornado uma cirurgia mais segura, continua sendo uma cirurgia de amplo aspecto, com todos os riscos de uma cirurgia de amplo aspecto.<br />
12) Os riscos de complicações posteriores a uma cesariana são 350% maiores para a mãe e, para o bebê, são 400% maiores no que se referem a problemas respiratórios.<br />
13) Hospitais lucram na venda dos medicamentos e nas internações, especialmente internações em UTIs.<br />
14) Hospitais e profissionais da área da saúde também têm metas de &#8220;produtividade&#8221;. Internações e procedimentos desnecessários são utilizados para bater essas metas.<br />
15) Médicos conseguem negociações mais vantajosas com os hospitais, pela quantidade de clientes internados e pela quantidade de horas utilizadas de centro cirúrgico.<br />
16) Os hospitais cobram esta conta dos convênios. Os convênios cobram este custo desnecessário de todos os segurados.<br />
17) O maior cliente do hospital não é o paciente, mas o médico.<br />
18) Cesárea por conveniência médica é uma trangressão ética.<br />
19) Em 60% dos casos de cesárea no Brasil, a razão médica apresentada não justificava o procedimento e era no mínimo duvidosa. (idem artigo acima).</p>
<p>Chen (2006) afirma que &#8220;Num encontro de obstetrícia no Rio de Janeiro, os médicos cariocas alegaram motivos de segurança para realizarem cesarianas com hora marcada. &#8216;Porque é muito perigoso sair de casa à noite para atender um parto no meio da madrugada&#8217;&#8221;.</p>
<p>Esta também foi uma das alusões feitas pela Dr. Kátia durante uma das consultas do meu pré-natal. Disse que várias vezes, tinha sido assaltada a noite e por isso não fazia partos noturnos.</p>
<p>Atingir um índice de 79% de cesáreas na medicina privada é um problema de lesão ao consumidor em escala extraordinária. Isso significa que 2/3 das mulheres que preferem parto normal têm seus desejos desrespeitados.</p>
<p>No caso brasileiro, em que a cirurgia plástica sexual vem cada vez mais se afirmando como especialidade, cresce a demanda por procedimentos como a &#8220;reconstrução de episiotomia&#8221; e &#8220;estreitamento da vagina&#8221; . Todos estes procedimentos instauram e explicitam o modelo de assistência que considera o parto necessariamente como um agravo ao corpo feminino, necessitado de reparos posteriores. (Diniz, 2006b)</p>
<p>A autora continua &#8220;A episiotomia é a operação obstétrica mais freqüentemente realizada no ocidente. É uma das maneiras mais dramáticas e intensas em que o território do corpo das mulheres é apropriado, a única operação feita sobre o corpo de uma mulher saudável sem o seu consentimento. Ela representa o poder da obstetrícia: os bebês não podem sair sem que as mulheres sejam cortadas. Ela evita que as mulheres vivenciem o parto como evento sexual, e é uma forma de ritual de mutilação genital&#8221; (apud BWHBC, 1992:458)</p>
<p>Segundo Diniz (2006b) &#8220;O estudo de Souza (1992) em São Paulo, mostra que, na opinião de parte significativa das entrevistadas, o atendimento aos partos é violento, os funcionários são agressivos, freqüentemente humilham as pacientes e não respeitam sua dor. Outro estudo conduzido em São Paulo mostra que a negligência e os maus-tratos na assistência ao parto são freqüentes nos relatos das mulheres, mobilizando nelas um intenso sentimento de injustiça (IRRRAG,1995)&#8221;.</p>
<p>A autora segue em sua pesquisa &#8220;Como testemunha Carmen Cruz, no &#8216;Tribunal Internacional de Direitos Reprodutivos como Direitos Humanos&#8217;: Durante a lenta recuperação, diante de tanto maltrato [uma sucessão de procedimentos invasivos e perigosos, que resultaram em morte do bebê, perda do útero e infecção hospitalar generalizada], a única coisa que quero é morrer. Da minha vagina continua escorrendo pus, minha filha está morta e, além de tudo, agora sou estéril. Minha familia, para consolar-me, me diz que não sou nem a primeira nem serei a última que passa por isso, que já vou me esquecer deste pesadelo, que me conforme. E é ali, no meio da dor física e moral, da raiva e da impotência, que me pergunto: e as que agora são meninas e um dia decidirão ser mães, vai acontecer a elas o mesmo que me aconteceu? Até quando vamos esperar para denunciar, falar, exigir?&#8221; (Bunch et alli, 2000:117).</p>
<p>Sabe-se que a dor do parto é em grande medida iatrogênica, amplificada e acrescida por rotinas como a imobilização, a indução ou aceleração do parto com ocitócitos, a manobra de Kristeller, a episiotomia e a episiorrafia, a curagem manual pós-parto, entre outras. Pode-se imaginar que a experiência, tanto para o profissional de inflingir esses procedimentos dolorosos, quanto para parturiente, de submeter-se a eles, seja muito diferente com e sem a peridural. (Diniz, 2006b)</p>
<p>É importante lembrar que as chamadas alternativas não-farmacológicas efetivas de manejo da dor (presença de doulas, massagem, banhos, liberdade de movimentos e de posição, entre outras) raramente estão disponíveis.</p>
<p>Em sua pesquisa de campo, Diniz (2006b) relata um depoimento de uma médica de plantão: &#8220;O uso da episiotomia e seu reparo como a primeira oportunidade de treinamento de suturas pelos futuros cirurgiões, de qualquer especialidade e não apenas dos gineco-obstetras, nos foi reiterado em muitas oportunidades: Onde você acha que cirurgião aprende a suturar? O primeiro ponto de todo cirurgião é numa episiorrafia&#8221;.</p>
<p>A autora continua &#8220;Também fazem parte do modelo ensinado alguns mitos já superados pela medicina baseada em evidências, porém reproduzidos na formação, como mostra a cena abaixo, sobre uma episiotomia tida como procedimento que melhoraria a vida sexual da mulher, quando a evidência aponta em contrário: Depois, João (residente) apalpou a barriga da mulher, colocou a mão por dentro do canal vaginal, dizendo que ia doer um pouco mas era importante para evitar infecção. Colocou uma boneca de gaze no interior do canal vaginal da mulher e secou um pouco o sangue por fora para iniciar a sutura. Depois, pediu para que eu pegasse o banquinho para ele sentar. A mulher se queixava de dor durante a sutura, mas estava bem mais tranqüila. Como ela reclamasse muito, ele aplicou anestesia novamente. Num determinado momento da sutura, ele disse que ia dar dois pontos que iam doer um pouco mais, depois comentou que era o &#8220;ponto do marido&#8221;. Perguntei a ele o que era isso e ele disse que era um ponto que era dado para que &#8220;as coisas voltassem a ser parecidas com o que era antes&#8221; e que, se eles não fizessem isso, depois o marido voltava para reclamar&#8221;.</p>
<p>A referência ao marido no parto em geral aparece com o já mencionado ponto do marido, o já referido apertamento final da sutura da vulva na episiotomia, sem a qual os maridos reclamariam da frouxidão. Note-se que os profissionais argumentam que agem aqui na defesa dos interesses do marido, representando seus interesses, e fazem referência ao fato de que se não fizerem tal &#8220;aperto&#8221;, os maridos voltarão ao serviço para reclamar. (Diniz, 2006b)</p>
<p>Esse diálogo no qual a mulher diz para o profissional que está sentindo muita dor e o profissional nega à mulher que ela sofre, foi observado segundo Diniz (2006b), com variações, tanto com médicos como com enfermeiras:</p>
<p>[...] &#8220;Num momento em que Luciana introduziu um embrulho de gaze energicamente dentro da vagina de Ana Luisa, essa soltou um &#8216;ai!&#8217; e perguntou o que Luciana havia colocado dentro dela. A resposta foi que não tinha colocado nada dentro dela e que o que estava sentindo era sua pele e tecidos sendo repuxados, conforme estava sendo costurada. A sogra confirmou essa afirmação.&#8221;</p>
<p>É possível que este tipo de diálogo de negação da dor, seja uma maneira dos profissionais lidarem com o seu próprio mal estar. Mas, mesmo sem o conhecimento objetivo das evidências, esse sentimento de injustiça por uma vivência de violência, seja ela física ou emocional, surge em várias circunstâncias neste trabalho.</p>
<p>Como percebemos a episiotomia no Brasil tem sido indicada para prevenir o suposto afrouxamento vaginal. O que não se esclarece é que existem vários exercícios pélvicos que facilitam o fortalecimento dos músculos da vagina.</p>
<p>Para Diniz (2006b) &#8220;A desvalorização sexual da vagina, e por decorrência da mulher, ou vice-versa, depois do parto, tem muitas analogias com a sua desvalorização depois do início da vida sexual. Depois do chamado defloramento, a mulher ficaria desvirginada, aberta, frouxa. Por esse motivo, o apelo da episiotomia para &#8220;devolver a mulher à sua condição virginal&#8221;, como proposto por DeLee e outros autores, encontraria tanto eco na cultura brasileira (Diniz, 1997). A necessidade masculina de um orifício devidamente continente e estimulante para a penetração seria então resolvida por esse procedimento médico, preservando o estatuto da vagina como órgão receptor do pênis, em oposição a alternativas como o coito anal.&#8221;</p>
<p>O que queremos sugerir aqui é que a episiotomia e seu ponto do marido, assim como a cesárea e sua &#8220;prevenção do parto&#8221;, no caso brasileiro, podem funcionar, no imaginário de provedores, parturientes e seus parceiros, como promotores de uma vagina medicamente sancionada, simbolicamente condizente com essas exigências da cultura sexual, seja pela prevenção, seja pelo tratamento. (Diniz, 2006b)</p>
<p>No caso da episiorrafia, como é muito dolorosa e a anestesia ineficiente na maioria das vezes, a negação da dor da paciente e mesmo de que ela está sendo suturada é aprendida na formação dos recursos humanos, como vimos, como estratégia de lidar com as usuárias.</p>
<p>Diniz (2006b) afirma que essa culpabilização da mulher, a naturalização e desconsideração da dor, que é evidentemente motivada por um procedimento muitas vezes desnecessário e arriscado, é encontrada em outros estudos etnográficos no Brasil, aparece de forma crua também nestas cenas no já citado trabalho de Alves, Silva e colaboradores (2000), em maternidades no Maranhão:</p>
<p>&#8220;A paciente disse que estava com vontade de vomitar, a anestesista virou-a bruscamente e disse: &#8220;quis ter um filho, então vai ter que sofrer&#8221; repetindo várias vezes a frase: &#8220;a entrada do céu é estreita, tem que sofrer, é assim mesmo&#8221;. Esse anestesista poderia ter citado outra passagem bíblica como &#8220;fundamento científico&#8221; de sua fala: &#8220;E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a dor da tua conceição; em dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará&#8221;. (Gn 3:16)</p>
<p>Entrevistei uma mãe que foi aconselhada a &#8220;reprimir a dor&#8221;: Karin afirmou que tinha sido alertada por outras mulheres a não gritar na sala de pré-parto, porque as enfermeiras não gostavam de mães que gritavam e agiam de forma agressiva. Ela afirma o tempo todo ter mordido o travesseiro, negando a dor para não receber maus tratos. Durante todo o processo do parto o medo a dominou. Afirmou ainda que na hora do parto o médico aconselhou-a a não gritar para que a criança não nascesse sem ar.<br />
Outra violência relatada por ela é que na sala de pré-parto onde estava com outras parturientes a conversa entre as enfermeiras se resumia a casos de morte de crianças no parto.</p>
<p>Já houve a época em que a mulher era a Deusa da fertilidade, da criação do mundo. Depois se instalou a concepção de um Deus (masculinizado), que criou primeiro o homem e a mulher a partir deste. Depois de comer o fruto proibido, foram expulsos do paraíso. &#8220;Agora parir é ato que não está mais ligado ao sagrado e é, antes uma vulnerabilidade do que uma força. A mulher se inferioriza pelo próprio ato de parir, que outrora lhe assegurava a grandeza&#8221;. (Muraro, 1991)</p>
<p>Por um lado, temos as mulheres de classe média, para as quais a dor do parto é insuportável e cujos genitais não suportariam a passagem dos seus filhos, sob risco de deformação irreparável; por outro, temos as mulheres de baixa renda, mais adequadas a suportar o sofrimento e o dano genital, reais ou supostos, e o seu reparo, a episiotomia.</p>
<p>A imagem que o discurso médico sugere é que, depois da passagem de um &#8220;falo&#8221; enorme &#8211; que seria o bebê &#8211; o pênis do parceiro seria proporcionalmente muito pequeno para estimular ou ser estimulado pela vagina. Isso poderia implicar numa autorização para que o homem procure uma mulher &#8220;menos usada&#8221; ou demande como alternativa o coito anal. (Diniz, 2006a)</p>
<p>Numa interpretação oposta do mesmo fenômeno, poder-se-ia descrever a mulher que escolhe a cesárea agendada como aquela vulnerável, mal informada, submetida aos desejos alheios &#8211; de profissionais, de maridos -, obediente a autoridades e capaz de qualquer sacrifício por amor, como se submeter à cesárea ou aceitar sem questionamentos a episiotomia para preservar sua desejabilidade sexual, preservando a vagina, no primeiro caso, ou permitindo seu corte e reparo no segundo (sem o qual, como vimos, diz-se que os maridos voltam ao serviço de saúde para reclamar). Essa não seria a mulher que adere a uma situação vantajosa para ela na negociação de poder social relativo à maternidade, mas a que confisca, que cede a sua integridade corporal e pessoal, iludida por um discurso que a deprecia e exige que se submeta a um ritual de mutilação, seja cortada &#8220;por cima ou por baixo&#8221;, como forma de se ver socialmente sancionada no papel de mater dolorosa moderna que escapou da dor. (Diniz, 2006b)</p>
<p>Questões culturais referentes à sexualidade humana desencadeiam procedimentos incorretos, violência desnecessária, relacionados a uma cultura de procedimento médico como &#8220;produção seriada de partos&#8221;. É preciso entender que não precisamos ser &#8220;passivas e coniventes&#8221;. Temos o direito e devemos lutar para que sejam cumpridos. Ter um filho necessariamente não precisa ser um ato de violência. Precisa, antes de qualquer coisa, ser um ato de amor.</p>
<p>Bibliografia<br />
CHEN, Juty. Ninguém está vendo o que está acontecendo? Disponível em: http://www.partodoprincipio.com.br/conteudo.php?src=assimnaoda&amp;ext=html. Acessado em 02/11/2006.</p>
<p>DINIZ, Simone Grilo. Campanha pela Abolição da Episiotomia de Rotina. Disponível em: http://www.mulheres.org.br/fiqueamigadela/episiotomia.html Acessado em 02/11/2006.(a)</p>
<p>________________. Humanização da assistência ao parto: um diálogo. Disponível em: www.mulheres.org.br/parto. Acessado em: 02/11/2006. (b)</p>
<p>FAÚNDES , Anibal. PERPÉTUO, Ignez Helena Oliva. Cesárea por conveniência e a ética médica. Disponível em: http://www.amigasdoparto.com.br/ac025.html. Acessado em 02/11/2006.</p>
<p>MURARO, Rose Marie. Breve Introdução Histórica.In: SPRENGER, James. KRAMER, Heinrich.O Martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991, 2a. ed.</p>
<p>STRINGUETO, Kátia. Mudança de hábito. Disponível em: http://www.unifesp.br/comunicacao/sp/ed07/reports1.htm . Acessado em: 02/11/2006.</p>
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		<title>Quais os limites da intervenção cirúrgica no parto?</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 15:35:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 66 a 70]]></category>
		<category><![CDATA[gravidez]]></category>
		<category><![CDATA[parto]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Géssica Hellmann</p>
<p>Este artigo traz uma reflexão sobre o que parece constituir falta de ética médica e a desinformação de parturientes sobre direitos, opções e riscos quanto a <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/quais-os-limites-da-intervencao-cirurgica-no-parto/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Géssica Hellmann</p>
<p>Este artigo traz uma reflexão sobre o que parece constituir falta de ética médica e a desinformação de parturientes sobre direitos, opções e riscos quanto a intervenções desnecessárias durante o parto. Como bibliografia principal, utilizei o ensaio para doutorado de Simone Grilo Diniz: &#8220;Humanização de assistência ao parto: um diálogo&#8221;. Como fontes secundárias, &#8220;Campanha pela abolição da episiotomia de rotina&#8221; também por Diniz, &#8220;Mudança de hábito&#8221; por Kátia Stringueto, &#8220;Ninguém está vendo o que está acontecendo&#8221; por Juty Chen, &#8220;Cesária por conveniência e a ética médica&#8221; por Aníbal Faúndes e Ignez Helena Oliva Perpétuo, &#8220;Breve Introdução Histórica&#8221; por Rose Marie Muraro ao livro Martelo das Feiticeiras.</p>
<p>Em 1979, foi criado na Europa um comitê regional para estudar os limites das intervenções propostas para reduzir a morbidade e a mortalidade peri-natal e materna naquele continente. Desde então, vários grupos de profissionais passam a se organizar para sistematizar os estudos de eficácia e segurança na assistência à gravidez, ao parto e pós-parto, iniciando um esforço que se estendeu mundialmente, apoiado pela Organização Mundial da Saúde, OMS. (Diniz, 2006b).</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 383px"><img title="Chanson Innocent por Nathan Florence" src="http://gehspace.com/edicao%2068%20imagens/Gravitas%20(M%20at%206%20months).jpg" alt="Chanson Innocent por Nathan Florence" width="373" height="500" /><p class="wp-caption-text">Chanson Innocent por Nathan Florence</p></div>
<p>A autora afirma que &#8220;O grupo que trabalhou as revisões sistemáticas sobre gravidez e parto foi o primeiro de centenas de outros grupos que se organizaram nos anos seguintes para levantar as evidência sobre a eficácia e a segurança de procedimentos em todas as especialidades médicas&#8221;.</p>
<p>Conceição de Oliveira Dias, mãe de meu marido, Alexei Gonçalves, em seu depoimento referente aos partos de seus dois filhos afirma ter sido obrigada a aceitar anestesia geral, porque segundo o seu médico: &#8220;A mulher atrapalha na hora do parto&#8221;. Teve a primeira filha, Dayse, no Rio de Janeiro, com procedimento de episiotomia. Em 1968, teve o segundo filho, Alexei e, segundo ela, o marido , sr. Nicolau Gonçalves de Oliveira, queria que ela fizesse o parto na cidade de Santo Antonio de Pádua, onde residiam. Ela não queria ter seu filho lá, porque muitas mulheres reclamavam de humilhações e violências. A frase que mais se escutava, segundo depoimentos das amigas e vizinhas era: &#8220;Na hora de fazer você gostou e agora agüenta!&#8221;. Durante a discussão com o seu marido, a resposta do senhor Nicolau teria sido: &#8220;Em que você é melhor que as outras mulheres desta cidade?&#8221;.</p>
<p>No primeiro parto, Conceição teve problemas de dilatação, estreitamento de bacia e, por este motivo, teve forças para lutar para ter seu segundo filho no Rio de Janeiro. Mas nem por este motivo ficou imune à violência. Além da anestesia geral, o parto foi feito com fórceps e episiotomia. Foram horas de sofrimento tanto para mãe quanto para o bebê.</p>
<p>Os estudos mostram que, quando a mulher está informada sobre as suas possibilidades de escolha no parto &#8211; aí incluídos o lugar de dar à luz, o profissional e demais pessoas que vão acompanhá-la e os procedimentos eletivos na assistência &#8211; este parto tem mais chance tanto de ser mais saudável para mãe e bebê quanto da mulher expressar maior satisfação com a experiência (Diniz, 2006b).</p>
<p>&#8220;Na prática, no Brasil como em outros países, esta, como outras recomendações, vem sendo sistematicamente desconsideradas &#8211; isto quando são conhecidas. Este é o caso de condutas como o monitoramento de bem-estar físico e emocional da mulher, a oferta oral de fluidos durante o trabalho de parto e parto, as técnicas não-invasivas e não farmacológicas de alívio da dor (como a massagem, o banho e o relaxamento); a liberdade de posição no trabalho de parto e parto, o encorajamento a posturas verticais, entre outras. Os procedimentos reconhecidamente danosos, ineficazes, e que deveriam ser eliminados, continuam a fazer parte do dia a dia da maioria dos serviços, como o uso da posição horizontal durante o trabalho de parto e parto; o uso de rotina do enema; da tricotomia; da infusão intravenosa; a administração de ocitocina para acelerar o trabalho de parto e os esforços expulsivos dirigidos durante o segundo estágio do trabalho de parto. Isto sem contar com a perigosa manobra de Kristeller, entre outros&#8221;. (Diniz, 2006b)</p>
<p>Para Faúndes e Perpétuo (2006) &#8220;A incerteza aumenta ainda mais ao comparar as mulheres que expressaram desejo de ter parto cesáreo com as que queriam parto vaginal. A metade das que queriam cesárea receberam francamente uma justificativa não-médica para marcar a cesárea: férias do médico, conveniência de horário, etc. Apenas 17% das que queriam parto vaginal receberam uma explicação igualmente franca. Para quase dois terços do grupo que desejava parto vaginal, foi dada uma razão &#8220;médica&#8221; que não justificava a conduta ou que era, no mínimo, duvidosa. Tudo indica, portanto, que a conduta franca de informar a paciente das verdadeiras razões para marcar uma cesárea e permitir que ela decida, se dá apenas em torno de um terço dos casos sem indicação real de cesárea eletiva, e que isso é três vezes mais provável quando a paciente já expressou o desejo pessoal de ter parto cesáreo. Quando a mulher expressa o desejo de um parto vaginal, a tendência é criar um motivo médico que seja aceitável pela paciente e pela família, o que constitui gravíssima transgressão ética&#8221;.</p>
<p>Diniz (2006b) afirma que &#8220;Para alguns autores (Gaskin, 2000; Davis-Floyd, 1997; Wagner, 2000), com os quais nos identificamos, por parto normal devemos entender o parto que ocorre conforme a fisiologia, sem intervenções desnecessárias nem seqüelas destas intervenções.&#8221; Um parto vaginal que sofre abordagem médico-cirúrgica e pelo modelo tecnocrático: &#8220;a mulher imobilizada ou semi-imobilizada, privada de alimentos e líquidos por via oral, usando de drogas para a indução ou aceleração do parto , com a mulher imobilizada e em posição de litotomia no período expulsivo, com eventual uso de fórceps, e com o uso de rotina episiotomia e episiorrafia&#8221;, ou seja, incluindo um conjunto de intervenções desnecessárias que vão deixar seqüelas físicas e um maior desgaste emocional da mulher com sua experiência, deveria se chamar de &#8220;parto típico&#8221;.</p>
<p>Um dos procedimentos que permanece sendo usado de rotina é a episiotomia, apesar de há muitos anos os abundantes dados disponíveis revelarem que esse procedimento não cumpre os objetivos que justificariam sua realização, sejam eles a prevenção de lesões nos genitais da mãe ou na cabeça do recém-nascido. Infelizmente, ela permanece na rotina de assistência em nossos serviços, implicando em centenas de milhares de lesões inúteis, arriscadas e potencialmente danosas sobre os genitais femininos.</p>
<p>Estudos recentes apontam um aumento no risco de trauma, infecções, hematoma e dor, além de maior tendência à incontinência urinária entre as parturientes que passaram pela cirurgia. &#8220;Não existe o efeito protetor que todos imaginávamos. Não é porque se fez episiotomia que a mulher não ficará com a vagina dilatada ou com a bexiga baixa&#8221;, diz Eduardo de Souza, chefe do centro obstétrico do Hospital São Paulo (Stringueto, 2006)</p>
<p>Segundo Diniz (2006b), nas palavras de um professor universitário que trabalha pela promoção da assistência perinatal baseada na evidência: &#8220;Como essa discussão democrática aqui, tem por trás a busca da cidadania, eu fico muito preocupado com as mulheres brasileiras, se eu fosse mulher eu já teria feito&#8230; sei lá, pegado em armas, porque é muita violência&#8230; porque ela vai para a maternidade, ou lhe fazem um corte na barriga, desnecessário na maioria das vezes, ou no períneo. De todo jeito alguém vai atacá-la com uma faca, então é preciso que isso seja melhor pensado, eu acho que é fundamental essa pressão da clientela para forçar o médico a tomar atitude de acordo com a melhor ciência existente (Athala, 1999).</p>
<p>&#8220;Poucas questões de saúde e de violência sexual tem a magnitude e a gravidade na vida das mulheres, e são tão preveníveis quanto a episiotomia. Além de seu potencial em reduzir o sofrimento das mulheres, a restrição do uso da episiotomia implicaria ainda em uma importante economia do setor saúde, preservando desse agravo milhões de mulheres por ano. Nas demais regiões do mundo, as evidências científicas levaram a uma gradual redução das episiotomias, enquanto na América Latina, há uma enorme resistência à mudança e a maioria dos serviços, públicos ou privados, mantêm uma taxa de episiotomia de mais de 90% nos partos vaginais.&#8221; (Diniz, 2006a).</p>
<p>&#8220;No caso brasileiro, a questão da episiotomia é marcadamente um problema de classe social e de raça: enquanto as mulheres brancas e de classe média que contam com o setor privado da saúde, em sua maioria serão &#8220;cortadas por cima&#8221; na epidemia de cesárea, as mulheres que dependem do SUS (mais de dois terços delas) serão &#8220;cortadas por baixo&#8221;, passarão pelo parto vaginal com episiotomia. Como as mulheres negras têm características diferentes em termos de cicatrização, pela maior tendência a formação de quelóides (cicatrizes tumoriformes mais comuns nos indivíduos de raça negra), acreditamos que estão mais sujeitas a complicações cicatriciais da episiotomia&#8221; (Diniz, 2006a).</p>
<p>Optar por um parto sem episiotomia traz dois benefícios relevantes: primeiro, não se faz o corte na mulher (que implica uso de anestesia e risco de infecção), e, segundo, mantém-se íntegra a musculatura perineal, já que nem sempre o obstetra consegue recompor o assoalho pélvico como antes, o que pode facilitar o afrouxamento da região e rebaixamento da bexiga, levando à incontinência urinária. Curioso é que, mesmo com todas essas vantagens, a maioria dos obstetras ainda realiza o procedimento como quem cumpre um ritual. Basta o parto demorar um pouco e pronto. Falta paciência e, pior, falta esclarecimento. (Stringueto 2006).</p>
<p>Fazer a criança nascer mais rápido não significa nascer melhor. Muitas mulheres sofrem esta violência sem saber de seus direitos.</p>
<p>&#8220;É essa consciência que se espera do médico. Abreviar o parto quando necessário, se o bebê está em sofrimento. Mas manter a integridade do corpo da mulher sempre que possível. O abuso da episiotomia remete a outra questão importante: como o parto é conduzido. Dar à luz na posição inclinada &#8211; e não deitada &#8211; facilita o nascimento e diminui a episio. Quanto ao medo de lesões, vale saber: &#8220;As lesões que se pode causar à mulher ao cortar-se o músculo perineal, entre a vagina e o ânus, são piores do que as pequenas lacerações&#8221;, diz a enfermeira obstetra Ana Cristina d&#8217;Andretta Tanaka, do Departamento de Saúde Materno Infantil da Faculdade de Saúde Pública da USP&#8221;. (Stringueto 2006)</p>
<p>Para Diniz (2006b), além dos vários mecanismos de pagamento diferenciado que fazem a cesárea mais rentável para serviços e profissionais, o estabelecimento de nova ordem de produção, marcada pela possibilidade da produção em série, potencializaria, sob a convicção da inocuidade da cesariana, o parto com hora marcada (Chiaravalloti &amp; Goldenberg, 1998).</p>
<p>Uma grande mudança em relação a humanização no parto tem sido o tratamento ao recém-nascido. Antigamente, ele sofria intervenções de rotina agressivas e perigosas, tais como o uso de drogas, luzes fortes e o aparelho de ar condicionado ligado, forçando o bebê a um choque térmico entre o ambiente intracorporal de cerca de 36 graus e o meio externo. O bebê tinha o cordão clampeado imediatamente, levando a uma supressão súbita de oxigênio e à respiração forçada e dolorosa, era pendurado pelos pés e não raramente, recebia um tapa para atestar sua vitalidade. Depois disso, era separado da mãe e levado por outros profissionais, e de rotina, mesmo que estivesse respirando perfeitamente, passava por uma &#8220;reanimação&#8221; que incluía uma sonda introduzida até o estômago, sofria ainda instilação de gotas profiláticas nos olhos que além de dolorosas, deixavam o recém-nascido com a visão nublada por várias horas ou dias.</p>
<p>Atualmente, em muitas maternidades, tem-se evitado a permanência desnecessária em berçários para bebês normais. Um dos recursos para a humanização da assistência ao recém-nascido, que tem sido incorporado em um número crescente de serviços por ser muito custo-efetivo, e recentemente contar com um apoio efetivo do Ministério da Saúde, é o programa Mãe Canguru, sobre qual trataremos no próximo artigo.</p>
<p>(continua&#8230;)</p>
<p>Bibliografia<br />
CHEN, Juty. Ninguém está vendo o que está acontecendo? Disponível em: http://www.partodoprincipio.com.br/conteudo.php?src=assimnaoda&#038;ext=html . Acessado em 02/11/2006.</p>
<p>DINIZ, Simone Grilo. Campanha pela Abolição da Episiotomia de Rotina. Disponível em: http://www.mulheres.org.br/fiqueamigadela/episiotomia.html Acessado em 02/11/2006.(a)</p>
<p>DINIZ, Simone Grilo. Humanização da assistência ao parto: um diálogo. Disponível em: www.mulheres.org.br/parto . Acessado em: 02/11/2006. (b)</p>
<p>FAÚNDES , Anibal. PERPÉTUO, Ignez Helena Oliva. Cesárea por conveniência e a ética médica. Disponível em: http://www.amigasdoparto.com.br/ac025.html . Acessado em 02/11/2006.</p>
<p>MURARO, Rose Marie. Breve Introdução Histórica. In: SPRENGER, James. KRAMER, Heinrich.O Martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991, 2a. ed.</p>
<p>STRINGUETO, Kátia. Mudança de hábito. Disponível em: http://www.unifesp.br/comunicacao/sp/ed07/reports1.htm . Acessado em: 02/11/2006.</p>
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		<title>Violência de gênero</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Dec 2008 17:19:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 51 a 55]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Géssica Hellmann</p>
<p>A violência de gênero é a que mais prejudica a qualidade de vida das mulheres, gerando insegurança e vários danos, tanto físicos quanto emocionais. Barsted (2006), <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/09/violencia-de-genero/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Géssica Hellmann</p>
<p>A violência de gênero é a que mais prejudica a qualidade de vida das mulheres, gerando insegurança e vários danos, tanto físicos quanto emocionais. Barsted (2006), afirma que apesar dos esforços dos movimentos e dos diversos tratados das Nações Unidas sobre o combate à violência de gênero, a violência ainda persiste e se manifesta sob as mais diversas formas.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 301px"><img title="Vulnerable por Yvonne Goldberg" src="http://www.gehspace.com/edicao%2053%20imagens/Vulnerable%20-%20yvonne%20goldberg%20oil%20canvas.jpg" alt="Vulnerable por Yvonne Goldberg" width="291" height="440" /><p class="wp-caption-text">Vulnerable por Yvonne Goldberg</p></div>
<p>&#8220;No caso específico de crime sexual, as mulheres agredidas são rapidamente transformadas em rés. A mensagem dominante na sociedade e, com uma certa constância assimilada pelas/pelos policiais, reforça a idéia de que a violência sexual e, sobretudo, o estupro é crime em que a vítima deve provar que não é culpada, além do fato de ter que exibir marcas físicas e comprovar, portanto, que em nada contribuiu para a o delito. Assim, grande parte das vezes, a mulher, mesmo ferida, humilhada, atemorizada, insegura e envergonhada acaba por arrastar interminavelmente a violência sofrida pelas unidades policiais, pelos serviços de saúde e pelo poder judiciário, como desaguadouros, agregando à sua dor outros tipos de desrespeito, vergonha e violência&#8221; (ALMEIDA, 2006).</p>
<p>Bunch (1991) chama a atenção para a banalização desse fenômeno, registrando que &#8220;parte importante da população do planeta está rotineiramente sujeita a tortura, humilhação, mutilação, inclusive assassinato, simplesmente por ser mulher &#8211; crimes que seriam reconhecidos como uma emergência civil ou política se fossem cometidos contra outro grupo humano. De fato, a ocorrência cotidiana desses atos tem o poder de ofuscar a visibilidade do problema e de descriminalizá-lo no imaginário social e até mesmo no imaginário das mulheres&#8221; (BARSTED, 2006).</p>
<p>Os crimes de violência de gênero diferem entre homens e mulheres. Grande parte das mulheres sofrem violência dentro da própria casa. Já os homens sofrem mais violência fora do ambiente familiar.</p>
<p>Nos casos de homicídio de mulheres, os dados mostram que os companheiros são os autores dos crimes entre 70 a 80% dos casos (VIOLÊNCIA, 2006).</p>
<p>Infelizmente a violência de gênero é uma triste realidade mundial. É preciso continuar bravamente a repudiar esse tipo de crime de ódio. Preconceito e desrespeito ao ser feminino ainda existe.</p>
<p>BARSTED (2006) afirma que um estudo estimou que, a cada 15 segundos, uma mulher é espancada por um homem no Brasil. Um terço das mulheres (33%) admitiu já ter sido vítima, em algum momento da vida, de alguma forma de violência física; 24% relataram ter sofrido ameaças com armas; 22% falaram de agressões propriamente ditas e 13%, de estupro conjugal ou abuso. Constatou-se também que, antes e após os 12 anos de idade, as agressões foram, em sua maioria, praticadas por familiares (74%), conhecidos (16%) e apenas uma minoria (10%) por estranhos (10%). Ao analisar os agressores da violência sexual antes dos 12 anos, os familiares responderam por 76% dos casos.</p>
<p>Problemas como o desemprego, o alcoolismo, a pobreza e a miséria estão por trás de muitos casos de violência doméstica contra meninos e meninas. Inúmeros estudos mostram, por exemplo, que o alcoolismo está intimamente ligado aos episódios de violência doméstica contra a mulher, a criança e o adolescente.</p>
<p>Conforme explica a psicóloga Maria Luíza Aboim, &#8220;a violência doméstica é uma epidemia que contamina todo o tecido familiar. Estatísticas mostram que homens que espancam suas parceiras também são violentos com as crianças dentro de casa&#8221;. (COMO, 2006)</p>
<p>Cionek (2006), afirma que &#8220;As conseqüências da violência doméstica podem ser muito sérias, pois crianças e adolescentes aprendem com cada situação que vivenciam, seu psicológico é condicionado pelo social e o primeiro grupo social que a criança e adolescente tem contato é a família. O meio familiar ainda é considerado um espaço privilegiado para o desenvolvimento físico, mental e psicológico de seus membros um lugar &#8216;sagrado&#8217; e desprovido de conflitos&#8221;.</p>
<p>A violência pode ser tanto física, quanto sexual ou psicológica. Todas causam graves danos à vítima, podendo até destruir a sua auto-estima. &#8220;No meio desse emaranhado de sentimentos, com muita freqüência, a mulher agredida passa a acreditar que, de alguma forma, contribuiu para a violência por ela sofrida&#8221; (AGENDE, 2006).</p>
<p>Existem ainda outros tipos de violência, como o tráfico de mulheres e a prostituição forçada. Sobre este assunto pretendo me aprofundar mais adiante em outro artigo.</p>
<p>Como possíveis conseqüências físicas naa vítimas de violência podemos citar: doenças sexualmente transmissíveis; ferimentos, escoriações, hematomas, fraturas recorrentes; problemas ginecológicos, corrimentos, infecções, dor pélvica crônica; doença Inflamatória pélvica; gravidez indesejada, abortamento espontâneo; asma, síndrome do colo irritável; maior exposição a comportamentos danosos à saúde: sexo inseguro, abuso de álcool e drogas, prostituição, entre outras. Já como conseqüências psicológicas podemos citar: estresse pós-traumático, depressão, ansiedade, disfunção sexual, desordens alimentares, comportamentos obsessivo-compulsivos. Ou em pior hipótese a morte.</p>
<p>&#8220;A violência contra a mulher tem outra feição, na maioria das vezes o episódio agudo e mais grave da violência é o fim de linha de uma situação crônica, insidiosa, que aos poucos foi desmontando as defesas das vítimas até deixá-la completamente à mercê do agressor, sem condições até de pedir ajuda. A violência nas relações de casal, nas relações afetivas, íntimas, no interior das famílias, expressa dinâmicas de afeto/poder, nas quais estão presentes relações de subordinação e dominação. E no contexto atual, na maioria das vezes, a mulher ainda está em posição desfavorável&#8221; (VIOLÊNCIA, 2006).</p>
<p>Geralmente, no caso de violência doméstica, inicia-se com a agressão verbal, depois com ameaças e, por fim, parte-se para a agressão física. Em entrevista exclusiva, Maria, 52 anos, vítima de violência doméstica, nos disse que &#8220;Ele chegava embriagado, quase todos os dias, não se controlava, fazia agressões verbais, me cobrando sobre as coisas que ele me dava&#8221;. Depois começou com ameaças: &#8220;A primeira vez que demonstrou violência, foi quando me empurrou contra parede. Ele só demonstrava violência quando estava embriagado, me agredia verbalmente, cobrando as coisas boas que tinha feito pra mim. Ameaçava que dormiria com uma faca para me matar, mas nunca o fez&#8221;. Finalmente, partiu para a violência física &#8220;Foi na noite em que ele chegou embriagado e me bateu. Foi terrível a pior noite da minha vida. Era um pesadelo sem fim&#8221;.</p>
<p>&#8220;De modo sintomático, uma vez que a violência contra as mulheres é pouco denunciada e pouco reconhecida como um importante problema público no mundo, os dados a respeito são raríssimos e os que existem são subnotificados.&#8221; (AGENDE, 2006)</p>
<p>Segundo Barsted (2006) &#8220;A ação do movimento de mulheres brasileiras no enfrentamento da violência doméstica e sexual, de forma mais sistemática, data do final da década de 1970, quando as feministas tiveram participação ativa no desmonte da famosa tese da &#8216;legítima defesa da honra&#8217;. Foi, portanto, no campo do Poder Judiciário a primeira manifestação organizada contra uma expressão cultural tradicionalmente utilizada com êxito pela defesa de homens que assassinavam a mulher&#8221;.</p>
<p>Sabe-se que muitos avanços já foram alcançados para garantir um atendimento qualificado as mulheres vítimas de violência. Mas sabe-se também que ainda hoje em muitos lugares as mulheres continuam sendo discriminadas, marginalizadas e envergonhadas pelo fato de serem mulheres. É preciso entender que existe infelizmente na cultura brasileira, uma discriminação, um enorme preconceito enraizado contra mulheres agredidas, principalmente por seus companheiros, transformando-as, muitas vezes, de vítimas em rés. Preconceitos esses que, muitas vezes, orientam as práticas dos profissionais responsáveis pelo atendimento aos casos de violência de gênero.</p>
<p>É imprescindível o treinamento qualificado e o acompanhamento contínuo destes profissionais para a garantir a qualidade deste atendimento. É preciso continuar constantemente esta luta, incentivando a denúncia, para que os criminosos não saiam impunes.</p>
<p>Bibliografia</p>
<p>Agende Ações em Gênero Cidadania e Desenvolvimento Violência contra as mulheres: a experiência de capacitação das DEAMs da Região Centro-Oeste/Agende; organizado por Lourdes Bandeira, Tânia Mara Campos de Almeida e Andrea Mesquita.&#8211; Brasília, 2004.</p>
<p>ALMEIDA, Tânia Mara Campos de. BANDEIRA, Lourdes.Políticas públicas e violência de gênero: uma discussão com base na rotina das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) da região Centro-Oeste. In Agende Ações em Gênero Cidadania e Desenvolvimento Violência contra as mulheres: a experiência de capacitação das DEAMs da Região Centro-Oeste/Agende; organizado por Lourdes Bandeira, Tânia Mara Campos de Almeida e Andrea Mesquita.&#8211; Brasília, 2004.</p>
<p>BARSTED, Leila Linhares. O Progresso das Mulheres no Brasil &#8211; A violência contra as mulheres no Brasil e a Convenção de Belém do Pará dez anos depois.</p>
<p>CIONEK, Maria Inês Gonçalves Dias. ROSAS,Fabiane Klazura. O impacto da violência doméstica contra crianças e adolescentes na vida e na aprendizagem. Conhecimento Interativo, São José dos Pinhais, PR, v. 2, n. 1, p. 10-15, jan./jun. 2006</p>
<p>Como a violência doméstica afeta as crianças? Disponível em:  http://copodeleite.rits.org.br/apc-aa-patriciagalvao/home/index.shtml. Acessado em: 21/07/06.</p>
<p>Violência de gênero e saúde da mulher. Disponível em: http://www.ipas.org.br/rhamas/violenciagen.html. Acessado em: 21/07/2006.</p>
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		<title>Aqui não tem receita de Tesão de Vaca!</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Dec 2008 15:53:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 46 a 50]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Géssica Hellmann</p>
<p>Não sei quanto a vocês mas, nascida no sul deste Brasil, eu já tinha escutado por alto a lenda extraordinária do miraculoso &#8220;Tesão de Vaca&#8221;. A <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/09/aqui-nao-tem-receita-de-tesao-de-vaca/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Géssica Hellmann</em></p>
<p>Não sei quanto a vocês mas, nascida no sul deste Brasil, eu já tinha escutado por alto a lenda extraordinária do miraculoso &#8220;Tesão de Vaca&#8221;. A lenda conta que, ao ingerir esse medicamento de uso veterinário diluído nas bebidas das mulheres, ele faz com que elas sintam vontade de fazer sexo desesperadamente com o primeiro que aparecer.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 460px"><img title="My dear cow (1991) por Tatiana Iu Ianovskaia" src="http://www.gehspace.com/edicao%2047%20imagens/IANOVSKAIA%20Tatiana%20Iu.%20%20%20-%20my%20dear%20cow%201991.jpg" alt="My dear cow (1991) por Tatiana Iu Ianovskaia" width="450" height="334" /><p class="wp-caption-text">My dear cow (1991) por Tatiana Iu Ianovskaia</p></div>
<p>Assunto esse sempre circulando entre jovens mancebos, principalmente em cidades do interior, como se fosse a grande descoberta da humanidade. Como conseguir transar com aquela garota que não te dá mole?</p>
<p>Em uma das mesas-redondas lideradas pela co-editora Lívia Santana, um dos participantes fez a seguinte indagação:&#8221;Vocês conhecem &#8220;tesão de vaca&#8221;? Tesão de vaca é um produto afrodisíaco lendário, que é vendido no mercado negro dos Sex Shops&#8230; Tira as meninas do sério. É o que esses &#8220;garotões&#8221; usam pra dopar as garotas. O problema é que tem efeitos colaterais: náusea, dores de cabeça, desorientação etc&#8221;.</p>
<p>Curiosamente, a expressão &#8220;Tesão de Vaca&#8221; tem liderado nos últimos meses, segundo nossos relatórios de audiência, as palavras-chaves em sites de busca que conduzem ao nosso site. Pessoas procurando saber onde comprar o produto e quanto diluir nas bebidas das mulheres&#8230; Isso não é um verdadeiro absurdo? Quem ainda acredita nesta lenda?</p>
<p>Além de um grande absurdo, é uma grande irresponsabilidade. Primeiro: aos desavisados, a libido humana, segundo a ginecologista Dra. Kátia Davy Bello, é provocada, em sua maior parte pelo emocional e uma pequena porcentagem pelo fator hormonal. Ou seja, se o emocional não estiver bem, não existe remédio que aumente a libido e o apetite sexual. A Dra. Kátia afirma que, quando é procurada por pacientes procurando soluções para aumentar a libido, não indica remédio algum.</p>
<p>Os medicamentos popularmente conhecidos como &#8220;Tesão de Vaca&#8221; são produtos de uso exclusivamente veterinário, como, por exemplo, compostos de cloprostenol, um indutor de cio. Débora Poplawski, coordenadora de atendimento técnico e farmacovigilância do laboratório Schering-Plough, disse que &#8220;Conhecendo as fases do ciclo estral de uma fêmea, é possível se programar para reduzir o período de tempo em que o animal levaria para entrar em cio novamente, portanto o produto &#8220;não dá tesão&#8221; e sim, apenas antecipa uma fase do ciclo estral.&#8221;</p>
<p>A Dra. Poplawski alerta ainda que o produto é absorvido através da pele. Portanto não se recomenda que mulheres grávidas, pessoas asmáticas e pessoas com problemas bronquiais ou qualquer outro tipo de problema respiratório manipulem este produto. Quando acidentalmente ocorrer a exposição ao produto ou contato com a pele, deverá lavar imediatamente o local com abundante água e sabão. Em caso de broncoespasmo, deverá se administrar imediatamente um broncodilatador de ação rápida como a Isoprenalina o salbutamol por inalação.</p>
<p>Existem outros medicamentos indutores de cio bovino compostos principalmente por prostaglandina (PGF2µ) e progesterona (P4), associados ou não. Segundo o Dr. Amaury Mendes Júnior, sexólogo, &#8220;em minha clínica de sexualidade, ou nas aulas que ministro, ainda não atendi ninguém que tivesse usado tais substâncias para estimulo sexual, o que na verdade causaria dor uterina pela ação da prostaglandina, inchação e retenção liquida pela ação do progesterona, podendo até alterar o fluxo menstrual. Acredito que, pela dosagem usada nos animais, se forem as mesmas usadas pelas pessoas desinformadas, as reações colaterais possam ser inúmeras, além das citadas: náuseas, desconforto gástrico, ansiedade, inchação das mamas e dor muita dor, podendo até provocar aborto em caso de gravidez pelas contrações excessivas.&#8221;</p>
<p>Segundo o psiquiatra Dr. Luiz Alberto Py, a analogia que podemos fazer com pessoas que administram uma substância sem o consentimento da vítima com a finalidade de forçá-la a fazer sexo, seria com o crime de estupro.</p>
<p>Lenda ou não, o fato de existir tanta demanda por esse &#8220;produto milagroso&#8221; abre as portas para o risco de que se estabeleça um mercado negro para tráfico deste tipo de produto. Segundo a médica veterinária Dra. Tatiana Pinheiro França, um outro caso de administração de medicamentos de uso veterinário irresponsavelmente em seres humanos é o &#8220;Boa Noite Cinderela (BNC)&#8221;. Como os remédios indutores de sono e sedativos de uso humano são de mais difícil acesso, os criminosos costumam apelar para os de uso veterinário. Na experiência do Dr. Luiz Alberto Py, porém, o uso de BNC&#8217;s está mais ligado a crimes de assalto e seqüestro do que de estupros, rejeitando, por esse motivo, a analogia com o &#8220;tesão de vaca&#8221;.</p>
<p>O que me impressiona na verdade é a intenção de crime e a total falta de moralidade. Caso o remédio fizesse o efeito desejado, o fato de supostamente a vítima sentir a urgência de fazer sexo isentaria o indivíduo de culpa?</p>
<p>Sabendo que os efeitos colaterais são extremamente perigosos e pondo em risco a própria vida da vítima, a advogada Dra. Ariadna Garibaldi avalia que &#8220;dependendo das provas que se tenha em mãos, ainda é tentativa de estupro,confome o Código que define o crime de estupro no art. 213 (&#8220;Constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça: Pena – reclusão, de 6 a 10 anos&#8221;), denominado de estupro simples. No art. 223 (&#8220;Se da violência resulta lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão, de 8 a 12 anos) e no parágrafo único, do mesmo artigo (&#8220;Se do fato resulta morte: Pena – reclusão, de 12 a 25 anos), estão previstos os estupros qualificados. Por fim, existe ainda o estupro presumido, previsto no art. 224 (&#8220;Presume-se a violência, se a vítima: a) &#8211; não é maior de 14 anos; b) &#8211; é alienada ou débil mental, e o agente conhecia esta circunstância; c) &#8211; não pode, por qualquer outra causa, oferecer resistência&#8221;).</p>
<p>Faço agora outra pergunta ao sexo masculino: como está a auto-estima de vocês? Anda tão baixa assim que precisa de um estimulo desse tipo? Faço minhas as palavras ditas pela Dra. Kátia Davy Bello: &#8220;Precisar recorrer a esse tipo de expediente para transar com uma mulher é o cúmulo da incopetência&#8221;.</p>
<p>Brincadeiras à parte, repito o que disse no título: aqui não tem receita de tesão de vaca! Mas para não desanimar aos que vieram em busca desta informação, abaixo vai uma outra receita de Vaca que é um verdadeiro tesão e sua namorada vai adorar:</p>
<p><strong>Vaca Preta</strong><br />
<strong>1 bola de sorvete de chocolate<br />
1 bola de sorvete de morango<br />
1 bola de sorvete de creme<br />
290ml de coca-cola</strong></p>
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