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	<title>Sexualidade by géh &#187; sexualidade</title>
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	<description>Sexualidade: artigos de pesquisa e entrevistas</description>
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		<title>Como reagi ao diagnóstico positivo (parte II)</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 20:11:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Naquele momento autorizaria até minha decapitação. Rapidamente fui garroteado e o sangue colhido, e fui encaminhado para a internação. Passou-se um <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/como-reagi-ao-diagnostico-positivo-parte-ii/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza<br />
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Naquele momento autorizaria até minha decapitação. Rapidamente fui garroteado e o sangue colhido, e fui encaminhado para a internação. Passou-se um tempo até que eu acordasse de verdade, e me recordo de uma enfermeira que me dava café da manha com uma seringa de injeção (lágrimas) dizendo que se eu não comesse (muitas lágrimas) eu não ia “sarar”.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img title="Loneliness por Ali Hammoud" src="http://gehspace.com/edicao%20110%20imagens/Loneliness-ali%20hammoud.jpg" alt="Loneliness por Ali Hammoud" width="400" height="320" /><p class="wp-caption-text">Loneliness por Ali Hammoud</p></div>
<p>Já faz tanto tempo isso, e na época tudo era tão diáfano. Mas consigo me recordar de seu rosto. No dia da alta, minha médica, doutora Guadalupe me chamou a sua sala e me disse assim, à queima roupa: “ Cláudio, preciso que você vá ao CRTA para fazer um exame confirmatório para o HIV, pois seu primeiro exame deu positivo. Eu, em choque, disse a seguinte pérola:</p>
<p>“-Tudo bem, eu já vivi bastante mesmo&#8230;”</p>
<p>Doutora Guadalupe então começou a falar que a AIDS não era mais uma sentença de morte, que a ciência tinha avançado muito e que&#8230; Mas eu já não podia não podia ouvi-la. O medo me arrastara para outras dimensões e lá, eu encontrei a culpa. Eu matei Verônica, pensei. Não me passou pela cabeça que eu poderia ter contraído de Verônica. Só entendia tê-la matado e a culpa por isso era avassaladora. Pensei em suicídio. Mas uma voz em mim disse-me que tivesse, ao menos, a decência de suportar as conseqüências de meus atos com dignidade. Isso realmente me deteve&#8230; Não sei como, mas cheguei ao centro de referência, que ficava na rua Antônio Carlos; cheguei lá visivelmente consternado. Tive de assistir uma palestra de quase uma hora, uma angustiante hora até fazer o exame. Pensei que o resultado saísse na hora.</p>
<p>Quinze dias. Foi aí que começou meu sofrimento. Sentindo-me culpado pela própria doença, envergonhei-me dela. Envergonhado, não consegui pedir ajuda para ninguém.</p>
<p>Voltando às boates onde eu trabalhara, descobri que corria á boca miúda que eu morrera, e morrera de AIDS; isso se deu porque foi bem prolongada a minha permanência no hospital.</p>
<p>Na noite, um boato se transforma em verdade em menos de uma hora. E quando eu cheguei, quarenta quilos mais magro, confirmou-se que eu tinha AIDS. Estava vivo, mas tinha AIDS. Fui enxotado da Rua Bento Freitas como um cão sarnento e uma das coisas que me lembro ter ouvido foi, some daqui lixo aidético (&#8230;) Fui ao hotel onde eu morava e, naturalmente, meu quarto fora desocupado. O dono do hotel me devolveu minhas coisas sem me cobrar as diárias e eu passei a perambular pelas ruas com uma mala pesadíssima de roupas, sem saber o que fazer. Tudo o que eu tinha na mente era que em poucos meses eu morreria, eu secaria como uma samambaia num xaxim abandonado, morte lenta, angustiante e dolorosa, eu nada sabia sobre a AIDS.</p>
<p>Eu sentia que as pessoas, nas ruas de São Paulo, ao olharem para mim, percebiam que eu tinha HIV. Isso criou uma sensação de paranóia, como se eu pudesse ser “denunciado” a qualquer momento. Enfim lembrei-me de uma gerente de uma casa GLBT em que trabalhei e que ela era envolvida nestas causas, na causa de apoio a portadores de HIV e me ocorreu procurá-la, mas isso só poderia ser feito na quarta feira, pois a casa em que trabalháramos juntos só abria de quarta a domingo.</p>
<p>Não lhe porei nome, ela me recebeu, me ouviu, enxugou minhas lágrimas e disse que havia uma solução. Pediu-me alguns minutos, mandou servissem-me um lanche e foi dar um telefonema. Voltou com o sorriso que lhe era natural e disse–me que fosse até a rua tal, número Y que havia um leito à minha espera, mas que eu fosse rápido.</p>
<p>Assim consegui uma vaga numa casa de apoio, que pode não ser a melhor alternativa, mas era tudo o que me restava. Era um bom lugar. Cinco refeições por dia, roupa lavada, TV a cabo, todo o conforto que alguém pode desejar. Mas as saídas para a rua só eram permitidas aos sábados ou nos dias de consulta. De certa forma, era uma prisão. Tirem-me tudo, pois tudo eu posso recuperar, mas não me tirem a liberdade, eu vos imploro. Mesmo assim dei graças a Deus quando tive assegurada a minha permanência ali, pois de uma forma ou de outra, eu me conheço, eu encontraria meios de me reerguer. E enquanto isso, eu me alimentava, recuperava peso, ganhava forças, preparava o espírito.</p>
<p>Mas tinha um problema: Verônica. Eu pensava que se eu tinha possibilidades de tratamento, era justo que ela tivesse também, em se confirmando o diagnóstico positivo&#8230; Para isso, eu tinha de contar a ela.<br />
Mas como? Como é que você olha nos olhos de sua ex e diz: Verônica, você precisa fazer um exame para HIV. O meu deu positivo.</p>
<p>É a certeza de uma tempestade e o mais reservado dos locais não poderá esconder o escândalo, o dramático escândalo. Como era fim de ano deliberei que deixaria ela ter um natal tranqüilo, ninguém tem o direito de estragar o natal de alguém assim.</p>
<p>Seriam cerca de 50 dias de agonia e, se houve natais em que senti-me só, nenhum deles foi povoado por tantas lágrimas, fantasmas e medos como aquele, Verônica, me perdõe. Passou o natal, passou o ano novo chegou o dia de reis e eu não tomava coragem de fazer o que tinha de ser feito.</p>
<p>Mas tinha de ser feito e um amigo fez por mim. Conta-me ele que a reação dela foi tão avassaladora que um segundo depois de ter dito ele já estava arrependido. Ela disse que não faria exame, que se fizesse e desse positivo ela não ia se cuidar, desfiou o rosário do desespero. Fez o exame e deu negativo. Diz-se que ela fez mais de dez exames até o responsável pelo laboratório se recusar a fazer outros, dizendo que, “se não deu positivo até agora, não vai mais dar”.</p>
<p>Eu soube por telefone que o exame dela deu negativo, foi num sábado e toda a tensão acumulada em mais de cinqüenta dias explodiu, e eu comecei a chorar. Um choro convulso, de criança, que durou por todo o sábado (eu adormecia e acordava chorando) até o fim do domingo.</p>
<p>Mas, mas para que se diga toda a verdade e que o homem se mostre como ele é, faz-se preciso dizer que, embora houvesse um grande alívio por minha parte por ela não ter contraído HIV, uma parte de mim lamentava o fato, pois tinha ciência que tal circunstância abria um abismo de proporções cósmicas entre nós, que eu jamais a veria e jamais a teria em meus braços novamente.</p>
<p>Sou apenas um homem, tenho tendências egoísticas , como qualquer um de vós, que me ledes. Perdoai minha fraqueza de caráter. “A gente, por amor, põe a mão em cumbuca&#8230;”</p>
<p>Na casa de apoio as coisas iam mais ou menos no esquema de hospital prisão, até que me pediram para fazer um serviço: Acompanhar um doente ao hospital. Eu aceitei. Era uma possibilidade de sair à rua, ver gente e ser útil. O paciente chamava-se Walter* e estava pesando pouco mais que trinta quilos.</p>
<p>Minha missão era levá-lo até o hospital e acompanhá-lo, velar por ele enquanto ele estivesse lá. Walter não dava trabalho nenhum. Eu só tinha de lhe dar água, comida, trocar suas fraldas (aprendi muito em matéria de humildade, tocar num pênis que não o meu não me fez menos homem).</p>
<p>E sobrava-me tempo para visitar os doentes dos outros quartos e, assim, ter o privilégio de servir mais. Depois de algum tempo as enfermeiras confiavam em mim, me davam tarefas, me ensinavam procedimentos de segurança e tudo o que fosse útil à minha proteção. Acabei fazendo parte, tacitamente, do corpo de voluntários do hospital, sem nunca descuidar do Walter.</p>
<p>Numa manhã, por volta das 8h30m ouvi o choro de uma moça e corri para lá. Era um problema que hoje eu conheço bem: Depois de anos levando picadas nas veias (em dez anos creio ter tomado mais de 4500), elas ficam difíceis de serem acessadas e o trabalho de alcançar uma delas era particularmente doloroso.<br />
Corri ao lado da moça e perguntei o que ela tinha. Ela: “- Me ajuda, ta doendo&#8230;”</p>
<p>Eu a abracei e disse calma, relaxa, ó, tem um homem grande e bonito ao seu lado (delírios de narcisista) e você não pode chorar na frente dele. Ela relaxou e, Acréscimo de Misericórdia Divina, ficou mais fácil achar a veia. E eu passei a ter um compromisso com aquela moça e todos os dias, ás 8h30m eu estava lá, a postos, para ajudá-la a receber remédios.</p>
<p>Walter é que não melhorava, ao contrário, piorava. Durante três meses eu vivi na ilusão que poderia ajudar aquele homem a se reerguer, retomar a vida e vivê-la em sua plenitude. Mas todo este trabalho, que se constituía em lhe dar banho, alimentá-lo, trocar suas fraldas era um trabalho estafante e me deram uma “folga”, um final de semana inteiro para eu ir onde quisesse. Eu fui. E quando voltei na segunda feira cheguei perguntando por ele, quando uma daquelas dementadas de lá me disseram que ele estava nas últimas, que “até as coisas dele já tinham sido divididas”.</p>
<p>Corri para o CRTA. Quarto andar, internação. Quis entrar e o segurança me deteve. Chamei a médica de plantão e ela me negou a visita. Entrei à viva força. Deparei-me com uma das visões mais tristes de minha vida. Aquele homem não me via mais, sua atenção estava voltada para outra esfera onde eu não tinha o menor significado. Depois de ter entrado à viva força entendi o porquê de tentarem me deter. Ninguém me puniu. Minha dor me bastava.</p>
<p>Cuidei de seu funeral, simples, e a cada pá de terra que caía surdamente sobre o sarcófago de papelão, frágil como a própria vida, mais certeza eu tinha que não faria o menor sentido se tudo acabasse ali, tinha, tem, de haver um propósito maior para tanto sofrimento, inaceitável que acabe tudo sob um amontoado de terra.<br />
Depois disso seria impossível voltar a ser prisioneiro da casa de apoio e eu preferi as ruas a ficar lá.</p>
<p>Como me levantei já é outro processo, que não vou contar aqui, pois não faz parte do ponto; mas me levantei e acredito que qualquer um se levantaria. Não é um simples vírus que vai me derrotar, se toda a sociedade, agindo veladamente e em conjunto não o conseguiu. É certo que morrerei um dia, mas de vós que me ledes, não creio haveis de escapar ao menos um.</p>
<p>Anos depois percebi que havia uma grande falta de informações na Internet sobre HIV. Então me decidi a criar um site e por nele tudo o que eu pudesse encontrar sobre a AIDS. Eu pesquisei, traduzi, aprendi HTML, depois ASP, procurei, eu mesmo, compreender melhor a doença, a aceitá-la melhor, para amparar outras pessoas que me procuram em momentos de medo e de dúvida, enfim, eu me coloquei á disposição.</p>
<p>Não recebo amparo ou suporte material de quem quer que seja e vivo com recursos pífios e inconstantes. Mas até aqui Deus tem sido pródigo comigo e nada me tem faltado. Foi assim, então, que reagi ao HIV.<br />
Com medos, com dúvidas, com vergonhas, com culpas. Mas durante todo o processo era clara a minha opção pela vida e eu sobrevivi, Deus sabe como, eu sobrevivi!</p>
<p>Se morrer amanha, sei que terei dado o melhor de mim e partirei da Terra com certa tristeza (amo este planetóide) mas com a consciência em paz relativa. Mas acho que não terminei de reagir ao diagnóstico positivo para AIDS. Eu continuo reagindo todos os dias e estarei a reagir por todos os dias, enquanto me houver forças.</p>
<p>Escolhi o computador como meio de trabalho e expressão baseado no seguinte raciocínio: “Enquanto eu tiver um braço, um olho que funcione e um cérebro, poderei ir em frente”. E foi assim que sobrevivi a uma embolia pulmonar, um enfarto e mais três meningites. No caminho houve perdas amorosas, algumas por conta do preconceito, outras porque eu sou mesmo um caso perdido.</p>
<p>Hoje estou casado, e a minha esposa é a maior Mulher que encontrei na vida; também ela, é soropositiva, mas nos já nos conhecemos assim, pela Internet. Em suma eu fiz uma opção pela vida e pedi muito a Deus que me permita ser útil, peço o tempo que for possível, que meus méritos de hoje possam representar algumas horas a mais no futuro, pois eu preciso continuar reagindo à sorologia positiva para HIV, ajudando outras pessoas, que são surpreendidas e que não sabem a quem procurar; é comum que deus as mande para mim.<br />
Espero que meu site, www.soropositivo.org possa ser útil a você que me lê, com já foi para quase um milhão e meio de pessoas.</p>
<p>E espero também que www.amorpositivo.eti.br também possa ser um pólo de reunião de pessoas vivendo com HIV e outras que não vivem com HIV, e que de lá nasçam namoros, noivados, casamentos, filhos, famílias.<br />
Se este site que estou acabando de por no ar gerar uma só família, eu terei pago muitos, mas muitos de meus pecados. Milito em causa própria, pode ser, mas os resultados são bons para todos.</p>
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		<title>Como reagi ao diagnóstico positivo (parte I)</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 20:07:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Quando fundei a comunidade Soropositividade e Sexualidade sabia que estava começando a lidar com um assunto complexo. Sexo é complexo até <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/como-reagi-ao-diagnostico-positivo-parte-i/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza<br />
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Quando fundei a comunidade Soropositividade e Sexualidade sabia que estava começando a lidar com um assunto complexo. Sexo é complexo até entre duas pulgas. A primeira pergunta que lancei foi a seguinte: O exame está feito. Deu positivo. O que você faria?</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 376px"><img title="Loneliness por Sergei Chepik" src="http://gehspace.com/edicao%20109%20imagens/loneliness-sergei%20chepik.jpg" alt="Loneliness por Sergei Chepik" width="366" height="466" /><p class="wp-caption-text">Loneliness por Sergei Chepik</p></div>
<p>Chovi no molhado. A maioria ali é soropositiva e já sabe como reagiu.  Então resolvi contar como eu reagi, quanto tempo isso custou. Não vou contar a luta pela sobrevivência material, um caso à parte, e que a Adriana conhece bem. Vou contar apenas as coisas que pensei, vivi e senti.</p>
<p>Penso que para as pessoas soronegativas ou sorointerrogativas isso pode ser de grande valia, pois ainda me recordo de uma amiga que suspeitou ter contraído HIV e que me disse, com todas as letras: “se der positivo me jogo aqui do décimo oitavo andar”</p>
<p>É preciso recolocar que fui DJ. As condições que me levaram a ser DJ na noite paulista eu vou eclipsar. Como DJ eu tinha facio acesso às mulheres e, em virtude de carências da infância e da adolescência eu buscava nestas mulheres algo que jamais poderia encontrar: O amor sonegado de minha mãe.</p>
<p>A cada desencontro uma troca, a cada troca lágrimas de uma mulher ferida, mas eu segui à frente. MOVE ON!!!</p>
<p>Eu me tornei um adicto do sexo. Um sexólatra. Precisava de sexo mais do que cigarro, e olhem que fumo à bessa. Toda noite uma mulher. Às vezes duas. E outra de dia.<br />
Quando eu falhava na sedução, pagava uma garota de programas. Nunca me preocupei com DST e não vou enumerar nem listar as que tive. Mas foram muitas, o suficiente para eu pressentir que era vulnerável ao HIV; mas quanto a isso, eu não me importava.</p>
<p>Minha personalidade foi formada de uma forma torta e eu tinha pouco ou nenhum apego à vida e absolutamente nenhum medo de morrer. Na minha ignorância, acreditava que contrair HIV era simplesmente condenar-se à morte e morrer em pouco tempo.</p>
<p>Esta proposta me parecia ótima!</p>
<p>Posso dizer sem medo de errar que não foi apenas uma, nem apenas duas, as vezes em que, ao penetrar a garota eu me lembrava do HIV e pensava assim. Se pegar, f&#8230;-..</p>
<p>Eu estava completamente equivocado sobre o que era, ou no que vinha se tornando a infecção por HIV e a AIDS e esta ignorância custou-me caríssimo mais adiante.</p>
<p>Esta minha corrida pelo sexo foi arrefecendo na mesma medida em que eu percebia que a minha busca era inútil (esta percepção era subjetiva) e que a vida de DJ já não me agradava tanto.</p>
<p>Perto do melancólico final de minha carreira de DJ trabalhei numa casa que já não existe, como quase todas as em que eu trabalhei (as que existem lembram filmes do Stephen king), o Club de Paris.  Ali conheci uma morena muito faceira, muito esperta, bonita e, para que ela possa ter um nome e estar morta em paz, eu a chamarei de Veruska*. Foi amor à primeira vista. E como todo amor à primeira vista queimou como um rastilho de pólvora e acabou alguns meses depois.</p>
<p>Eu não sabia, ela não sabia, mas dela, eu traria comigo bem mais que boas e más lembranças. Eu traria uma pequena capa protéica, que protege uma seqüência de RNA, e não DNA, chamada HIV. Sei disso porque fui comunicado do passamento dela em virtude de complicações da AIDS.</p>
<p>Juntei lé com cré e conclui isso. Sei bem que posso estar errado, mas quero poder me reservar o direito de, em tendo sido tão irresponsável e descuidado comigo, que eu tenha contraído o HIV numa relação em que o que contava era o amor.</p>
<p>Por favor, aceitem isso sem questionamentos. Eu me basto para me questionar. Sou meu juiz mais severo&#8230;</p>
<p>Depois que perdi Veruska andei um tempo meio ao leo, sem saber bem o que fazer de mim e de minha vida até que encontrei uma outra moça, Verônica*. Verônica não era da noite. Era diferente. E o diferente naquela altura da vida era fascinante. Vinha, ela, de uma decepção amorosa. Eu, idem.</p>
<p>Fizemos um acordo silencioso e, como dois bêbados encostados um ao ombro do outro, começamos a longa caminhada para a sobriedade.  Pelo caminho exploramos a sexualidade com pujança e nem mesmo o coreto da Praça da República e o nicho entre as colunas de uma certa estação do metro escaparam. Loucos seria uma palavra que nos definiria, mas definiria mal, pois loucos não sabem o que estão fazendo, e nós sabíamos.<br />
Mas eu não soube cumprir a minha parte do trato e a cada dia que se passava eu gostava mais dela. E não parava para mensurar se havia reciprocidade de sentimentos.</p>
<p>Grave engano que me custou uma terrível decepção quando ela, finalmente, recuperou a sobriedade e me disse adeus por telefone. Fiquei muito mal, mal de verdade. Mas nem chorar eu chorava, eu simplesmente comecei a definhar. Meu sofrimento por Verônica era silencioso, não havia lágrimas. Havia uma indizível sensação de perda irreparável.</p>
<p>Como DJ, eu havia chegado ao fundo do poço e estava trabalhando de porteiro numa casa da boca do lixo chamada Barroco. Não que houvesse algo de barroco lá como rios de fogo que congelam ou geleiras que queimam, o maldito lugar se chamava barroco por mera coincidência.</p>
<p>Eu não tinha mais vontade de nada. Acho que duas perdas emocionais em seis meses foram mais do que eu poderia agüentar. Importa dizer que Verônica quis me abrir portas a outro mundo e me apresentou esta entidade fantástica, o computador; e importa dizer que eu não me interessei muito com planilhas e editores de texto mas, sim, com a maneira com que este engenho diabólico funciona. Mas isso teria de ficar para outros tempos.</p>
<p>O fato é que definhei, definhei até que acabei adoecendo.</p>
<p>Uma bela manha eu acordei com uma dor de cabeça infernal e pedi a uma das moças, uma que me olhava com outros olhos, mas que eu não tinha condições de corresponder, que me levasse a farmácia para tomar alguma injeção para a dor.</p>
<p>A injeção teve o efeito de um copo de água com açúcar e eu acabei indo para o hotel onde morava.<br />
Na manhã seguinte fui a um hospital famoso por atender qualquer pessoa, tendo ela documentos ou não. Era uma instituição de caridade que diagnosticou meu caso, como um “quadro gripal”. Esperei uma semana e o quadro gripal não melhorou, aliás, piorou, e voltei ao hospital.</p>
<p>Outra médica, outra residente e o mesmo diagnóstico, que se repetiu ainda por uma terceira semana, até que um amigo me disse: “Ei, ai não ta dando certo, vá ao hospital tal que lá é “batata”; Neste ponto me cabe inquirir o leitor sobre o por que de lar ser batata? Eu não entendo nada de batatas, mas creio que elas não são boas em diagnósticos, acho que o House é melhor nisso.</p>
<p>Bem, cheguei lá e a atendente olhou para mim com olhos de pânico, pediu eu me sentasse, coisa que não fiz e voltou com uma médica, que ao olhar para mim teve dois vocábulos: “Meu Deus!” Colocou-me em observação por algum tempo e veio com um neurologista, para o Licquor.</p>
<p>Por conta da minha semi inconsciência, e dados os riscos do exame, foram necessárias seis pessoas para me segurar, dentre elas uma enfermeira de quadris generosos que ficou bem à frente dos meus olhos, e que me deu toda a tranqüilidade para fazer o exame (uma vez flamengo, sempre flamengo&#8230;)</p>
<p>Um tempo mais tarde uma médica me disse assim: Claudio&#8230; Você está com meningite. Uma meningite viral, e não seria tão sério, mas parece que você andou muito tempo com ela. Estou internando você. Mas, Cláudio, você é um homem da noite, solteiro, sem residência fixa e tudo isso se encaixa num padrão que pede um exame para HIV. Você autoriza este exame?</p>
<p>(continuação na próxima edição)</p>
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		<title>Sexualidade</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 20:02:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Nenhum tema pode ser tão complexo. Mesmo depois da pílula, da “revolução sexual” e da AIDS as pessoas continuam se recusando <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/sexualidade/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza<br />
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Nenhum tema pode ser tão complexo. Mesmo depois da pílula, da “revolução sexual” e da AIDS as pessoas continuam se recusando a falar sobre sexo.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 380px"><img title="Hermel Orozco" src="http://gehspace.com/edicao%20104%20imagens/22.jpg" alt="Hermel Orozco" width="370" height="460" /><p class="wp-caption-text">Hermel Orozco</p></div>
<p>Nenhum tema pode ser tão complexo. Mesmo depois da pílula, da “revolução sexual” e da AIDS as pessoas continuam se recusando a falar sobre sexo.</p>
<p>Às vezes parece-me que o sexo é uma coisa feia, suja, de gente de baixo nível&#8230;</p>
<p>“Troca de fluídos?&#8230;</p>
<p>Argh&#8230;”</p>
<p>Mas transar, fora uns loucos, todo mundo transa.</p>
<p>Minha sogra, 70 anos, disse a meu cunhado, 42 anos, pai de três filhos, um deles já adolescente, que é necessário falar sobre sexo com “as crianças”.</p>
<p>“Nããããooo! Eles aprendem na rua mesmo.</p>
<p>Quando eu era um púbere disseram-me que passar bosta de galinha no pênis faria os pelos pubianos crescerem mais depressa&#8230; Não fosse o nojo, bem, pode se imaginar o rebosteiro.</p>
<p>Veiculei hoje uma notícia que diz que 75% das idosas contaminadas com HIV foram contaminadas por seus maridos.</p>
<p>Dizem que a envelhescência é igual a adolescência e vai me parecendo que é verdade.</p>
<p>Os velhinhos pulam a cerca e acreditam-se imunes ao HIV, ou não sabem o quão perigoso ele é. Daí a não usar camisinha é só um passo e, daí para a contaminação, é roleta russa.</p>
<p>Sexo é uma coisa boa, que deveria ser praticada todos os dias por todas as pessoas.</p>
<p>Mas parece que não é assim; parece-me, mais, que as pessoas têm pudores com relação ao sexo, a velha noção de pecado (com minha mulher não) que tanto fez e faz sofrer mulheres neste orbe.</p>
<p>Muitas mulheres morreram, e muitas morrerão, sem saber com certeza o que é um orgasmo.</p>
<p>Sexo devia ser matéria de currículo escolar a partir da quarta ou quinta série. Mas currículo sério, falando de masturbação, caricia, sexo oral, preliminares, coito interrompido (falácia), Doenças sexualmente transmissíveis, incluindo a hepatite para que as “crianças” cresçam sabendo.</p>
<p>Sabendo que é bom, mas traz perigos e que, nos dias de hoje, o sexo desprotegido não é a melhor alternativa e que as conseqüências disso podem ser funestas&#8230;</p>
<p>A mídia precisa ser mais responsável, produzir campanhas e apresentar no horário diurno, para que crianças vejam, para que crianças aprendam e que idosos também.</p>
<p>Não é porque fez sessenta anos que a vida sexual acaba.</p>
<p>Pode ser até que ela ganhe novos contornos, outras emoções, mas ela existe.</p>
<p>Assim, de modo discreto, “o estimulo prostático” faz milagres muito superiores ao do Ciallis.</p>
<p>Pediram-me que escrevesse sobre sexualidade e sexualidade é coisa complicada até entre pulgas.</p>
<p>Não sei se logrei êxito na missão, pois estou em dúvida se falei claramente sobre sexo oral, anal, vaginal, inversão, sado-masoquismo, BDSM com a desenvoltura necessária.</p>
<p>Mas tenho uma comunidade no Orkut, Soropositivodade e sexualidade.</p>
<p>Dezoito membros.</p>
<p>Dezoito mudos.</p>
<p>A chamada da comunidade é esta:</p>
<p>&#8220;Não importa a sua orientação sexual. Homo, Hetero, Bi, Pan-sexual, Domme, Sub&#8230; Na vida você sempre poderá encontrar uma pessoa soropositiva para HIV. O que você faria? Fugiria? O portador de HIV não merece carinho, atenção e prazer? Ele deixou de ser humano? Você é soronegativo(A)? Tem certeza? Já fez o exame? Se não fez é sorointerrogativo. Você tomaria as precauções óbvias e deixaria rolar a transa? E você, soropositivo contaria antes? Esconderia pelo medo da rejeição? E se a transa virar caso? E se o caso virar compromisso? E se a camisinha estourar? E se ela(e) se apaixonar? Como resolver o problema da omissão da informação? A &#8220;tal hora de contar&#8221; é uma barra pesadissima e se a relação começou fundamentada em mentiras o caso é crítico&#8230; Minha proposta é discutir estes assuntos.&#8221;</p>
<p>Como se vê, a questão é repleta de outras questões.</p>
<p>E você, faria amor com alguém com HIV?</p>
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		<title>Você sabe se é portador do vírus HIV?</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:44:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[aids]]></category>
		<category><![CDATA[dst]]></category>
		<category><![CDATA[edições 101 a 105]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Inicio esse artigo com uma indagação: Você            sabe se é portador do vírus HIV?</p>
<p <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/voce-sabe-se-e-portador-do-virus-hiv/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por Géssica Hellmann</em></p>
<p>Inicio esse artigo com uma indagação: <strong>Você            sabe se é portador do vírus HIV</strong>?</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 238px"><img title="Fear of the Future por Cassandra Tiffin-Lavers" src="http://gehspace.com/edicao%20101%20imagens/fearfuture_cassandra.jpg" alt="Fear of the Future por Cassandra Tiffin-Lavers" width="228" height="500" /><p class="wp-caption-text">Fear of the Future por Cassandra Tiffin-Lavers</p></div>
<p>Por favor não responda! Quero apenas que você, leitor, reflita sobre os sentimentos que emergiram a partir dessa pergunta, pois trata-se de uma pergunta extremamente intrusiva, que envolve uma série de pressupostos relativos à sua intimidade: atividade/inatividade sexual, com parceiros estáveis ou ocasionais, com uso ou não preservativos durante o ato sexual, questionamentos sobre a fidelidade no casamento/relacionamento, entre muitas outras questões sensíveis.</p>
<p>Note como é diferente perguntar se “você sabe se é portador de diabetes”?</p>
<p>O diabetes não é uma doença sexualmente transmissível. Logo, tende a não ser sentida como uma pergunta tão “íntima” ou “intrusiva”.</p>
<p>O que me leva a outra questão, extremamente grave: algum médico, já pediu a você um exame de HIV? De minha parte, respondo que o assunto nunca veio à baila no consultório médico até que eu ficasse grávida! Por quê? Será que, talvez, a pergunta não seja feita justamente para não provocar o “mal-estar” e todos os sentimentos que acarreta?</p>
<p>Ou será que os médicos que me atenderam ainda trabalham com a idéia superada de “grupo de risco” e, conseqüentemente, julgaram improvável que eu pudesse ter contraído a doença?</p>
<p>Os profissionais de saúde são unânimes em afirmar que não existem mais “grupos de risco”. Cito, como exemplo, o caso de uma senhora a quem entrevistei, portadora de HIV/AIDS, que acaba de celebrar 80 anos de idade.</p>
<p>Ela afirmou que seu clínico achava que “idosos não pegam AIDS.” Ela teria se infectado aos 70 anos de idade, com seu namorado. Ela atribui à “pílula azul” e às próteses de silicone um aumento na atividade sexual do idoso – grupo definido pelo IBGE como a população a partir dos 60 anos de idade – o que os teria deixado tão expostos ao risco de infecção pelo HIV quanto os mais jovens.</p>
<p>Segundo Parker e Aggleton (2001) “ao longo de duas décadas, enquanto os países, em todo mundo, lutam para dar resposta à epidemia de HIIV/AIDS, as questões do estigma, da discriminação e da negação vêm sendo alguns dos dilemas mais mal entendidos e mais persistentes enfrentados pelo desenvolvimento dos programas de saúde e educação públicas”.</p>
<p>Porque a realidade do HIV/AIDS parece tão fora do nosso círculo “familiar”? É importante enfatizar que, quando o assunto abrange AIDS, o corte na pirâmide socioeconômica é vertical. A AIDS atinge todos os segmentos da população, por qualquer crítério que se queira adotar: sexo, idade, profissão, classe social, grau de instrução, etnia, religião.</p>
<p>Nesses últimos dois anos, realizei entrevistas com psicólogas, profissionais de saúde, jornalistas e pacientes soropositivos. Uma das declarações mais freqüentes é a de que a desinformação mata e ainda é uma das principais causas do assustador crescimento da epidemia de AIDS.</p>
<p>Por exemplo, é alarmante a seguinte declaração de Cláudio Oliveira, assessor de comunicação da ABIA – Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, fundada pelo sociólogo Herbert de Souza, o “Betinho”: “É importante ressaltar que não há &#8216;cura&#8217; para a AIDS. Um grande problema é que muitas pessoas, não tão bem informadas, ao receberem fragmentos de informação na mídia, ficaram com a impressão de que a AIDS se tornou uma doença crônica, parecida com o diabetes. As pessoas pensam que você passa o resto da vida tomando o remédio e tudo bem, não vai morrer da doença. Só que, em nenhum momento, recebe o devido destaque a realidade das infecções oportunistas, dos efeitos colaterais fortíssimos dos medicamentos&#8230; Há casos de pessoas que vêm a falecer em função desses efeitos colaterais”.</p>
<p>É importante entendermos como o processo de estigmatização, descriminação e negação funciona no meio social. O Brasil é considerado país-modelo no terceiro mundo em combate a epidemia de AIDS. Então porque a epidemia continua crescendo assustadoramente, não só no Brasil, como em outros países?</p>
<p>Gaiarsa (2006) sugere que a “abstração e a generalização” podem ser tidas como defesas neuróticas coletivas, e que a generalização, mais vezes sim do que não, “existe a serviço da agressão”, ela é um mecanismo neurótico coletivamente criado e aceito para permitir agressão sem culpa. Um mecanismo gerador de preconceitos. O autor cita como exemplo: “os negros” (todos os negros) “não prestam”, “os judeus” (todos os judeus) “só pensam em dinheiro”, “os americanos”, “os árabes”, e assim por diante. O autor continua: “a raiz do fanatismo é esta: o agarrar-se a uma interpretação da realidade como se ela fosse a única”. Seguindo essa linha de raciocínio, a generalização pode ser a causa “inconsciente” do preconceito contra o que é diferente.</p>
<p>Marshall (segundo Parker e Aggleton, 2001) afirmaria que os primeiros sociólogos viam a discriminação como uma expressão de etnocentrismo ou, em outras palavras, um fenômeno cultural de “não gostar dos diferentes”. Já análises sociológicas mais recentes sobre a discriminação concentram-se em padrões de dominação e opressão, vistos como expressões de busca de poder e privilégio.</p>
<p>Em resumo, pode-se afirmar, segundo Parker e Aggleton (2001), que a natureza do estigma é contextual, histórica, empregada estrategicamente para produzir e reproduzir relações e desigualdades sociais.</p>
<p>Quando falamos da relação de sexualidade, cultura, poder e noções de diferença, parece não ser possível deixar de citar Foucault. Para Parker e Aggleton (2001), “os estudos mais influentes que Foucault fez sobre o poder, Vigiar e Punir e A História da Sexualidade, volume I: A Vontade de Saber, enfatizavam o que ele definia como novo regime de conhecimento/poder que caracterizou as sociedades européias modernas durante o final do século dezenove e começo do século vinte. Dentro desse regime, a violência física ou a coerção foram cada vez mais dando lugar ao que ele descreveu como &#8216;sujeição&#8217;, ou controle social exercido não através da força física, e sim pela produção de sujeitos adestrados e corpos dóceis. Ele explicou como a produção social da diferença está ligada aos regimes estabelecidos de conhecimento e poder”.</p>
<p>Os autores afirmam ainda que é possível ver a estigmatização desempenhando um papel-chave na transformação da diferença em desigualdade, e pode funcionar, em princípio, em relação a qualquer dos eixos principais da desigualdade estrutural interculturalmente presente: classe, gênero, idade, raça ou etnia, sexualidade ou orientação sexual, e assim por diante. Segundo, e mais importante ainda, “o estigma é empregado por atores sociais reais e identificáveis que buscam legitimar o seu próprio status dominante dentro das estruturas de desigualdade social existentes”.</p>
<p>Resumindo, a estigmatização está diretamente relacionada às desigualdades de poder; ela faz com que as desigualdades sociais pareçam ‘razoáveis’ e, por fim, criam e reforçam a exclusão social.</p>
<p>“Um foco sobre as relações entre cultura, poder e diferença na determinação da estigmatização motiva um entendimento da estigmatização e discriminação ligadas ao HIV e à AIDS como parte do que talvez possa ser descrito da melhor forma como economia política da exclusão social presente no mundo contemporâneo” (Parker e Aggleton, 2001).</p>
<p>Desde o início da epidemia de HIV e AIDS, mobilizou-se uma série de metáforas poderosas para reforçar a estigmatização: morte, horror, punição, crime, guerra, vergonha, acontece com “o outro”. É importante enfatizar que, antes do surgimento do HIV/AIDS, já existiam outras formas de estigmatização que, hoje, interagem com a estigmatização da epidemia de HIV/AIDS, tais como a de gênero, orientação sexual, posicão no sistema socioeconômico e raça.</p>
<p>Atrevo-me, então, a supor que, se essas outras formas de estigmatização já estivessem superadas, o portador do vírus HIV, poderia ser encarado como uma pessoa com diabetes ou câncer. O estigma, caso existisse, seria muito menor.</p>
<p>Em entrevista com a psicóloga Mariceli Bernini que trabalha no IPrA como portadores do vírus HIV, ela atesta que, como o fato de que a principal via de transmissão do virus da AIDS é o contato sexual, criam-se muitos problemas adicionais, advindos de questões culturais relacionadas à sexualidade. Se é uma mulher a portadora do HIV, ou é rotulada como “a promíscua” ou como “a traída”; se é um homem, já está previamente rotulado como “homossexual”, se o caso envolve uma pessoa idosa, trata-se de uma “velhinha ou velhinho safado”. Dessa maneira todo soropositivo já se sentiria socialmente pré-rotulado para a exclusão.</p>
<p>Outro estigma relacionado propriamente com a AIDS, é o medo da infecção e o medo da morte. Muita desinformação sobre os meios de contágio, apesar das diversas campanhas realizadas nos últimos 20 anos, ainda transforma os doentes em “Infames” pela sociedade. A desinfomarção continua gerando preconceito, vitimando e culpando os portadores de HIV/AIDS.</p>
<p>Agora, podemos ter uma visão mais ampla dos motivos por trás desses “sentimentos confusos” despertados na indagação quanto a ser ou não portador do vírus HIV. Imagine então como é dificil para uma pessoa portadora do vírus HIV lidar com seus próprios sentimentos, exorcizar os medos, viver um dia de cada vez. E ainda, o quanto é importante o auxílio dos amigos, dos familiares e de profissionais que lidam diretamente com os portadores de HIV para que esse “viver um dia de cada vez” possa ser feito com o máximo de harmonia possível.</p>
<p>A AIDS não acontece somente nos “centros urbanos”. Outra questão de pesquisa gravíssima é o fenômeno da interiorização da AIDS, isto é, a migração da epidemia dos grandes centros urbanos para cidades médias e pequenas do interior do país. Segundo relatos individuais, que pretendo investigar mais a fundo, há casos de pessoas residentes em centros urbanos que, ao se descobrirem com HIV, decidiram “mudar de vida” e migraram para uma cidade menor, tentando “apagar o passado”, mas levando o vírus com elas. E, chegando lá, namoram, casam-se, muitas vezes sem avisar o parceiro(a) que é portador do HIV.</p>
<p>Você sabe com quem seu namorado/parceiro(a) manteve relações sexuais? Sabe que um vírus HIV pode ficar anos incubado sem se manifestar?</p>
<p>“Segundo o Boletim Epidemiológico de 2002, publicado pelo Ministério da Saúde, o número de mulheres contaminadas com o vírus da Aids tem crescido a cada ano e, na maioria dos casos, através de relações heterossexuais. Entre as décadas de 80 e 90 as mulheres maiores de 13 anos, contaminadas pela relação heterossexual, perfaziam um total de 61,1%. No ano de 2002 esta porcentagem elevou-se a 93,5%”. (Giacomozzi, 2004).</p>
<p>A autora afirma ainda que “os dados revelam um aumento desta epidemia, principalmente entre indivíduos heterossexuais com parceiro fixo, em regime de conjugalidade”.</p>
<p>Então lembre-se: AIDS é problema seu também. AIDS é um problema da humanidade!</p>
<p>O HIV não é transmitido por beijos, abraços, suor, saliva, lágrimas, pelo uso comum de piscinas, copos, talheres ou roupas. O contágio é feito por relações sexuais sem protenção (camisinha), transfusões de sangue, pelo uso de agulhas e seringas contaminadas, de mãe soropositiva ao filho durante a gestação, o parto ou a amamentação.</p>
<p>Então agora que você já sabe, seja solidário, converse com seus familiares e amigos, e faça essa pergunta: Você já fez um teste de HIV? Sabe como se prevenir? Com o avanço assustador da epidemia, você pode ser o próximo a precisar de apoio. Pense nisso.</p>
<p>Bibliografia:</p>
<p>Gaiarsa, José Ângelo. Meio século de psicoterapia verbal e coporal. São Paulo: Ágora, 2006.</p>
<p>Giacomozzi, Andréia Izabel. Confiança no parceiro e proteção frente ao hiv: estudo de representações socias. Florianópolis, 2004. Dissertação (Mestrado em Psicologia) &#8211; Universidade Federal de Santa Catarina. Disponível em:</p>
<p>Parker, Richard. Aggleton, Peter. Estigma, discriminação e AIDS. Rio de Janeiro: ABIA, 2001.</p>
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		<title>Cem edições de &#8220;Sexualidade&#8221; &#8211; escolhas, riscos e vitórias no contínuo processo de libertação</title>
		<link>http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/cem-edicoes-de-sexualidade-escolhas-riscos-e-vitorias-no-continuo-processo-de-libertacao/</link>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:37:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 96 a 100]]></category>
		<category><![CDATA[moralidade]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Trajetória Pessoal:</p>
<p>Cresci em uma família católica, com numerosos tios, tias e primos, tanto pelo lado materno quanto paterno. Minha mãe um pouco mais expansiva por <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/cem-edicoes-de-sexualidade-escolhas-riscos-e-vitorias-no-continuo-processo-de-libertacao/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Trajetória Pessoal:</p>
<p>Cresci em uma família católica, com numerosos tios, tias e primos, tanto pelo lado materno quanto paterno. Minha mãe um pouco mais expansiva por ter sido criada no seio de uma família com descendência italiana; meu pai um pouco mais fechado por pertencer a uma família de origem alemã. Ambos tiveram papéis fundamentais para minha criação: positivos e negativos, como em toda família.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 400px"><img title="Nus em movimento por Géssica Hellmann" src="http://gehspace.com/GaleriaGeh/nus%20em%20movimento.jpg" alt="Nus em movimento por Géssica Hellmann" width="390" height="577" /><p class="wp-caption-text">Nus em movimento por Géssica Hellmann</p></div>
<p>Fui condicionada desde cedo a tirar &#8220;boas notas&#8221; na escola, estudar bastante para conseguir um &#8220;bom emprego&#8221;&#8230;. Assim como a ser responsável, educada, não aceitar coisas de estranhos, ir à missa aos domingos&#8230;</p>
<p>Pelo menos até minha crisma, a missa dominical rotineira. &#8220;Crisma&#8221;, para os que não conhecem o ritual católico, é a &#8220;Confirmação&#8221;, um sacramento da Igreja Católica em que o fiel recebe através do bispo uma unção com óleo, reafirmando a submissão à fé à qual se afiliou no sacramento do batismo.</p>
<p>Como era esperado, cedo comecei a trabalhar em &#8220;escritório&#8221;, como se dizia então. Na verdade, meu cargo era &#8220;auxiliar de caixa&#8221; em uma indústria, em regime de oito horas por dia, em troca de um mísero salário mínimo. Lá, aprendi várias coisas positivas, que se refletem no meu caráter. Mas também foi lá que comecei a ver o mundo de uma forma &#8220;quadrada&#8221;. Ao sair dessa indústria, logo fui trabalhar para outra empresa, também na área financeira. Tive de trabalhar 13 anos com finanças para descobrir que eu tinha medo da felicidade. Mantinha-me nesses empregos porque era seguro, mas não era feliz.</p>
<p>Já na faculdade, observava a &#8220;fauna&#8221; ao meu redor. Foi lá que comecei a transgredir alguns conceitos &#8211; ou melhor, a mostrar minha vida interior, o que as pessoas aparentemente ignoravam. Lembro-me do furor quando apresentei um projetos de fotografia com um ensaio fotográfico extremamente sensual.</p>
<p>Que surpresa! Aquela garota que só tirava notas boas e parecia viver enfiada em livros era, na verdade, uma mulher, e corria em suas veias uma energia sexual, como em todo mundo.</p>
<p>Enquanto isso, avós e tios cobravam daquela mesma menina-mulher o &#8220;namorado oficial&#8221;. Eu tinha &#8220;ficantes&#8221;, é obvio, mas nenhum que me interessasse apresentar à família. Irritava-me a cobrança, como se fosse uma obrigação social: TER UM NAMORADO.</p>
<p>Admito, isso machucava muito. Algo haveria de errado comigo? Por que tantas cobranças?</p>
<p>Foi nessa mesma época que mergulhei no mundo virtual. Conheci pessoas e, muitas delas, trouxe para a minha vida real. Foi lá que todas aquelas idéias, que aparentemente não deveriam ser ditas no meio social em que eu vivia, foram florescendo, despertando paixões. Comecei a questionar tudo o que era dado como certo &#8220;porque sempre foi assim&#8221;. Toda a hipocrisia da social em relação à sexualidade, eu a trazia à tona em discussões acaloradas.</p>
<p>Sair do ninho e enfrentar a incredulidade dos normopatas.</p>
<p>Eu buscava a liberdade, buscava a verdadeira felicidade.</p>
<p>Como Freire e Brito (1987) afirmaram: &#8220;Risco é sinônimo de liberdade. O máximo de segurança é escravidão&#8221;. É preciso, segundo os autores, viver o presente através das coisas que nos dão prazer.</p>
<p>Nesse momento, fiz uma lista: as coisas que gostaria de fazer e as que eu não queria mais na minha vida. Surgiram duas decisções importantes: queria sair de casa para abrir meus horizontes e fazer mestrado em uma área que me libertasse da necessidade de trabalhar em um curral, digo, &#8220;escritório&#8221;. Durante essa busca, surgiram duas propostas interessantes e, ao mesmo tempo, dois caminhos diferentes: Florianópolis e Rio de Janeiro.</p>
<p>Escolher Florianópolis apresentava várias vantagens: eu já conhecia a cidade, amigos meus moravam lá, fica a apenas duas horas de Joinville, mas faltava alguma coisa&#8230;. Foi quando recebi a proposta para fazer um projeto editorial inesperado: falar sobre a sexualidade humana. Isso sim, envolveria risco: mexer com a libido humana. Foi a busca dessa realização, desse sonho maluco, que me fez seguir o caminho do Rio de Janeiro.</p>
<p>Lembro do olhar assustado das pessoas quando souberam que larguei o meu tão &#8220;seguro emprego&#8221; para viver um sonho. Gaiarsa (2006) explica essa reação: &#8220;Os normopatas vêem bem pouco do que os cerca, vêem bem pouco de si mesmos. E esse pouco é sempre o mesmo&#8230; O normopata mantém-se boa parte do tempo formulando para si mesmo não-razões (desculpas) para não-ações, pensando em tudo que não fez e em tudo que devia ter feito. Vive buscando de quem é a culpa &#8211; ou quem deveria responder por ela&#8221;.</p>
<p>Somente uma das minhas irmãs estava sabendo dos meus projetos e, recebi total apoio dela. Só avisei minha mãe de minha decisão uma semana antes da viagem. Comprei passagem aérea, malas prontas, encaixotei o essencial e enviei pelo correio. Havia chegado a hora.</p>
<p>Projetar o sonho em realidade:</p>
<p>Inicialmente com um formato editorial simples, com muita fé e persistência, dei inicio, assessorada pelo Alexei, a essa revista semanal: o GÉH. Erros e acertos, aprendizagem constante, muita pesquisa e muita dedicação transformou aquele projeto inicial em uma realidade.</p>
<p>Nesses dois anos que se passaram, construímos uma família e conquistamos muitas vitórias. Cresci como mulher, me libertei de várias amarras, ampliei meus horizontes e agora me sinto madura para finalmente ingressar no mestrado tão desejado. Preferi vivenciar o que eu pesquisava e estava aprendendo: é preciso vivenciar para fazer sentido.</p>
<p>Essa pesquisa sobre o comportamento humano, a sexualidade, a corporalidade, tudo isso alterou minha forma de ser. Principalmente, foi extremamente importante na minha vida ter acesso aos escritos de Reich. Foi com ele que aprendi a olhar o mundo, as pessoas e a mim mesma de uma forma mais completa. Comecei a entender meus bloqueios, e acima de tudo, me libertar deles. Aprendi a perdoar mágoas antigas, que delas nem me lembrava, mas compuseram toda a minha trajetória, influenciando diretamente a minha personalidade.</p>
<p>Como afirmam Freire e Brito (1987), &#8220;conhecer, sem dúvida, é descobrir por nós mesmos, no ato de viver e de se relacionar como próprio corpo, a nossa identidade. Mas é também, ao mesmo tempo, ir além dos limites pessoais, conviver com a natureza social do homem: ser os outros, através da necessidade de comunicação, de relação, de integração e de associação, além da de reprodução. Quando amamos alguém, apesar de tudo o que essa pessoa representa para nós, ainda estamos presos à nossa identidade. A sensação mais pura e perfeita da existência do outro (além da evidência física) é quando alguém nos ama de verdade e nos certificamos, disso, pasmos, gratos e deslumbrados&#8221;.</p>
<p>Com o melhoramento da minha percepção corporal pude exorcizar bloqueios antigos. E foi através da arte que desenvolvi o exercício da percepção, é através da arte que expresso as conclusões de meus estudos. Minhas pinturas são uma maneira não-verbal de expressar o que penso e sinto. O teatro e a dança também foram fundamentais para o desenvolvimento da liberdade corporal, para melhor &#8220;administrar minhas energias&#8221;, como diria Reich.</p>
<p>Ética: o que não aceitei fazer nesse percurso e por quê.</p>
<p>Nesses dois anos surgiram várias sugestões para a linha editorial do GÉH, assim também como propostas de trabalho, algumas aceitei outras não. Mas o que isso tem a ver com o assunto em questão?</p>
<p>No inicio, recebi várias críticas, olhares estranhos: &#8220;Uma mulher abordando a sexualidade? Quem é ela? No mínimo, é &#8220;fácil&#8221; e só pensa em sexo; talvez seja garota de programa, prostituta ou vai ver que só quer dar&#8221;!</p>
<p>Sim, eu podia ler esses pensamentos nas mentes e nos olhares das pessoas a quem tentávamos explicar o conceito da revista, pensamentos e olhares que se confirmava, hipocritamente, com piadinhas e &#8220;ótimas&#8221; sugestões: &#8220;Site de garota de programa dá dinheiro sabia? Por que vocês não procuram sex-shops e motéis para patrocinar o seu site?&#8221;.</p>
<p>Tentar abrir mentes tão encarceradas parecia um trabalho impossível. A solução foi ignorar e seguir em frente.</p>
<p>Recebi propostas para fazer websites, em boa hora admito, pois a nossa situação econômica naquele período estava no vermelho. Aceitei e fiz com prazer esses trabalhos. Mas surgiram outras propostas também, em que o conflito ético falou mais alto do que a necessidade de dinheiro, por mais desesperadora que fosse. E eu: disse NÃO.</p>
<p>Uma das propostas foi uma oferta para trabalhar como representante em uma área que poderia me abrir vários portas no mercado gráfico. Aceitei pela manhã e recusei logo ao anoitecer. A mesma pessoa que havia me convidado publicou um texto extremamente machista, com agressões verbais violentas a &#8220;mulheres loiras&#8221;, como se a cor dos cabelos nos transformasse imediatamente em prostitutas. Por mais que precisasse do dinheiro, eu não suportaria trabalhar com uma pessoa que me tratasse como um ser inferior.</p>
<p>No inicio deste ano de 2007, recebi duas propostas quase simultâneas. Uma a de trabalhar em uma instituição não-governamental de apoio a soropositivos. Outra, a de fazer um website, que envolveria um bom retorno financeiro, mas que, na verdade, era um site de agenciamento de garotas de programa. Há quem faça o trabalho, existem muitos profissionais que não se importariam em fazer esse projeto.</p>
<p>Trabalhar voluntariamente contribuindo para fazer o bem, um ato de solidariedade ou ganhar dinheiro fazendo um projeto que apoiaria um trabalho ilegal? Não foi moralismo que me fez declinar a segunda proposta, e sim o fato da &#8220;ilegalidade&#8221;. Não sou contra nem a favor da prostituição. Sou contra a exploração sexual. Impedir que exista uma &#8220;profissão&#8221; tão antiga quanto essa, é hipocrisia, pois sabemos que existe desde o inicio do patriarcado e do casamento monogâmico. E se ela existe há uma razão para isso.</p>
<p>Mas acima de tudo sei da importância de cada ato, escolha ou caminho que percorri e continuo percorrendo. Abordar a sexualidade sem cair na promiscuidade, identificar cada &#8220;Zé ninguém&#8221;, fazê-lo olhar-se no espelho e se reconhecer é uma tarefa enriquecedora. Libertar-se e ajudar outros a se libertar é uma missão de vida.</p>
<p>Centésima edição de sexualidade: conquista de novas oportunidades</p>
<p>Aqui estamos, na centésima edição dessa revista. Com um enriquecimento cultural, intelectual e vivencial. Sentimos novamente &#8211; agora falo no plural, porque formamos uma equipe &#8211; a necessidade de estar em movimento. De continuar crescendo como seres humanos, de continuar em constante aprendizagem.</p>
<p>Nada é mais como fora ontem. Tudo é mutável. E nós precisamos continuar evoluindo. Brindamos essa edição com novos projetos para esse período de nossas vidas: Mestrado, Doutorado, novos trabalhos em uma nova morada. Aceitando o risco como parte do contínuo processo de liberdade.</p>
<p>O Géh com 40 mil visitações mensais (estimado), com um banco de dados de mais de 500 mil palavras, 2 mil imagens é referência nos temas que se propôs: Arte, Sexualidade e Corporalidade. Fruto de muito trabalho e dedicação.</p>
<p>Posso dizer que hoje sei qual é o gosto da liberdade, da felicidade e do prazer. Essas conquistas foram importantes para meu o amadurecimento. Valorizo tudo o que tenho, o que aprendi, o que mudei, o que conquistei, o que vivi. Cada erro e cada acerto fizeram parte desse processo de libertação.</p>
<p>Viver é um eterno caminhar, é estar sempre em movimento. Como diria Gaiarsa (2006) &#8220;o próprio caminho é feito a cada passo&#8221;. E é assim que nos movemos rumo a novas realizações.</p>
<p>Bibliografia</p>
<p>Freire, Roberto. Brito, Fausto. Utopia e Paixão: A política do cotidiano. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.</p>
<p>Gaiarsa, José Ângelo. Meio século de psicoterapia verbal e corporal. São Paulo: Ágora, 2006.</p>
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		<title>Narcisismo</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:14:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 96 a 100]]></category>
		<category><![CDATA[narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Géssica Hellmann</p>
<p>Este breve resumo do conceito de narcisismo começa pela mitologia grega, abre caminho pelas variações no conceito psicanalítico e desdobra-se pela arte literária.</p>
<p class="wp-caption-text">Narcissus por <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/narcisismo/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Géssica Hellmann</em></p>
<p>Este breve resumo do conceito de narcisismo começa pela mitologia grega, abre caminho pelas variações no conceito psicanalítico e desdobra-se pela arte literária.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img title="Narcissus por William T. Ayton" src="http://gehspace.com/edicao%2097%20imagens/narcissus_William%20T%20Ayton.jpg" alt="Narcissus por William T. Ayton" width="408" height="471" /><p class="wp-caption-text">Narcissus por William T. Ayton</p></div>
<p>O mito</p>
<p>Narciso foi fruto do estupro de sua mãe, Liríope, pelo deus dos rios, Céfiso. Por sua beleza extraordinária, os pais consultam o adivinho Tirésio sobre o futuro da criança. O adivinho respondeu-lhes que Narciso viveria muitos anos se não viesse a conhecer a si mesmo. Narciso torna-se um jovem belíssimo. A ninfa Ecos ao vê-lo pela primeira vez se apaixona perdidamente por Narciso e ele a rejeita. (Dicionário de mitologia greco-romana, 1973)</p>
<p>Então, Narciso é punido, condenado a apaixonar-se por sua própria imagem refletida na água. Tenta abraçar e beijar a imagem refletida mas, quando percebe que é a sua própria imagem, desespera-se e percebe que deve morrer, já que não consegue alcançar o objeto desejado.</p>
<p>&#8220;Sou uma flor arrancada&#8221;, &#8220;Que a morte venha rápido&#8221;. Finalmente sente compaixão por outra pessoa: &#8220;Aquele que amei deve continuar vivo. Deve sobreviver a mim, sem culpa&#8221;. Mas ele sabe que é impossível: ao suicidar-se, estaria matando seu objeto amado, seu próprio reflexo. Quando morre, ele sofre uma metamorfose e se transforma em uma linda flor, de bulbo delicado e com um perfume sedutor. (Holmes, 2005)</p>
<p>As variações no conceito psicanalítico</p>
<p>Holmes (2005) afirma que Freud diferenciava tipos de narcisismo: o primário, desenvolvido na primeira infância, e o secundário &#8220;que os indivíduos acometidos se vêem, por regressão, como objetos primordiais de amor, em vez de outras pessoas&#8221;.</p>
<p>Para Araújo (2007), &#8220;o narcisismo infantil coincide com o surgimento do ego enquanto unidade psíquica e representação do corpo&#8221;. Afirma também que &#8220;Lacan denominará &#8216;fase do espelho&#8217; a esse momento da constituição egóica, em que a criança é apresentada à imagem de si mesma, a qual recebe com júbilo. É que ela pode ver-se através do espelho, por uma imagem integrada, antecipatória do que virá no futuro: uma organização do seu esquema corporal ainda incipiente&#8221;.</p>
<p>A fase do espelho resume o interesse lúdico de que a criança dá mostras, entre os seis e os dezoito meses, por sua imagem especular, &#8220;aspecto pelo qual a criança se distingue, certamente, do animal. Reconhece sua imagem, se interessa por ela, e esse é um fato que, podemos admitir, é observável. Ao mesmo tempo que a criança reconhece a própria imagem, exulta, ao mesmo tempo reconhece a existência de um outro, pois está em déficit em relação a ela. Isso levou Lacan à idéia de que a alienação imaginária (o fato de se identificar com a imagem de um outro), é constitutiva do eu no desenvolvimento do ser humano&#8221;. (Miller 1988).</p>
<p>Freud via no homossexualismo, na psicose e na hipocondria exemplos de narcisismos secundários em que a libido é dirigida para o eu, e não para fora, para outros.</p>
<p>Holmes (2005) afirma que estas distinções banais entre homossexualismo e heterossexualismo são muito antiquadas, pois muitos homessexuais podem estabelecer relacionamentos maduros, enquanto a escolha heterossexual, não raramente, pode ser narcisista, onde se exibe o companheiro como um objeto de ostentação.<br />
Atualmente, a questão do narcisismo ganhou importância diferencia com a &#8220;psicologia do self&#8221;, de Khout. Ele afirmou que se devia abandonar a idéia freudiana de uma linha de desenvolvimento única, que iria do narcisismo para a relação de objeto: o narcisismo seria, antes, um eixo da estrutura psíquica e, portanto, haveria um narcisismo normal e outro patológico; mas não um &#8220;primário&#8221; e um &#8220;secundário&#8221;.</p>
<p>Khout afirma que, em vez de encarar o narcisismo como algo negativo, característico dos doentes mentais, o narcisismo é uma precondição de uma vida feliz, aí incluídas as relações de objeto. O fenômeno do narcisismo secundário deveria ser considerado um &#8220;produto de decomposição&#8221; do processo normal da maturação narcísica. (Holmes, 2005).</p>
<p>Em seu livro o autor apresenta uma perspectiva de integração e o aparecimento das metamorfoses do narcisismo:</p>
<p>- Primeira fase (primeiro ano de vida) &#8211; sentimento seguro de um eu criativo em relação com o outro receptivo: A importância nesta fase é a sintonia dos pais em relação à criança: se tratada com a devoção normal dos pais, a criança sente-se especial e única. Os pais aos poucos ajudam-na a ter contato com o mundo e a confiar que ela será recebida com alegria, instituindo assim os primeiros passos da auto-estima, ou o que chamamos de narcisismo saudável. Por outro lado se ocorrer o inverso, pais ausentes, ou extremamente sufocantes, a criança tende a ter um temperamento difícil.</p>
<p>- Segunda fase (segundo ano de vida) &#8211; investimento narcísico no corpo e seus poderes crescentes: O exibicionismo surge nesta fase, quando elas começam a andar, falar, explorar o mundo e querem a aprovação e o encorajamento de seus pais. A criança se deleita com o olhar de admiração e aprovação dos pais. Quando ocorre o contrário, pais insensíveis, agressivos ou deprimidos, que não percebem a necessidade do filho de se irradiar, criam um filho com baixa estima, vergonha e decepção consigo mesmo, característica de crianças que são feridas em seu narcisismo.</p>
<p>- Terceira fase (terceiro ano de vida) &#8211; frustração ideal: a criança em seu narcisismo individual passa a se incluir no narcisismo social. Sem este processo, a negação da realidade ameaça persistir.</p>
<p>- Quarta fase (adolescência) &#8211; idéias e ambições: Adolescentes sadios tem heróis, esperanças, sonhos, ambições. O adolescente com narcisismo ferido é deprimido, sente-se condenado, oprimido pela morte. O corpo pode tornar-se uma fonte de prazer e orgulho ou um estorvo odiado que leva à raiva de si mesmo e do mundo.</p>
<p>- Quinta fase (vida adulta) &#8211; transferência do narcisismo para a geração seguinte: O adulto sadio começa a conhecer suas forças e suas limitações, sente-se bem consigo mesmo, em seus relacionamentos. Suas esperanças narcisistas são investidas nos filhos. Os ideais frustrados são substituídos pelo amor à verdade. Já o narcisista negativo, doentio, torna-se egocêntrico,o provocando inveja e sentindo desprezo pelos outros.</p>
<p>- Sexta fase (vida madura) &#8211; assimilação da sabedoria: para Kohut a constituição saudável faz o ser humano ver e aceitar o mundo como ele realmente é, tornando-o capaz de aceitar a realidade da morte. Sem a ocorrência destas metamorfoses, a entrada na meia-idade pode ser desesperadora, hipocondríaca, destrutiva, exercendo uma tirania sobre seus relacionamentos.</p>
<p>Segundo Holmes (2005) essas seriam as fases de transformação do narcisismo, que pode tanto ser saudável quanto patológico.</p>
<p>Reflexões narcisistas na arte literária</p>
<p>Em seu livro sobre narcisismo Holmes (2005) cita alguns versos do soneto 62 de Shakespeare:</p>
<p>&#8220;O pecado do amor-próprio se apossa de todo o meu olhar<br />
E de toda a minha alma e de todas as partes minhas;<br />
E para esse pecado remédio não há,<br />
Ele está bem enraizado no meu coração.&#8221; (62:1-4)</p>
<p>&#8220;Sei que não existe rosto tão belo quanto o meu [...]<br />
E os meus méritos os de todos superam&#8221; (62:5,8)</p>
<p>&#8220;Mas quando o espelho me mostra como sou,<br />
Alquebrado e vincado de curtida velhice,<br />
Vejo bem de outro modo meu amor-próprio:<br />
Eu, de modo que amar a mim seria iníquo&#8221;. (62:9-12)</p>
<p>&#8220;És tu, meu eu, que por mim enalteço,<br />
Pintando minha idade com a beleza dos teus dias.&#8221; (62:13-14)</p>
<p>O autor questiona: Seria mesmo pecado o amor-próprio? O narcisismo saudável precisa estar &#8220;enraizado no coração&#8221;, se pretende atingir seu fim. Mas, se o narcisista só tiver olhos para si, está perdido pois, segundo o autor, se consome de inveja e tem de se incentivar constantemente por comparação com os outros. Quando chega a velhice, o amor-próprio tende a se transformar em aversão a si próprio.</p>
<p>O autor afirma também que a solução para o narcisismo é amar outra pessoa. O amor pode tanto destruir quanto preservar o narcisismo.</p>
<p>Quanto à &#8220;tinta teatral&#8221;, podemos fazer uma comparação com a maquiagem, as cirurgias plásticas e os cremes &#8220;rejuvenescedores&#8221;: todos são metamorfoses da real idade.</p>
<p>Segundo Holmes (2005), existem três modos narcisistas de amar:</p>
<p>(a) o que ela é (ou seja ela mesma)</p>
<p>(b) o que ela foi</p>
<p>(c) o que ela gostaria de ser</p>
<p>Em &#8220;O Retrato de Dorian Gray&#8221;, de Oscar Wilde, o autor explora essas três variedades freudianas.</p>
<p>Oscar Wilde questiona a existência dos valores morais, no mito da eterna juventude, e nos conflitos e desejos. Neste romance, Wilde faz referências ao mito de Narciso e ao de Fausto, em que o sujeito, em prol dos prazeres mundanos, vende sua alma em um pacto com o demônio.</p>
<p>O primeiro personagem que aparece é personagem dominador e inescrupuloso &#8220;Lord Henry&#8221; admirando a beleza de uma árvore. O segundo, não é Dorian, mas seu retrato, mais importante que ele mesmo. O terceiro personagem é Basil Hallward, o pintor que se apaixona narcisicamente pelo retrato pintado.</p>
<p>&#8220;O pintor explica o efeito desta beleza sobre ele: cada retrato pintado com emoção é o retrato do artista, não do modelo. Isto é, o pintor se encontrou narcisicamente em Dorian&#8221;. (Laberge, 2007).</p>
<p>A partir deste ponto inicia-se o percurso de devassidão de Dorian, que vende sua alma pela eterna juventude e beleza, enquanto, em contrapartida, o retrato revelaria seu verdadeiro eu.</p>
<p>Quando Dorian perde totalmente seus escrúpulos, cometendo crimes horríveis, o pintor, na tentativa de fazê-lo emendar-se, vai ter com ele. Dorian confronta o pintor com o desespero do narcisista e mostra-lhe o retrato, o seu verdadeiro eu, depois mata-o com uma faca. Mais tarde, tenta emendar-se, deixando de explorar outra mulher que cruza seu caminho. Volta a rever o quadro para ver se algo havia mudado ou suavizado em seu retrato. Mas seus pecados eram grandes demais para que apenas um ato suavizasse a feiúra de sua alma retratada. Enlouquecido, enfia uma faca no quadro mágico e cai morto ao lado da tela. Na manhã seguinte é encontrado por seus criados, um homem envelhecido e morto ao lado de um retrato intacto que exibia a beleza exuberante pintada 20 anos antes.</p>
<p>Holmes (2005) afirma que o narcisista tem a propensão de se tornar suicida quando entra em um colapso narcisíco.</p>
<p>Na música de Caetano Veloso, &#8220;Sampa&#8221;:</p>
<p>&#8220;Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto<br />
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto<br />
É que Narciso acha feio o que não é espelho<br />
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho<br />
Nada do que não era antes quando não somos mutantes<br />
E foste um difícil começo<br />
Afasto o que não conheço<br />
E quem vem de outro sonho feliz de cidade<br />
Aprende depressa a chamar-te de realidade<br />
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso&#8221;</p>
<p>Ele canta um narciso maduro que não quis se deparar com o mundo real: preferia ver fantasia ou seu &#8220;eu ideal&#8221;.</p>
<p>O narcisismo patológico não deixa de ser também a peste emocional denunciada por Reich. Você sofre e impõe sofrimento aos outros por não querer ver a si mesmo e a sua própria doença.</p>
<p>Como vimos, a corrente contemporânea de Kohut sobre o conceito de narcisismo afirma que todos passamos por e, dependendo de como lidamos com a situação, a resultante pode ser um narcisismo saudável ou patológico.</p>
<p>Poderíamos chamar de &#8220;narcisismo&#8221; à doenças da moda: &#8220;anorexia&#8221; e &#8220;bulimia&#8221;? Poderíamos chamar também de &#8220;narcisismo&#8221; os crimes cometidos pelos políticos corruptos, ao desviar a verbas públicas, dando vazão apenas ao seu egoísmo extremo? E o ato o pedófilo, daquele adulto que pensa apenas em seu próprio prazer, pouco se importando com o outro indefeso, sem importar-se com freios éticos? Eram narcisistas os nazistas, ao se considerarem pertencentes a uma &#8220;raça ariana&#8221;, superior às demais?</p>
<p>Seja qual for o termo psicanalítico relacionado às minhas indagações, uma coisa é certa: a peste emocional continua à solta, a sociedade continua, sem remorsos, passando adiante sua doença.</p>
<p>O amor próprio é base para amar o outro.</p>
<p>Bibliografia</p>
<p>Araújo, João Carlos de. Narcisismo e relação narcísica de objeto. Disponível em: http://br.geocities.com/jcdaraujo/narcisismo.html. Acessado em: 15/06/2007.</p>
<p>Dicionário da mitologia greco-romana. São Paulo: Abril, 1976.</p>
<p>Holmes, Jeremy. Conceitos da psicanálise &#8211; Narcisismo. Rio de Janeiro: Relume Dumará : Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.</p>
<p>Laberge, Jacques. A beleza em O Retrato de Dorian Gray. Disponível em: http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/art019.htm. Acessado em: 15/06/2007.</p>
<p>Miller, Jacques-Alain. Percurso de Lacan uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.</p>
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		<title>O Papel da Psicoterapia no Tratamento de portadores de HIV/AIDS &#8211; Entrevista com Mariceli Bernini (Parte 2)</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 18:46:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[aids]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[edições 91 a 95]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Alexis Kauffmann</p>
<p>A diferença entre ser HIV positivo e ter AIDS</p>
<p>&#8220;Essa história de que &#8216;não é preciso se preocupar com a AIDS porque tem tratamento&#8217;, como vimos, é <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/o-papel-da-psicoterapia-no-tratamento-de-portadores-de-hivaids-entrevista-com-mariceli-bernini-parte-2/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Alexis Kauffmann</em></p>
<p>A diferença entre ser HIV positivo e ter AIDS</p>
<p>&#8220;Essa história de que &#8216;não é preciso se preocupar com a AIDS porque tem tratamento&#8217;, como vimos, é uma irresponsabilidade. Tem tratamento sim, mas não tem cura. O melhor tratamento continua sendo a prevenção. Depois de se descobrir contaminado, o caminho é procurar profissionais bem preparados e informados. Porque há muitos profissionais de saúde, inclusive médicos, que ainda não estão aptos a lidar com a AIDS, por desinformação.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 401px"><img title="Mariceli Bernini" src="http://gehspace.com/edicao%2093%20imagens/Mariceli5.JPG" alt="Mariceli Bernini" width="391" height="322" /><p class="wp-caption-text">Mariceli Bernini</p></div>
<p>Posso te dar o exemplo de uma paciente que se descobriu soropositivo quando a ginecologista pediu uma série de exames, entre eles o teste anti-HIV. Bem, ela recebeu a informação de que era soropositivo como quem recebe a informação de que o nível de colesterol está elevado. Ela saiu desesperada do consultório da ginecologista e, quando me procurou, já chegou dizendo “estou com AIDS”. Durante a entrevista, expliquei a diferença entre estar contaminada com o HIV e ter AIDS.</p>
<p>Quando uma pessoa faz um exame anti-HIV e o resultado é positivo, a pessoa pode se considerar &#8216;soropositivo&#8217;, ou seja, foi contaminada pelo HIV. Isso não significa que ela tenha AIDS. O HIV deprime o sistema de defesa do organismo, mas isso não é sinônimo de &#8216;ter AIDS&#8217;. Só se pode dizer que uma pessoa tem AIDS quando os exames detectarem que a carga viral está muito elevada e o CD4 estiver muito baixo. É nesse momento que a pessoa começa a apresentar um conjunto de sintomas, como diarréia, perda de peso, infecções oportunistas mais sérias, como pneumonias em seqüência, uma dor-de-garganta que não passa nunca, &#8216;caroços&#8217; espalhados pelo corpo sem origem conhecida (mais freqüentes no pescoço)&#8230; Enfim, pessoa começa a ter uma série de doenças, todas ao mesmo tempo: isso é AIDS.</p>
<p>Definindo melhor, a AIDS é uma &#8216;síndrome&#8217;. O que é uma “síndrome”? É um conjunto de sintomas. Por exemplo, a “Síndrome do Pânico”. Por que a chamamos de &#8216;Síndrome&#8217;? Porque a pessoa sua frio, a boca fica seca, sente um terror que vem do nada&#8230; É esse conjunto que forma uma síndrome.</p>
<p>Por isso é preciso muito cuidado sobre como informar a pessoa que ela está soropositivo, porque ela pega o exame e acha que está morrendo. Não é assim. Na verdade, um resultado positivo para HIV, normalmente, não é nem tão sério quanto o paciente pensa, nem uma brincadeira que não deva ser levada a sério! Na década de 1980, o diagnóstico de HIV positivo era muito mais grave do que hoje, porque não existia medicação específica. Então, as pessoas se desesperam ao receber o resultado do exame, porque a imagem que vêm à mente é a lembrança de pessoas famosas definhando com a doença já em estado avançado, porque não existia tratamento adequado. Mas é importante, sempre, ressaltar que o tratamento para HIV não se assemelha ao tratamento para uma dor-de-cabeça, em que basta tomar um analgésico que a dor passa. Todo mundo reclama dos efeitos colaterais da medicação anti-retroviral”.</p>
<p>Contar ou não contar?</p>
<p>“A melhor hora de contar a alguém que você é soropositivo é a hora em que você se sente preparado, a não ser que o fato de não contar esteja expondo outras pessoas ao risco de contaminação pelo HIV. Por exemplo, se um paciente meu é soropositivo e é casado com uma mulher soronegativo, eu, como psicóloga, tenho obrigação profissional de alertá-lo quanto aos riscos de contaminação.</p>
<p>Voltando ao tema, por que a melhor hora para contar que se é soropositivo é a hora em você se sente preparado? Porque, se o contágio foi por via sexual, normalmente contar ao cônjuge envolve confessar uma traição, uma relação extra-conjugal. Como dizer ao marido ou esposa &#8216;olha, eu te traí e me contaminei com o HIV&#8217;? O casamento pode acabar nesse mesmo instante, eu não sei como anda o casamento dessa pessoa. Então essa questão é trabalhada na psicoterapia para que a gente desenvolva juntos uma maneira de contar ao cônjuge sem que a vida do paciente fique pior do que já está.</p>
<p>A infecção por HIV, queiramos ou não, está ligada à vida sexual. Quando uma pessoa conta para outra que está infectada com o HIV, está abrindo muito de sua intimidade. Normalmente, a outra pessoa quer saber quando, como e com quem contraiu a doença. Isso é uma invasão na privacidade do soropositivo. Por isso, é necessário que o soropositivo esteja se sentindo mais fortalecido psicologicamente, porque ninguém pode obrigá-lo a contar.</p>
<p>Esses aspectos são trabalhados na psicoterapia. Primeiro, é preciso trabalhar a auto-estima da pessoa. Porque aparece o sentimento de culpa, vêm pensamentos como &#8216;Mas que vacilo, eu não precisava ter me contaminado&#8217;. Ou seja, já é um momento de fragilidade; obrigá-la a expor sua condição de soropositivo não vai ajudá-la em nada. É preciso que o paciente esteja seguro, para que não conte aos outros sentindo medo.</p>
<p>Muitos pacientes chegam até mim sem saber praticamente nada sobre o vírus e a doença. Se eles mesmos não sabem o que têm, como vão contar aos outros?</p>
<p>Então, quando um paciente me pergunta se deve contar à família, eu peço que o paciente me diga o que ele sabe sobre o HIV/AIDS. Se ele mesmo não estiver seguro das informações que vai transmitir, vamos ter duas pessoas desesperadas em vez de uma!</p>
<p>No grupo de apoio aqui do IPrA, é constante o trabalho de fortalecimento da auto-estima das pessoas, e sempre surge a dúvida entre “contar ou não contar”. Cada caso envolve problemas diferentes. Por exemplo, um paciente já tem pais bastante idosos&#8230; Ele diz: “Se estou fisicamente bem, nem estou precisando tomar o coquetel, por que haveria de contar isso para meus pais”? Só que algumas dessas pessoas não contam para os pais, nem para os irmãos, amigos&#8230; Não contam para ninguém e ficam a ponto de explodir. Por isso, quando chegam aqui no IPrA, elas encontram a oportunidade de aliviar o stress de não ter com quem dividir seus sentimentos. Se não quiserem fazer terapia individual, podem participar das reuniões do grupo de apoio, em que os pacientes recebem todas as informações e o apoio necessário para seguir em frente com qualidade de vida, porque não estamos aqui para sofrer desnecessariamente&#8221;.</p>
<p>AIDS, Homofobia e Culpabilidade Sexual</p>
<p>&#8220;Até cerca de vinte anos atrás, a AIDS era conhecida como &#8216;peste gay&#8217;, porque, de cada dez pessoas infectadas, 9 eram homens homossexuais. Hoje, a proporção é dois homens para cada mulher infectada.</p>
<p>Alguns pacientes, nas reuniões de grupo, na primeira vez em que participam já vão dizendo, “olha pessoal, eu estou infectado, mas não sou gay”, sem que ninguém tenha perguntado nada sobre isso. Você percebe que a desinformação sobre esse tema ainda é muito grande. Soropositividade e AIDS não têm mais nada a ver com orientação sexual.</p>
<p>Mas o fato de que a principal via de transmissão do vírus da AIDS é o contato sexual, cria muitos problemas adicionais, que vêm da própria cultura de culpabilidade sexual. Por exemplo, se um bebê recém-nascido é contaminado com o HIV, todos caem em cima da mãe: &#8216;Como essa mulher, sabendo que era soropositivo, pôs um filho no mundo&#8217;? Se é um homem jovem, na faixa dos 18 aos 40 anos, então é rotulado como gay, todo mundo vai dizer que pegou o vírus com outro homem. Se é uma mulher jovem, logo é rotulada como promíscua, devassa&#8230;</p>
<p>E quanto aos idosos: você já reparou na reação das pessoas quando ouvem uma pessoa idosa falando sobre sexo? A própria TV ridiculariza nos programas humorísticos, com o rótulo de &#8216;velhinha safada&#8217;. Mas por que uma &#8216;velhinha&#8217; não pode fazer sexo? Esse preconceito quanto à sexualidade dos idosos não faz sentido. Então, imagine a dificuldade que enfrenta uma senhora na faixa de sessenta, setenta anos, de chegar ao seu meio social e contar que é soropositivo para as amigas na mesma faixa de idade, para os filhos e netos.</p>
<p>Então, todo soropositivo já está &#8216;pré-classificado&#8217; de forma muito preconceituosa: as mulheres são &#8216;as traídas&#8217; ou &#8216;as devassas&#8217;, os homens são &#8216;os gays&#8217;, as crianças são &#8216;as vítimas&#8217; e os idosos são &#8216;os safados&#8217;. Será que já não chegou a hora de mudarmos essa visão? As pessoas se contaminam porque fazem sexo ou usam drogas injetáveis, é uma realidade. E olhe, que estou falando do Rio de Janeiro&#8230; Imagine os problemas que um soropositivo passa em uma cidade pequena? Há muitas cidades no Brasil que não têm psicólogos, nem postos-de-saúde que distribuam preservativos, nem medicamentos anti-retrovirais. Eu ouvi de um paciente que, na parte rural da Zona Oeste do Rio de Janeiro, há uma grande quantidade de pessoas infectadas que não sabem o que é HIV, nem que estão contaminadas, embora já apresentem os sintomas da AIDS.</p>
<p>Mesmo sem considerarmos as DST&#8217;s, a AIDS entre elas, há todo um conjunto de culpas e tabus em torno do sexo. As meninas não contam para as mães que elas transam, os idosos não falam sobre sexo e, quando falam, são ridicularizados. As pessoas, quando vão falar sobre sexo, usam subterfúgios, eufemismos. Em reuniões de grupo, as pessoas falam em &#8216;meu pirulito&#8217; em vez de dizer a palavra &#8216;pênis&#8217;. Qual o sentido desse sentimento de vergonha e culpa em relação ao próprio corpo? Foi o jeito que essas pessoas aprenderam sobre sexo. Então, aprenderam errado e têm que &#8216;desaprender&#8217; o que sabem e aprender da maneira certa qual é função do pênis, da vagina, do sexo, da reprodução&#8230;</p>
<p>Os pacientes chegam então, ao atendimento, sentindo muito medo, sem saber o que podem falar e como podem falar. Por exemplo, eu já ouvi de uma paciente que, na primeira sessão, pensava: &#8216;será que se eu disser para essa psicóloga que eu saio com dois homens ao mesmo tempo ela vai me enxotar daqui&#8217;? Outro paciente era garoto-de-programa e demorou muito até que ele me contasse, por medo de que eu fosse expulsá-lo da sala de atendimento.</p>
<p>Imagine a situação de um jovem gay, que esconde dos pais a sua homossexualidade: como ele vai contar aos pais que é soropositivo? Já vai começar uma gritaria, o desespero, vão querer arrastá-lo para o hospital porque vão achar que está morrendo&#8230; Na psicoterapia, a gente precisa trabalhar não só os fatores mais imediatos relativos à infecção, como também, às vezes, problemas que acompanham a pessoa desde que ela nasceu.”</p>
<p>Complicações advindas da negação</p>
<p>“A negação acontece quando a realidade é tão dura que a pessoa não consegue suportá-la, e começa a viver uma ilusão. Por exemplo, se uma mulher sabe que o marido a está traindo, pode decidir fingir que não sabe e levar o casamento aos trancos e barrancos durante anos, porque admitir a realidade a obrigaria a tomar uma atitude.</p>
<p>No caso do HIV, a pessoa se contamina e, ao adotar a negação como saída, passando a acreditar em uma ilusão, ela troca de emprego, arruma outro namorado, muda de cidade&#8230; Essa é uma reação seriíssima, porque ela pode desenvolver doenças oportunistas crônicas e, também, transmitir o vírus para outras pessoas. Por isso é importante o trabalho multidisciplinar junto ao soropositivo. Não adianta o infectologista, por exemplo, florear o resultado do exame, dizendo que &#8216;está bom, mas vamos começar a medicação assim mesmo&#8217;&#8230; O certo é dizer a verdade, &#8216;Olha, seu exame não está bom. O que você anda fazendo? Está dormindo direito? Se alimentando bem? Tem bebido ultimamente? Anda estressado?&#8217;. Enfim, a realidade é dura, mas é melhor lidar com essa dureza do que negá-la.</p>
<p>Outra reação de negação é o caso das pessoas que &#8216;fogem&#8217; do exame, por medo de ver um mau resultado. Por que não vão ao infectologista e não fazem o exame? Por uma falta de fortalecimento interior, essa pessoa não se sente capaz de lidar com a realidade do resultado do exame.</p>
<p>Há vários fatores interligados quando se fala em &#8216;negação&#8217;. A mídia também é um fator importante, porque transmite muitas informações que eram verdadeiras cinco anos atrás mas que, hoje, já estão defasadas.</p>
<p>Por exemplo, eu assisti outro dia um comercial na TV, patrocinado pelo Ministério da Saúde, em que uma mulher, supostamente uma advogada, dizia: &#8216;Eu tenho AIDS. Olhando para mim, ninguém diz que eu tenho AIDS&#8217;, e assim por diante. Aí, eu fiquei pensando: &#8216;será que ela tem AIDS mesmo ou está só infectada pelo vírus&#8217;?</p>
<p>Ou seja, as informações sobre o HIV/AIDS viraram um balaio de gatos, em que ninguém mais entende do que está se falando. Se as informações fossem dirigidas às causas do sofrimento das pessoas, esse sofrimento diminuiria e não existiria todo esse pânico em torno do diagnóstico.</p>
<p>E veja, nós estamos falando do Brasil, que é considerado modelo no combate à AIDS, um país que divulga informações não tão corretamente quanto deveria, mas ainda divulga alguma coisa, e distribui medicamentos e preservativos. É terrível imaginar a situação em países onde a negação é &#8216;institucionalizada&#8217;, onde não existe distribuição de medicamentos, em que a religião proíba as mulheres de mostrar o rosto&#8230; Como falar sobre AIDS/HIV se, inevitavelmente, para abordar o assunto, é preciso falar sobre sexualidade e sexo?</p>
<p>A negação também pode ser induzida pela religião e, nessa área, pode ter conseqüências terríveis. Por exemplo, eu tive um paciente que estava muito bem, com a carga viral &#8216;zerada&#8217;, isto é, &#8216;indetectável&#8217;. O que significa &#8216;carga viral indetectável&#8217;? Significa apenas que a quantidade de vírus no sangue é tão baixa que ele não é detectado pelo exame. Mas não é sinônimo de &#8216;exame HIV negativo&#8217;. Isso não existe, uma vez infectado, infectado para sempre. Mas esse paciente dizia que estava curado, que Jesus o havia curado. Quando ele foi desafiado pelos membros do grupo a fazer novo exame, ele não compareceu mais às reuniões.</p>
<p>Acreditar em milagres é uma questão muito pessoal mas, como profissional, eu não posso dizer que milagres aconteçam no caso do HIV/AIDS; não posso dizer que &#8216;Jesus cura&#8217; a infecção por HIV. Muito provavelmente, esse paciente, com o passar do tempo, vai sofrer um aumento na carga viral porque parou com a medicação, o CD4 vai diminuir e ele vai adoecer.</p>
<p>O que posso afirmar com relação à religião é que as pessoas muito religiosas podem ter um nível de stress um pouco menor do que as outras. Se a pessoa tiver uma fé muito forte na cura, ela vai enfrentar a situação com menos stress e, conseqüentemente, vai ver uma redução na carga viral. Mas isso não significa que &#8216;Jesus a curou&#8217;, mas que o organismo vai secretar menor quantidade de hormônios de stress que, sabidamente, atacam as células de defesa. Nesse caso, a religião desempenha uma função muito semelhante à da terapia. Ela passa a freqüentar a Igreja e, com isso, faz um novo círculo de amizades, encontra apoio e conforto. Também se sabe que a fé contribui muito para melhorar a recuperação de várias doenças. Nesse sentido, a religião é muito positiva. O caso se torna grave quando um pastor diz ao doente que ele deve parar de usar a medicação. Até onde eu saiba, não conheço um único caso em que Jesus tenha curado alguém por procuração&#8221;.</p>
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		<title>Sexualidade, corporalidade e arte &#8211; um aprendizado constante</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 18:35:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[corporalidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 91 a 95]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Géssica Hellmann</p>
<p>Parece que foi ontem que recebi a proposta para fazer um portal de arte e sexualidade. Os primeiros artigos foram surgindo, ainda que um tanto tímidos. <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/sexualidade-corporalidade-e-arte-um-aprendizado-constante/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Géssica Hellmann</p>
<p>Parece que foi ontem que recebi a proposta para fazer um portal de arte e sexualidade. Os primeiros artigos foram surgindo, ainda que um tanto tímidos. E com a pesquisa neste campo tão carregado de tabus que é a sexualidade fui buscando informações pictóricas em artes visuais, principalmente na pintura, que refletissem os temas da pesquisa.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img title="Exorcismo - Acrílico sobre papel - Géssica Hellmann" src="http://gehspace.com/edicao%2091%20imagens/exorcismo%20copy.jpg" alt="Exorcismo - Acrílico sobre papel - Géssica Hellmann" width="400" height="283" /><p class="wp-caption-text">Exorcismo - Acrílico sobre papel - Géssica Hellmann</p></div>
<p>Como escrever de modo que meus leitores entendessem facilmente os palavreados acadêmicos no que se referia as teorias psicanalíticas e fatos históricos/políticos sobre a sexualidade? Falar de libido, eros, sem parecer &#8220;marciano&#8221; ou superficial?</p>
<p>A pesquisa é extensa e contínua. Sim contínua! Quanto mais pesquiso sobre sexualidade e corporalidade, mais percebo na sociedade e, muitas vezes, em mim mesma, o que, usando as palavras de Reich, a &#8220;Peste Emocional&#8221; provoca nos seres humanos.</p>
<p>Segundo Tosta (2007), &#8220;A peste emocional está intrínseca nas sociedades que reprimem a livre educação sexual, ou seja, sociedades que tentam estabelecer o controle alienante sobre os indivíduos, atingindo o ser na sua principal forma de alívio das tensões, garantindo uma redução ou ausência do potencial orgástico, resultando em indivíduos encouraçados, rígidos e incapazes de um saudável metabolismo energético de carga e descarga&#8221;.</p>
<p>A peste emocional geralmente aparece velada, por trás de boas intenções, no intuito de ajudar o outro e a sociedade. (Volpi, 2007)</p>
<p>O autor afirma também que um educador acometido por esta doença geralmente alega que as crianças são difíceis de educar e, por isso, seus métodos severos e autoritários são necessários; encontram toda espécie de argumentos superficiais para apoiar sua convicção de que age pelo bem da criança.</p>
<p>Isto me faz do modismo atual de falar em &#8220;impor limites&#8221;. Os maiores fascistas que já existiram na humanidade tiveram uma criação &#8220;tradicional&#8221;. Desconheço até o momento, algum &#8220;facínora&#8221; que tenha sido criado com uma educação libertária.</p>
<p>Muitos fingem que querem ser livres. A liberdade é crua e esbofeteia. Como dizia Reich quando afirmava que dentro de nós há um Zé Ninguém e a basta a nós, e somente a nós, querer libertá-lo, &#8220;a segurança é-te mais importante que a verdade&#8221; (Reich, 1982, 54)</p>
<p>O autor afirma também &#8220;Não és tu que perseques a &#8216;mãe solteira&#8217; como uma criatura imoral, Zé Ninguém? Não és tu que estabelece uma distinção severa entre as crianças &#8216;legítimas&#8217; e as crianças &#8216;ilegítimas&#8217;? Pobre criatura que não entendes as tuas próprias palavras &#8211; ou não és tu que veneras o Cristo enquanto criança? Cristo menino, que nasceu de uma mãe que não possuia um certificado de casamento? Sem fazeres idéia de que assim seja, como veneras no Cristo criança o teu desejo de liberdade sexual! Fizeste do Cristo criança, nascido ilegitimamente, o filho de Deus, que não reconhece a ilegitimidade das crianças. Para logo em seguida, como Paulo, o apóstolo, perseguir os filhos nascidos do amor e proteger sob a alçada das leis religiosas os nascidos do ódio. És realmente um desgraçado, Zé Ninguém!&#8221; (Reich, 1982, 40)</p>
<p>Suas palavras fortes gritam a cada Zé Ninguém que carregamos dentro de nós. Porque carregamos tantos tabus e preconceitos? É tão fácil julgar as pessoas quando não enxergamos o que há dentro de cada um de nós, nossos próprios desejos camuflados!</p>
<p>Vejam, não estou dizendo que as pessoas devem ou não devem &#8220;impor limites&#8221;, nem em qual medida. Só apresento fatos e deixo a cargo de cada um a melhor maneira de criar seu filho. Peço a Deus sabedoria e iluminação para saber educar meu filho para ser livre desta &#8220;doença de massa&#8221;, desta sociedade neurótica, com tantos tabus e preconceitos. Que nossos filhos possam aprender a conviver e a respeitar as diferenças. Saibam também respeitar os que ainda preferem viver reprimidos por assim acharem ser mais &#8220;seguro&#8221; que a responsabilidade da liberdade. Ensinar, acima de tudo, o amor ao próximo.</p>
<p>Segundo Volpi (2007), &#8220;O importante é sabermos reconhecer a peste emocional em nós mesmos e nos outros e procurarmos ajuda para isso. Se a humanidade soubesse discernir os momentos em que está se sentindo com a peste emocional, se fizesse respeitar e a tratasse, tudo seria diferente&#8221;.</p>
<p>Como vimos nos artigos anteriores, Reich descobriu no corpo um caminho para a cura da neurose sexual e dos problemas originados por ela. Reich mapeou o corpo humano através de um estudo biológico, fisiológico e psicológico.</p>
<p>Reich sempre procurava estabelecer o que era um comportamento natural de um comportamento inatural. Ele em seu trabalho procurava isolar e desmascarar as atitudes de caráter, sempre com o objetivo de liberar as emoções reprimidas. Segundo o autor, desde crianças somos levados a controlar nossos sentimentos; somos tão reprimidos que esquecemos como respirávamos quando éramos bebês e começamos a fazer uma respiração incompleta.</p>
<p>Isto me faz lembrar da última entrevista publicada em corporalidade sobre a prática milenar do Chi Kun que &#8220;surgiu da necessidade de certos &#8216;monges&#8217; &#8211; chamamo-los de &#8220;monges&#8221; por falta de palavra melhor, mas, certamente, eles nem eram exatamente &#8220;monges&#8217; &#8211; que buscavam a transformação através da observação da Natureza&#8221; segundo Felipe Ribeiro Alvares.</p>
<p>Felipe afirma também &#8220;Assim, aqueles &#8216;monges&#8217; a que nos referimos começaram a prestar atenção nos animais que voavam&#8221;. Por observação da natureza (do que é natural) criou-se a prática de Chi Kun que é a combinação de um movimento ou postura com a respiração e a concentração. &#8220;Chi Kun significa &#8216;exercitar o sopro&#8217;, &#8216;exercitar a energia&#8217;&#8221;.</p>
<p>Mas o que isto tem a ver com sexualidade? Muito, eu diria. Nossa sexualidade reflete intimamente em nosso corpo. Criamos couraças musculares como forma de &#8220;proteção&#8221; do medo da rejeição e traumas de uma educação repressora passada de geração em geração.</p>
<p>Reich em sua pesquisa, descobriu a importância de uma &#8220;respiração completa&#8221; quando investigava o comportamento natural. O ocidente mais uma vez atrasado em séculos. A cultura oriental a muito tempo já sabia da importância para a saúde do corpo e da mente de uma respiração completa, do desenvolvimento de atividade corporal e do reequilibrio energético.</p>
<p>O Tai Chi Chuan é eficiente na cura de doenças orgânicas e psicóticas, como reumatismo, hipertensão, insônia, depressão, asma, gastrite e enxaqueca &#8211; exatamente as doenças que a medicina convencional considera incuráveis. (Kit, 2003).</p>
<p>Doenças estas, segundo vimos no artigo anterior, ocasionadas pelo mau fluxo de energia, ocasionado pelo encouraçamento muscular, originário da repressão sexual, da repressão do que é natural.</p>
<p>Em meu trabalho artístico, busco sempre refletir o meu aprendizado da sexualidade e da corporalidade durante esta caminhada. A arte é um meio de auto-conhecimento. Procuro sempre refletir em minha vida este rico estudo sobre o comportamento humano. As cores, refletidas em minhas pinturas, possuem um vocabulário próprio, pessoal. A algumas cores relaciono energias positivas ou negativas.</p>
<p>Apresento agora algumas pinturas que refletem fortemente a dita &#8220;Peste Emocional&#8221;.</p>
<p><strong><img class="imagemaesquerda" src="../../GaleriaGeh/mini_Tormenta%20copy.jpg" border="0" alt="Géssica Hellmann - Tormenta" width="100" height="143" />Tormenta</strong>:            Nesta pintura o verde representa o bloqueio de energia, ou &#8220;encouraçamento            do ser&#8221;: dúvidas, tabus, medos, preconceitos. Os tons de vermelho            representam a energia em sua potência máxima, energia fluente            e vital. O amarelo representa forças douradas, forças            positivas, solares, construtivas, que têm em seu potencial a evolução            do espírito. O preto, neste caso, é o inverso do amarelo:            a ausência de luz, uma energia destrutiva.</p>
<p>A boca aberta, como se um grito de socorro escapasse      de seu íntimo, faz uma referência e uma suíte com outro      trabalho realizado na mesma época: Vaticínio,      &#8220;A boca como canal de amor ou de ódio&#8221;.</p>
<p>As pinceladas fortes e curtas simbolizam a revolução      interna que reflete em todo seu corpo, ela quer amar a si mesma, viver sua      sexualidade, mas sente medo. Sente-se reprimida, culpada por sentir prazer.      Vive em uma sociedade repressora. Ela quer se libertar, mas saberá      ela viver em liberdade? Saberá ela viver &#8220;curada&#8221; em uma      sociedade sexualmente neurótica? &#8220;Uma pintura dramática      que expressa o sentimento de dualidade entre o bem e o mal, o certo e o incerto,      num caminho entre a luz e as trevas do próprio ser&#8221;.</p>
<p><strong><img class="imagemaesquerda" src="../../GaleriaGeh/mini_rotulos%20copy.jpg" border="0" alt="Géssica Hellmann - Rótulos" width="100" height="141" />Rótulos</strong>:            Qual é a sua identidade? Um ser coberto por rótulos de            puro preconceito? Esta obra reflete o preconceito dentro de outros grupos            discriminados. Já existe preconceito por ser simplesmente mulher,            não importa a classe social. Mas, e quando esta mulher é            pobre, negra, mãe solteira, soropositiva, lésbica? Onde            ela se encaixa? A que grupo pertence? É possível que,            dentro de um grupo de homossexuais, uma mulher soropositiva seja discriminada            pelo próprio grupo? Hipocrisia? Não. Hipocrisia seria            dizer que preconceito não existe. O que quero refletir com este            trabalho é que você e eu, sejam quais forem os rótulos            que pendurem em nós, somos maiores do que eles: somos seres humanos,            necessitamos de carinho e amor como todos os seres humanos. Ao assinar            minha tela em um desses rótulos, estou dando a minha cara a tapa,            dispo-me contra mais essa forma de violência.</p>
<p><strong><img class="imagemaesquerda" src="../../GaleriaGeh/mini_peste%20emocional%20-%20instintos%20perversos.jpg" border="0" alt="Géssica Hellmann - Peste Emocional Instintos Perversos" width="100" height="142" />Peste            Emocional &#8211; Instintos Perversos</strong>: Nesta            pintura quase caricata, carregada de símbolos míticos            como &#8220;A maçã, Eva, Adão e a Serpente&#8221;. Porque tanta            repressão ao órgão sexual? O que é natural            em muitas espécies, no ser humano, parece ser algo inatural,            proibido e carregado de medos reprimidos.</p>
<p><strong><img class="imagemaesquerda" src="../../GaleriaGeh/mini_couraca.jpg" border="0" alt="Géssica Hellmann - Couraça" width="100" height="141" />Couraça</strong>:            Camadas de resistências envolvem seu corpo.            A energia (verde) bloqueada, cria um grande vazio interno. Seu corpo            parece paralisado, enraizado, impedido de sentir a energia vital, de            amar e sentir prazer. A energia natural da vida (representada pelo vermelho)            está presente mesmo que ele não a sinta. Ele pode mudar            esta situação? Pode reaprender a sentir a vida pulsando            como algo natural e não perverso? A esperança está            em suas mãos.</p>
<p><img class="imagemaesquerda" src="../../GaleriaGeh/mini_pesco%E7o%20encoura%E7ado%20copy.jpg" border="0" alt="Géssica Hellmann - Estudo - Pescoço Encouraçado" width="100" height="142" />Estudo            do pescoço encouraçado: Estudo            sobre peste emocional e encouraçamento dos sentimentos enraizados            no pescoço. O verde representa a energia reprimida. O vermelho,            a energia pulsante da vida.</p>
<p>Por último gostaria de compartilhar a experiência      e o significado da obra &#8220;<strong>Exorcismo</strong>&#8220;.      Nesta caminhada pesquisando, compartilhando conhecimentos, estudando e aprimorando      meu trabalho artístico, encontrei um caminho de auto-conhecimento.      Descobri o motivo por trás de certas dificuldades, como falar sobre      alguns sentimentos, medo de cantar&#8230; Meu corpo todo conseguia sentir a energia,      conseguia expressá-la, muitas vezes, através das mãos,      da arte, mas era como se não houvesse conexão do meu corpo com      minha cabeça, as palavras não surgiam em minha mente e nem em      minha boca.</p>
<p><img class="imagemaesquerda" src="../../GaleriaGeh/mini_exorcismo.jpg" border="0" alt="Géssica Hellmann - Exorcismo" width="141" height="100" /> Ao exercitar minha garganta, ao forçar-me a exercícios            sugeridos por Reich, sentia as lágrimas já secas e reprimidas            há tanto tempo em minha garganta. A musculatura encouraçada.            Aos poucos tornei consciente fatos ocorridos na infância que haviam            sido &#8220;esquecidos&#8221; e, que, separados pareciam ter pouca importância,            mas, no conjunto, fizeram todo o sentido.</p>
<p>O primeiro passo para a cura é estar ciente da causa e do problema.      Nesta pintura exorcizei todas as experiências reprimidas. Aquela menina      ressentida que queria receber amor, não sabia que seus pais, por motivos      que hoje sei, não sabiam como doar amor. Sim, eles me amavam, mas não      sabiam demonstrar, provavelmente por uma educação repressiva.      Também é certo que ela merecia ser amada e não se sentir      culpada por não ter &#8220;mérito&#8221; para receber este amor,      como ela achava.</p>
<p>Como disse no inicio deste artigo, é uma pesquisa extensa e contínua      e uma descoberta nova a cada dia que tenho o grande prazer de compartilhar      com vocês.</p>
<p><strong>Bibliografia</strong></p>
<p>Kit, Wong Kiew. <strong>O Livro completo do Tai Chi Chuan</strong>.      São Paulo: Pensamento, 2003. 2a ed.</p>
<p>Reich, Wilhelm. <strong>Escuta, Zé Ninguém!</strong> Portugal: Martins Fontes Editora, 1982. 10a ed.</p>
<p>Tosta, Francisco. <strong>Psicopatologia do trabalho e a peste      emocional</strong>. Disponível em: &lt;http://www.psicologia.com.pt/artigos/textos/A0329.pdf&gt;.      Acessado em: 04/05/2007.</p>
<p>Volpi, José Henrique. <strong>Peste emocional</strong>.            Curitiba: Centro Reichiano, 2003. Disponível em: &lt;http://www.centroreichiano.com.br/artigos/artigo2.pdf&gt;.            Acessado em 04/05/2007.</p>
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		<title>Depoimento de um soropositivo</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 17:54:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[aids]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[edições 86 a 90]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>*   &#8220;Eu me infectei com um namorado, há mais de dez anos. Eu trabalhava em uma clínica e até cheguei a alertá-lo algumas vezes para <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/depoimento-de-um-soropositivo/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>*   &#8220;Eu me infectei com um namorado, há mais de dez anos. Eu trabalhava em uma clínica e até cheguei a alertá-lo algumas vezes para que usássemos preservativos, tentei conversar sobre o HIV, mas ele não quis saber. Ele, era muito machista, achava que AIDS era doença de homossexuais e que usar camisinha seria como confessar que ele era gay&#8221;.<br />
* &#8220;Eu comecei a manifestar os sintomas sem saber que estava infectada. Tive várias pneumonias, um resfriado atrás do outro e ninguém me pediu um exame de HIV. Acho muito importante informar que muitos médicos são completamente desinformados sobre AIDS. Por exemplo, já ouvi médicos dizendo que só é possível pegar AIDS quando o homem tem uma ejaculação completa, o que não é verdade: aquela primeira gotinha de líquido seminal já é suficiente para infectar a parceira. Outra balela que já ouvi de médicos é que o coito interrompido seria suficiente para evitar a infecção&#8221;.<br />
* &#8220;Durante quatro anos, fui &#8216;cobaia&#8217; de todos os tipos de antibióticos. Como eu tinha uma gripe ou resfriado sérios praticamente a cada dois meses, com febrão, pneumonia e tudo mais, eu resolvi me tratar diretamente com um pneumologista. Depois de tanto tempo eu comecei a brincar que, se uma pneumonia não me matasse, eu teria câncer pelo efeito da radiação, tantos eram os raios X de pulmão que tive de fazer durante esse período. Também tive vários furúnculos, que tratei com dermatologista. Tudo isso já eram sintomas do HIV e nenhum médico que me tratou pediu um exame de HIV durante todo esse tempo&#8221;.<br />
* &#8220;Um belo dia, eu fui dormir me sentindo bem e, no dia seguinte, acordei com 40 graus de febre, incapaz de me levantar da cama, mas sem nenhum sintoma de gripe. Pedi à minha irmã que fosse me ajudar e, alarmada, ela entrou em contato com o médico que a atendia. Ele recomendou que eu fosse internada e, no hospital, descobriram que eu estava com pneumonia dupla. Fui para o CTI e sequer conseguia respondia às perguntas do médico. Lá, o médico observou que um dos meus furúnculos não havia se curado completamente e pediu uma biópsia. Foi durante essa biópsia que descobriram que eu estava com infecção por HIV em estágio avançado&#8221;.<br />
* &#8220;Eu não quis contar à minha família como havia contraído o HIV, eles nunca souberam desse meu relacionamento e não vi motivos para contar quatro anos após o fim do namoro. Então, aproveitei para &#8216;encaixar uma transfusão de sangue&#8217; (risos) em uma cirurgia que tive de fazer alguns anos antes para justificar o contágio&#8221;.<br />
* &#8220;Assim que eu comecei o tratamento no posto-de-saúde, me deram um cartãozinho aqui do IPrA e conheci a Rosa. Fiquei impressionada com sua força e imediatamente senti vontade de trabalhar aqui. Porque eu nunca me senti culpada por estar doente. Quando eu soube que estava infectada, meu maior desejo foi o de conhecer outras pessoas com o mesmo problema&#8221;.</p>
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		<title>DST´s e Sexualidade &#8211; Entrevista com a palestrante Zélia Carmo</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 17:35:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[aids]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[dst]]></category>
		<category><![CDATA[edições 81 a 85]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Géssica Hellmann e Alexis Kauffmann</p>
<p>Tivemos o imenso prazer de conhecer esta mulher maravilhosa, Zélia Carmo, em uns dos nossos primeiros contatos com o IPrA. Sorridente, cativante, sempre <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/dst%c2%b4s-e-sexualidade-entrevista-com-a-palestrante-zelia-carmo/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Géssica Hellmann e Alexis Kauffmann</p>
<p>Tivemos o imenso prazer de conhecer esta mulher maravilhosa, Zélia Carmo, em uns dos nossos primeiros contatos com o IPrA. Sorridente, cativante, sempre com uma palavra doce e positiva nos lábios. É assim que ela se apresenta e conquista a atenção e o carinho de quem está em seu convívio. Uma mulher guerreira, forte e batalhadora, mas acima de tudo uma Mulher. Zélia nos conta de sua experiência como palestrante e ativista na prevenção à AIDS.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 387px"><img title="Zélia Carmo" src="http://gehspace.com/edicao%2084%20imagens/zeliacarmo.jpg" alt="Zélia Carmo - voluntária do IPrA" width="377" height="400" /><p class="wp-caption-text">Zélia Carmo</p></div>
<p>Tenho abordado Reich nas últimas edições, seu trabalho sobre sexualidade e corporalidade. Percebemos como as pessoas na época desconheciam seu próprio corpo, quantos mitos e medos enraizados. Mas será que algo mudou? Será que aprendemos a dar e receber prazer? Ou a desinformação ainda continua?</p>
<p>Como resposta a estes questionamentos relato aqui o depoimento da palestrante, voluntária no IPrA, Zélia Carmo.</p>
<p>Zélia ministra palestras de prevenção à AIDS em várias instituições. Afirma ser assustadora a desinformação quanto às doenças sexualmente transmissíveis (DST&#8217;s), à sexualidade e a falta de conhecimento da própria anatomia.</p>
<p>Ninguém está livre, nem por idade, há pessoas que pensam que &#8220;depois da menopausa não se pega AIDS&#8221;, afirma Zélia.</p>
<p>Quando ministra palestras nos colégios ela costuma dizer aos adolescentes &#8220;As mães e os pais de vocês também correm risco por desinformação&#8221; &#8211; quem garante que o um deles não pode cometer um &#8220;deslize&#8221; fora do casamento?</p>
<p>&#8220;Hoje, a realidade é que a maioria das meninas de quinze anos já não são mais virgens&#8221;, constata Zélia. Ela costuma aconselhar as meninas levarem sempre na bolsa uma camisinha feminina, porque se o parceiro, na hora do sexo, estiver desprevenido sem preservativo ou não quiser usar, a menina deve tomar iniciativa de usar. Em uma das palestras, uma das garotas perguntou como poderia urinar usando camisinha feminina.</p>
<p>Espantada com a dúvida, Zélia perguntou qual seria a dificuldade. A menina pensava que o preservativo iria &#8220;tampar&#8221; a passagem da urina&#8230; A palestrante teve que explicar que o orifício não era o mesmo! Pode se perceber o quanto as mulheres, ainda hoje, desconhecem o próprio corpo.</p>
<p>Outra adolescente perguntou se não havia perigo fazer sexo durante a o período menstrual. Ela achava que o sangue menstrual poderia &#8220;subir para a cabeça&#8221;.</p>
<p>Zélia também já ministrou palestras para militares, em quartéis. &#8220;Você pode imaginar aquele mundo de homens&#8230; A expressão que eles fazem quando escutam uma senhora de 70 anos falando em &#8220;pênis&#8221;, &#8220;vagina&#8221;, &#8220;relação sexual&#8221;? Digo a eles: &#8220;Eu sei que muitos de vocês não querem usar camisinha com a esposa mas, pelo menos, usem com as &#8220;de fora&#8221;! Provavelmente tenho menos experiência que vocês, não sou médica, mas com o tempo que tenho contato com soropositivos como voluntária do IPrA, já ouvi muitas vezes &#8220;não uso camisinha com a minha esposa porque ela pode achar que eu tenho outra&#8221;. No mundo de hoje quem pode garantir que o comportamento tanto do homem quanto da mulher&#8221;?</p>
<p>Em suas palestras, Zélia evita falar sobre detalhes biológicos, como o processo de infecção do vírus na célula. &#8220;Não é isso que interessa ou fará com que as pessoas se previnam. A mulher deve ir a cada seis meses fazer preventivo, ao perceber qualquer sinalzinho anormal procurar um ginecologista. As DST&#8217;s são as doenças mais fáceis de evitar: basta usar preservativos. Já um vírus de gripe ou outras infecções, não, você pode pegar muitas vezes até no ar&#8221;.</p>
<p>Ainda prevalece o conceito de que usar camisinha durante a relação sexual é &#8220;chupar bala com papel&#8221;. Ao que ela retruca: &#8220;Vocês tem que enriquecer o seu conceito de relação sexual. Uma relação sexual não é somente penetração pura e simplesmente. Tem que ter um envolvimento para que a relação seja mais rica, pra que não fique somente na penetração. O corpo da gente é enorme, você pode descobrir várias maneiras de dar e receber prazer no corpo do parceiro ou da parceira, tocando, acariciando, não fazer com que a penetração seja toda ela a relação&#8221;. E volta a afirmar &#8220;o corpo é tão maravilhoso, então pra que só enfatizar a penetração? Usar camisinha não é chupar bala com papel, a relação sexual é muito mais que a penetração&#8221;. Uma relação sexual é também ficar abraçado com o parceiro, beijar, dar prazer de tantas outras formas, é usar a criatividade. Para desanuviar, ela brinca: &#8220;Com tanta coisa para chupar sem papel, vocês vão reclamar do papelzinho na hora da penetração? Deixem o papel lá!&#8221;.</p>
<p>A promiscuidade não é ruim somente porque a pessoa vai &#8220;ficar falada&#8221;, é ruim porque faz com que a relação fique mecanizada. Uma relação sexual é algo que pode ser muito bonito, enriquecedor, algo que faça sentir moralmente e espiritualmente satisfeito.</p>
<p>Para as adolescentes, ela alerta: &#8220;Procurem se cuidar mais, valorizar mais uma relação. Temos uma apresentação com imagens de todas as DST&#8217;s. As imagens são das doenças em estágio já avançado e, por isso, bastante chocantes. Quando mostro nas palestras eu digo que é pra chocar mesmo, para que fiquem com medo e se lembrem de usar camisinha&#8221;.</p>
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